A revolução dos improváveis: o que os quatro leprosos de Samaria ensinam sobre continuar andando

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Então disseram uns para os outros: “Não fazemos certo. Este é dia de boas notícias e nos calamos. Se esperamos até a luz da manhã, algum castigo nos sobrevirá. Então vamos e o anunciaremos no palácio do rei.”

2 Reis 7.9

Segunda Reis, capítulo 7, é um dos textos mais surpreendentes de toda a Escritura. Ele começa em fome, cerco e desespero, e termina em fartura, provisão e boas novas. E o mais impressionante é quem Deus escolhe para fazer a ponte entre essas duas realidades. Não são generais, não são conselheiros do rei, não são homens de negócio, nem influenciadores da sua época. São quatro leprosos, sentados à porta da cidade, sem lugar nenhum para ir. É a partir deles que este artigo caminha, versículo a versículo, para entender o que Deus faz quando tudo parece ter chegado ao fim.

O cenário: uma nação em colapso espiritual e econômico

O cenário é o reino de Israel por volta do ano 850 antes de Cristo. Era uma era de apostasia. Jorão, filho de Acabe e de Jezabel, ocupa o trono. Ele é o rei, sendo o autor de inúmeros males e completamente afastado dos critérios de Deus. Ele continuou andando nos pecados de Jeroboão, governando uma nação marcada pela idolatria e pela feitiçaria. A crise espiritual logo encontrou expressão na história, porque toda crise, no fundo, é uma crise espiritual.

No capítulo anterior, o sexto, Samaria está cercada pelo exército sírio. Diz o texto que Bem-Hadade, rei da Síria, subiu com todo o seu exército e sitiou Samaria. O cerco militar produziu um estrangulamento econômico. Ninguém entrava na cidade, ninguém saía. As rotas comerciais foram interrompidas, os alimentos desapareceram, os preços explodiram. A escassez tomou conta da cidade, e o texto diz que houve grande fome em Samaria, a ponto de se vender a cabeça de um jumento por oitenta siclos de prata e um pouco de esterco de pombas por cinco siclos de prata.

A inflação era produzida pela escassez. Havia dinheiro, mas não havia comida. O mercado entrou em colapso, a cidade estava isolada das suas fontes de abastecimento. E, como sempre acontece, a crise econômica se transformou em uma crise humanitária, em uma crise moral. A escassez prolongada pressionou os limites éticos daquela sociedade. A fome transformou vizinhos em concorrentes. O medo transformou pessoas em ameaças. A sobrevivência ocupou tanto espaço na consciência que aquilo que era impensável começou a parecer justificável.

A crise deixou de ser apenas econômica e se tornou uma crise de humanidade, onde seres humanos se desumanizam, se monstrificam. É isso que acontece quando duas mães combinam entre si comer os próprios filhos. O problema era a erosão dos limites que preservam o ser humano na sua humanidade. Quando tudo se reduz à sobrevivência, pessoas deixam de enxergar pessoas e passam a enxergar apenas recursos, obstáculos, concorrentes ou meios de continuar vivas. Grandes colapsos econômicos sempre produzem colapsos sociais: aumento da violência, exploração, corrupção, oportunismo, abandono dos mais frágeis e perda da confiança coletiva. A pobreza por si só não torna ninguém mal, mas crises prolongadas criam ambientes em que o egoísmo, o medo e a brutalidade encontram terreno fértil.

Em Samaria, a fome estava desumanizando a cidade. A primeira coisa que uma grande crise rouba das pessoas é a própria humanidade. A situação chega a um nível inimaginável: mães discutindo quem deveria comer primeiro o filho de quem. Era um colapso de civilização, fome, desespero, desesperança. E é nesse ambiente, exatamente nesse ambiente, que Deus fala.

A palavra profética em meio ao caos

Em meio à tragédia, surge a palavra de Deus. Eliseu diz: “Ouvi a palavra do Senhor. Assim diz o Senhor: amanhã, a essas horas, haverá uma medida de farinha por um siclo e duas medidas de cevada por um siclo, à porta de Samaria” (2 Reis 7.1). Amanhã, a essas horas. Diga pro seu irmão: amanhã, a essas horas. O ano que vem, a essas horas, o Brasil estará bem diferente do que está hoje.

O profeta anuncia uma mudança econômica radical em vinte e quatro horas. Hoje fome, amanhã abundância. Hoje preços impossíveis, amanhã comida acessível. Hoje uma cidade sitiada, amanhã uma cidade abastecida. Mas há uma pergunta que precisa ser feita antes de qualquer celebração: quem está apto para fazer a palavra profética se cumprir? No tempo da angústia, quem é capaz de resistir sem se deformar, sem se desconfigurar, sem se desfazer, sem se desconjuntar, sem se desaguar, sem se derreter? No tempo da angústia, quem é capaz? Quem Deus usa para fazer essa virada acontecer? Quem está apto para responder à crise? São os homens e mulheres que se levantam quando todo mundo está se escondendo.

Quem são os heróis dos tempos difíceis

Quem são os heróis de Deus na hora da angústia e da crise, nesses dias difíceis de roubo dos velhinhos do INSS, de PCC, de Comando Vermelho, de abuso de autoridade, de casos como o da cidadã condenada a quatorze anos de cadeia por escrever com um batom, perdeu o Mané, numa estátua? A resposta de Deus não nasce no palácio. Não surge com o rei, nem com o ministro da fazenda, nem com os homens poderosos do Congresso Nacional. A resposta de Deus não vem com os homens de negócios e banqueiros da Faria Lima, nem com artistas e celebridades inteligentinhos, posers. Em tempo de crise, Deus frequentemente encontra seus instrumentos onde ninguém está procurando.

A resposta de Deus é irônica e é totalmente absurda. Ela surge com quatro leprosos sentados do lado de fora da cidade, porque eles não podiam entrar. Homens excluídos, debilitados, sem posição, sem influência, homens que não tinham nada para oferecer. São exatamente estes que Deus coloca no centro da história. No verso 3 aparecem os nossos heróis, e eles não são soldados, não são nobres, não são oficiais, não são homens influentes, não são especialistas em estratégia militar. Veja o texto outra vez: “Quatro leprosos estavam à entrada da porta, os quais disseram uns aos outros: para que estaremos nós aqui sentados até morrermos? Se dissermos: entremos na cidade, há fome na cidade e morreremos aí; se ficarmos aqui, também morreremos. Vamos, pois, e demos conosco no arraial dos sírios; se nos deixarem viver, viveremos; se nos matarem, tão somente morreremos” (2 Reis 7.3-4).

Quatro leprosos. Homens estigmatizados, marginalizados, segregados, cuja existência carregava a marca da dor, da rejeição, do abandono, do sofrimento. Pessoas sem status, sem pedigree, sem posição, sem credibilidade social. Aqui está a ironia do texto: os homens que não podiam entrar na cidade seriam aqueles que descobririam a saída para a cidade. Os excluídos se tornariam os agentes da libertação. Os que viviam à margem, os marginalizados, seriam colocados por Deus no centro da história.

Paulo diria isto, que Deus escolheu as coisas loucas do mundo para confundir as sábias, e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes, e as coisas que não são para reduzir a nada as que são (1 Coríntios 1.27-28). Deus tem o hábito de escolher gente que não impressionaria uma comissão de seleção humana. Os improváveis, aqueles por quem ninguém daria nada. Ele chama pastores de ovelhas para enfrentar gigantes, pescadores e iletrados para anunciar o seu reino como apóstolos, chama uma jovem desconhecida de Nazaré para carregar o Messias em seu ventre, chama quatro leprosos para anunciar o fim do cerco. Deus não depende da reputação de ninguém que ele usa. Ele depende apenas da sua própria graça e do seu próprio poder.

Esses homens sabiam o que era viver do lado de fora. Sabiam o que era ser observado com desconfiança. Sabiam o que era carregar um rótulo de imundo. Naquele mundo, a lepra atingia a posição social inteira. Um leproso não carregava apenas uma ferida na pele, carregava uma sentença de afastamento. Era alguém marcado, estigmatizado, rotulado, alguém que a sociedade preferia manter à distância. E por isso mesmo eles estavam prontos para o trabalho a que foram chamados, porque quem já perdeu tudo tem menos medo de perder alguma coisa. Quem conhece a dor do abandono pode desenvolver uma coragem que o conforto não consegue ensinar.

Nunca conclua que alguém está fora do propósito de Deus apenas porque está fora dos círculos de prestígio social do momento. Há pessoas que têm profundas cicatrizes, mas que ainda carregam um chamado e uma missão. Gente rejeitada pelos homens continua sendo escolhida por Deus. Perdeu espaço na sociedade, mas não perdeu o seu propósito na vida. Hoje, em muitos ambientes da sociedade, a igreja é tratada como antiquada, inconveniente, indesejável. Você é crente? Como você pode ser crente? Você é muito bonito e inteligente para ser crente. Por vezes nós somos considerados os leprosos da sociedade brasileira. Somos rotulados, caricaturados, subestimados, muitas vezes do lado de fora dos muros da cultura dominante. Mas Deus pode usar aqueles que a cultura despreza. Os leprosos não tinham poder político, não tinham prestígio, não tinham influência, mas tinham algo que a cidade precisava: apenas uma boa notícia.

Em tempos difíceis, Deus ainda escolhe instrumentos improváveis. Levanta os pequenos, os desprezados, coloca seus tesouros em vasos frágeis. E quando a resposta vem de quem ninguém esperava, fica claro que a glória não pertence a ninguém, senão a ele. Toda honra, toda glória, todo louvor, toda adoração, o domínio pelos séculos dos séculos. Nesses dias difíceis, talvez Deus tome justamente os que foram colocados à margem para trazer a notícia que mudará a vida de todo mundo. Os rejeitados de hoje podem se tornar os mensageiros da libertação de amanhã.

Não morrer sentado: a decisão que muda a história

Em segundo lugar, os heróis daqueles dias e dos nossos dias de angústia são gente que não se acovarda e luta dignamente diante da morte. Aqueles quatro homens já estavam sentenciados. A lepra carregava sobre eles um veredito. Se permanecessem onde estavam, morreriam. Se entrassem na cidade, morreriam de fome com os demais. Se fossem ao arraial dos sírios, poderiam ser mortos. Eles não tinham uma opção confortável, tinham apenas escolhas difíceis. E é nesse ponto que eles tomam uma decisão.

“Para que estaremos nós aqui sentados até morrermos?” Essa é uma pergunta que muda a história. Eles perceberam que permanecer parados também era uma escolha, e nesse caso a pior delas. Há momentos em que a maior ameaça é a paralisia que se instala dentro de nós. A crise produz medo. O medo prolongado produz apatia, omissão, estagnação. Isso é uma forma silenciosa de morrer, a derrota sem luta. Não existe dignidade em se render sem lutar. Aqueles homens poderiam morrer, mas decidiram que não morreriam sentados. Eles não cruzaram os braços, simplesmente se levantaram, foram adiante, assumiram um risco, enfrentaram o desconhecido e começaram a andar.

Simplesmente continue andando. Continue andando. Continue seguindo. Não pare. Continue fazendo o que você sabe que tem que fazer. Há pessoas que a frustração roubou a coragem, e que passaram a assistir a própria vida de uma cadeira, de um sofá. Aqueles leprosos ensinam que enquanto houver um passo possível, ainda existe alguma coisa a ser feita. Enquanto houver uma decisão aceitável, a história ainda não terminou. Enquanto houver vida, ainda existe campo para coragem, para a fé e para o movimento.

A apatia, a negligência, a indolência e a acomodação produzem um anestesiamento na alma. A pessoa continua respirando, mas já desistiu. Continua existindo, mas no fundo está apenas vegetando. Aqueles quatro homens recusaram essa morte antecipada. Mesmo debaixo de uma sentença, tomaram a decisão de avançar. Não entregaram a história antes da hora. Não chamaram de destino uma circunstância momentânea.

Vivemos a era do cinismo. Se é possível decifrar a pós-modernidade, ela é a era do desencanto, da desesperança, onde as pessoas abraçaram simplesmente o cinismo: vida, deixa ser do jeito que for, vamos tocar do jeito que der. Mas o hino da contrarrevolução de 64, de Geraldo Vandré, diz: quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Nós somos formadores, nós somos arquitetos culturais, estamos aqui para dobrar a realidade. Nós cremos em um Deus todo-poderoso e acreditamos que não há impossíveis para suas promessas. Tudo é possível ao que crê, e se você crê, você verá a glória de Deus.

Eles não sabiam o que encontrariam no acampamento sírio, mas sabiam que ficar parados não ia mudar nada. Coragem não é ausência de risco, é a decisão de avançar apesar do risco. O primeiro milagre da crise não acontece ao nosso redor, acontece primeiro dentro de nós, quando recuperamos a disposição de levantar, de tentar novamente, de caminhar, de agir, de prosseguir. Eles estavam cercados pela morte, mas possuíam uma coisa que a morte não havia tomado: a capacidade de decidir o próximo passo. Enquanto você ainda pode decidir o próximo passo, a crise ainda não escreveu o último capítulo. Eles não escolheram entre viver e morrer. Escolheram entre morrer sentados ou correr o risco de talvez encontrar a vida. Simplesmente continue andando.

A esperança que se recusa a aceitar que tudo acabou

Em terceiro lugar, os heróis dos dias de tribulação são aqueles que acreditam que o melhor ainda está por vir. Eles não aderiram ao cinismo. Um pós-modernista raiz é desencantado, liga o dane-se, seja o que for, deixa aí. Um herói dos dias de tribulação sabe que pode fazer a diferença e deixar sua marca no mundo. No verso 4, aqueles homens fazem um raciocínio simples: se dissermos entremos na cidade, a fome na cidade e morreremos aí; se ficarmos aqui, também morreremos; vamos, pois, agora e demos conosco no arraial dos sírios; se nos deixarem viver, viveremos; se nos matarem, tão somente morreremos.

Eles chegaram ao limite. Não tinham garantias, não tinham promessas de sobrevivência, nenhum plano sofisticado, nenhuma possibilidade evidente. Uma possibilidade é tudo que a esperança precisa para respirar. Quem não tem mais nada a perder tem uma liberdade extraordinária para decidir. Aqueles homens poderiam ter transformado a sua condição em amargura, como muitos de nós, que ficam ressentidos porque as coisas não deram certo, que ficam atrás de culpados, que culpam até Deus. Eles poderiam ter abraçado o cinismo ou se entregado ao fatalismo, mas decidiram crer. Existia uma alternativa que eles ainda não conseguiam enxergar, porque esperança não é negar a gravidade da crise. Esperança é recusar-se a acreditar que a realidade presente esgotou todas as possibilidades de Deus.

Eles não disseram certamente viveremos. Disseram: se nos deixarem viver, viveremos. É uma esperança humilde, não arrogante, não triunfalista. Uma esperança que não controla o resultado, mas se recusa a se entregar ao desespero. Se você não consegue enxergar a solução, não significa que a solução não exista. Você não precisa conhecer o caminho inteiro, o mapa todo, para dar o primeiro passo. Você não precisa entender tudo que Deus está fazendo, porque a Bíblia diz que Deus é o Deus que supera o nosso entendimento, e nós não vamos conhecer esse Deus se não abrirmos mão do direito de entender tudo. Paulo escreve: “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Romanos 8.28).

O texto não diz que todas as coisas são boas. A fome não era boa, a lepra não era boa, o cerco não era bom, a ameaça de morte não era boa. Mas Deus é capaz de pegar circunstâncias que não são boas e fazê-las prosperar, cooperar para um propósito melhor. Aqueles homens não sabiam, mas enquanto discutiam a situação, Deus já estava trabalhando. O acampamento do inimigo já estava sendo visitado. Deus já está visitando o acampamento do inimigo. Ele já tinha uma palavra que não voltaria vazia. A palavra do profeta iria se cumprir de alguma forma. Tudo que precisamos é de uma palavra procedente de Deus. Se Deus disse, está dito, está feito, não tem como voltar atrás. Nenhuma das suas palavras vai cair por terra, nem voltará vazia. Passarão céus, passará terra, mas a sua palavra jamais passará (Mateus 24.35).

Enquanto eles viam apenas três caminhos, e todos terminavam em morte, Deus estava preparando um quarto caminho que eles não sabiam. Muitas vezes esse é o problema: nós queremos criar o único caminho por onde Deus vai operar na nossa mente, mas Deus tem incontáveis formas de fazer o que ele quer fazer na sua vida. Ele não precisa ir por um meio convencional. Ele vai surpreender você com novas formas de fazer aquilo que ele prometeu, porque aquele que é fiel vai fazer o que disse. Talvez você esteja fazendo seus cálculos apenas com aquilo que consegue ver, mas Deus não está limitado às alternativas que você conhece. Há possibilidades fora da sua planilha, portas fora do seu campo de visão. Existe um horizonte maior. Há movimentos de Deus acontecendo em lugares que você ainda não chegou. Ele já está lá, no lugar onde você não consegue ir.

Os heróis da fé não são necessariamente aqueles que sabem o que acontecerá amanhã. São aqueles que se recusam a declarar que amanhã será igual a hoje. Eles dizem: pode haver algo melhor adiante. E o que eles fazem? Eles começam a caminhar. O presente pode estar escuro, a situação pode parecer impossível, mas o futuro nunca estará completamente fechado. A fé não afirma que tudo está bem. A fé afirma que Deus ainda pode fazer surgir o bem de dentro daquilo que está mal.

Os quatro leprosos partiram esperando talvez encontrar a misericórdia de alguns soldados, mas encontraram a misericórdia de Deus. Esperavam apenas por sobrevivência e encontraram abundância. Esperavam migalhas e encontraram tendas cheias. Aquilo que Deus preparou adiante é muito maior do que a expectativa que nos faz levantar.

O tempo de Deus chega vestido de impossibilidade

Em quarto lugar, os heróis dos dias de luta são aqueles que discernem o tempo de Deus. Diz o texto: “levantaram-se ao anoitecer, para se dirigirem ao arraial dos sírios, e tendo chegado à entrada do arraial, eis que lá não havia ninguém” (2 Reis 7.5). Há uma expressão extraordinária aqui: ao anoitecer. Humanamente falando, era a pior hora. Eles não partiram pela manhã, quando havia luz. Não escolheram o horário mais seguro. Não esperaram que as circunstâncias se tornassem favoráveis. Levantaram-se quando o dia estava terminando e a escuridão começava a dominar a paisagem.

Há momentos em que o tempo de Deus parece completamente impróprio aos nossos olhos, aos nossos critérios. Gostaríamos que Deus agisse quando tudo estivesse organizado, quando tivéssemos segurança, quando as condições fossem favoráveis. Há casais que têm medo de ter filhos, esperando o momento apropriado. Mas filhos nunca vêm sozinhos. Eles trazem consigo anjos, trazem consigo colheitas, trazem consigo recompensas, trazem consigo provisões. O que Deus abençoou você até aqui, ele vai te abençoar mais quando os bebês chegarem.

Muitas vezes o tempo de Deus chega vestido de impossibilidades. Abraão recebe um filho quando biologicamente não consegue concebê-lo. Israel atravessa o mar quando o exército de faraó está logo atrás. Gideão enfrenta milhares de midianitas, amalequitas e povos do oriente apenas com trezentos valentes. Jesus manda retirar a pedra quando Lázaro já estava morto há quatro dias. Quatro leprosos se levantam para caminhar em direção a um exército poderoso ao anoitecer. Mas quando Deus determina uma hora, a impossibilidade das circunstâncias não cancela o seu propósito. Suas circunstâncias vão se render à promessa de Deus.

No verso 5 diz que os leprosos se levantaram ao anoitecer. No verso 7, o texto diz que os sírios fugiram ao anoitecer. Há uma sincronia impressionante. Quando os leprosos começaram a andar, Deus amplificou o barulho dos pés daqueles homens. Quatro homens frágeis caminham, um poderoso exército foge. Na mesma hora da noite em que os fracos avançaram, os poderosos recuaram. Os quatro leprosos não sabiam o que Deus estava fazendo, eles apenas estavam caminhando. E enquanto caminhavam, Deus fez ouvir um exército chegando.

Diz o verso 6 que o Senhor fizera ouvir no arraial dos sírios ruído de carros e de cavalos, o ruído de um grande exército, de maneira que disseram uns aos outros: eis que o rei de Israel alugou os reis dos eteus e os reis dos egípcios para virem contra nós. Os leprosos estavam caminhando, e o barulho que chegou ao arraial era de exércitos poderosos, o tropel de carros, de cavaleiros, de cavalos. Quatro pares de pés fracos, quatro homens enfraquecidos pela doença, mas o inimigo ouviu uma grande força militar se aproximando. Deus está visitando o arraial do inimigo essa noite. Deus está visitando o arraial do inimigo nesses próximos meses. Deus tomou apenas algo pequeno e fez com que parecesse enorme aos ouvidos do adversário. Deus é o melhor publicitário nesse caso.

Existem cristãos, porém, que são publicitários de Satanás. Vendem um diabo tão grande, e pregam com tanto negativismo, que dá vontade de perguntar quanto estão ganhando com isso. Tem gente que prega de um jeito que faz o ouvinte pensar: nós estamos acabados, não tem mais chance para nós, é 666, é 333, é a besta. Não julgue o tamanho daquilo que Deus está fazendo pelo tamanho do instrumento que ele está usando.

O medo muda de lado

Na mesma hora em que os fracos se levantaram, os poderosos fugiram. Quatro homens caminham frágeis sobre a terra. No arraial ouve-se o estrondo de carros, o tropel de cavalos, o ruído de uma grande força militar. Os sírios dizem que o rei de Israel alugou contra eles os soldados dos eteus e os reis dos egípcios. E então o medo muda de lado. Eles estavam com medo. Agora quem está com medo é o inimigo. Os homens que deveriam estar apavorados estão avançando. O exército que deveria produzir terror está fugindo e abandonando tudo. Deixam tendas, cavalos, jumentos, comida, prata, ouro, vestes. Aquilo que durante meses representou a ameaça se transforma em provisão. O jogo virou.

Os leprosos entram nas tendas, comem, bebem, tomam prata, ouro, roupas, escondem os despojos e voltam para buscar mais. O que estava nas mãos do inimigo torna-se provisão para os famintos. Há um eco maravilhoso com o cântico de Maria: o Magnificat encheu de bens os famintos e despediu vazios os ricos (Lucas 1.53). Os famintos são alimentados, os que não possuíam nada encontram abundância, os que estavam do lado de fora tornam-se participantes da mesa.

Talvez você esteja andando à noite, a noite está escura, mas Deus está trabalhando por você. Em uma hora dessas você vai ver o sol amanhecer e os despojos do inimigo na estrada, para que você não faça nada a não ser recolhê-los. Você ainda está a caminho, mas Deus já chegou antes. Há coisas que Deus está fazendo antes de sabermos o que ele está fazendo. Enquanto você caminha, Deus está trabalhando adiante. Continue andando, continue seguindo, não pare, não desista. Enquanto você obedece, Deus está modificando as circunstâncias, modificando os cenários, alterando o horizonte. Você vê apenas a noite, mas Deus está fazendo o dia amanhecer cheio de despojos para você.

Quando os leprosos chegaram, descobriram que aquilo que eles tinham medo havia fugido. Aquilo que você tem medo vai começar a fugir. Quantas vezes sofremos por adversários que Deus já começou a remover, e não sabemos? Quantas vezes permanecemos parados diante de uma porta porque tememos o que está do outro lado? Há uma palavra muito simples para hoje: continue andando. Levante-se contra o derrotismo. Levante-se contra a resignação. Levante-se contra a visão sombria. Levante-se contra o medo que sequestrou a sua imaginação. Levante-se contra a ideia de que a noite significa que Deus parou de trabalhar. Ele trabalha também no turno da noite, e ele é galardoador daqueles que nele esperam.

Boas novas que não podem ficar guardadas

Quem encontra as boas novas não pode guardá-las só para si. Depois de comerem, beberem, tomarem os despojos, aqueles homens perceberam que havia algo errado. Estavam desfrutando sozinhos daquilo que poderia salvar uma cidade inteira. Então disseram: “não fazemos bem; este dia é dia de boas novas, e nós nos calamos” (2 Reis 7.9). Eles entenderam que a provisão que receberam carregava uma missão. Aquilo que receberam não era apenas deles. A abundância que os alcançou precisava alcançar a outros. Muitos cristãos falham em saber que administram não apenas recursos, e que finanças, dinheiro, não é apenas um privilégio, mas uma responsabilidade que Deus dá para nós.

A notícia que os libertou precisava ser anunciada. Os quatro leprosos então se tornam evangelistas, mensageiros. Chegam ao arraial buscando pão, saem carregando boas notícias. Quem encontra vida não consegue viver indiferente diante de quem ainda está morrendo. Há uma cidade faminta atrás dos muros, famílias desesperadas, gente acreditando que tudo acabou. Mas há boas novas. O inimigo fugiu. O cerco terminou. E existe provisão suficiente para todos.

Amanhã, quando você acordar, faça coro com o salmista e diga: “este é o dia que o Senhor fez, regozijemo-nos e alegremo-nos nele” (Salmos 118.24). E se você não lembrar desse texto, diga apenas: este é dia de boas novas. Acorde dizendo, durma dizendo, tome banho dizendo: este é dia de boas novas. A crise não termina quando eles encontram a comida. A crise termina quando eles decidem compartilhar o que encontraram. Quem encontrou Jesus e não compartilha Jesus não encontrou Jesus ainda, porque Jesus é algo tão extraordinário que, quando você encontra, não consegue ficar quieto sem dizer: minha vida foi mudada por ele, e pode mudar a sua também.

A bênção que passa por nós se torna uma missão. Deus nos alcança para que nos tornemos mensageiros para quem ainda está preso dentro dos muros. Os marginalizados se tornam arautos, os excluídos carregam a notícia que salva a cidade, os que ninguém queria ouvir agora possuem a mensagem que todos precisam escutar. Quando alguém encontra alguém muito famoso e poderoso, é possível olhar para essa pessoa sabendo que se tem algo maior do que o seu dinheiro, algo maior do que a sua fama, algo maior que o seu poder. Por isso não há posição de desvantagem. É preciso olhar para o outro como um ministro de Deus deve olhar para alguém faminto, para quem um pedaço de pão é um banquete. E há não apenas um pedaço de pão, há despojos em todo o caminho para distribuir a todos os que estão presos dentro dos muros, dentro dos guetos, dentro desses nichos de gente faminta por Deus que troca Deus por um hobby, por poder, por dinheiro, por prazer. Mas há algo mais que eles precisam, e podemos oferecer.

Levante-se em fé

Por fim, levante-se em fé, quando tudo parecer escuro, quando as circunstâncias disserem que não há saída. Levante-se mesmo sem conhecer os detalhes. Deus transforma as ameaças em provisão. Ele faz o inimigo abandonar aquilo que parecia impossível de conquistar. E quando você chegar, não esqueça: a colheita não termina em você. A colheita não é só sua. Coma, desfrute, celebre, mas volte para buscar outros. Há gente dentro dos muros esperando pela notícia que você já recebeu. Há pessoas morrendo de fome perto de uma abundância que ainda não conhecem. Há famílias, cidades e nações esperando pela mensagem de que existem boas novas.

Deus está dizendo: levante-se em fé, eu já estou trabalhando adiante de você. Quando eu colocar provisão em suas mãos, não a transforme em consumo, transforme em testemunho, em serviço, em boas novas.

Um convite direto

Depois de percorrer o texto de Segunda Reis 7 do início ao fim, o convite que fica é simples e pessoal. Jesus é a resposta para as questões primordiais, essenciais da existência. Ele é o caminho, a verdade e a vida. Ele é as boas novas. Ele foi para a cruz para morrer pelos pecados, para perdoar, redimir, restaurar, resgatar do império das trevas para o reino do Filho do seu amor. Quem entrega o coração a ele recebe a boa notícia do perdão dos pecados, da provisão das necessidades, da cura das doenças, da restauração dos relacionamentos, da geração de descendência, e acima de tudo a salvação da alma e a eternidade em sua presença. Ele veio para os seus, e os seus não o receberam, mas a todos quantos o receberam deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, os que creem em seu nome (João 1.12).

Continue andando. Este é um dia de boas novas.

Para acompanhar a mensagem completa, com todos os detalhes e o clamor ao vivo desta ministração, assista ao vídeo na íntegra e ouça também o episódio correspondente no podcast pessoal de Bispo JB Carvalho.