O Deus da Esperança: a memória do seu futuro
Eu é quem sei que pensamentos tenho a vosso respeito, diz o Senhor. Pensamentos de paz e não de mal para vos dar um futuro e uma esperança.
Jeremias 29.11 (Revista e Corrigida)
A esperança percorre a história humana como uma resistência ao pensamento fatalista que diz: isso é desse jeito e não pode ser mudado. Na mentalidade dos gregos, o homem está submetido ao destino, à fortuna, àquilo que não pode ser controlado. A filosofia, a literatura, a política, a psicologia e a fé tentaram responder à mesma pergunta: o que faz um homem continuar quando o presente diz que terminou, que acabou? Na tradição cristã, a esperança repousa no caráter e na promessa daquele que governa o futuro.
Com a modernidade, parte da esperança religiosa foi transferida para a história. A humanidade começou a colocar sua esperança no progresso, na ciência, na educação, na democracia, na tecnologia, na revolução, no desenvolvimento econômico. O futuro passou a ser imaginado como algo que um homem poderia fabricar. Isso é o Iluminismo. Mas o século vinte abalou profundamente essa confiança. Duas guerras mundiais, Auschwitz, Birkenau, Treblinka, Gulags, bombas atômicas, genocídios, totalitarismos mostraram que o progresso científico não significa necessariamente progresso moral. O homem pode construir tanto hospitais quanto câmaras de gás. E depois de tudo isso, a pergunta que fica é: ainda é possível esperar?
A história da filosofia mostra que a esperança sempre ganha destaque quando os seres humanos repensam sua relação com o futuro. Mas daí surge o desespero, o cinismo do espírito do tempo. O que chamamos de pós-modernidade é justamente esse desencanto, essa desesperança que marca os nossos dias. Vivemos uma era de frustração. Quando esperamos, esperamos e nada acontece, ficamos cínicos. Para não sofrer mais, nos anestesiamos.
Sem esperança e sem Deus no mundo
Paulo descreve os gentios em Efésios 2 como aqueles que não têm esperança e estão sem Deus no mundo. Sem esperança, sem Deus. Isso não significa que aquelas pessoas não possuíam desejos ou expectativas, mas elas não tinham uma história conduzida por um destino traçado por Deus. Por isso a esperança cristã responde a essa grande pergunta: para onde a história está indo?
O apóstolo Pedro diz que, segundo a sua grande misericórdia, Deus nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos. Veja a expressão viva esperança. A esperança cristã nasce de um acontecimento ocorrido no passado que redefine o futuro inteiro. Paulo constrói sobre isso uma teologia da esperança. Em Romanos 5 ele diz que a tribulação produz perseverança, a perseverança produz experiência e a experiência produz esperança. A esperança não se confunde, porque o amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo que nos foi outorgado. O sofrimento pode produzir esperança.
Tribulação, perseverança, um caráter aprovado, esperança. Há esperanças que só nascem depois que atravessamos algumas crises. Existe uma esperança juvenil que ainda não foi provada. Existe também uma esperança cicatrizada, de quem já esteve dentro do fogo, porque na esperança fomos salvos, e a esperança que se vê não é esperança. A esperança existe no espaço entre a promessa e o seu cumprimento. A esperança é a virtude do intervalo. Nós vivemos no intervalo. Cristo ressuscitou, mas aguardamos a ressurreição dos mortos. O reino chegou, mas ainda oramos: venha o teu reino. A vitória foi inaugurada, mas ainda aguardamos a sua manifestação completa.
Hebreus fornece uma imagem para nós. Diz que a esperança é como uma âncora da alma, segura e firme. Normalmente a âncora desce e atraca o navio. Mas o texto diz que a esperança é uma âncora que sobe, além do véu. Nossa esperança não está ancorada no chão das nossas circunstâncias, mas no céu, onde Cristo já entrou por nós. A esperança altera o nosso futuro pela maneira como vivemos no presente. A maneira como eu vivo agora é determinada pela esperança que eu tenho. Ao ter a expectativa certa, eu vivo diferente.
Romanos 15 traz um texto que resume bem isso: que o Deus da esperança vos encha de todo gozo e paz no vosso crer, para que sejais ricos de esperança no poder do Espírito Santo. É um crer com alegria, um crer com paz, um crer sem luta, que traz a certeza e o conforto de que nada está perdido, que a história está sendo conduzida, que o Pai está lá na frente, ainda este ano, no próximo ano e nos próximos anos da vida, com coisas nos aguardando, porque ele está construindo o nosso futuro. Não estamos por conta própria, não estamos sozinhos. Esse é o eixo de uma teologia, de uma cultura de esperança.
A esperança molda a realidade
A esperança bíblica não é passiva, ela é insurgente. Ela confronta, interpreta, nomeia e trabalha a realidade à luz daquilo que Deus disse. Deus disse, nós podemos esperar. Passarão céus e terra, mas as palavras dele jamais passarão. A esperança se opõe ao status quo a fim de modelar a realidade presente. A esperança bíblica não é a expectativa de que as coisas melhorem sozinhas. Ela é um inconformismo santo. Ela se recusa a acreditar que aquilo que existe é tudo aquilo que pode existir. O status quo transforma o presente em destino. A esperança transforma a promessa em possibilidade histórica.
Ela não é anestesia para pessoas impotentes. Ela é força para pessoas que carregam uma visão de futuro. Abraão recebeu uma palavra antes de receber uma terra. Moisés recebeu uma promessa enquanto Israel ainda era escravo. Josué recebeu fronteiras antes de possuir territórios. Davi recebeu uma unção antes de receber um trono. Os profetas anunciaram a restauração enquanto Jerusalém estava em ruínas. A esperança vê alguma coisa antes que ela exista. A pergunta que fica é: o que você está vendo?
Dias atrás, veio à tona um post sobre o 17 de setembro nos Estados Unidos, o dia da Constituição. As treze colônias tinham acabado de vencer a guerra contra a maior potência militar da época, a Inglaterra, mas estavam por meses discutindo, prestes a se dividir, lutando entre si, sem conseguir chegar a um acordo. O projeto americano estava declinando, estava caindo. E a pergunta que ficou registrada foi: como eles conseguiram vencer essa batalha de joelhos? Homens que outrora foram deístas se converteram a uma visão de que Deus interfere no destino dos povos, como Benjamim Franklin, e se juntaram em oração. Os mesmos que venceram a grande potência através de confiança em Deus, em oração e em guerra, estavam de novo reunidos em oração para manter a unidade de uma nação. No dia 17 de setembro, data que marcou 239 anos da Constituição Americana, uma Constituição que já dura quase 250 anos sem muitas alterações, a pergunta final foi: será que o sol vai se pôr ou vai nascer no Brasil? Porque essa era a figura da cadeira que ficava atrás do presidente, com Jorge Washington representado como um sol, sem se saber se ele estava nascendo ou se estava se pondo. E foi preciso dizer a quem acompanhava: se você não tem alguma coisa boa para dizer, por favor não diga nada, porque pessoas sem esperança são contagiosas. O desespero das pessoas com relação à política costuma dizer que o mundo não vai existir se tiver mais quatro anos desse pessoal aí. Será? É bom que não esteja, mas Deus está no trono há dez milhões de anos. Ele é o Senhor.
A transformação começa quando alguém vê uma realidade que ainda não chegou. Jeremias diz: não é a minha palavra como fogo, diz o Senhor, e como um martelo que esmiúça a penha? É um texto precioso, porque nós moldamos a realidade ao nosso redor pelas Escrituras, e a palavra de Deus fornece a linguagem daquilo que ainda pode existir. A palavra é fogo, e o fogo altera o que toca. O fogo faz derreter a matéria e o martelo golpeia dando uma nova forma. O martelo quebra as resistências antigas, transforma matéria bruta em matéria trabalhável. A realidade parece uma pedra. Mentalidades muitas vezes são pedras. Tradições, sistemas injustos, cultura se tornam pedras. Há ideias que foram repetidas por tantas gerações que se tornaram sólidas, até que vem o martelo de Deus, até que vem o fogo de Deus para dar forma ao visível.
A Escritura ensina que o mundo visível é passível de ser transformado, às vezes dramaticamente, radicalmente. Como diz Hebreus, pela fé entendemos que o universo foi formado pela palavra de Deus. Havia trevas e Deus disse: haja luz. Ele encontrou o caos e introduziu ordem. Encontrou o vazio e produziu abundância. Jesus disse aos discípulos com redes vazias: lançai as redes outra vez. E eles lançaram as redes e vieram muitos peixes. Em Gênesis, o Criador encontrou uma realidade sem forma e deu-lhe forma por meio da sua palavra. Nós construímos mundos mediante palavras. É bom repetir isso: nós construímos mundos mediante confissões, declarações, profecias. Pais constroem mundos dentro dos filhos por meio das palavras que semeiam no coração deles. Líderes constroem ambientes por meio de palavras. Pregadores constroem a imaginação de um povo por meio de palavras. Civilizações inteiras são sustentadas por narrativas. A questão é: que palavras estão moldando o nosso mundo? Se as Escrituras não interpretarem a nossa realidade, outras narrativas vão fazer isso.
Tiquivá: a corda lançada do presente para o futuro
Uma das palavras para esperança na Bíblia é tiquivá. Ela pode significar corda ou cordão. É a palavra que aparece na história de Raabe, em Josué 2. Esperança é uma corda lançada do presente para o futuro. Raabe estava dentro de uma cidade condenada, Jericó, e, entretanto, da janela da sua casa pendia um tiquivá, um cordão. O objeto se tornou a imagem de que há alguma coisa do outro lado à qual ainda estamos ligados. A esperança é aquilo que nos mantém andando quando tudo no presente tenta nos convencer de que não existe mais futuro.
É a palavra de Isaías: os que esperam no Senhor renovarão as suas forças. A espera bíblica é uma expectativa tensionada por uma promessa. Há uma promessa e nós a perseguimos. Deus chamou escravos de um povo escolhido, um velho sem filhos de pai de multidões, pastor de ovelhas de rei. Pescadores e letrados foram chamados apóstolos. Deus chama pecadores de santos e chama estrangeiros de família. A palavra de Deus pode redefinir a realidade. Ela é martelo, ela é fogo. Ela dobra a realidade por aquilo que Deus promete a nós.
Toda cultura é uma disputa sobre quem terá a autoridade para dar forma à realidade. Paulo escreve: não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente. O conflito está entre conformação e transformação. Conformar significa receber a forma de algo. Transformar significa assumir uma nova forma. Na vida, nós moldamos a realidade ou somos moldados pela realidade? A igreja carrega uma visão capaz de influenciar a cultura ou é apenas a extensão do que existe lá fora? Quando os mesmos pecados acontecem aqui dentro que acontecem lá fora, os mesmos expedientes, a mesma forma de responder aos desafios, os mesmos comportamentos, fica claro que não estamos moldando a cultura, estamos sendo moldados por ela. Seu ambiente moldará você, ou aquilo que Deus colocou dentro de você alterará o seu ambiente. Cristãos deveriam provocar uma mudança atmosférica onde chegam. Cristãos deveriam moldar a realidade da miséria, da pobreza, da prostituição, do divórcio. Todos esses expedientes deveriam ser mudados pelo martelo e pelo fogo, que é a palavra que dá forma à realidade.
O caniço agitado pelo vento e a voz que muda o vento
Esse é o contraste que aparece quando Jesus apresenta João Batista, em Mateus 11. Ele pergunta: o que vocês saíram a ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? O vento sopra para um lado e o caniço vai junto. O vento muda e o caniço também muda. Não possui resistência, não possui direção própria, não possui convicção. A paisagem determina sua posição. Tem muita gente assim: se o vento sopra, lá vão eles junto com o vento. Paulo fala sobre meninos agitados por qualquer vento doutrinário, gente que vive de modismos, em que qualquer novidade desperta o coração infantil.
Jesus está dizendo que João não consultava o clima cultural para decidir qual mensagem iria pregar. Não perguntava qual discurso era mais popular, não calibrava sua convicção segundo a aprovação de Herodes. Sua identidade não era determinada pelo palácio. Ele não era moldado pelo ambiente, ele alterava o ambiente. Cada um de nós deveria mudar a atmosfera da empresa onde trabalha, a atmosfera da própria casa. Não precisa ser muito esperto para saber o que está habitando dentro de uma casa, basta perceber as entrelinhas, a condição dos filhos, a felicidade ou a infelicidade que moram ali. As plantas têm mais sabedoria que muita gente: samambaias não sobrevivem em ambientes tóxicos. Coloque uma samambaia em casa e logo se saberá como está o ambiente espiritual.
João não era movido pelo vento, João provocava o vento. Sua voz produzia movimento, sacudia consciências, movia multidões, incomodava sacerdotes, constrangia governantes, acordava uma geração. Há homens que carregam uma palavra capaz de mudar a atmosfera. O filme O Grande Despertamento conta a história de Benjamim Franklin com George Whitefield, uma amizade improvável entre um iluminista americano e um evangelista inglês conhecido como a voz do trovão. Ele falava tão alto que sua capacidade de projetar a voz para vinte e cinco mil pessoas em campo aberto chegou a ser medida pelo próprio Franklin. Ele tinha uma entonação, uma pausa, um poder, e foi chamado de pregador que produzia terremotos com a sua voz. Quando ele chegou em Filadélfia, o próprio Benjamim Franklin registrou no seu jornal, o mais lido das treze colônias, que a atmosfera espiritual, emocional e familiar da cidade mudou depois que aquele evangelista passou por ali. Na história dos avivamentos existem relatos de bares que fecharam, de pessoas que chegaram a oferecer dinheiro ao evangelista para que não passasse pela cidade, pedindo que os bares continuassem abertos. E a resposta dele era: esse é o meu incentivo para passar por lá.
Essa é a diferença entre adaptação e influência. Há pessoas que passam a vida inteira aprendendo a sobreviver dentro da realidade existente. Elas estão presas, são escravas, nem sabem o que é liberdade, porque a normalidade delas é a escravidão, é a dívida, é a gritaria, é o barraco, é a falta de educação, é a infidelidade, é a infelicidade. Tem gente cuja normalidade é ser infeliz, e quando algo bom acontece, logo desconfia: tem alguma coisa errada, está tudo dando certo, como pode? Outras pessoas recebem de Deus uma visão de que uma realidade diferente pode existir. Isaías viu uma estrada no meio do deserto, um caminho no meio do ermo. Ezequiel viu um exército onde havia apenas um vale de ossos secos, sequíssimos. Jeremias comprou um campo enquanto a cidade estava sendo sitiada. Abraão procurava uma cidade da qual Deus era o arquiteto. Jesus ensinou os discípulos a orar: venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu. Essa oração é uma declaração de que uma realidade está chegando para substituir a realidade vigente. Orar venha o teu reino é dizer que a realidade de Deus substitua a nossa realidade. É a pedra que colide contra a injustiça, que destrona os poderes da maldade no Brasil, e nos dá a perspectiva de que o Brasil pode avançar, pode correr, pode voar, pode ter governantes justos, pode ter empresários tementes a Deus, pode ter cristãos de verdade.
A esperança é a recusa de aceitar como definitivo aquilo que Deus chama de temporário. Ela vê o mundo como ele está, mas carrega a memória do mundo como Deus deseja que ele seja. Esperança não é fugir da realidade, é confrontá-la por uma realidade superior. Ela lê o presente à luz de uma promessa. A esperança não é o caniço que se curva diante do vento. Ela é a palavra que muda a direção do vento.
Quem oferece esperança ganha influência
Nas palavras de Bill Johnson, aqueles que têm mais esperança terão mais influência. Isso não significa que toda esperança seja verdadeira, nem que toda influência produzida pela esperança seja necessariamente boa. Significa que as pessoas gravitam em direção a quem consegue apresentar um futuro possível. Sem visão, o povo se corrompe. Se alguém disser que está tudo ruim, tudo vai piorar, mas venham comigo mesmo assim, quantos vão seguir? Poucos. Barack Obama fez o contrário, e com isso conseguiu se tornar presidente dos Estados Unidos numa campanha publicitária. Ele é mais marqueteiro do que qualquer outra coisa, um grande personagem, um ótimo ator, que conseguiu chegar à presidência da maior nação do mundo com uma estratégia de linguagem.
Obama transformou a esperança em uma das principais linguagens da sua identidade pública. Em 2004, ainda senador estadual por Illinois, ganhou projeção nacional ao contrapor aquilo que chamou de política do cinismo a uma política de esperança. Foi o que ele chamou de Audácia da Esperança, que virou livro e rapidamente um best-seller, pavimentando seu caminho para a Casa Branca. Sua campanha para a presidência foi baseada em três palavras: hope, esperança; change, mudança; e yes we can, sim nós podemos. Eram palavras que construíram uma imaginação do futuro. Obama compreendeu que, antes que as pessoas se movam em direção a um futuro, elas precisam conseguir imaginá-lo. É isso que um líder faz: apresenta uma visão possível de ser realizada. Sua mensagem dizia que o presente não precisa ser definitivo, que a realidade pode ser alterada, que o futuro ainda está aberto, que é possível construir alguma coisa diferente.
Quem descreve apenas o problema produz uma consciência. Quem descreve um futuro possível produz movimento. As pessoas podem concordar com alguém que diagnostica sua dor, mas seguirão aquele que consegue dizer que existe um amanhã depois disso tudo, um amanhã pelo qual vale a pena lutar. A disputa pela influência é uma disputa pela imaginação das pessoas. Quem consegue oferecer uma narrativa convincente sobre o futuro exerce influência sobre o presente. Isso acontece na política, na cultura, nas empresas, nas famílias, nas igrejas, nas redes sociais, onde há influenciadores prometendo mundos e não entregando o que prometem, e ainda assim continuam vendendo seus infoprodutos, porque tem gente que gosta de ser enganada por falsas esperanças.
Um líder não influencia apenas ao explicar onde estamos, mas ao mostrar para onde podemos ir. Foi isso que Moisés fez: o Senhor vai vos levar para uma terra que mana leite e mel. Moisés mostrou um futuro possível para que o povo se movesse da escravidão para uma terra prometida. Bill Johnson diz que a esperança é contagiosa, assim como o medo, o cinismo e o desespero, todos disputando influência em nossos corações. O medo diz: proteja aquilo que ainda te resta. O cinismo diz: nada realmente vai mudar. O desespero diz: não existe nenhuma saída. Mas a esperança diz: ainda existe um futuro. No mundo bíblico, nossa esperança não nasce de probabilidades, não nasce de pesquisas, de ciclos econômicos, do comportamento das multidões. A esperança nasce de uma promessa, como a que Jeremias escreveu às pessoas exiladas na Babilônia: havia caos, havia cativeiro, e havia uma promessa. Mais à frente ele diz que os filhos voltarão para os seus territórios. Essa é a voz que clama no deserto: você olha para o deserto e declara que haverá um caminho no meio dele, olha para o ermo e diz que vai correr um rio no meio dele. Você está vendo nada e está profetizando algo, até que aquilo que você profetiza se torne alguma coisa visível, palpável.
Prisioneiros da esperança
Zacarias é o profeta que define o povo de Israel como prisioneiros da esperança. O texto diz: voltai à fortaleza, ó presos, prisioneiros da esperança. Também hoje vos anuncio que de tudo vos restituirei o dobro. Não é apenas uma mensagem de que Deus vai restituir o que foi perdido, é uma mensagem de que Deus vai amplificar o que foi perdido, num estorno, numa devolução, numa restituição. Volte ao lugar da tua força, prisioneiro da esperança, porque há pessoas que são prisioneiras do passado, prisioneiras do medo, prisioneiras das circunstâncias. Zacarias apresenta uma categoria de gente que foi aprisionada pelo futuro prometido por Deus, prisioneira das promessas, prisioneira do que Deus declarou que aconteceria. Há pessoas aprisionadas pelo que aconteceu, e há outras aprisionadas pelo que Deus disse que vai acontecer. Uma está presa no passado, outra está presa no futuro.
Logo adiante existe um confronto entre duas visões de mundo, duas maneiras de enxergar a realidade. O texto diz: curvarei Judá como arco, o encherei de Efraim, suscitarei a teus filhos, ó Sião, contra os teus filhos, ó Grécia, e te porei, ó Sião, como a espada de um valente. Logo depois de chamar Israel de prisioneiros da esperança, Zacarias coloca Sião diante da Grécia. São dois imaginários muito diferentes sobre o futuro. A literatura grega clássica desenvolveu profundamente uma consciência trágica. O rabino Jonathan Sacks dizia que a cultura dos gregos era a tragédia, a de Jerusalém era a esperança.
Na tragédia grega, o homem frequentemente encontra forças maiores do que ele. É a Moira, o oráculo de Delfos, o destino. Você não controla as circunstâncias, é manipulado pelo roldão da história, guiado por forças fortuitas e casuais. É o Ananke, a necessidade, aquilo que você não consegue evitar, são os deuses, a fragilidade inevitável da condição humana. Édipo tenta escapar da profecia, e precisamente tentando escapar caminha para o seu cumprimento. É o efeito borboleta de uma pessoa tentando mudar o futuro e sempre caindo no mesmo ponto. Aquilo não é cristão, aquilo é pagão. É Agamenon, que retorna vitorioso de Troia mas entra numa casa carregada de antigas maldições. É Aquiles, que pode alcançar a glória mas não pode escapar da morte. O futuro assume, na tragédia, o caráter de algo que se abate sobre nós, o inevitável. Na tragédia, o homem é perseguido por um futuro que não consegue evitar. Na esperança bíblica, o homem é atraído por um futuro que Deus prometeu.
O pensamento hebraico não é ingênuo. O hebreu conhece o exílio, conhece a escravidão, conhece as lamentações de Jeremias, conhece Jó assentado sobre as cinzas se rapando com caco. Israel conhece o sofrimento histórico tão profundamente quanto qualquer povo antigo. Mas para Israel a tragédia nunca consegue fechar a história. Essa é a revolução bíblica da esperança. Jerusalém pode cair, mas Deus vai levantá-la. O povo pode ser levado para Babilônia, mas existe um retorno. Sara pode ser estéril, mas existe uma promessa. José pode estar numa prisão, mas o seu sonho não está morto.
Ezequiel 37 coloca a questão. Os exilados dizem: nossos ossos se secaram e pereceu a nossa esperança. E Deus responde perguntando ao próprio profeta: podem esses ossos reviver? A resposta de Ezequiel está nos seus lábios: Senhor, tu o sabes. Então ele profetiza sobre o vale da morte, sobre a perda, sobre a destruição, sobre o caos, sobre o divórcio, sobre a doença, sobre a escuridão, sobre a nação brasileira, para que tenham vida, para que venham dos quatro cantos, para que o Espírito Santo sopre, haja força, haja vigor. Suscitarei os teus filhos, ó Sião, contra os teus filhos, ó Grécia, prisioneiros da esperança. Sião carrega uma narrativa na qual Deus pode intervir na história. Nada é fatal, nada pegou Deus de surpresa. Ele está um passo à frente da história e pode corrigir caminhos, pode desfazer sentenças malignas. Isso contrasta com a visão trágica, na qual determinadas forças do destino parecem inescapáveis. Isso não é cristão, isso é pagão. É um homem que reclama diante de Deus da sentença de morte que recebeu de um profeta, põe a cara na parede e faz o relógio de Acaz retroceder, mexe com o tempo. É um homem que se prostra diante de Deus e faz um anjo destruir um exército inteiro de cento e oitenta e seis mil assírios. Um homem que interfere na história com a sua oração, com o seu clamor, que busca e encontra, que bate e a porta se abre.
O homem trágico e o homem da promessa
A tragédia grega pergunta: como o homem suportará aquilo que o destino determinou? A esperança profética pergunta: o que Deus prometeu fazer com aquilo que parece estar determinado? Há um capítulo inteiro para se escrever sobre o homem trágico, talvez no próximo livro, depois do que já está em confecção e impressão para a conferência global. O homem de plástico é o homem do século vinte, pós-moderno, o homem da textura, da imagem, da aparência, dos filtros do Instagram. O homem trágico é aquele que se torna vítima da história, vítima do destino, vítima das circunstâncias. Ele não tem o martelo nem o fogo para dar forma à realidade, tem apenas a crença de que o destino está determinado e que o que tem que ser é isso mesmo. É o eu nasci assim, da Gabriela de Jorge Amado. O homem trágico diz: isso estava destinado. O homem bíblico pergunta: o que Deus disse sobre isso? Um é definido pela Moira, o oráculo dos deuses. O outro é definido pela promessa, uma promessa que não elimina o sofrimento, porque Abraão sofreu décadas, esperou décadas, José passou pela prisão, Israel atravessou o deserto, Jeremias viu Jerusalém destruída. Mas o sofrimento não possui soberania sobre o fim da história. A tragédia diz que o futuro está preso ao destino. A esperança diz que o futuro está preso à promessa. Os gregos produziram tragédias porque perceberam que o homem não controla o destino. Os profetas bíblicos produziram esperança porque sabiam que o destino não controla Deus.
No relato do mito de Pandora, depois que os males se espalharam pelo mundo, a esperança, elpis, permanece dentro do recipiente. A interpretação disso é discutida há séculos: a esperança foi preservada para o homem ou ficou presa, indisponível? Seria a esperança uma bênção ou mais uma forma de prolongar o sofrimento? Na tradição de Pandora, a esperança permanece dentro do recipiente. Mas na visão bíblica de Zacarias, o povo está dentro da esperança. Somos prisioneiros da esperança, prisioneiros de uma promessa, sentenciados por Deus a viver a promessa que ele nos deu, se formos de fato seus colaboradores, porque isso pode mudar dependendo das escolhas de cada um. Sim, há muitos futuros possíveis, não apenas um destino inevitável. As escolhas conduzem a uma colheita de trinta, de sessenta ou de cem por um. Quem morreu cedo não morreu necessariamente na hora certa, porque Jesus ressuscitou muitos mortos, mostrando que nem todo mundo morre na hora certa. Se alguém cuidar da sua saúde, fizer o seu dever de casa, pode viver mais dias e viver bem, por que não? A vida é uma parceria entre a pessoa e o Deus das promessas, que disse que ninguém vai morrer enquanto existir ainda uma promessa para ele, desde que faça o dever de casa.
Não é Israel que possui esperança, é a esperança que os possui. Em Zacarias, a esperança capturou um povo inteiro. Ela não está fundamentada na avaliação das circunstâncias, está fundamentada em quem Deus é e no que Deus prometeu. Quando Israel enfrenta o futuro, olha para trás e diz: eu sou o Deus que te tirei do Egito. A esperança judaica é memorial. A esperança bíblica olha para a frente com os olhos cheios de memória. A tragédia olha para os acontecimentos e pergunta como nós vamos chegar, nós chegamos inevitavelmente. A esperança olha para a mesma ruína e pergunta: o que Deus fará daqui para a frente? A tragédia termina com um cadáver no palco. A esperança caminha até o cemitério e diz: ossos, tenham vida. O povo de Deus conhece a dor, mas se recusa a fazer da tragédia a sua escatologia. A propósito, não existe no hebraico antigo uma palavra chamada tragédia, não existe. Na Bíblia existe apenas propósito. Vale a pena tirar a palavra tragédia do vocabulário.
Numa viagem pela Alemanha, o motorista, de origem italiana, ficava toda manhã repetindo catástrofe, catástrofe, diante de qualquer contratempo pequeno, de alguém que derramou algo dentro do ônibus até a demora do grupo para voltar de um intervalo. Até que no final, de fato, uma catástrofe aconteceu, mas não para quem estava ali, porque o grupo estava à sombra do Onipotente, no esconderijo do Altíssimo, declarando vida no lugar da morte. Elpis é a esperança que foi presa no drama de Pandora. Mas para Paulo, elpis deixa de ser talvez algo bom aconteça e passa a ser Deus prometeu alguma coisa e nós estamos caminhando em direção a essa coisa. É isso que resta fazer: caminhar em direção à promessa que nos foi feita.
A esperança é a memória do futuro
A esperança é uma possibilidade dentro da incerteza. Ela olha para a frente sustentada pelo que Deus fez lá atrás. Memória e esperança caminham juntas. Quando Israel atravessa uma crise, sua liturgia diz: lembre-se do Egito, lembre-se do mar, lembre-se da bênção de Abraão, lembre-se da aliança, lembrai-vos. A Páscoa era lembrança, o Yom Tipur era lembrança, a festa dos Tabernáculos era lembrança. Não era lembrança para ficar se lamentando, lambendo as próprias feridas, era lembrança para dizer: eu fiz no passado, vou fazer outra vez se você acreditar. A lembrança de Israel não era vitimista, como muitos hoje buscam reparação histórica dizendo que determinadas gerações devem alguma coisa por causa do que antepassados fizeram a outros. A visão bíblica não era de reparação histórica, mas de previsão de que o que Deus fez outrora vai continuar sendo feito, se houver disposição para acreditar e caminhar rumo à promessa que ele deu.
A esperança, então, é a memória da promessa. É a memória do futuro. Ainda nem se viveu o futuro e já existe uma memória dele vibrando por dentro. O profeta não diz que as circunstâncias mudaram, ele apenas muda aquilo que coloca diante da memória. Esperança é a convicção de que o futuro de Deus é maior do que o presente que vivemos. Esperança é recusar ao momento presente o direito de escrever o último capítulo. A esperança não elimina a noite, ela anuncia que vai amanhecer. O Brasil vai amanhecer.
A esperança olha para o futuro a partir de Deus. Quem oferece esperança oferece futuro, e quem consegue devolver o futuro a pessoas que perderam o amanhã toca uma das necessidades mais profundas da alma humana. Vale perguntar quem está oferecendo mais esperança à nossa geração, porque muitas vezes não é a igreja. É nessa direção que boa parte da influência cultural está caminhando, sobre falsas esperanças. A igreja não deveria oferecer mais medo, mais indignação ou mais catastrofismo. Obama mostrou a capacidade mobilizadora de uma narrativa de esperança, sua peça publicitária hope foi sua identidade de campanha, yes we can. É muito poderoso afirmar isso.
Quem conseguir apresentar a visão mais poderosa de um futuro possível conquistará a atenção no presente. João anunciava que o reino dos céus estava próximo. João Batista pregava arrependimento, mas não era apenas a denúncia do presente, era o anúncio do futuro: o reino de Deus está chegando, vocês estão vendo essa realidade? Arrependam-se, porque está chegando um novo governo de justiça, de alegria, de paz, de gozo no Espírito Santo. Esperança significa saber que a realidade presente não possui autoridade para determinar a realidade futura. Herodes parecia poderoso, Roma parecia permanente, os sistemas religiosos pareciam estabelecidos, mas João apareceu no deserto dizendo: outra coisa está chegando. Pessoas de esperança anunciam aquilo que está vindo. Existe um futuro que vai aparecer, existe uma glória que vai se manifestar. João era uma voz. Mas tem gente que é só um eco.
Uma voz de esperança, não um eco de medo
Cada um deveria ser uma voz da esperança, não um eco do medo. Cada um deveria se tornar uma voz da esperança, dever que se deve à própria família, à igreja, à comunidade, ao país: falar de esperança em vez de falar dos próprios medos, em vez de criar pânico com teorias da conspiração, como se o diabo estivesse vencendo, como se ele fosse poderoso, como se controlasse os dados, as peças no jogo. Não controla. O Deus da esperança diz que devemos ser firmes, contentes, alegres no nosso crer, porque ele está conduzindo a história e há algo novo que está chegando. Há um avivamento acontecendo, há um vento chegando, há uma nuvem pequenina do tamanho da mão de um homem, mas vem tempestade, vem chuva, vem o derramar do Espírito, vêm evangelistas como Whitefield, pregadores como Wesley, vem uma geração de gente cristã de verdade que dobra a realidade com fogo e com martelo. É fogo e martelo que dobram a realidade. A palavra dobra a sentença de morte de um diagnóstico de câncer. A palavra dobra a realidade do divórcio que está no horizonte. A palavra dobra as circunstâncias da rebelião dos filhos. A palavra dobra a corrupção que tomou conta da nação. A palavra é fogo e é martelo.
Abraão esperou contra a esperança, creu contra a esperança de que seria pai. Havia uma esperança segundo a promessa, contra uma esperança segundo as circunstâncias. A fé não nega os fatos, ela se recusa a conceder aos fatos a palavra final. Ela diz: venha o teu reino, vem uma nova realidade, arrependei-vos, porque o reino de Deus está chegando. A fé recebe a promessa, a esperança caminha em direção a ela. Enquanto houver uma promessa, o presente nunca será definitivo. A esperança cristã não é uma fuga da história, é a certeza de que a história tem destino. A Bíblia termina olhando para a frente: eis que faço novas todas as coisas. A esperança cristã é caminhar para a restauração de todas as coisas, como diz Jó, porque há esperança para a árvore, pois mesmo cortada ainda se renovará e não cessarão os seus rebentos. Se envelhecer na terra a sua raiz e no chão morrer o seu tronco, ao cheiro das águas brotará e dará ramos como a planta nova.
Cristo em vós, a esperança da glória, para que não entristeçamos como os demais que não têm esperança, aguardando a bendita esperança. Ainda que a árvore tenha sido cortada, ao cheiro das águas ela voltará a brotar e, como planta nova, renovará os seus frutos. Essa é a palavra para quem carrega hoje a sensação de que tudo secou: há um rio capaz de lavar, inundar, purificar, redimir a alma e a história, resgatar e restituir a esperança para o ferido. Que o Deus da esperança encha de alegria e de paz no crer, com prospecções, perspectivas e projeções, com iluminação nos olhos do coração para saber qual é a esperança do chamado, da vocação de cada um. Cristo em vós, a esperança da glória.
Para ouvir essa mensagem completa, com todos os detalhes e o tom original da pregação, vale a pena assistir ao vídeo na íntegra e acompanhar também o podcast pessoal de Bispo JB Carvalho, onde esse e outros temas são aprofundados.
