Salmo 4: a oração da noite e a paz que só Deus dá

Salmo 04 - Oração da Noite: A Paz que Só Deus Dá | JB Carvalho — thumbnail do vídeo

Responde-me quando clamo, ó Deus da minha justiça; na angústia me tens alargado; tem misericórdia de mim e ouve a minha oração.

Salmo 4.1 (ACF)

Existe uma diferença entre orar e apenas recitar palavras antes de dormir. O Salmo 4 é conhecido como o salmo vespertino, a oração da noite, enquanto o Salmo 3 é chamado de salmo matutino, a oração de quem acorda. Este salmo está intitulado ao músico-mor, com instrumentos de corda, um salmo de Davi. Portanto, é uma canção, uma música composta com intencionalidade. O título indica que ele foi dirigido a um líder de coros ou músicos da época de Davi, talvez o próprio Senhor, talvez alguém como Emã. O que importa é que essa canção foi deliberadamente escrita para ser acompanhada por instrumentos de cordas, pensada para durar, para ser repetida, para ser cantada por gerações que ainda não tinham nascido quando Davi a compôs.

Este é um salmo que fala de oração, de confiança, de descanso. Muitos autores o usam para ensinar sobre fé prática. Fé prática em tempos de pressão. Davi derramou sua queixa contra os inimigos caluniadores e encontrou paz e refúgio em Deus, confiança em Deus na angústia. É assim que o salmo começa.

A estrutura de uma noite bem resolvida com Deus

A estrutura do Salmo 4 tem três movimentos. Davi fala com Deus. Davi fala com os homens. Davi fala consigo mesmo. Primeiro ele derrama sua queixa diante do Céu. Depois ele confronta quem o persegue. Por fim ele senta diante do próprio coração e faz um acerto de contas interior antes de fechar os olhos. Não é uma oração de uma linha só. É uma jornada de três direções: para cima, para os lados, e para dentro.

O verso um traz a primeira direção. “Responde-me quando clamo, ó Deus, da minha justiça. Na angústia me tens alargado. Tem misericórdia de mim e ouve a minha oração.” Davi é um homem apaixonado. Você abre o livro dos Salmos e encontra um homem capaz de ser profundo naquilo que fala. Ele trata das próprias emoções diante de Deus como quem está diante de um médico, de um psicólogo, de um terapeuta que pode ajudá-lo. Davi é esse homem que se põe sobre o divã de Deus, abre o coração, fala de uma maneira catártica, e ao mesmo tempo é respondido. Ele é intenso. Sua oração não é água com açúcar. Não é uma oração superficial ou leve. Ele está ali rasgando a alma.

Havia paixão no clamor de Davi. E ele precisava da atenção de Deus de uma maneira dramática. “Responde-me quando clamo.” No hebraico original, a palavra usada não é apenas responder, mas dar uma atenção ativa. A palavra hebraica anene significa não apenas me ouça, mas me responda. Dê-me uma palavra. Faça uma intervenção perceptível. É um apelo por uma voz, por uma direção, por uma saída. Davi não pede só que Deus ouça em silêncio. Ele quer uma voz que fale no meio da noite, no meio da tempestade, das críticas, das calúnias e das mentiras que inventaram contra ele. É como se Davi dissesse: as vozes ao meu redor estão me perturbando, mas eu preciso da tua voz para quietar o meu coração.

Spurgeon diz que esse salmo é o grito do homem que não suporta o silêncio de Deus. É o salmo da alma que pede não apenas ouvido, mas respostas. Quantos aqui precisam de respostas? O Salmo 4 é uma oração que transforma o silêncio da noite na expectativa por uma voz. Você já fez essa jornada? Quando você vai dormir e fica na expectativa de uma voz, de uma direção, de uma palavra? Falta poder na oração de muitos, porque há pouca paixão. Deus quer que nos importemos profundamente com as coisas com as quais ele se importa profundamente. O profeta Isaías certa vez falou com tristeza que já não havia ninguém que invocasse o nome do Senhor, que se despertasse e o detivesse, porque Deus escondia o rosto e o povo se consumia por causa das próprias iniquidades. É a referência de Isaías 64. Isaías está dizendo: há pouca oração, há pouco clamor, há pouca intensidade. Davi, no entanto, é rasgado. Ele se expõe, se derrama, grita, chora, clama ao Deus da sua justiça.

Davi é o professor de oração. Esse homem sabe chegar ao trono da graça e lidar com seus conflitos, com suas contradições internas, com as emoções que o perturbam. Por vezes ele apenas disse: socorro, Deus. A maneira como ele se expressa é tão legítima, tão genuína, que ele foi apontado pelo próprio Deus como um homem segundo o coração de Deus. Porque ele não é dissimulado, não falsifica, não imposta a voz. Há orações que são mais performance do que expressão verdadeira do interior de alguém buscando por Deus.

O Deus da minha justiça

“Deus da minha justiça” não fala de um Deus que apenas julga de fora. Fala de um Deus que é a fonte e o defensor da justiça. Não apenas quem julga, mas quem também declara alguém justo. Deus não é apenas justo em si mesmo. Ele é a fonte e defensor da justiça do salmista. Jerônimo, o autor da Vulgata, chama a atenção para o fato de que o Deus da minha justiça não é justiça própria, mas a justiça que é recebida de Deus. Davi sabia que sua justiça vinha de Deus e não de si mesmo. Ele invoca o Deus que o justifica. A justificação já está presente aqui, no Antigo Testamento, muito antes de Paulo escrever aos Romanos.

Davi então lembra dos livramentos passados. Como disse Spurgeon, este é o início da súplica da meia-noite. A fé começa lembrando os livramentos de ontem para sustentar a esperança do hoje. Há uma inteligência dentro dessas orações. Não são orações fortuitas, são orações direcionadas, feitas com muita intencionalidade.

Do lugar estreito ao lugar largo

“Na angústia me tens alargado”, disse ele. Literalmente: quando estive no estreito, me puseste em um lugar largo. A imagem é de alguém em sufoco, pressionado, sem respiração e sem espaço. Davi está dizendo: você me aliviou um dia, você me deu socorro uma vez, e eu estou esperando que você faça o mesmo outra vez. Deus havia usado de misericórdia no passado, e ele acredita em ajuda futura com base naquilo que Deus já fez.

A palavra alívio literalmente significa: no estreito me puseste em espaço largo. Quantos querem um espaço largo? Quantos se sentem apertados às vezes e precisam que Deus amplie o caminho sob os próprios pés? A imagem do sufoco é substituída por um respiro, um alívio. Um rabino, um dos principais da tradição judaica, vê neste verso uma lembrança do êxodo. Israel clamou no Egito e Deus os tirou do estreito para o largo. O Egito é o lugar estreito, apertado, é a escravidão. Deus os arrancou do lugar estreito para um lugar amplo, um lugar vasto. Deus está tirando você do lugar apertado e estreito para um lugar amplo, para um lugar espaçoso, para um lugar onde você vai comer e regozijar-se na bondade de Deus que o tirou da terra da servidão e da escravidão com mão forte e braço estendido, para levá-lo à terra prometida que mana leite e mel. Deus tem uma promessa para cumprir sobre aqueles que acreditam e celebram o seu nome. E Davi aplica isso à própria vida.

“Tem misericórdia.” Ranenim é a expressão hebraica. Ele implora por graça, por favor imerecido. Ele está dizendo: eu quero ser tratado melhor do que eu mereço, e eu creio na tua bondade, que faz nascer o sol sobre bons e maus, faz chover sobre justos e pecadores.

Davi fala com os homens

Depois de falar com Deus, Davi se volta para os homens. “Ó homens, até quando tornareis a minha glória em vexame e amareis a vaidade e buscareis a mentira? Sabei, porém, que o Senhor distingue para si o piedoso. O Senhor me ouve quando eu clamo por ele.” Teve um caso recente de um influencer acusado de uma série de crimes contra crianças, e alguns fãs foram até o presídio prestigiar essa pessoa presa por um crime tão infame. Isso é o fundo do poço com alçapão ainda aberto para o mais fundo ainda. Estamos vivendo em uma sociedade de extremos, onde há quem celebre o abominável. A Bíblia diz que dar honra a um insensato é abominação a Deus.

“Ó homens” não se refere ao povo em geral, mas a gente influente e poderosa. Quanto mais você cresce, mais inimigos você vai atrair. Lembra do salmo anterior, o Salmo 3? Ele já dizia: como cresceram os meus inimigos, muitos são os meus adversários. Se você quiser crescer, se quiser algum tipo de desenvolvimento, se você se colocar na vitrine, se Deus fizer você prosperar em algum sentido, prepare-se, porque adversários vão sobrar. Inimigos gratuitos, na linguagem de Davi mesmo, gente que de graça vai odiar você.

Davi está lidando com opositores, e não são qualquer tipo de opositores, são gente poderosa. E por quanto tempo? É a pergunta de Davi. Por quanto tempo os ímpios continuarão o importunando? Até quando os inimigos vão caluniá-lo e mentir sobre ele? Qual o prazo de validade dessa gente que ama a vaidade e busca a mentira? O foco desse salmo não está na segurança física de Davi, como em outros salmos, mas na sua reputação, que está sendo atacada por homens ímpios que o caluniavam. Se isso aconteceu com você algum dia, se você viveu uma história semelhante à de Davi, você faz parte de uma galeria de gente muito ilustre.

A perseguição que também alcançou Jesus

Jesus disse que bem-aventurados somos quando nos perseguem e mentindo dizem todo o mal contra nós, e que devemos nos regozijar, porque grande é a nossa recompensa. Fizeram isso com os profetas, com Jeremias, com Isaías, com Zacarias. Fizeram isso com os apóstolos, com Paulo, com Pedro. Fizeram isso com Jesus. Um comentarista bíblico diz que é a reputação do salmista, e não a sua pessoa, que está sendo atacada. Jesus experimentou o que Davi experimentava. Homens ímpios tentaram transformar quase todas as coisas gloriosas do seu ministério em vergonha. Até depois da ressurreição, acredite, pagaram os soldados que fugiram quando houve o tremor, quando a pedra rolou, quando um anjo com um relâmpago no rosto apareceu. E eles não viram, porque senão não teriam se vendido tão barato assim. Mas foram pagos para dizer que o corpo de Jesus tinha sido roubado. A Bíblia diz, em Mateus 28, que até aqueles dias essa informação era dita como verdadeira. Era uma calúnia, uma mentira que tinha sido divulgada, e as pessoas foram levadas a acreditar em qualquer infâmia que fosse dita. A palavra usada para mentira, casave, é um engano deliberado, uma fraude.

Deus distingue os seus

Mas a resposta a isso está no próximo versículo. “Sabei, porém, que o Senhor distingue para si o piedoso. O Senhor me ouve quando eu clamo por ele.” Distinguir é separar, é pôr à parte, é tratar de maneira especial. Deus trata de maneira especial a gente que é dele. Como disse o profeta, naquele dia farei separação entre o justo e o injusto, entre aquele que me serve e aquele que não me serve. A palavra piedoso é aquele que vive em aliança com Deus, marcado pela graça e pela fidelidade. E o contraste é que enquanto os homens vexam, Deus distingue. Enquanto eles acusam, Deus ouve. Os homens maus transformam glória em vexame. Homens justos verão Deus transformar vexame em glória.

O mundo pode rir de você, mas Deus está distinguindo você. Paulo disse aos Colossenses que vocês morreram, e a vida de vocês está oculta, escondida, juntamente com Cristo em Deus. Nós temos nossas vidas escondidas nele, e ele ouvirá quando clamarmos por ele. É a referência de Colossenses 3.

Davi fala consigo mesmo

Agora Davi se acalma diante do Senhor. “Irai-vos e não pequeis. Consultai no travesseiro o coração e sossegai. Oferecei sacrifícios de justiça e confiai no Senhor.” No hebraico, ragaz significa tremer, agitar-se, estremecer, não só raiva, mas uma perturbação interior. A Bíblia diz que você pode sentir essa emoção. É humano ficar com raiva, é humano se irar. Existe até a ira justa, mas essa ira não pode nos levar ao pecado, ao erro. A impiedade estava cercando Davi, e ele tinha motivos para ficar irado, mas ele não deveria pecar.

A ira é um sentimento santo quando bem administrado. A ira santa é brio, é nobreza, é valor próprio, é autoestima. Mas a ira pode perder o controle e se tornar maligna, pode fazer você se tornar uma amalequita. Tem muita gente vivendo essa jornada. O ferrão de Amaleque é enfiado, você é ferido, machucado, e você tem todo o direito de protestar, de se irar, de se enraivecer. Mas isso tem limite, isso tem uma fronteira. Esse texto do Salmo 4 aparece no Novo Testamento, no livro de Efésios. “Irai-vos e não pequeis.” Você pode se irar, mas sem pecar. Não se ponha o sol sobre a vossa ira. Resolva a situação no seu coração. Nem deis lugar ao diabo.

Efésios 4 segue mostrando: aquele que furtava não furte mais, antes trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para que tenha como acudir o necessitado. Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, unicamente a que for boa e transmita graça aos que ouvem. E não entristeçais o Espírito de Deus, no qual fostes selados para o dia da redenção. Longe de vós toda amargura, cólera, ira, gritaria, blasfêmias, e bem assim toda a malícia. Veja o desenvolvimento: amargura, cólera, ira, gritaria, blasfêmia e malícia. A malícia é a maldade dos olhos de quem julga tudo a partir da frustração, da decepção, do ressentimento. Essa pessoa foi amalequizada, foi recrutada pelo mal, porque não lidou com a ferida interna, e isso inflamou e a consumiu. Antes sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus em Cristo vos perdoou. E é esse o antídoto: o perdão.

A ira piedosa tem uma razão, mas tem um limite. Já uma ira ímpia se transforma em gritaria, em barraco, em blasfêmia, em malícia.

O travesseiro como altar de exame

“Irai-vos e não pequeis. Consultai no travesseiro o coração e sossegai.” A aplicação disso é que a noite pode ser o momento em que a raiva e a ansiedade se amplificam. É o salmo da oração noturna, e ele trata desse momento em que você está pronto para descansar, mas o cérebro está acelerado, e o corpo, apesar de cansado, não consegue relaxar porque a mente não para. O salmo então nos ensina a transformar o travesseiro em um lugar de exame interior, de meditação, de reflexão. Consultai no travesseiro o coração e sossegai. É hora de descansar. A ideia é falar consigo no silêncio da noite e relaxar. A palavra é ficar calado em repouso.

O texto de Provérbios diz que o estulto precisa verbalizar a sua dor. O insensato precisa falar o tempo todo o quanto está ferido, o quanto foi machucado. E Hebreus diz que não haja em vós raiz de amargura que, brotando, vos perturbe e contamine a muitos. Tem gente que vive expressando o que deu errado. Sua decepção, sua frustração se tornam notícia, informação, algo que ela tem que dizer, falar, repetir. E o texto diz: consultai no travesseiro o coração, sossegai.

A ideia é falar consigo à noite, no silêncio, descansar, ficar calado em repouso. Agostinho interpretava “irai-vos” como uma santíssima indignação contra o erro, e “consultar no travesseiro” como um exame de consciência diário antes de dormir. Examinar-se, como disse Paulo no momento da ceia, examine-se o homem. Ou como ele disse aos coríntios, veja se você está na fé mesmo, se você acha que é um crente, mas às vezes você está desviado, e muitas vezes desviado dentro da própria igreja, tentando ainda desviar mais gente. Há quem ache que é cristão, mas é um agente de amargura dentro do ministério, prejudicando outras pessoas por conta de uma ferida, de uma dor não purgada que é transferida, e que quer chamar todo mundo para participar desse banquete de veneno.

João Crisóstomo dizia que esse versículo ensina a prática do autoexame noturno, uma disciplina espiritual de revisão do dia. E se você não faz isso, seu cérebro vai fazer, e o seu cérebro está fazendo enquanto você dorme e sonha com todas essas coisas mal resolvidas, e você acha que é uma revelação, quando é só a perturbação daquilo que ainda não foi digerido. O cérebro tem um sistema de digestão, assim como o intestino. E quando você não digere emocionalmente as coisas, elas aparecem na superfície como assombros, fantasmas, poltergeists, e vão assombrar você.

Calvino via aqui o chamado para transformar perturbações interiores em confiança em Deus. Spurgeon comentava que a cama é um bom lugar para orar e um bom lugar para se arrepender. Medite em seu coração, faça uma correção de rota, corrija a sua fúria.

Sacrifícios de justiça e confiança

“Oferecei sacrifícios de justiça e confiai.” Não basta reprimir a raiva ou calar a ansiedade. É preciso canalizá-las em adoração e confiança. É preciso transformar os elementos que você recebeu em outros elementos, fazer essa limpeza, essa purgação, uma espécie de coisa ecológica da alma, que pega o que está sujo e chega até o coração para fazer a transformação. O mal se transforma em bem num coração que está sendo curado. A crítica raivosa não recebe uma réplica raivosa do tipo: falaram mal de mim, eu estou falando mal dele. Aí você se igualou, ficou igual, você se amalequizou. É isso que o inimigo quer, recrutar você para ser igual a ele. E pessoas feridas se transformam no próprio inimigo. É isso que Amaleque faz.

Isso é o mesmo que confiar em Deus, que ele vai fazer justiça. Oferecer sacrifícios de ações de graças, sacrifícios de justiça, é acreditar que Deus vai resolver a situação. E depois de alinhado o coração na frequência do perdão e da certeza da justiça de Deus contra os que o caluniavam, a conta vai chegar. A conta sempre chega.

Quem nos dará a conhecer o bem

Davi recebe então a bênção de Deus. “Há muitos que dizem: quem nos dará a conhecer o bem? Senhor, levanta sobre nós a luz do teu rosto.” A primeira indagação é poderosa. Quem nos mostrará o bem? Isso é o ceticismo coletivo. Existe algum bem? Quem pode nos mostrar o que é bom? Isso é a natureza do espírito do tempo. A pós-modernidade é a era do cinismo. A primeira vez que essa palavra foi expressa, justamente na França, como sempre, em 1979, a pós-modernidade foi sinônimo dessa visão de desesperança, de desencanto com relação ao mundo e ao futuro. É essa era de cínicos que resolveram esperar menos da vida, simplesmente não criar expectativas, não sonhar, não imaginar, não investir, não acreditar. E aí vem a expressão: muitos dizem, quem nos mostrará o bem? Já havia gente pós-moderna naquela época. É a voz da cultura da incredulidade, da desesperança, do desencanto.

A resposta, ou o pedido de resposta, vem assim: Senhor, levanta sobre nós a luz do teu rosto. Põe o teu rosto, a luz do teu rosto, em mim. As pessoas ao me verem vão ver que é algo diferente. Eu não cedi ao espírito do tempo, eu não fui absorvido ou cooptado pelo mal, eu sou a contracultura, vivendo a realidade do céu com a luz de Deus, a esperança de Deus, a fé de Deus, o poder do Espírito Santo em mim, sendo contra tudo e contra todos que se opõem àquilo que Deus quer fazer no mundo.

Luz do rosto é símbolo de presença, favor, orientação e graça. Quando muitos não têm rumo, quando muitos não têm destino, quando muitos estão perdidos, existe direção de Deus para quem clama. Em meio a tantas vozes de crise, de notícias, de redes sociais, de opiniões, assistir aos noticiários hoje é quase um ato perigoso. O Salmo 4 ensina a calar tudo e buscar a voz de Deus que dá descanso à alma. Agostinho diz que o coração não descansa até ouvir a voz de Deus. Calvino diz que a fé não se alimenta do eco das próprias dúvidas, mas da resposta de Deus que fala justiça.

A oração prática é pedir que a luz do rosto de Deus brilhe sobre nós. É a promessa de bênção do sacerdócio aarônico, de Números 6: o Senhor te abençoe e te guarde, o Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti e tenha misericórdia de ti, o Senhor sobre ti levante o seu rosto. Que expressão poderosa. O Senhor sobre ti levante o seu rosto. Você está vendo alguém e está vendo o rosto de Deus? A expressão da coragem no meio do medo, a expressão da fé no meio da dúvida, a expressão da prosperidade no meio da miséria, a expressão de Deus rugindo como leão no meio dos lobos.

Uma alegria que não depende de circunstâncias

“Mais alegria me puseste no coração do que a alegria deles, quando lhes há fartura de cereal e de vinho.” A palavra usada, xiná, é alegria celebrativa. É alegria que não se contém. Não é aquela alegria do riso pálido, é aquela alegria de euforia. Quando o seu time está ganhando a final de uma Copa do Mundo, quando você sabe que está vencendo, quando você não consegue se conter, quando recebe uma notícia poderosa. Essa alegria indizível é quando você fica antecipando até as boas novas que vão chegar. Como disse o próprio salmista em outro lugar, onde está o povo que conhece os vivas de júbilo? Tem cristãos que esqueceram de combinar com o rosto e com o corpo alegria. Alegrai-vos, disse Paulo. Isso não é uma emoção, isso é uma atitude.

Alegria aqui é dada por Deus. Puseste no meu coração. Foi Deus que colocou. Não é algo que o esforço humano alcança, não é uma conquista. O verbo natá significa depositar. É algo plantado dentro, que não depende de fatores externos, não depende se está tudo bem, não depende se deu certo. Simplesmente é algo que Deus colocou dentro. Puseste indica iniciativa divina. A verdadeira alegria é um dom, não é produto humano.

Quem são eles, no contraste do salmo? São aqueles que ainda estão atrás de uma voz, os que dizem quem nos dará a conhecer o bem, os que tornam a glória em vexame e amam a vaidade e buscam a mentira. Spurgeon diz que a alegria do mundo é como espuma no copo, e a alegria do Senhor é vinho novo no coração. Matthew Henry diz que o coração que goza da luz do rosto de Deus é mais feliz do que todos os celeiros cheios. Embora Davi estivesse angustiado, atormentado por homens ímpios, ele ainda podia se alegrar em seu coração, porque o Senhor colocara alegria dentro dele. Os ímpios podem ser felizes quando o dinheiro chega, quando tudo prospera. Mas Davi podia ser feliz mesmo em tempos difíceis, de calúnias, de inimigos hostis, porque o Senhor colocara alegria dentro do seu coração.

Em paz me deito

“Em paz me deito e logo pego no sono, porque só tu, Senhor, me fazes repousar seguro.” Que expressão radical para essa era de ansiolíticos, antidepressivos e remédios para dormir. Muitos hoje não dormem por conta da ansiedade. Dados consistentes de pesquisas recentes sobre o uso de medicamentos para dormir mostram que a OMS estima que trinta por cento da população mundial apresenta algum tipo de insônia. O uso de benzodiazepínicos, remédios para induzir o sono, tem crescido de forma preocupante. Pesquisas de 2022 indicam que o Brasil está entre os países que mais consomem ansiolíticos e hipnóticos no mundo. Segundo dados da Associação Brasileira do Sono, cerca de 73 milhões de brasileiros sofrem com insônia em algum nível, e uma parte significativa está recorrendo à medicação. Esses números mostram que milhões vão para a cama sem paz interior e tentam compensar isso com remédios.

O Salmo 4, no verso 8, contrasta fortemente esse quadro dizendo: em paz me deito e logo durmo, porque o Senhor me faz repousar seguro. E não é apenas paz a palavra usada aqui, shalom, mas completude, segurança, integridade. Os antigos puritanos sempre usaram esse texto como a oração da noite. Eles recitavam isso antes de dormir. Era o hábito de encerrar o dia com confissão, gratidão e confiança. Moody citava o verso oito em seus apelos evangelísticos, mostrando que a paz para dormir vem de uma consciência limpa, lavada pelo sangue do Cordeiro. Matthew Henry chama esse salmo de a oração vespertina de um santo. Ele diz que a oração antes de dormir é uma disciplina que encerra o dia no altar de Deus e abre a noite com confiança. João Wesley lia esse salmo como a expressão da santidade prática. Para ele, deitar-se em paz era sinal de coração livre de ansiedade e plena confiança em Deus.

A ansiedade é uma falta de confiança. Confiar é deitar e saber que o mundo não vai se espatifar porque você está descansando. Você precisa de fé para descansar. Na verdade, na Bíblia, descansar é um grande ato de fé. Tirar férias é um ato de fé. Davi dormia bem à noite, mesmo cercado pelos ímpios. E o que não falta é ímpio hoje. Sua segurança vinha do Senhor, não das circunstâncias ou dos seus sentimentos. Imagine um homem deitado para dormir, atormentado por inimigos e falsos amigos que falam contra ele. Davi poderia ser esse homem, mas em vez disso ele confiou em Deus. Por que valorizar tanto o que eles dizem? Ele tinha uma alegria que o mundo não poderia tirar, mesmo com todas as calúnias e mentiras inventadas contra ele.

Em seus provérbios do Almanaque do Pobre Ricardo, Benjamin Franklin deu um bom conselho: já que não posso governar minha própria língua, mesmo com minhas próprias forças, como posso esperar governar a língua dos outros?

Repousar seguro na solidão com Deus

“Pois só tu me fazes habitar em segurança.” Repousar seguro é literalmente em solidão e em segurança. A ideia é que, mesmo sozinho, cercado por perigos, Deus é guarda suficiente. Davi encontrava segurança em sua solidão com Deus. Mas tem gente que não consegue ficar sozinha porque não tolera a si mesma. E tem gente que está sozinha mesmo no meio de uma multidão, porque a intimidade é a verdadeira relação com os outros, e solidão é ausência de intimidade. Tem pessoas com muitos amigos no Instagram, nas redes sociais, e muitos relacionamentos extremamente superficiais, que não são profundos, viscerais. Davi encontrava segurança. A palavra seguro fala de alguém que adormece. Esta é uma concepção gloriosa do sono. O justo tem um travesseiro mais macio que o dos reis, porque a sua confiança está em Deus.

Spurgeon chama esse verso de o versículo do travesseiro, ideal para ser recitado antes de dormir, como a oração vespertina. Os puritanos tinham o hábito de terminar os cultos domésticos noturnos lendo esse versículo, chamando-o de o selo da paz do lar. O descanso, então, é um ato de fé. Dormir é admitir que você não é Deus, que o mundo não depende de você, e que ele vai governar enquanto você dorme. Como diz o Salmo 127, aos seus amados ele dá enquanto dormem. Ele trabalha por você enquanto você descansa.

Aplicações pastorais do Salmo 4

A primeira aplicação é a oração noturna. Precisamos ensinar a igreja a encerrar o dia em confiança, entregando as batalhas para Deus. Dentre os executivos há um ditado: apague as luzes ao sair. Eles estão dizendo que luzes e pessoas têm maior durabilidade quando são apagadas. Apague as luzes ao sair da empresa, deixe os problemas lá. Não leve para casa os conflitos, as batalhas. Há algum tempo, a decisão de não levar mais problemas para dentro de casa foi tomada aqui, junto com a esposa. Se um problema precisa ser resolvido, resolve-se fora, porque a casa é o lugar de descansar e se divertir.

A segunda aplicação é a paz que excede o vinho e o trigo. A verdadeira alegria não está na abundância material, mas na presença do Senhor. Quando Deus é tudo, temos tudo o que precisamos. Mas sem Deus, o tudo é nada.

A terceira aplicação é a identidade no meio da crise. Davi lembra que Deus o escolheu e o distinguiu. Distinguir aqui significa separar, o nazireu, o separado. Por que você não faz determinadas coisas? Porque é separado. Por que não fala certas palavras? Porque é separado. Por que não comunga intimidade com determinadas pessoas? Porque é separado. Por que não vai a certos lugares? Porque é separado, distinguido. Saber quem você é resolve boa parte das batalhas antes mesmo de elas começarem.

A quarta aplicação é a disciplina espiritual. Parar para refletir em silêncio diante de Deus é um antídoto contra a ansiedade. A ansiedade é ficar mastigando o que pode dar errado, um problema, uma crise, mil projeções do que pode acontecer de ruim. Isso torna a pessoa ansiosa. A fé é mastigar uma promessa. É meditar no que Deus disse, é dizer: ele falou. Passarão céus e terra, mas a sua palavra jamais passará. Ele prometeu, e há confiança nisso, porque ele é galardoador daqueles que têm fé e acreditam nele. Quem acredita faz um depósito em alguém que não pode mentir. Abraão creu, e isso lhe foi imputado por justiça. A fé é um depósito. É possível ter confiado na pessoa errada e ter dado errado, mas ao confiar em Deus nunca vai dar errado. Pode até parecer que deu, mas só pareceu.

A quinta e última aplicação é o descanso como fé prática. É no descanso e na confiança que está a força, como diz Isaías. Há força quando se está descansado. Quando se vive estressado, perde-se a inspiração, os problemas se agigantam, pequenas coisas se tornam montanhas, e a pessoa fica ofensiva ou ofendida com qualquer coisa. O cansaço é um grande inimigo, e descansar é um ato de fé, uma fé prática. Dormir é confiar que Deus trabalha enquanto descansamos. Confio em ti, espero em ti, e não será envergonhado nem confundido todo aquele que em ti confia.

Tem gente afetada pelas palavras, pelas mentiras. Tem gente afetada pela política, pelos jornais, por tantas vozes. Até quando, ó filhos dos homens, transformareis a minha glória em vexame? Dormir, descansar e saber que Deus vai controlar isso, e que no tempo certo ele vai dar as respostas que precisam ser dadas, é o convite deste salmo. A resposta está no caminho.

Uma palavra para fechar a noite

O Salmo 4 não promete que a calúnia vai parar amanhã, nem que os inimigos vão desaparecer da noite para o dia. Ele promete algo mais raro: que é possível dormir em paz mesmo com adversários à porta, porque a segurança não vem das circunstâncias, vem de quem sustenta o coração. Davi ensina que a noite pode ser lugar de exame, de entrega e de descanso genuíno, não de tormento. E essa é uma palavra que atravessa os séculos e chega até quem lê isso agora, ansioso, cansado, precisando ouvir uma voz no meio do silêncio.

Para acompanhar essa ministração completa, com a leitura integral do salmo e a aplicação passo a passo de cada verso, vale a pena assistir ao vídeo completo e ouvir esse episódio no podcast pessoal de Bispo JB Carvalho.