O Cântico de Moisés e o Cântico do Cordeiro: do Mar Vermelho ao Mar de Cristal e Fogo

O Cântico de Moisés e o Cântico do Cordeiro - Do Mar Vermelho ao Mar de Cristal e Fogo | JB Carvalho — thumbnail do vídeo

Vi no céu outro sinal grande e admirável: sete anjos, tendo os sete últimos flagelos, pois com esses se consumou a cólera de Deus. Vi também como que um mar de vidro mesclado de fogo, e os vencedores da besta, da sua imagem e do número do seu nome, que se achavam em pé no mar de vidro, tendo harpas de Deus. E entoavam o cântico de Moisés, servo de Deus, e o cântico do Cordeiro, dizendo: Grandes e admiráveis são as tuas obras, Senhor Deus Todo-Poderoso; justos e verdadeiros são os teus caminhos, ó Rei das nações. Quem não temerá e não glorificará o teu nome, ó Senhor? Pois só tu és santo. Por isso, todas as nações virão e adorarão diante de ti, porque os teus atos de justiça se fizeram manifestos.

Apocalipse 15.1-4

Nós temos aqui dois cânticos que, na verdade, são um só. O cântico de Moisés se encontra inicialmente em Êxodo capítulo 15. Depois da travessia do Mar Vermelho, Israel celebra a vitória de Deus sobre o Egito. Esse é o primeiro grande cântico de libertação que aparece nas Escrituras. O tema de Moisés é que Deus, como guerreiro, derrota os opressores e salva o seu povo. O cântico de Moisés é símbolo de libertação, de fidelidade e de juízo, o julgamento de Deus sobre aquilo que escraviza.

Em Apocalipse 15, no texto que lemos, esse cântico não é mais apenas para Israel. É o cântico da igreja redimida de todas as nações. Cristo, o Cordeiro, venceu o pecado, a morte e os reinos do mundo. Ele fez a sua travessia, como os evangelhos descrevem. Em Lucas, o próprio texto usa a palavra êxodo para descrever a morte de Jesus, como o cumprimento daquilo que aconteceu para os judeus e que agora acontece para todos os que são libertos do império das trevas para o Reino do Filho do amor de Deus.

O êxodo maior: da sombra ao cumprimento em Cristo

Eis que dois varões falavam com ele, Moisés e Elias, os quais apareceram em glória, e falavam da sua partida, que ele estava para cumprir em Jerusalém.

Lucas 9.30-31

Jesus também fez o seu êxodo. Como disse N. T. Wright, a última ceia é a refeição de Páscoa que antecipa e dá significado ao grande ato de libertação que estava por vir. Em Cristo, todos estão fazendo a travessia. Jesus morre no lugar do pecador. Sua grande ação de Páscoa faz um caminho através do mar vermelho do pecado e da morte.

O cântico do Cordeiro, portanto, é o cântico da nova criação, celebrando a obra que foi consumada na cruz. Se no Êxodo todo o Israel foi liberto do cativeiro do Egito, no Calvário toda a humanidade é chamada para ser liberta do cativeiro de Satanás. Os dois cânticos se unem para mostrar que a história da salvação é uma só. O êxodo do Egito era a sombra do êxodo maior, a libertação da humanidade pelo sangue do Cordeiro.

O cântico do Cordeiro é a plenitude da redenção de Cristo, celebrando não apenas a libertação de um povo terreno, mas a vitória final de Cristo sobre todas as nações e todos os poderes. Passado e futuro se encontram em um só hino de adoração. Esse cântico mostra que toda a história converge em Cristo. Ela não é utópica, não é distópica. Ela é cristópica. O que começou no êxodo físico com Moisés se cumpre no êxodo espiritual e eterno. A história dos hebreus era apenas uma sombra de uma realidade futura que não implicava apenas um povo, mas todos os povos, línguas, tribos e nações.

Os pais da igreja e os reformadores diante dos dois cânticos

Agostinho de Hipona, o grande mestre da igreja, via o cântico de Moisés como a vitória da lei sobre a escravidão, e o cântico do Cordeiro como a vitória da graça sobre o pecado. João Crisóstomo, um dos pais da igreja, destacava que ambos os cânticos celebravam não o poder humano, mas o braço do Senhor que age na história. E sim, o braço de Deus ainda age na história. Está agindo na história em todos os séculos, em todas as gerações, e vai agir presentemente em nossa nação, em nosso tempo.

Matthew Henry, o famoso linguista, interpreta o cântico de Apocalipse 15 como a consumação de todas as libertações prefiguradas no Antigo Testamento. É o ápice, é o clímax da história. João Calvino, o reformador, ressalta a universalidade do cântico no Apocalipse em contraste com o cântico de Moisés, que era nacional, enquanto o cântico do Cordeiro é para todas as nações.

O cântico de Moisés mostra que Deus liberta o seu povo de inimigos visíveis, enquanto o cântico do Cordeiro mostra que Cristo liberta o seu povo de um inimigo invisível, despojando os principados e as potestades, expondo-os ao desprezo e à ignomínia. Um aponta para o início da história da redenção. O outro, para a consumação, o ato final da redenção do mundo.

Apocalipse 15 no seu contexto: a adoração que antecede a vitória

Apocalipse 15 é um capítulo de transição no livro. O livro de Apocalipse não é simplesmente sobre o mal, as trevas ou o medo. Pelo contrário, é sobre a vitória, a consumação final, a esperança, o triunfo de Deus na história e sobre a história do seu povo. O capítulo 15 antecede o último ciclo de juízos, as chamadas sete taças da ira. Antes disso, tivemos as sete trombetas. E antes das trombetas, em Apocalipse 12, 13 e 14, a batalha cósmica contra o dragão, a besta, o falso profeta, e a perseverança dos santos que vencem.

O que é decisivo é que o cântico de Moisés e do Cordeiro, no capítulo 15, mostra os vencedores celebrando antes que a vitória final aconteça. Eu quero desafiar você a fazer isso também. Eles celebram antes da vitória visível. O juízo pleno de Deus sobre os reinos da besta e sobre as nações ainda está por acontecer, mas já é chamado à existência por uma canção de vitória. Assim como Habacuque, o profeta, canta mesmo antes que a vitória visível apareça. A adoração não é fuga. É um ato de guerra.

O louvor e a adoração calam, silenciam o adversário, como diz também o Salmo 149, para prender os seus reis em cadeias, os seus principados em grilhões. Nós louvamos em meio à batalha, como aconteceu com Josafá, que colocou o ministério de louvor à frente do exército, ou com Gideão, que tocou trombetas e viu os inimigos se destruírem uns aos outros. A história não termina com dragões e bestas, mas com o Cordeiro entronizado. Foi do agrado do Pai, disse Jesus, não temais, pequeno rebanho, dar a vocês o Reino. O Reino não pertence aos monstros, às bestas, aos leviatãs, aos dragões. O Reino pertence ao pequeno rebanho, ao Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.

O cântico se torna universal. Todas as nações virão e adorarão diante de ti, diz o texto. Deus é soberano sobre a história. Seus juízos são justos e verdadeiros. O mal tem prazo de validade. O mal não é sólido. O mal não tem como permanecer. Ele tem um prazo para vencer aqui no Brasil e nas nações. A besta não é eterna. O dragão não tem a última palavra. A adoração precede a vitória final. O povo canta antes de ver tudo consumado. É uma adoração em meio à guerra. Adoração é uma arma de guerra. O livro de Apocalipse é todo assim: você vê o povo adorando e a mão de Deus agindo. O povo celebra e o julgamento de Deus acontece.

O mar de cristal e fogo: a nova travessia

Se em Êxodo temos o Mar Vermelho, em Apocalipse temos o mar de cristal e de fogo. Em ambos os casos, o cântico da vitória. No Mar Vermelho, a libertação é da escravidão egípcia. No mar de cristal, a libertação definitiva do poder da besta. O contraste é intencional. Ambos representam o povo de Deus cantando a vitória depois de atravessar as águas ameaçadoras.

A estrutura da canção tem declarações precisas, quase encadeadas como degraus. Primeiro, os atributos de Deus. Depois, a natureza dos seus caminhos. Depois, o alcance do seu reino. Depois, a exclusividade da sua santidade. E, por fim, a universalidade da adoração que virá. Cada uma dessas frases merece ser desdobrada, porque cada palavra ali carrega peso teológico que não pode ser lido de passagem.

Grandes e admiráveis são as tuas obras

No grego, temos aqui as palavras megala, thaumasia e erga. Megala, de mega, quer dizer grandes, poderosas, imponentes. Thaumasia significa maravilhosas, aquilo que desperta admiração, espanto, assombro. As obras de Deus despertam assombro. Erga são obras, são feitos, são atos. Carregam a conotação de algo que causa espanto, maravilha e reverência.

Isso lembra as obras de Deus no Êxodo, os milagres e os juízos no Egito que espantaram, que foram julgamentos contra os deuses egípcios. Cada praga era um chicote de Deus. As pragas no Egito, assim como as sete trombetas e as sete taças da ira, são julgamentos contra os poderes do mal. Eram deuses que estavam sendo julgados no Egito. O texto da Páscoa diz que naquela noite Deus julgou todos os deuses do panteão egípcio. Numa única noite, todos eles caíram. O deus que representava o Nilo, os piolhos, as pragas. O deus Amom, o deus Sol, que era o principal deus do Egito, simplesmente três dias sem luz, sem sol. E os egípcios ficavam se perguntando onde estava o seu deus. Era uma humilhação completa. Deus estava acabando com a reputação de todos os deuses. E ele está fazendo isso agora no Brasil. Ele está fazendo isso agora na sua linhagem familiar. Ele está se erguendo como o único e verdadeiro Senhor Deus Todo-Poderoso.

Pantocrator: o Senhor que tem todo o poder nas mãos

Diz o texto: Senhor Deus Todo-Poderoso, que no grego é pantocrator, literalmente aquele que tem todo o poder nas mãos. Pan significa tudo, totalidade. Cratos significa força, poder, domínio, governo absoluto. Juntas, as palavras formam pantocrator, aquele que governa todas as coisas com força absoluta. Força absoluta. Ninguém pode lhe resistir. Se ele age, quem impedirá? E se ele é por nós, quem será contra nós?

Pantocrator é um título exclusivo de Deus no Novo Testamento, usado dez vezes, sendo nove delas só no livro de Apocalipse, e uma vez em Primeira Coríntios 6. Na Septuaginta, pantocrator traduz o hebraico Yahweh Sabaot, o Senhor dos Exércitos. Pantocrator é a versão grega para a visão veterotestamentária de Deus como o Senhor invencível das hostes celestiais e da história.

Bem-aventurado é o homem a quem Deus corrige, diz Jó. Não desprezes, pois, a disciplina do Todo-Poderoso. O dia do Senhor está perto, diz Isaías, vem do Todo-Poderoso como destruição. No Novo Testamento, em Segunda Coríntios 6, o Senhor diz: eu serei vosso Pai e vós sereis para mim filhos e filhas, diz o Todo-Poderoso. Em Apocalipse 1.8, eu sou o Alfa e o Ômega, diz o Senhor Deus, aquele que é, que era e que há de vir, o Todo-Poderoso. Em Apocalipse 4.8, os seres viventes proclamam santo, santo, santo é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso. Em Apocalipse 19, aleluia, pois reina o Senhor nosso Deus, o Todo-Poderoso.

No Apocalipse, o Todo-Poderoso ressalta que, apesar do caos, Deus reina soberano sobre reis, sobre bestas e sobre nações. Charles Spurgeon, o príncipe dos pregadores, dizia que não é apenas poderoso o nosso Deus, mas todo-poderoso. Não é apenas soberano em partes, mas governa todos os aspectos da vida e da eternidade. Agostinho dizia que o título de paternidade universal de Deus, pantocrator, quer dizer que Deus está sobre todas as coisas visíveis e invisíveis. E Calvino destacou que a mão que governa tudo é a mão do Pai.

Na tradição cristã oriental, especialmente bizantina e da igreja ortodoxa, Cristo Pantocrator aparece inclusive no alto das igrejas, representado como o Senhor entronizado, geralmente com a mão direita levantada em gesto de bênção, com a mão esquerda segurando o evangelho, símbolo da sua palavra e da sua autoridade. O rosto é austero e ao mesmo tempo compassivo, enfatizando justiça e misericórdia. Muitas vezes o fundo é dourado, símbolo da eternidade, com a inscrição grega que traz o nome divino revelado em Êxodo capítulo 3: Eu Sou.

Grandes e admiráveis são as tuas obras significa, então, que Deus é criador e redentor. Suas obras são grandes, poderosas, imensas e maravilhosas, dignas de assombro.

Justos e verdadeiros são os teus caminhos

A palavra caminho significa trilha, e mais do que uma estrada, é um modo de agir, um percurso. Caminhos não são apenas eventos isolados, mas o curso inteiro da história redentora. É o algoritmo da história. A história parece caótica, mas os caminhos do Senhor são conduzidos com justiça e verdade até o fim. Seus caminhos são justos, são retos, são coerentes. São verdadeiros, genuínos, não são enganosos nem contraditórios. São verdadeiros porque Deus é fiel à sua palavra, às suas promessas e aos seus decretos. Deus não pode mentir.

Os percursos de Deus, suas maneiras de agir e governar, são sempre moralmente justos e absolutamente verdadeiras. O caminho de Deus é perfeito, diz o Salmo 18. Todos os caminhos do Senhor são misericórdia e verdade, diz o Salmo 25. Os caminhos de Deus são estradas de justiça pavimentadas pela verdade, onde não há sombra de engano. Quem anda neles anda em segurança eterna. Não é escorregadio. Deus é coerente consigo mesmo.

Os teus caminhos não é apenas uma estrada física, mas uma conduta. Deus tem um processo. Aparte-se do mal todo aquele que invoca o nome do Senhor. Deus é justo e não se envolve em mentiras. Em Deuteronômio 32 diz que ele é a Rocha, suas obras são perfeitas, porque todos os seus caminhos são justos. Deus é fiel, não pratica o mal. Justos e retos são os seus caminhos. Em Salmos 145, justo é o Senhor em todos os seus caminhos e santo em todas as suas obras. No Salmo 25, todos os caminhos do Senhor são misericórdia e verdade. O Deus que julgou o Faraó e sustentou Israel é o mesmo que conduz os eventos finais da história. Seus juízos são impecavelmente justos.

Agostinho via nessa frase um antídoto contra a murmuração. Quando não entendemos os caminhos de Deus, lembramos que eles são justos e verdadeiros. Você não pode entender algumas coisas, mas, como diz Hebreus, seja Deus verdadeiro e todo homem mentiroso. Portanto, se você não entende agora, você entenderá. Se você perseverar, Deus vai te honrar. Spurgeon observava que o cântico não celebra apenas os atos de Deus, mas também os seus caminhos. O seu modo, o seu método de agir, é tão digno de adoração quanto os resultados finais. Os rabinos afirmavam que até aquilo que parece duro é justiça perfeita, porque Deus vê o todo enquanto nós vemos apenas uma parte. Mesmo em meio a juízos e perseguições, os santos proclamam: os caminhos de Deus são justos.

Aquela igreja estava sendo perseguida. O livro de Apocalipse foi escrito para dizer que a vitória final é do Cordeiro e não de César, não dos perseguidores, não do império romano. O império romano derreteu, durou cerca de quinhentos anos, mas veio ao fim. Assim como todos os poderes que se levantaram contra o Senhor estão, na história, se desintegrando, desaparecendo, se tornando simplesmente objeto de observação arqueológica. E se você duvida, espere mais um pouco, porque muitos outros inimigos da verdade e da justiça estão para cair nesta nação e nas nações da terra.

O governo de Deus é justo na história, e as bestas são o contraponto do seu domínio. Lemos que a besta saiu do mar e a besta saiu da terra, e algumas pessoas ficam imaginando muitas coisas erradas com relação a isso. Bestas são sistemas de governo. Em Daniel 7 aparece a besta do império babilônico, a besta do império medo-persa, a besta do império grego e a besta do império romano. O Apocalipse não é um livro sobre teoria da conspiração, não é um livro sobre medo. É um livro sobre esperança. N. T. Wright, certamente o maior teólogo vivo hoje, escreveu um livro incrível sobre isso, chamado Surpreendido pela Esperança, que todos deveriam ler. Porque quando falamos do evangelho, estamos falando da vitória final de Jesus sobre todos os seus inimigos.

O Egito era uma besta, e todos os outros governos que representam antagonismo contra o Reino de Deus na história são bestas, são monstros, são sistemas injustos. E a proposta de Deus é o Reino de Deus. Não existem dois mundos, um material e um espiritual, como alguns preconizam. Existem dois reinos lutando pelas almas humanas e pelo planeta Terra. Agostinho escreveu sobre isso em A Cidade de Deus. Deus fez para si uma cidade e chamou Jerusalém. Um homem fez para si uma cidade e chamou Babilônia. A cidade de Deus caminha com segurança porque o seu governante é justo e verdadeiro, ainda que a cidade dos homens se confunda em suas próprias paixões.

Existe gente brava, nervosa, irada, porque a injustiça acontece no mundo. Mas para Deus assumir completamente o controle deste mundo e não permitir que injustiças aconteçam, ele teria que impedir você de fazer escolhas. Ele teria que robotizar todo mundo. São os homens que fazem o mal. São os homens que praticam o mal. E para impedir que o mal acontecesse, Deus deveria interferir na capacidade do homem de escolher. A culpa das coisas ruins que acontecem no planeta não tem nada a ver com Deus. Tem a ver com as bestas, com os monstros, e tem a ver com os homens que amaram o que é mal.

O Salmo 46 revela esses dois mundos que convivem paralelamente:

Portanto, não temeremos, ainda que a terra se transtorne e os montes se abalem no seio dos mares; ainda que as águas tumultuem e espumejem, e na sua fúria os montes se estremeçam. Há um rio cujas correntes alegram a cidade de Deus, o santuário das moradas do Altíssimo. Deus está no meio dela; ela jamais será abalada; e Deus a ajudará já ao romper da manhã.

Salmo 46.2-5

O sol vai nascer, a noite vai passar, e o dia se aproxima. Essa madrugada afirma que essa realidade está invadindo o nosso planeta. Quando João, em cima da montanha, viu, como Moisés viu, a Nova Jerusalém descendo do céu. O caminho não é uma fuga deste planeta, mas a chegada do Reino de Deus, poderosamente, para trazer misericórdia aos justos e julgamento aos perversos. João Calvino enfatiza que os caminhos de Deus se manifestam em dois polos: misericórdia para os justos, juízo para os ímpios, ambos igualmente verdadeiros. Os rabinos afirmavam que o Senhor é justo em todos os seus caminhos, porque julga cada nação segundo sua própria medida, e nunca de forma injusta. Justiça e juízo são o fundamento do seu trono. Graça e verdade o precedem. É por isso que ele é rei para sempre, porque nele não há injustiça. Você sabe por que os tronos caem, por que os reis mudam? Porque a injustiça não estabelece tronos. O Reino de Deus é justiça e juízo, e por isso ele reina eternamente.

Rei das nações: um reino sem fronteiras

Segue o texto: ó Rei das nações. No grego, basileus ton ethnon. Basileus é reino, ou soberano absoluto, aquele que detém a autoridade suprema. Ethnon são povos, nações, geralmente usado para designar os gentios, os povos não judeus. Cristo não é apenas rei de uma etnia, rei dos judeus. Ele é o rei universal de todos os povos.

Como diz Jeremias 10.7, quem te não temerá a ti, ó Rei das nações? Por isso é a ti devido, porquanto entre todos os sábios das nações, e em todo o seu reino, ninguém há semelhante a ti. Deus é o rei de toda a terra. Salmodiai com harmonioso cântico. Deus reina sobre as nações. Deus se assenta no seu santo trono. Isaías diz que Deus conhece as obras e os pensamentos dos homens e vem para juntar todas as nações e línguas, e elas virão e contemplarão a sua glória.

Deus não desistiu das nações. O evangelho é para as nações. Jesus nos enviou para discipular as nações. Enquanto muitos crentes querem apenas o céu, a paixão e a obsessão de Deus são as nações. Pede-me, e te darei as nações por herança, e as extremidades da terra por tua possessão, diz o Salmo 2. Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura, fazei discípulos de todas as nações, ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho ordenado, diz Mateus 28.

Só o teu nome é santo: a santidade como identidade

A frase seguinte é: só tu és santo. No grego, monos, único, exclusivo, sem igual, e hagios, santo, puro, consagrado, piedoso. Diferente de hieros, que enfatiza apenas a separação, hagios carrega a ideia de santidade ética e devocional, de conformidade com a plena justiça divina. Ou seja, tu és o único cuja santidade é verdadeira, incontaminada e absoluta.

Ó Senhor, quem é como tu entre os deuses? Quem é como tu, glorificado em santidade, terrível em feitos gloriosos, que opera maravilhas? Não há santo como o Senhor, porque não há outro além de ti, e rocha nenhuma há como o nosso Deus. Louvem o teu grande e tremendo nome, pois é santo, diz o Salmo 99. A ideia é que a santidade de Deus não apenas o distingue dos ídolos, mas o coloca em uma categoria absoluta, única. Irineu de Lyon ressaltava que a santidade de Deus é incomunicável. Ele pode santificar, mas ninguém pode se igualar a ele na sua santidade.

Uma das coisas mais poderosas na vida devocional é quando a santidade de Deus se manifesta. Quando ela aparece, você se percebe, você se conhece, você se discerne, e tudo aquilo que está errado em você se avulta. A pureza de Deus mostra o quanto você ainda está distante do padrão. Muitas vezes, no tempo de oração, quando Deus se revela nesse momento de encontro, acontece como com Isaías. Ele passa os capítulos 1, 2, 3, 4 e 5 criticando, ai, ai, ai das nações, ai de fulano. No capítulo 6, quando ele tem seu encontro com Deus, ele diz: ai de mim, que sou um homem impuro e que habito no meio de um povo de impuros lábios. Muitas pessoas acusam os outros até que vejam em si mesmas o quanto estão distantes do padrão que Deus estipula. A santidade de Deus revela as nossas imperfeições.

Atanásio dizia que somente o Cordeiro compartilha dessa santidade única, revelando a unidade da divindade. Calvino dizia que a exclusividade da santidade de Deus é argumento contra todo tipo de idolatria e autossuficiência humana. E no midrash, a interpretação dos rabinos diz que todos os outros são chamados santos, mas sua santidade pode ser corrompida. O Santo, bendito seja ele, é santo para sempre. A santidade de Deus não é apenas um atributo, é a essência de quem ele é. Ele não tem santidade, ele é a santidade. Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos, toda a terra está cheia da sua glória, diz Isaías. A santidade do homem é reflexo, é derivada. Sede santos, como eu sou santo, diz o texto. O que somos procede de quem ele é.

Não há nada que do céu não tenhamos recebido. Por que te glorias na carne, pergunta Jeremias, se você não tem nada que não tenha vindo dele? Quando Jesus encontrou Pilatos, disse: você não tem poder nenhum que do céu não tenha sido dado. O que você recebeu foi do meu Pai, porque você não tem como respirar se ele não te dá oxigênio, e ele te dá o sol, e ele te dá a chuva, e ele te dá a semente, e ele te dá a terra, e ele te dá a força para trabalhar. Tudo procede dele. Por ele, para ele e por meio dele são todas as coisas. Nada temos que dos céus não nos seja dado. Por isso a vanglória é uma estupidez. Algumas pessoas são abençoadas e logo mudam de coração, pensam que é sobre elas, e não é sobre a graça que as contemplou e as abençoou. Maldito o homem que confia no homem e faz do seu braço carnal a sua força. Bendito o homem que confia no Senhor e cuja esperança é o Senhor.

Se ele é santo, nossa identidade como filhos está intrinsecamente ligada à sua santidade. Não é apenas conduta moral, é consciência de pertencimento. No hebraico, qadosh significa separado para um propósito exclusivo. Isso é ser santo. Identidade em santidade significa viver não como quem busca se diferenciar por esforço próprio, mas como quem já foi separado, marcado, destinado, selado. Em Apocalipse 7 diz que os eleitos de Deus foram selados na testa. Por que a gente fala tanto da marca da besta e tão pouco da marca do Cordeiro? Isso gera profunda segurança de que a nossa dignidade não está no que fazemos, mas em a quem pertencemos.

O povo de Israel é chamado de nação santa. A igreja é chamada de sacerdócio real, nação santa e povo de propriedade exclusiva de Deus. Pertencemos a ele, somos dele. A identidade coletiva da comunidade de fé está centrada em ser reflexo visível da santidade invisível de Deus. Isso não se trata apenas de regras, mas de vocação. Somos uma comunidade que vive para mostrar quem Deus é. Deveríamos apresentar Deus através das nossas vidas às outras pessoas. Ele nos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz, a fim de manifestar as suas virtudes.

Assim, a santidade não é um peso, mas marca de pertencimento. Ela nos distingue não para o orgulho, mas para a missão. Quando entendo que a santidade é minha identidade, como Paulo disse várias vezes que somos santos, eu não vivo tentando ser aceito. Eu já fui separado e eu sou amado. Eu fui recebido. Não preciso ficar fazendo publicidade, contando vantagem. Simplesmente eu sou filho, sou amado, sou querido, e estou cheio de amor. O amor de Deus é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, diz Paulo aos Romanos. Somos santos não porque nunca falhamos, mas porque pertencemos àquele que é santo.

A exclusividade de Deus no trono do coração

Só ele é santo. Nenhum outro pode ocupar o lugar de reverência, confiança e adoração. É por isso que Deus disputa conosco, às vezes, por conta do medo. A ansiedade, às vezes, substitui Deus, porque você confia em algo ou em alguém. O medo é uma falsa segurança. É fé no Deus errado. Pessoas com medo esqueceram quem Deus é. Quem és tu, que te esqueces do teu Deus e que temes o homem?, pergunta Isaías 51. Para você ficar com medo, você tem que esquecer quem ele é.

É porque ele é santo que todas as nações virão e adorarão a ti. Deus está hoje limpando a natureza do povo evangélico nesta nação tão mística e tão cheia de uma cosmovisão pagã e animista. Deus está tratando com seu povo, e está levantando um incrível e poderoso povo que emerge na antemanhã, como diz o Salmo 110, no útero da noite, na hora mais escura, ungido com o orvalho da sua juventude. É o que chamamos de exército do amanhecer. Vai amanhecer.

A sua santidade exclusiva é fonte da nossa santificação. Sede santos, como eu sou santo, repete Pedro. Quando os santos cantam, só o teu nome é santo, nenhum outro nome, seja ele político, religioso ou econômico, tem poder comparável. Todo louvor é monopólio divino, pois a santidade de Deus não tem concorrência. A igreja, ao proclamar isso, diz que a vitória pertence exclusivamente ao Deus santo.

Isso nos leva ao segundo ponto: a exclusividade de Deus. Quem não temerá? É um desafio. Quem não glorificará o teu nome? Quem pode resisti-lo? Quem pode impedi-lo? Quem pode pará-lo? Ele é único. O shemá, a confissão central de Israel, diz em Deuteronômio 6.4: ouve, ó Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Isaías, o profeta, diz: eu sou o Senhor e não há outro, além de mim não há Deus. Antes de mim nenhum Deus se formou, e depois de mim não haverá. Eu sou o Senhor, e fora de mim não há Salvador. Eu sou o primeiro e eu sou o último, fora de mim não há Deus. Eu sou Deus, e não há outro. Eu sou Deus, e não há ninguém semelhante a mim.

Não há entre os deuses semelhante a ti, Senhor, e nada se compara às tuas obras. Todas as nações que fizeste virão e se prostrarão diante de ti, Senhor, e glorificarão o teu nome, pois tu és grande e operas maravilhas, só tu és Deus. O Salmo 115 diz que o nosso Deus está nos céus, ele faz tudo o que lhe agrada. Algumas pessoas perguntam qual é a base bíblica disso. Está aqui. Os ídolos deles são prata e ouro, obra das mãos dos homens.

Jesus disse, em João 17, que a vida eterna é conhecer o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem ele enviou. Em Primeira Coríntios 8, Paulo diz que sabemos que o ídolo nada é no mundo, e que não há senão um só Deus. Todavia, para nós há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas e para quem existimos, e um só Senhor Jesus Cristo, por meio de quem são todas as coisas e por meio de quem existimos. Nele nos movemos, nele existimos, nele respiramos, diz Paulo em Atos dos Apóstolos. Em Primeira Timóteo 2, há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem. Abaixo do céu não existe outro nome dado entre os homens pelo qual importa que sejamos salvos. Somente ele deve ser adorado.

Como diz o decálogo, não terás outros deuses diante de mim. Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças, diz Deuteronômio. Isso significa totalidade, exclusividade, indivisibilidade. Mas há muitas pessoas repartidas, com duplo ânimo, divididas. Em Mateus 6, ninguém pode servir a dois senhores, você não pode servir a Deus e a Mamom. O coração emerge como um trono onde só há um que pode se sentar ali. Dois reis não podem governar na mesma cadeira. O coração humano foi feito para morada de um só Senhor. E se o coração é o trono, sempre haverá um senhor nele. Se não é o Senhor dos senhores, será um ídolo, será uma paixão, será um desejo.

Exclusividade é amor indiviso. O Senhor não divide o trono com o outro. Ele não dá a sua glória às imagens de escultura, diz Isaías. Mas os ídolos modernos hoje são sucesso, status, dinheiro, prazer, poder. E nenhum deles pode coexistir com o Senhor no mesmo coração que pertence ao único Deus que é santo. Assim como um casamento exige fidelidade, Deus exige exclusividade na nossa devoção. João Crisóstomo fala do perigo de corações divididos, que tentam adorar a Deus e ao mundo ao mesmo tempo.

Tiago 4 tem uma mensagem muito dura. Infiéis, diz outra tradução, adúlteros e adúlteras, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus. Porque, ou supondes que em vão afirma a Escritura, é com ciúme que anseia por nós o Espírito que ele fez habitar em nós.

Há alguma coisa errada com o evangelho que nós estamos pregando quando os cristãos saem daqui e vão se prostituir, vão beber, vão se embriagar? Se os índices de criminalidade de uma cidade não diminuem quando o evangelho cresce e o número de cristãos aumenta, é porque estamos pregando um evangelho falso. Porque o verdadeiro evangelho transforma a vida das pessoas, cura famílias, liberta pessoas. O verdadeiro evangelho acaba com a miséria e a pobreza. O cristianismo bíblico transforma a vida das pessoas de dentro para fora. A santidade de Deus nos invade e nos liberta das nossas contradições interiores. Ou isso é verdade, ou não estamos servindo a Deus, estamos servindo a nós mesmos. Como disse Paulo, o deus deles é o próprio ventre. Tem gente que diz que está por Deus, mas está por conta própria.

Todas as nações virão e adorarão

Por fim, a universalidade do louvor. Todas as nações virão e adorarão a ti. É o cumprimento das promessas messiânicas. Todas as nações que fizeste virão e se prostrarão diante de ti, Senhor, e glorificarão o teu nome. O cântico de Moisés e do Cordeiro é o cântico dos salmos: louvai ao Senhor, todas as nações, exaltai-o, povos, tudo quanto tem fôlego louve ao Senhor. Porque desde o nascente do sol até o poente é grande entre as nações o meu nome, diz Malaquias. Virá toda a carne a adorar perante mim, diz o Senhor. Eu estou esperando esse dia, onde toda carne estará rendida, como diz o Novo Testamento, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho dos que estão nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai.

Depois destas coisas olhei, e eis aqui uma multidão, a qual ninguém podia contar, de todas as nações, e tribos, e povos, e línguas, que estavam diante do trono e perante o Cordeiro.

Apocalipse 7.9

O louvor é universal porque é o destino final da nossa missão. O objetivo da evangelização global é que todos os povos glorifiquem a Deus. Ao povo que formei para mim, diz Isaías, para celebrar o meu louvor. Como disse Paulo aos Efésios, no propósito de Deus está fazer convergir em Cristo, na dispensação da plenitude do tempo, todas as coisas, tanto as do céu como as da terra, tudo convergindo, orbitando, centralizando em Cristo. Fomos feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua própria vontade, a fim de sermos para louvor da sua glória, nós, os que de antemão esperamos em Cristo. É isso que fomos feitos, para o louvor da sua glória. Eu existo para a sua adoração.

Se comemos ou bebemos, ou fazemos qualquer outra coisa, façamos tudo para a glória de Deus, diz Paulo. A ideia é viver para a glória de Deus, casar para a glória de Deus, ou não casar para a glória de Deus. É negociar para a glória de Deus. É levantar e trabalhar para a glória de Deus. É ter filhos para a glória de Deus. Eu espero por uma igreja que viva para a glória de Deus.

O louvor une os povos que nunca se encontraram de outro modo. É uma linguagem universal. Chame qualquer pessoa de qualquer nação e comece a adorar, todos vão levantar as mãos. Ainda que seja cantado em outros idiomas, as pessoas vão se unir, vão se conectar. Mas ainda há povos que não louvam, e a nossa missão é convidá-los à adoração. Deus não quer apenas indivíduos ou uma nação, mas toda a criação reunida em adoração.

Os teus atos de justiça se tornaram manifestos

Por fim, os teus atos de justiça se tornaram manifestos. Isso significa que o juízo e a salvação se tornarão evidentes para todos. A Bíblia diz que o céu vai se enrolar como um pergaminho e os homens clamarão que os montes se lancem sobre eles, porque não aguentarão olhar para a face do Cordeiro. O céu invadirá a terra. E já está acontecendo há dois mil anos. Estamos vendo três medidas de fermento levedando a massa inteira. Éramos povos pagãos encerrados na ignorância, e Deus está produzindo avivamentos no mundo. Alguns olham só para onde está errado, onde o evangelho ainda não chegou, onde o evangelho está fraco. Mas Deus é suficientemente poderoso, e o Espírito Santo, para produzir uma transformação mundial. Nós vamos ver esse avivamento, o segundo ato de Deus, onde o Espírito será derramado sobre toda a carne.

João Calvino destaca que não apenas Israel, mas todos os povos verão a justiça de Deus revelada. No grego, a palavra é phaneroo, tornar visível, trazer à luz, manifestar de forma clara, inegável. É a mesma palavra usada quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos como ele é. É como eis que estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos, e de repente ele vai aparecer visivelmente.

A palavra significa tornar visível, trazer à luz, manifestar de forma clara e inegável. O texto está dizendo que a justiça de Deus vai se manifestar, que as obras de Deus se tornarão claras na história, diante de todas as nações. Como diz o Salmo 98, o Senhor fez notória a sua salvação, manifestou a sua justiça perante os olhos das nações. Ou como disse Paulo, no evangelho é revelada a justiça de Deus. A justiça de Deus não é apenas uma ideia, mas é revelada no juízo contra a impiedade e na salvação dos que são seus. Seus atos de justiça se tornam manifestos para as nações, para que elas saibam quem ele é. Abençoa-nos, Deus, para que se conheça na terra o teu caminho, e em todas as nações a tua salvação, diz o Salmo 67. Ele está pedindo: Senhor, nos abençoe para que a terra saiba quem você é. Eu estou à procura de cristãos que querem fazer valer que a bênção deles se transforme em evangelismo, em missões, em uma plataforma para alcançar pessoas ainda não alcançadas.

O capítulo termina assim:

E depois destas coisas olhei, e abriu-se no céu o santuário do tabernáculo do testemunho. E os sete anjos, que tinham os sete flagelos, saíram do santuário, vestidos de linho puro e resplandescente, e cingidos ao peito com cintas de ouro. E um dos quatro seres viventes deu aos sete anjos sete taças de ouro, cheias da cólera de Deus, que vive pelos séculos dos séculos. E o santuário se encheu de fumaça, procedente da glória de Deus, e do seu poder; e ninguém podia entrar no santuário, enquanto não se cumprissem os sete flagelos dos sete anjos.

Apocalipse 15.5-8

Isso aqui acaba com o evangelho pós-moderno de que Deus é simplesmente amor e não é justiça. Alguém até inventou que a religião dele é o amor, e o amor dela é promiscuidade, é depravação, é luxúria, é fazer o que vier na cabeça. Não. Deus odeia a injustiça. Deus odeia ver as pessoas feridas. Deus odeia as pessoas usarem a liberdade que ele lhes deu para ferir os outros. E quando as pessoas se recusam a se arrepender, como diz o texto, um homem confrontado que endurece a cerviz será quebrantado sem que haja cura. Esse texto está dizendo que depois daquele culto de adoração, o julgamento de Deus chegou. Está dizendo que, quando eles estavam cantando o cântico do Cordeiro, dizendo que as nações virão, as nações começaram a vir, porque aquilo que as impedia de vir foi rompido.

Agostinho via no cântico uma síntese da história da salvação, unindo a antiga e a nova aliança. Lutero associava esse cântico novo com a vitória do evangelho sobre as potestades espirituais e as estruturas corruptas do seu tempo. O midrash ensina que o cântico do Mar Vermelho foi o mais perfeito louvor já entoado, porque todo o povo cantou em uníssono, e o Apocalipse retoma essa ideia, um cântico perfeito diante do trono. Spurgeon via no cântico uma antecipação do grande coral na eternidade, onde cada experiência de livramento aqui na terra será lembrada na adoração do céu. Jonathan Edwards destacava que o louvor universal no fim dos tempos será a consumação de toda a obra missionária. A grande comissão está sendo cumprida, e será finalizada.

O cântico do Cordeiro é a libertação universal e eterna em Cristo. No Apocalipse, o cântico de Moisés e o cântico do Cordeiro se tornam um só cântico, mostrando que toda a história da redenção é uma só sinfonia, que vai desde o Êxodo até o mar de cristal e de fogo.

O convite final: o cântico das nações

E acontecerá, nos últimos dias, que se firmará o monte da casa do Senhor no cume dos montes, e se elevará por cima dos outeiros; e concorrerão a ele todas as nações. E irão muitos povos, e dirão: Vinde, e subamos ao monte do Senhor, à casa do Deus de Jacó, para que nos ensine os seus caminhos, e andemos nas suas veredas; porque de Sião sairá a lei, e de Jerusalém a palavra do Senhor. E ele julgará entre as nações, e repreenderá a muitos povos; e converterão as suas espadas em relhas de arado, e as suas lanças em foices; uma nação não levantará espada contra outra nação, nem aprenderão mais a guerra.

Isaías 2.2-4

Um filho nos nasceu, um menino se nos deu, e o governo está sobre os seus ombros, e o seu nome se chamará Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz. O aumento do seu governo e da paz não terá fim, diz Isaías 9.6-7. O príncipe da paz chegou.

Esse é o cântico das nações. É a canção que une o Mar Vermelho e o mar de cristal, o passado e o futuro, a lei e a graça, o Egito e a besta, Moisés e o Cordeiro. Toda a história converge para ele. Não é fuga do mundo, é a chegada do Reino sobre o mundo. E quem canta esse cântico antes de ver a vitória consumada já está declarando, com a própria boca, de que lado pertence.

Fica o convite para você assistir à mensagem completa e ouvir o podcast, porque este texto reúne apenas parte de tudo o que foi ensinado sobre os dois cânticos, o de Moisés e o do Cordeiro, e sobre a santidade exclusiva do Deus que reina sobre todas as nações.