José do Egito: o legado que venceu a amargura

José: O Legado que Venceu a Amargura | JB Carvalho — thumbnail do vídeo

O legado de José não está no seu nome, está nas suas gerações.

A leitura de abertura vem de Gênesis 41.39-45, o momento em que Faraó eleva José ao governo de toda a terra do Egito, troca suas vestes, coloca em seu pescoço um colar de ouro, muda o seu nome e lhe entrega uma esposa. É um texto de exaltação, de virada, de coroação. Mas essa mensagem não é sobre o trono de José. É sobre o que vem depois do trono, sobre o que ele deixou quando já não estava mais ali. Encerra-se aqui uma série de mensagens chamada Soberania e Legado, e o desafio proposto para essa última noite é falar especificamente sobre herança e sobre legado.

Herança e legado: o que carregamos além de bens materiais

A ideia bíblica de herança é mais ampla do que parece à primeira vista. Ela pode ser transmitida de maneira hereditária, espiritual e psicologicamente, para o bem ou para o mal. Herdamos não somente posses ou dívidas, mas heranças espirituais e até genéticas. O detalhe importante é que o poder do ambiente pode superar aquilo que aparece como assombração ou perseguição espiritual. Ao longo de décadas de ministério é possível observar pessoas com uma perseguição visível, algo que tenta impedi-las de alcançar aquilo para o qual foram destinadas.

A bênção é autorização para prosperar. A maldição é um bloqueio a isso. Naturalmente todas as pessoas deveriam crescer e prosperar, porque Deus fez a humanidade assim. Quando ele criou o homem, disse a ele: sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra, dominai. A natureza, o DNA humano, é de ser próspero. Somos uma raça de reis. Mas existem pessoas sendo impedidas, e tanto a bênção quanto a maldição necessitam de cooperação humana para se manifestarem.

Simeão e Levi: a mesma culpa, dois destinos diferentes

Em Gênesis 49, Jacó profere sobre seus filhos previsões, profecias e vaticínios. Sobre Simeão e Levi, ele diz que são irmãos, que suas espadas são instrumentos de violência, que no seu furor mataram homens e na sua vontade perversa jarretaram touros. Maldito seja o seu furor, pois era forte, e a sua ira, pois era dura. Jacó declara que os dividiria em Jacó e os espalharia em Israel.

Simeão foi o segundo filho de Jacó, Levi o terceiro, e ambos receberam as mesmas palavras por conta da mesma ação: foram instrumentos de crueldade quando exterminaram todos os homens em Siquém, em retaliação pelo estupro da irmã deles, Diná. Jacó se lembrou desse acontecimento e os amaldiçoou por conta da ira que os dominou.

A Bíblia fala de uma ira piedosa. É natural que uma pessoa se ire contra a injustiça, contra aquilo que está errado. A Bíblia diz: irai-vos, mas não pequeis. É possível se irar e ficar com raiva, mas não se pode dar lugar a isso para que se transforme em algo brutal, maligno. Existe uma ira justa e uma ira ímpia. Efésios 4 fala que longe de nós deve estar toda amargura, cólera, ira, gritaria, blasfêmia e malícia. O texto descreve a progressão do que se transforma a amargura, primeiro em cólera, depois em ira, depois em malícia.

Por conta do episódio de Diná, Jacó disse que Simeão e Levi seriam divididos e espalhados. E assim aconteceu, mas de formas diferentes. A tribo de Simeão se tornou a mais fraca das doze e acabou absorvida pela distribuição das terras em Judá. Simeão tornou-se pequeno. Levi, diferentemente, conseguiu resgatar sua própria história por um ato de coragem. No episódio do bezerro de ouro, quando Israel caía na idolatria, Moisés viu que o povo estava desenfreado, pois Arão o deixara solto para vergonha no meio dos seus inimigos. Arão pôs-se em pé à entrada do arraial e disse: quem é do Senhor, venha até mim. E se ajuntaram a ele todos os filhos de Levi, conforme relata Êxodo 32.

Levi foi a primeira tribo a se levantar contra a rebelião do bezerro de ouro, e por causa dessa fidelidade se tornou a tribo dos sacerdotes. Spurgeon comenta essa passagem dizendo que tanto Simeão quanto Levi foram dispersos, mas um com bênção e outro com maldição. Levi, embora comece com uma sombra escura pairando sobre ele, vive de modo a transformar até mesmo essa sombra em luz brilhante. Levi recebeu uma bênção das mãos de Moisés, uma das mais ricas de todas as tribos. Ele virou a chave por uma atitude de obediência radical que corrigiu sua trajetória e seus erros passados. Simeão não foi capaz de fazer isso.

O legado invisível da amargura

Há um artigo escrito recentemente com o título Legado Invisível da Amargura, que traz uma pesquisa da Universidade de Washington sobre corvos. Sim, os pássaros. Os corvos são capazes de reconhecer rostos humanos por anos. Num experimento, cientistas capturaram aves usando máscaras de ogros do Shrek. Depois disso, qualquer pessoa usando a mesma máscara era hostilizada pelos corvos, mesmo por aves que não haviam presenciado a captura. Até os filhotes passaram a odiar pessoas com máscaras de ogro. O medo e a ofensa foram transmitidos pela cultura.

Esse fenômeno explica muito sobre nós, seres humanos. Guardamos ofensas e as transformamos em heranças emocionais. Traumas coletivos são transmitidos pela cultura, e a epigenética explica parte disso. Emoções fortes e fatores externos, ambientes e traumas podem ativar ou silenciar genes sem alterar a sequência do DNA. Traumas profundos, como guerra, fome e perseguição, podem gerar modificações químicas que passam a ser herdadas. Quando uma emoção é muito forte, ódio, medo, ressentimento, ela pode deixar cicatrizes invisíveis não só na memória cultural, mas também na biologia das próximas gerações.

Pesquisas com descendentes de sobreviventes do Holocausto mostram indícios de que a memória do trauma não foi apenas cultural, mas também epigenética. Filhos e netos de sobreviventes, mesmo sem terem vivido nos campos de concentração, carregam narrativas, cautelas e medos. Ofensas não tratadas se transformam em heranças tóxicas. A amargura não apenas contamina relacionamentos, ela pode marcar uma pessoa interiormente, profundamente, radicalmente.

Árabes e judeus carregam memórias de conflitos milenares que se perpetuam por histórias, festas e símbolos. Crianças crescem já sabendo quem é o inimigo. Católicos e protestantes na Irlanda do Norte, durante gerações, viveram em conflito, com famílias ensinando os filhos a identificar símbolos, bairros e até sotaques como potenciais ameaças. Amaleque está vivo e presente onde existe um ambiente de amargura e ressentimento. Famílias que sofreram violência transmitem aos filhos padrões de hipervigilância e vivem assombradas, assustadas. Famílias repetem padrões de amargura: não confie, nunca perdoe. Essas memórias são transmitidas por narrativas contadas na mesa do jantar, nos livros escolares, nas músicas, por símbolos, monumentos, feriados, datas de luto. Isso cria um imaginário coletivo de perigo, como um corvo que nunca viu um ogro mas já o teme.

Como corvos, aprendemos a atacar rostos ligados à memória da dor, mesmo quando o rosto não representa nenhuma ameaça real. Criamos gerações que reagem a feridas antigas, cultivando ódio e ressentimento como se fossem parte da própria identidade. Essa memória da ofensa se torna um Amaleque cultural que atravessa gerações e promove disputas e guerras. Fica então o aviso: se a amargura não for tratada, os filhos lutarão batalhas que não começaram, odiarão inimigos que nunca conheceram e carregarão pesos que não lhes pertencem. A questão não é se herdamos memórias, mas qual delas vamos transmitir. É possível passar adiante o veneno da ofensa ou o testemunho da cura.

Esaú e Rúben: quando a primogenitura se perde

Isso aconteceu com Esaú. Ele gerou filhos, Amaleque e Edom eram seus descendentes, e ambos eram expressão da amargura, do revanchismo, do ressentimento. A herança do irmão de Jacó, que vendeu seu direito de primogenitura por um prato de lentilhas, foi tanto espacial quanto atemporal. Foi espacial porque Hebreus 12 fala que não haja em ninguém nenhuma raiz de amargura que, brotando, perturbe e contamine os demais. Há gente amargurada que amarga, que azeda, que torna tudo muito ácido, muito complicado de ouvir, carregada de vitimismo e ressentimento. E foi atemporal porque alcança gerações futuras, perpetuando ofensas. Se Isaque é o filho da promessa segundo a Bíblia, ou seja, se a promessa pode ser transferida geracionalmente, outros elementos que não sejam a promessa também podem ser transportados pelas gerações.

Há também a história de Rúben, filho primogênito de Jacó, que perdeu seu direito de primogenitura porque dormiu com a concubina de seu pai, Bila. O texto de Gênesis 49 registra Jacó dizendo que Rúben era seu primogênito, sua força, as primícias do seu vigor, o mais excelente em altivez e em poder, mas que, por ter subido ao leito do pai e o ter profanado, deixou de ser o mais excelente. Rúben foi vencido pela luxúria e profanou o leito do próprio pai. E José, embora fosse o décimo primeiro filho de Jacó, tornou-se o primogênito com dupla porção da herança.

José, o retrato mais completo de Cristo

Uma das histórias que mais impactou desde a infância é a história de José do Egito. Aos dez anos, uma série de filmes bíblicos chamada Os Heróis da Fé, com aquelas pedras de papelão e isopor visivelmente mal feitas, ainda assim deixava profundamente impressionado quem assistia como criança. E a história de José, dentre todas, foi uma das que mais marcou, porque em seu eixo carrega o roteiro cinematográfico que sempre funciona. Filmes com lacração e agenda ninguém quer assistir. O filme que emociona é o de um homem lutando pela sua família contra dragões, contra gigantes. É a história do jovem herói que faz a sua jornada, descobre seus dons, sofre muito e depois vence. Isso aparece no Rei Leão, em Matrix, em Luke Skywalker, porque esse drama está presente no inconsciente coletivo desde a fundação do mundo.

Apocalipse fala do cordeiro que foi morto antes da fundação do mundo, aquele cujo nome está escrito no livro da vida. Esse arquétipo do herói que se sacrifica está no imaginário coletivo. Os Avengers terminam uma série de mais de vinte filmes com um Homem de Ferro morrendo para salvar a humanidade, um plágio evidente da história de Jesus. Segundo a Bíblia, ele é o desejado das nações, conforme o profeta anuncia em Ageu 2, dizendo que Deus fará tremer os céus, a terra, o mar e a terra seca, fará tremer todas as nações, e virá o desejado das nações. Jesus é desejado por povos que nem o conhecem. As nações o esperam mesmo sem saber. Ele tem seu DNA incrustado na estrutura da realidade, é o arquétipo cósmico impresso em todas as entidades vivas e não vivas. Ao longo da história e da cultura ficam suas marcas, suas pegadas, símbolos que manifestam o anseio da alma por Deus, somente realizado na pessoa de Jesus, o Cristo. A narrativa divina se espalhou de forma distorcida por mitologias pré-evangélicas e religiões do mundo, como as histórias de Ísis e Osíris, o deus que morre, o que não tem nada a ver com paganismo, mas é simplesmente o eco do cordeiro morto antes da fundação do mundo.

Joseph Campbell, em seu estudo sobre o monomito, As Mil Faces do Herói, descreveu esse padrão arquetípico: o chamado para a aventura, o encontro com o mentor, a descoberta dos dons, o enfrentamento de provas e tribulações, a conquista da vitória e o retorno para casa. Jesus é a metanarrativa do cosmos, não apenas dos evangelhos. A história de cada pessoa, em última análise, aponta para a narrativa de Jesus Cristo.

Charles Spurgeon, o príncipe dos pregadores, disse que quase não há nenhum tipo pessoal no Antigo Testamento que não seja um retrato mais claro e completo do Senhor Jesus Cristo do que o tipo de José do Egito. José é um dos retratos mais notáveis do Messias em toda a Bíblia. Era pastor, era amado por seu pai, foi enviado por seus irmãos, era odiado por seus irmãos, profetizou sua própria glória vindoura, foi rejeitado pelos irmãos, sofreu punição injusta, foi condenado à cova embora houvesse quem soubesse que deveria ser libertado. Foi vendido por moedas de prata, foi entregue aos gentios, foi considerado morto mas ressuscitou do poço. Foi feito servo, foi severamente tentado mas não pecou, foi falsamente acusado e não teve defesa diante das falsas acusações. Foi lançado na prisão e contado entre pecadores e criminosos, sofreu punição injusta dos gentios, foi associado a dois outros criminosos, um perdoado e o outro não.

José demonstrou compaixão, trouxe uma mensagem de libertação na prisão, queria ser lembrado. Foi reconhecido como tendo o espírito de Deus, foi traído por amigos, foi glorificado depois da humildade. Foi honrado entre os gentios ainda que desprezado e esquecido pelos irmãos. Recebeu uma noiva gentia. Tinha trinta anos quando começou a grande obra da sua vida. Abençoou o mundo com pão, tornou-se a única fonte de pão para o mundo, e o mundo foi instruído a ir até José e fazer tudo o que ele dissesse. Recebeu um nome de Deus. Fala e ele vive. Os irmãos foram obrigados a deixar sua própria terra. Na segunda aparição, José não foi primeiro até eles, eles vieram até ele. Ele conhecia seus irmãos mesmo quando não era reconhecido por eles, e os abençoou sem que soubessem.

Houve um intervalo significativo entre o reconhecimento inicial e o segundo relacionamento. José deu aos irmãos um caminho de libertação por meio da substituição. Ao se dar a conhecer, foi revelado como homem compassivo, e os irmãos se arrependeram com espanto e lágrimas, cumprindo a profecia de que chorariam por aquele a quem transpassaram. José não permitiu comunhão plena até que se arrependessem. Eles saíram para proclamar sua glória. José fez provisão para os irmãos, preparou um lugar e os recebeu ali, reunindo judeus e gentios na terra.

José é uma tipificação do Messias, assim como Moisés, assim como Davi. A Bíblia é cristocêntrica, aponta para Jesus como personagem central da história. Efésios diz que todas as coisas devem orbitar e se centralizar na pessoa de Cristo. Ele é o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por ele. Não existe outro nome dado entre os homens abaixo dos céus pelo qual importa que sejamos salvos, nem outro mediador entre Deus e os homens senão Jesus Cristo homem. Todo joelho se dobrará e toda língua confessará que ele é o Senhor, para a glória de Deus Pai.

A história de José é a história de todos os heróis, e não existem heróis sem perdas, sem traições, sem ataques pelas costas, sem superações sobre-humanas, sem vitória final e retorno para casa. O que cada um faz com a decepção, com a dor, com o sofrimento, é aquilo que vai definir em última instância. Heróis são heróis porque superaram suas contradições. Vilões são vilões porque foram vencidos pelo ódio. Algo deu errado, algo não funcionou como se gostaria, e isso atingiu o nervo existencial e amargou o ser. Amaleque é amargura, amargura é Amaleque, e haverá guerra contra Amaleque em todas as gerações. A amargura tem o poder de transformar pessoas boas em pessoas más.

Treze anos entre a cisterna e o trono

O ponto central, o alvo desta mensagem, é que o legado de José não está no seu nome, está nas suas gerações. Antes de chegar a fome, nasceram dois filhos a José, gerados por Azenate, filha de Potífera, sacerdote de On. José chamou o primogênito de Manassés, dizendo que Deus o fez esquecer de todos os seus trabalhos e de toda a casa do seu pai. Ao segundo chamou Efraim, dizendo que Deus o fez próspero na terra da sua aflição.

José tinha todos os motivos para ser um amargurado, um ressentido, um homem ferido, daqueles que hoje soltam veneno de cobras, lagartos e escorpiões pela internet. Imagine um jovem adolescente jogado numa cisterna pelos próprios irmãos, vendido como escravo a uma terra estrangeira, colocado num mercado como mercadoria e vendido novamente. Imagine aprender o idioma local, servir mesas, limpar o chão, ascender na casa de seu senhor Potifar, tornar-se ali gerente, para depois ser assediado dia e noite pela mulher do chefe. Depois fugindo dela para não quebrar seus princípios nem ferir seu senhor, com sua capa ficando nas mãos dela como prova material de um crime que não cometera. Aquela mulher, ferida por ter sido recusada por um jovem escravo, inventou uma calúnia de tentativa de estupro. Acusado, o hebreu foi jogado no cárcere sujo e escuro.

Parece que tudo dá errado para esse rapaz, como se tudo conspirasse contra ele. Tempo depois, alguém aparece com um sonho na prisão, ele interpreta, depois interpreta outro. Eram os sonhos do padeiro e do copeiro do rei. Ambas as interpretações se cumprem, mas ele permanece esquecido. Até que, e com Deus sempre existe um até que, uma crise no governo exigiu habilidades que ninguém mais tinha, como acontece também com Daniel: há uma questão que ninguém resolve, chamam Daniel, Daniel resolve. Faraó tem um sonho perturbador e busca interpretação. O copeiro se lembra de José, ele é chamado, e em uma reunião de quinze minutos muda sua história para sempre.

Gênesis 37.2 registra que José tinha dezessete anos quando foi vendido pelos irmãos aos midianitas. Gênesis 41.46 registra que tinha trinta anos quando foi elevado por Faraó ao cargo de governador de toda a terra do Egito. Entre o momento em que foi vendido como escravo, aos dezessete, e o momento em que se tornou vice-rei, aos trinta, passaram-se treze anos. Não foi um final de semana difícil, foram treze anos. E há quem esteja lutando há um ano, dois anos, perguntando por que, Senhor, por quê.

Zafenate-Paneá: o revelador dos mistérios

Faraó deu a José um novo nome, Zafenate-Paneá. Na sua origem etimológica, é o revelador de mistérios ou o revelador do oculto. Na tradição judaica, aquele que revela o escondido. Tradutores modernos afirmam que o nome significa Deus fala e ele vive, ou o sustentador da vida. A Septuaginta, a tradução do Antigo Testamento para o grego, sugere Soter Kosmou, o salvador do mundo. José era visto como aquele que preservava vidas diante da fome, levantado por Deus para salvar vidas e revelar segredos ocultos.

O que impediu José de se tornar amargurado

Mas o que livrou José de se tornar um ser amalequizado? É preciso deixar de fazer de José um ressentido com espírito de vítima, algo muito comum hoje, na revolta das vítimas, na marcha dos oprimidos, dos que reivindicam direitos superiores a todos os outros, que protestam contra os que ganharam dinheiro às custas de vítimas que eles mesmos causaram, que depredam, destroem, invejam. Churchill disse que o comunismo é o evangelho da inveja, e alguém já disse que a inveja é a vingança dos derrotados.

O que fez José não virar Amaleque foi que ele tinha plena convicção do chamado que recebeu de Deus. Sabia que Deus controlava as variáveis. Anos depois, já cumprida a primeira parte da profecia, os irmãos aparecem em meio à fome, procurando comida, sem reconhecê-lo. Mas ele os reconhece. Diz o texto que José chama os irmãos para perto de si e revela: eu sou José, vosso irmão, a quem vendestes para o Egito. E então os consola, dizendo que não se entristeçam nem se irritem contra si mesmos por o haverem vendido, porque havia um propósito, um plano escondido, uma bênção por detrás de toda a dor, do desgaste da cova, da cisterna, do mercado de escravos, da mulher de Potifar, da cadeia.

José declara que foi enviado por Deus adiante deles para a conservação da vida, porque já havia dois anos de fome na terra e ainda restariam cinco anos sem lavoura nem colheita. Ele havia se tornado vice-rei havia nove anos e tinha agora trinta e nove. Foi enviado para conservar a sucessão deles na terra e preservar suas vidas por um grande livramento. Não foram eles que o enviaram para lá, mas Deus, que o pôs como pai de Faraó, senhor de toda a sua casa e governador de toda a terra do Egito.

Há um plano atrás das dores, dos sofrimentos, das lutas e das batalhas de qualquer pessoa. Imagine um sujeito ressentido e amargurado com tanto poder na mão quanto José tinha. Faraó havia dito que ninguém levantaria pé nem mão sem sua permissão. José, como Zafenate-Paneá, tinha o poder da vida e da morte, a pena capital nas mãos, podia simplesmente assinar e mandar matar. Se fosse um ressentido e ferido, causaria o maior estrago no Egito, assim como se vê acontecer hoje quando pessoas com poder de mando não digeriram suas decepções e seus sofrimentos, e estão no modo de dar o troco, de se vingar. Gente que não conseguiu lidar com o ferrão envenenado de Amaleque e está sangrando de amargura. Satanás continua recrutando os feridos e os ressentidos para o seu lado.

No contraponto disso, existe uma proposta de gerações para quem vencer suas dores, tragédias e decepções. Existe uma descendência geracional, física e espiritual, para quem sair do outro lado da fornalha, da cova dos leões, para quem supera a calúnia, o abuso, o desprezo, a injustiça, o esquecimento, o abandono. Existe uma recompensa incrível para quem vencer. O apóstolo Paulo escreveu que nada trouxemos ao mundo e nada podemos levar dele. Se nada trazemos e nada levamos, o que vamos deixar?

Manassés e Efraim: esquecer para frutificar

O processo de cura de José está ligado à sua família, aos seus filhos. Ele se casa com Azenate, egípcia, filha de Potífera, sacerdote de On, em Heliópolis. Azenate representa como Deus pode usar alianças inesperadas para cumprir seu plano de preservação. Deus sempre tem pessoas para preencher a vida de alguém com resgate e restituição.

Embora tenha alcançado grande glória no Egito e tido uma esposa egípcia, José não se esqueceu da fé de seus pais. Seus filhos receberam nomes hebraicos, não egípcios. É próprio do povo judeu entrar num lugar e moldá-lo, sem permitir que a cultura local o molde, porque aprenderam isso ao longo da história. O próprio Deus advertiu a Moisés que, ao entrarem na terra, não adotassem os costumes dela, porque a terra estava vomitando seus moradores por causa das práticas pecaminosas deles.

Ao primogênito, José deu o nome de Manassés, dizendo que Deus o fez esquecer de todo o seu trabalho e de toda a casa do seu pai. Para sobreviver, ele esqueceu não apenas o sofrimento do Egito, mas até os dias na casa de seu pai. A raiz da palavra hebraica nashá é remover da memória. É preciso entender que, antes de gerar fruto, é necessário ser liberto do ressentimento.

Ao segundo filho chamou Efraim, dizendo que Deus o fez próspero na terra da sua aflição. A raiz da palavra pará é o nome plural de fruto, ou seja, não é só fruto, é dupla fertilidade, dupla porção de fruto. José ressignificou sua experiência no Egito. Não apenas sobreviveu, mas foi frutificado na dor. Sua aflição se tornou terreno de multiplicação. Da dor nasceu crescimento. Ele transformou a aflição em testemunho que gera frutos para muita gente. O legado de José é a capacidade de transformar dor em bênção. Não existe Efraim, fruto, sem Manassés, cura. O verdadeiro legado são filhos que frutificam em meio à adversidade. O Egito, a terra da aflição, pode se tornar o lugar de maior crescimento se a narrativa for entregue a Deus.

O que Deus está dizendo sobre as dores e perdas de cada um? O que Deus diz sobre as mentiras que disseram, sobre a traição sofrida, sobre a empresa que quebrou, sobre as pessoas que foram embora, sobre as coisas que não deram certo? Deus tem uma resposta com frutos. Existe uma mesa preparada na presença da esposa de Potifar, dos irmãos que colocaram alguém na cisterna. Deus tem uma mesa preparada na presença dos inimigos.

Em seu livro O Grande Divórcio, C.S. Lewis descreveu o inferno como um lugar onde ninguém se esquece de nada, lembrando-se de cada ofensa, de cada troca de palavras cruéis, de cada mal que já lhe foi feito, e todos são totalmente implacáveis. No céu, diferentemente, todas essas coisas são deixadas de lado, porque tudo se faz novo. As dores podem mudar uma pessoa, mudá-la de lado, mudá-la de reino, e isso já aconteceu muitas vezes.

A bênção cruzada: Efraim antes de Manassés

Quando se fala das doze tribos, dos doze patriarcas, José não aparece entre elas. Quem está ali são seus dois filhos. Não há maior elogio para um pai do que isso. Quando Jacó estava prestes a morrer, chamou José e seus dois filhos e declarou, conforme o texto: os dois filhos que te nasceram na terra do Egito, antes que eu viesse a ti, são meus, Efraim e Manassés serão meus como Rúben e Simeão. Jacó adotou os netos como filhos, e eles passam a ter status de tribo como os demais filhos de Jacó. Não é mais Rúben quem ocupa aquele lugar de honra, é José. Deus honrou os filhos para honrar o pai.

Embora José não fosse o primogênito biológico, Jacó lhe concedeu a bênção do primogênito, que era receber porção dobrada da herança. A Bíblia diz que, ao invés da vergonha, haverá dupla honra. Zacarias fala aos prisioneiros da esperança que voltem à fortaleza, porque desde então Deus informa que restituirá o dobro. As coisas que foram perdidas e roubadas, Deus irá restituir ao seu povo.

Efraim mais tarde se torna símbolo do reino do norte. Manassés ocupa um território amplo, incluindo metade do lado leste do Jordão. O legado de José molda não apenas sua família, mas toda a história política e espiritual de Israel. A pergunta que fica é: qual geração está sendo preparada agora? José não deixou uma pirâmide, não deixou um monumento, não deixou uma fortuna. Deixou filhos que se tornaram tribos, uma história que se tornou esperança e um legado que ainda fala depois de milhares de anos. O maior legado de José não foi o que ele acumulou, mas quem ele gerou.

No texto de Gênesis 48, quando Israel estende a mão direita sobre a cabeça de Efraim, que era o mais novo, e a esquerda sobre a cabeça de Manassés, cruzando assim as mãos, mesmo não sendo Manassés o primogênito, ele abençoa José dizendo: o Deus em cuja presença andaram meus pais, Abraão e Isaque, o Deus que me sustentou durante a minha vida até este dia, o anjo que me tem livrado de todo mal, abençoe esses rapazes, seja neles chamado o meu nome e o nome de meus pais, Abraão e Isaque, e cresçam em multidão no meio da terra. É uma transmissão. Jacó está passando um bastão, transferindo a unção, passando a capa, o manto, entregando o que recebeu para outra geração.

Jacó concedeu a bênção com profunda consciência da aliança que veio da promessa de Deus a seu avô Abraão e a seu pai Isaque. Ele não disse quão fiel era a Deus, mas quão fiel Deus era a ele. A frase o Deus que me alimentou é, literalmente, o Deus que me pastoreou. Deus está pastoreando, cuidando, e qualquer coisa que aconteça foi permitida por ele ou será usada por ele.

Legados que atravessam gerações

Jacó deixa uma mensagem antes de morrer: eu morro, mas o propósito continua. Há gente que sabe morrer, porque existe coisa pior do que a morte, que é viver com indignidade, viver como covarde, viver de maneira fortuita e casual. Os cristãos no Coliseu, no circo romano, davam um testemunho tão poderoso à sociedade romana que as pessoas perguntavam onde esses cristãos se reuniam, queriam saber mais sobre eles, porque morriam com paz, com alegria, sem desespero e sem covardia. Jacó, segundo o texto, diz a José: eis que eu morro, mas Deus será convosco e vos fará voltar à terra dos vossos pais. Pai e filho falam a mesma linguagem, estão na mesma frequência.

Jacó foi o último dos três grandes patriarcas a andar na terra, o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, e das doze tribos. Spurgeon comenta essa sucessão dizendo: se Abraão morrer, há Isaque, se Isaque morrer, há Jacó, se Jacó morrer, há José, se José morrer, Efraim e Manassés sobreviverão. O Senhor nunca deixará faltar um campeão para erguer seu estandarte entre os filhos dos homens. Que se ore a Deus para que levante ministros mais fiéis, dia e noite, porque há muita linguagem refinada, muita eloquência floreada e pouca pregação completa e clara do evangelho, mas Deus manterá a sucessão apostólica. Quando Estêvão estiver morrendo, Paulo não estará longe. Quando Elias for levado ao céu, deixará o manto para trás.

Sobre o legado de outros personagens bíblicos e históricos, algo semelhante se repete. Abraão não construiu cidades, não gerou coisas físicas ou materiais, mas deixou uma herança espiritual para uma descendência que seria bênção para todas as nações. Seu legado era uma promessa viva, uma dinastia espiritual que Rute conseguiu ver em Noemi, quando ela não tinha nada, estava quebrada, acabada, viúva e velha, mas vinha de uma herança e carregava uma promessa de descendência. O apóstolo Paulo construiu tudo o que fez com os olhos na eternidade, dizendo aos seus que, assim como ele era a glória deles, eles seriam a sua glória no dia de Jesus. O legado de uma pessoa se mede pelas vidas que ela transforma. O verdadeiro legado não é o que se deixa para as pessoas, mas o que se planta dentro delas.

Débora deixou uma canção que atravessou séculos, e seu cântico inspirou coragem. Legado, portanto, pode ser uma palavra que ecoa no futuro. Moisés não entrou na terra prometida, mas deixou um Josué. Às vezes o maior legado é preparar outro para ir mais longe. O legado de Mordecai foi uma influência silenciosa que salvou uma nação. Nikola Tesla morreu pobre e esquecido, mas o mundo hoje é iluminado pela sua visão sobre corrente alternada. Seu legado estava além da sua geração. Há pessoas que morrem sem ver o bem que fizeram a este mundo, mas que na eternidade receberão sua recompensa. Beethoven ficou surdo e continuou compondo. No fim da sua nona sinfonia, quando foi aplaudido de pé, não ouvia nada, precisaram virar seu corpo para que visse o público em êxtase. Ele não ouviu o próprio som, mas o mundo continua ouvindo até hoje. Rosa Parks apenas ficou sentada num ônibus. Seu legado foi um simples gesto de coragem.

Os ossos que continuaram pregando

O livro de Gênesis termina com José dando ordens sobre os seus próprios ossos. Que sujeito é esse que fala dos seus ossos? José habitou no Egito, ele e a casa de seu pai, e viveu cento e dez anos. Viu os filhos de Efraim até a terceira geração. A promessa dos Salmos é viver para ver os filhos dos filhos crescerem. Também viu os filhos de Maquir, filho de Manassés, os quais tomou sob seus joelhos. Disse José aos irmãos: eu morro, porém Deus certamente vos visitará e vos fará subir desta terra para a terra que jurou dar a Abraão, a Isaque e a Jacó. José fez jurar os filhos de Israel, dizendo que certamente Deus os visitaria e que fariam transportar os seus ossos dali. Morreu José com a idade de cento e dez anos, foi embalsamado e posto num caixão no Egito, mas não enterrado ali.

As últimas palavras registradas de José foram que Deus não deixaria Israel no Egito, que os traria de volta a Canaã, e lá os ossos de José seriam finalmente sepultados. O texto de Hebreus 11 registra que, pela fé, Jacó, quando estava para morrer, abençoou cada um dos filhos de José e, apoiado sobre a extremidade do seu bordão, adorou. E que, pela fé, José, próximo do seu fim, fez menção do êxodo dos filhos de Israel, bem como deu ordens quanto aos seus próprios ossos. Sobre Jacó, o que se lembra dele como ato principal de fé no Novo Testamento, na galeria dos heróis da fé, foi ele ter abençoado os filhos de José. Nenhuma outra história de Jacó é contada ali. Essa era a história que interessava ao autor de Hebreus.

Sobre José, a galeria da fé não cita seus sonhos, não menciona sua ascensão ao trono como governador de toda a terra do Egito, o grão-vizir, nem lembra sua sabedoria diante de Faraó. O que se destaca na história de José é o que ele disse no fim da vida. Ele falou do êxodo, ele falou dos ossos. José sabia que morreria no Egito, mas não queria ser enterrado como um egípcio. Queria que seus ossos fossem levados quando Deus cumprisse sua promessa. Séculos depois, em Êxodo 13, Moisés leva os ossos de José, e o livro de Josué registra o cumprimento, sendo os ossos enterrados em Siquém. Mesmo morto, ele ainda pregava: Deus vos visitará.

José não deixou apenas um passado de conquistas, deixou um futuro de esperança. Seu legado não foi o Egito que governou, mas a Canaã que não chegou a ver. Ninguém controla como será lembrado, mas cada um pode decidir o que vai plantar hoje, o que vai deixar de fé transmitida. José mostra que legado não é onde se chega, é para onde se aponta. É como se ele dissesse a cada geração: não se acomodem no Egito, Deus tem mais para vocês, minha vida não termina aqui e a de vocês também não. José morreu aguardando ansiosamente a continuação do que havia começado. O livro de Gênesis termina com José dizendo, em essência, continua. O livro dos começos termina dizendo continua, porque Deus está dizendo que a história de cada um tem uma segunda parte, que ainda não terminou.

Sucesso é sucessão

A pergunta que fecha essa reflexão é simples: quando você não estiver mais aqui, quem continuará escrevendo a história que você começou? A Bíblia é um livro de arquétipos, e cada pessoa está interpretando um daqueles papéis. Há quem se pareça com Doeg, o edomita, o ressentido, maldizente, caluniador, e de vez em quando aparece um Doeg por aí. A Bíblia fala de Davi, e Deus amou tanto a Davi. Davi também é um arquétipo, como Saul é um arquétipo, como Jeú é um arquétipo. Na ausência de um Davi, de um Saul, de um Elias, de um Eliseu, às vezes aparece um Jeú por aí. Olhar para os personagens bíblicos como exemplos comportamentais ajuda a entender onde as pessoas vão chegar pela atitude que carregam.

O que Deus quer é levar alguém tão longe que essa pessoa possa levar outros com ela até onde ela chegou, e depois que o bastão for passado, o manto, a capa, as pessoas continuarão o que foi começado. Sucesso é sucessão. A vocação de formar discípulos é central. Num acampamento recente reuniram-se quase quinhentos jovens, um sinal de que investimentos assim não são gasto, são sempre plantio para o futuro. Vale a pena plantar para o futuro dos filhos, plantar livros, plantar programas de educação, formar discípulos, não ficar apenas na perspectiva biológica da geração. É preciso se envolver com pessoas, não de maneira comercial, mas no intuito de levá-las aonde precisam ir.

O encerramento dessa série de mensagens sobre legado deixa uma imagem: o bastão está na mão de quem ouve, algo está sendo recebido para ser levado adiante, como na corrida olímpica da tocha acesa, que precisa chegar acesa ao próximo corredor. O trabalho de Deus é acender o fogo, o trabalho de cada um é manter o fogo aceso, para que arda continuamente no altar e não se apague. A palavra profética para este momento é a de uma nova era de expansão e de crescimento, em que as coisas velhas ficaram para trás e tudo se faz novo. É tempo de pegar o bastão, de receber ferramentas e instrumentos para cumprir a missão, de acreditar que Deus dará oportunidades, recursos, possibilidades, abrirá portas, dará perdão e restauração para que cada um se levante, ande novamente e persiga o seu sonho. Como Levi, é hora de resgatar a própria história. Como Jacó, é hora de plantar sementes para o futuro. É tempo de investir, de avançar, de crescer, de prosperar.

A mensagem termina com uma declaração sobre a derrota de Amaleque, da decepção, da frustração, da dor que adoece, da inflamação e da perversão da alma que se torna maldizente, crítica, caluniadora. Junto com isso, a liberação de cura, de esquecimento daquilo que fere e de memória daquilo que dá esperança e frutificação, a liberação de Manassés e de Efraim, de um tempo de resgate e de restituição, de uma mesa preparada, de um momento de encontro e de restauração, para que tudo coopere para o bem daqueles que amam a Deus, e para que as maiores colheitas e as maiores vitórias alcancem as futuras gerações, os filhos, os netos, aqueles que ainda não nasceram.

Esse é o convite final: que cada um leve sua família junto, leve outros discípulos, abençoe como Deus abençoou Abraão para abençoar todas as famílias da terra, abençoe cidades, abençoe nações, e que a obra das mãos de cada um seja confirmada, com uma mesa preparada na presença dos inimigos.

Para acompanhar essa mensagem na íntegra, com todos os detalhes, aplicações e o momento de oração que a encerra, vale a pena assistir ao vídeo completo e ouvir também o episódio no podcast pessoal do Bispo JB Carvalho.