Os 7 Batismos de Naamã: Como Afogar o Orgulho nas Águas da Humilhação

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“Onde existe orgulho, existe queda, ruína, destruição.”

Segunda Reis, capítulo 5. A passagem começa com uma cena de contraste absoluto. Um homem coberto de honrarias, celebrado pelo seu povo, temido pelos seus inimigos, e ao mesmo tempo condenado por uma sentença que nenhuma medalha resolve. Vale a pena ler os versos 1 a 19 com atenção, porque essa história não é sobre lepra. É sobre o que existe por trás da farda de qualquer um de nós.

A palavra de Deus é lâmpada para os pés e luz para o caminho. Ela é martelo e fogo que esmiúça a penha. E hoje ela vai esmiuçar uma coisa específica: o orgulho, batizado aqui com o nome de um deus pagão chamado Rimon.

Um general poderoso, mas leproso

Naamã era comandante do exército do rei da Síria. O texto de 2 Reis 5.1 diz que ele era um homem honrado diante do seu senhor, de muito respeito, porque por meio dele o Senhor havia dado livramento aos sírios. Milhares de homens estavam debaixo das suas ordens. Ele era um herói de guerra, tinha um histórico de vitórias, era admirado pelos jovens do seu país, celebrado pelo seu povo, honrado pelo seu rei.

E o mais surpreendente do texto não é a grandeza de Naamã. É a informação de que Deus, na sua soberania, usava esse general estrangeiro para cumprir os seus propósitos, sem pedir conselho nem permissão a ninguém. Deus dava livramento aos sírios por meio de um homem que nem sequer conhecia o Senhor. Isso é um escândalo para qualquer teologia que queira colocar Deus dentro de uma caixinha de nação escolhida. Deus age onde quer, através de quem quer, para cumprir os seus planos.

Naamã tinha tudo isso. Coragem, fé rudimentar (ele acreditava em milagres, segundo o relato da jovem que servia sua esposa), riqueza, prestígio. E, no meio de tudo, uma adversativa que o texto não deixa passar em branco. “Porém Naamã era leproso.” Havia um limite, um entrave, uma sentença de morte, uma vergonha, uma crise, um espinho, uma mancha por trás da farda, por trás das medalhas, por trás das condecorações. Por detrás da imagem pública impecável existia um processo oculto de apodrecimento que corroía a sua carne.

Rimon: o deus por trás do orgulho de Naamã

A Bíblia registra que o general Naamã adorava o deus Rimon, o mesmo que Hadad Rimon, o deus supremo da Síria. Reis misturavam seus nomes com nomes de deuses na antiguidade, e a palavra Rimon significa trovejador. Rimon era uma entidade intimidadora, que presidia as chuvas, os trovões, as tempestades, destruindo colheitas.

O orgulho ainda destrói colheitas. Campos são devastados hoje pela soberba, pela arrogância. A superioridade é o orgulho daquilo que se tem. A inferioridade é o orgulho daquilo que não se tem. Ressentimento, rebelião, crítica, inimizade, exclusivismo, tudo isso vem da mesma base, da mesma raiz. O nome é Rimon. E onde existe orgulho, existe queda, existe ruína, existe destruição.

Provérbios 16.18 diz que a soberba precede a ruína, e a altivez de espírito, a queda. A desgraça é a resistência de Deus. Ele resiste ao soberbo e dá graça ao humilde. Naamã tinha uma confiança exagerada em seus méritos e uma forte idolatria em relação à sua própria reputação. Deus, porém, sempre tem a dose certa do remédio que precisamos. Quando as virtudes não estão sob o manto da humildade, o resultado é lepra. Sem quebrantamento, o dinheiro vira lepra. Sem humildade, a beleza vira lepra. Qualquer dom, habilidade ou talento não santificado, não redimido, se transforma em lepra. E quanto mais alguém ostenta uma imagem, mais apodrecida ela está por dentro. É a idolatria da honra, a concupiscência da aceitação, gente que exige o monopólio da atenção.

O rei rasga as vestes: quando a humildade vira alvo do profético

Naamã trouxe uma carta do rei da Síria ao rei de Israel, exigindo cura. Essa é a única linguagem que algumas pessoas conhecem. Ele levou consigo dez talentos de prata, seis mil ciclos de ouro e dez mudas de roupas finas, numa tentativa clara de comprar o favor divino. Com mentalidade pagã, ele e o rei da Síria acreditavam que a cura era uma espécie de magia que podia ser adquirida. A idolatria da posição trouxe uma imposição, quase uma ordem de pagamento pelo milagre.

O rei de Israel, ao ler a carta, rasgou suas vestes e disse: “Acaso sou Deus, com o poder de tirar a vida ou dá-la, para que este envie a mim um homem para eu curá-lo da sua lepra?” (2 Reis 5.7). Naamã deu uma carteirada no rei de Israel, Jorão, filho de Acabe, e ele encarou isso como pretexto de guerra. Mas o gesto de rasgar as vestes é um gesto de humilhação, e a humildade é o grande valor que precisa ser resgatado hoje.

Provérbios 18.12 diz que antes da ruína se exalta o coração do homem, e diante da honra vai a humildade. Diante da honra vai a humildade. Essa atitude de humilhação do rei chamou a atenção do ministério profético. Eliseu manda dizer: “Deixa vir a mim e saberás que há profeta em Israel.” A frequência do profeta se nivela à arrogância das autoridades sírias. Ele sobe o tom, ele enfrenta no mesmo nível, mas com outro tipo de ousadia, não baseada na força do braço ou na habilidade pessoal, e sim na dependência de Deus. Jeremias 9.23 já dizia: não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem o forte na sua força, nem o rico nas suas riquezas, mas o que se gloriar, glorie-se em conhecer o Senhor.

Salmo 138.6 confirma o princípio: o Senhor é excelso, e atenta para os humildes, mas aos soberbos conhece de longe. Jairo, chefe da sinagoga, se humilhou diante de Jesus mesmo tendo uma posição de autoridade religiosa, para que sua filha fosse curada. Há pessoas que são destruídas pelo sucesso e se tornam vítimas da própria unção. É difícil, para alguns, por causa do orgulho da posição. Naamã, general, chefe do exército da Síria, teria que entrar na fila e baixar a bola, porque o legado da soberba é sempre a ruína.

O jovem rico e os posers da fé

Existem aqueles que se acham justos, possuidores de mérito, como o jovem rico que perguntou a Jesus o que fazer para herdar a vida eterna. Jesus cita os mandamentos, e o rapaz vai enumerando cada um deles, arrogando-se de tê-los decorado e cumprido. Ele é um poser, um termo que descreve alguém que finge ser algo que não é, adotando aparência, atitudes, linguagem ou gostos apenas para impressionar os outros ou se encaixar em algum grupo.

O jovem rico atravessa a narrativa sem nome. Ninguém sabe quem ele é, porque ele está tomado de méritos e justiça própria em relação aos próprios feitos, e libertar uma pessoa da teia dos seus próprios méritos não é tarefa simples. Jesus dá um comando radical: vender tudo, deixar tudo e segui-lo. E porque esse jovem não aceitou o convite, permaneceu na história sem nome.

Ele parece piedoso, parece um bom rapaz, tem textura, tem verniz, tem fachada, como boa parte desta geração. Aparenta autenticidade, mas é só performance. Se Hamlet fosse escrito hoje, não seria “ser ou não ser”, seria “ser ou parecer”. Eis a questão. É preciso arrancar as garras profundas de Rimon.

O que é orgulho, afinal

Na lista dos sete vícios capitais, o orgulho vem em primeiro lugar. Ele é o chefe dos outros vícios. Segundo o dicionário de Oxford, orgulho é uma presunção irracional de superioridade. O orgulho é o prazer de estar por cima. Rimon sempre está olhando de cima para baixo.

Há uma história de um filho argentino que diz ao pai: “Papai, quando eu crescer eu quero ser como você.” E pergunta: “Por que me admira?” O filho responde: “Para ter um orgulho como o seu.” O orgulho destrói relacionamentos. Casamentos acabam, amizades terminam. Rimon já acabou com famílias e varreu nações inteiras para a destruição. As ramificações do orgulho são muitas: arrogância, presunção, insolência, vaidade, altivez, soberba, jactância, vanglória. O orgulho põe o amor próprio à frente do amor a Deus e do amor às outras pessoas. No dicionário do diabo, eu sou a pessoa mais importante do universo. Para poetas, artistas, teólogos e eruditos cristãos, o orgulho é o rei de todos os vícios, o pecado principal, o supremo mal. Foi pelo orgulho que anjos se tornaram demônios.

Pior, o orgulho tem muitos disfarces. Santo Agostinho dizia que simular humildade é ser soberbo. Blaise Pascal afirmava que a falsa humildade é puro orgulho. Não há nada pior do que orgulho travestido de espiritualidade, gente orgulhosa da sua castidade, da sua santidade, da sua posição, da sua não pecaminosidade. C.S. Lewis dizia que um homem nunca é tão orgulhoso quanto quando adota conscientemente uma atitude de humildade. As formas coletivas de orgulho hoje são o racismo, o denominacionalismo, o nacionalismo, o academicismo.

Deus resiste aos soberbos e dá graça aos humildes. E Deus pode estar resistindo a algumas pessoas que pensam que é o diabo quem luta contra elas. Naamã, Deus está resistindo a você. Então é preciso entrar na escola do quebrantamento, entrar em tratamento. Kierkegaard dizia que Deus cria tudo do nada, e tudo que Deus usa, ele primeiro reduz a nada. Deus sabe onde apertar para nos tratar. Ele sabe onde lidar com o Rimon em nós.

Os sete batismos de Naamã

Naamã, com seus cavalos e seus carros, parou à porta da casa de Eliseu. Toda a comitiva, todo o impacto na cidade, toda a cena que a multidão via passar. Profetas que viram a glória de Deus não se impressionam com pompa, com nobreza, com tronos e cortes imperiais. Eliseu nem sequer aparece. Apenas manda uma mensagem: “Vai, lava-te sete vezes no Jordão, e a tua carne se te restaurará, e ficarás purificado” (2 Reis 5.10).

Deus queria arrancar e afogar no rio Jordão a altivez do orgulho do general da Síria. Deus resiste ao soberbo por meio do profeta, e o obstáculo real à cura do general não era a lepra, era o orgulho. Para lidar com ele, Naamã teria que tomar sete banhos. Sete batismos, sete mergulhos. Rimon tem sete vidas, e tem que morrer completamente.

Primeiro batismo: aceitar o conselho de uma escrava

As tropas da Síria haviam levado cativa uma menina israelita, que passou a servir a mulher de Naamã. Foi ela quem disse: “Quem dera o meu senhor estivesse diante do profeta que está em Samaria, ele o curaria da sua lepra” (2 Reis 5.3). Deus usa pessoas humildes para abrir portas de milagres. Uma jovem cativa, sem nome, sem status, sem voz na sociedade daquele tempo, indica o caminho para a cura de um dos homens mais poderosos da Síria.

O conselho profético às vezes vem de onde menos se espera. A menina era escrava do país do exército inimigo daquele povo. E se alguém quer cura, vai ter que lidar com as próprias ofensas, vai ter que atropelar o próprio ego e ouvir pessoas que preferiria não ouvir. Esse é o primeiro mergulho de Naamã, e ele nem tinha ainda tocado a água do Jordão.

Segundo batismo: ser recebido por um mensageiro

Eliseu não recebe Naamã pessoalmente. Manda um mensageiro, um garoto, Geazi provavelmente, com uma instrução seca: vá e lave-se sete vezes no Jordão. Eliseu nem aparece na janela. Esse profeta tem muita autoestima, e isso soou, para Naamã, como uma terrível grosseria. Mas o orgulho só é tratado assim, com grosseria profética.

Naamã não foi recebido por uma comitiva cheia de honrarias. Foi claramente desprezado pelo profeta. Às vezes o desprezo é a linguagem que Deus usa para lidar com o orgulho. A pergunta que fica é: como você se sente quando é subestimado, desprezado, desacreditado, criticado? Isso mostra o quão vivo está Rimon dentro de você.

Naamã não foi tratado conforme o seu status. Foi uma prova, um desafio, uma provocação profética. Vale lembrar que esse mesmo Eliseu é aquele que trata a sunamita com uma delicadeza diferente, perguntando se ela queria que ele intercedesse por ela junto ao capitão ou ao rei. Ele não é sempre rude, não é sempre áspero, é até doce em vários momentos, com exceção do episódio da ursa. Mas ele vai se transformando ao longo da jornada, se tornando mais amigável com o tempo. O tratamento profético é dado a cada um de maneira customizada.

Jesus nunca dá a mesma resposta para ninguém na Bíblia. Não existe uma receita fixa do que ele vai dizer. Ele trata cada pessoa de maneira pessoal. Ao jovem rico ele disse “vende tudo o que tens”. Aos fariseus ele disse “vocês são uma raça de víboras”. A um escriba ele afirmou que o reino de Deus não estava longe dele. A outros escribas ele disse “por que me testais, hipócritas?”. A mulher siro-fenícia, que se achava e furou a fila achando que já tinha entrado como VIP na festa de Jesus, foi primeiro desprezada. Ela gritava, e Jesus fazia de conta que não ouvia, deixando os próprios discípulos constrangidos. Quando ela se aproximou ainda mais, Jesus a chamou de cachorra, tratando diretamente o orgulho dela. E quando ela se jogou no chão e se humilhou, ele disse: “Não vi essa fé nem em Israel. Vai, porque tua filha foi curada.” O problema da filha era o orgulho da mãe. A arrogância da mãe foi quebrada, e a filha foi liberta.

Há uma história pessoal que ilustra esse mesmo princípio. Em janeiro de 2004, há mais de vinte anos, a Comunidade das Nações estava apenas começando. Uma mulher ligou no escritório e falou com a secretária, exigindo que o pastor a ligasse de volta, dando ordens sobre o namoro do filho dela, falando impropérios sobre a moça que namorava com o filho e exigindo alguma providência. A resposta interior foi clara: se houvesse submissão a esse tipo de exigência, seria preciso se submeter à vida inteira daquele jeito. Não houve resposta. Ela procurou de novo, e novamente não houve resposta. O resultado foi que ela saiu difamando pela cidade inteira, falando mal pelos cotovelos. O tempo passou, a vida deu uma volta, e quando ela voltou quebrada e arrependida, sem nenhum tipo de triunfalismo ou vingança, houve disposição de estender a mão a ela. E foi isso que se fez.

Não se pode aceitar a arrogância como expediente aceitável numa tratativa ministerial. Porque se isso for permitido, não se está treinando e equipando discípulos, se está criando lobos, onças e outros bichos. Era assim que Jesus falava sobre fariseus e saduceus. Amós chamava as mulheres da época de vacas de Basã. Chamar alguém de raça de víboras, serpentes, sepulcros caiados, tudo isso é linguagem que confronta o orgulho de frente, sem meias palavras.

Terceiro batismo: ouvir os próprios subordinados

Naquela época, demonstrar fraqueza diante de subordinados era o mesmo que perder posição. Era um tempo em que o mais cruel governava. Naamã se indigna e diz: “Pensava eu que ele sairia a ter comigo, e pondo-se de pé, invocaria o nome do Senhor seu Deus, moveria a mão sobre o lugar e curaria o leproso. Não são, porventura, Abana e Farfar, rios de Damasco, melhores do que todas as águas de Israel? Não poderia eu lavar-me neles e ficar purificado?” (2 Reis 5.11-12). Rimon estava manifestado.

Foram os oficiais dele, seus próprios subordinados, que lhe disseram: “Meu pai, se o profeta te houvesse pedido alguma coisa difícil, não a terias feito? Quanto mais dizendo-te apenas: lava-te e serás purificado” (2 Reis 5.13). Naamã é convencido pelos seus próprios subordinados. Ele tem que engolir em seco o orgulho e dar o braço a torcer. Rimon está urrando.

Naamã queria um milagre espetacular quando Deus ofereceu um ato de fé que humilhasse o orgulho. Ele teria que entrar num rio pequeno e barrento, o Jordão. A cura não estava na água, estava na submissão humilde à palavra profética. O milagre está sempre acontecendo no caminho da obediência. Lembre-se das bodas de Caná: encha essas talhas de água. Quando as talhas foram enchidas, no caminho até Jesus, a água se transformou em vinho. Lembre-se dos dez leprosos: Jesus disse “vai e apresenta-te ao sacerdote”, e eles saíram juntos, e no caminho foram purificados, um só voltou para agradecer. Lembre-se do cego do tanque de Siloé: Jesus disse “vai e lava-te no tanque”, e foi na obediência à ordem simples que o milagre aconteceu. Muitos perdem o milagre porque esperam algo grandioso, mas Deus frequentemente age por meio de coisas simples.

Quarto batismo: despir-se e expor a lepra

Naamã teve que se despir, expor a lepra ao sol, tirar peça por peça da sua roupa e mostrar a todos o homem por detrás da farda. Isso é doloroso. Rimon agora está desesperado. “Então desceu, e mergulhou no Jordão sete vezes, conforme a palavra do homem de Deus, e a sua carne se tornou como a carne de uma criança, e ficou purificado” (2 Reis 5.14).

Naamã tirou cada medalha, cada patente, cada título, cada peça do seu formoso vestuário, e mostrou a todos o seu verdadeiro estado. Muitas pessoas não admitem a própria sujeira, e na verdade se acostumam a esconder a imundícia. Para ser curado, Naamã teve que se despir e expor a lepra. É preciso tirar a pedra. Pode ser que lá dentro tenha um sujeito enterrado há quatro dias, vai cheirar mal, mas é preciso tirar a pedra, porque há uma ressurreição para acontecer.

Muitas vezes títulos, diplomas, comendas e condecorações sustentam o orgulho de se despir. Mas não existe libertação sem vulnerabilidade, franqueza, honestidade, sinceridade, autenticidade e transparência. Fortalezas demoníacas se ocultam nas estruturas de orgulho e na idolatria pela reputação e pela fama.

Quinto batismo: persistir até o fim

O quinto batismo é que Naamã teve que fazer isso sete vezes. Teve que persistir até o sétimo mergulho, porque o orgulho não morre de uma vez. E quando alguém pensa que já está glorificado, o Rimon tenta reaparecer. Há um ditado chinês que diz: se você vai se curvar, curve-se até embaixo, seja completo. O orgulho tem sete vidas, por isso sete batismos são sete mortes.

O orgulho tem que ser completamente exposto, completamente tratado, completamente confessado, renunciado, arrependido, crucificado, completamente morto. No primeiro mergulho, talvez Naamã pensasse: o que todos estão dizendo? No segundo: o que eu estou fazendo? No terceiro, no quarto, no quinto: e a minha posição, minha nacionalidade, meu heroísmo, minha dignidade? Foi apenas no último batismo que a terrível vergonha se foi. O medo da opinião das pessoas evaporou, a necessidade dos aplausos se perdeu em meio às águas do milagre. Rimon foi afogado nas águas barrentas da humilhação.

Há rabinos que dizem que sua carne se tornou como a de um menino porque seu coração se tornou humilde como o de uma criança.

Sexto batismo: ter o presente recusado

O grande desafio de uma libertação não é apenas conquistá-la, é mantê-la. A jornada de Naamã não tinha terminado. Ele volta ao homem de Deus, se põe diante dele e diz: “Eis que agora conheço que em toda a terra não há Deus, senão em Israel. Peço-te, pois, agora, que aceites um presente do teu servo” (2 Reis 5.15). Eliseu responde: “Tão certo como vive o Senhor, em cuja presença estou, não o aceitarei” (2 Reis 5.16). Naamã insiste, mas Eliseu recusa.

Eliseu recusa os presentes para deixar claro que a graça de Deus não está à venda. Há coisa que dinheiro não compra. Dinheiro compra remédio, mas não compra saúde. Compra uma cama, mas não compra descanso. Compra bajuladores, mas não compra amigos. Naamã não tinha dinheiro para pagar o que recebera, e Eliseu deixou isso claro ao recusar o presente. A graça de Deus não poderia ser comprada. Aquilo poderia mais uma vez parecer grosseria, mas o mundo espiritual não é subornável.

A batalha entre orgulho e humildade é um fio condutor da história inteira. Lúcifer, no Paraíso Perdido, de John Milton, é o anjo que se recusa a servir e diz: “É melhor reinar no inferno do que servir no céu.” Nabucodonosor se gloriou no seu império, dizendo “esta é a grande Babilônia que edifiquei para casa real”, e foi humilhado por Deus até reconhecer, depois de sete tempos, que Deus é o soberano Senhor sobre todas as pessoas e todas as nações. Abraham Lincoln dizia que quase todo homem pode enfrentar a adversidade, mas se você quiser testar o caráter de um homem, dê a ele poder. Santo Agostinho dizia que a soberba fez anjos caírem e a humildade leva homens ao céu. C.S. Lewis, em Cristianismo Puro e Simples, chama o orgulho de o pecado definitivo, a completa oposição a Deus.

Mas o que se vê hoje, aos montes, é autopromoção. Basta abrir o Instagram para ver a publicização pessoal, o culto à celebridade. Há pessoas que se perderam no personagem, ficaram tanto tempo interpretando um papel que esqueceram quem são. Na prática, viraram o personagem. Deus não se deixa escarnecer por gente que desfila no tapete vermelho fazendo pose de benfeitor. Na linguagem de Jesus, são atores hipócritas, como diz Guilherme Fiúza no livro Manual do Covarde: gente que finge ter uma causa e faz de tudo para ficar bem na foto, sem precisar tirar a máscara. São apenas posers. Tem gente que já é naturalmente pose, e tem gente que está forçando a barra, e dá para perceber quando a barra está sendo forçada.

Para vencer o orgulho, é preciso tirar o sapato alto, a impostação da voz. Parar de tentar ser interessante ou interesseiro, e simplesmente sentar-se para ouvir interessado. Parar de falar de si mesmo em terceira pessoa e arrotar habilidades. Uma pessoa é tão grande quanto grande é a sua humildade. Humildade e gratidão são virtudes primas, irmãs.

Conta-se a história de um pastor que foi visitar uma ovelha da igreja. Quando chegou ao prédio, ela estava doente e saindo para o hospital. Ao encontrá-lo no elevador, ela tomou um susto e exclamou: “Meu Deus!” E ele respondeu: “Pode me chamar de Carlos.” Tem gente com complexo de divindade. Havia, na Oracle, uma piada sobre Larry Ellison, que por um tempo apareceu como o homem mais rico do mundo, superando Elon Musk: “Qual a diferença entre Deus e Larry Ellison?” A resposta era: “Deus não pensa que é Larry Ellison.” Uma pessoa é tão grande quanto grande é sua humildade. E humildade não é negar a própria força. Humildade é reconhecer os próprios limites e entender que se precisa dos outros para chegar aonde é necessário ir. Só a humildade cria relacionamentos que duram e que levam ao destino certo. O orgulho não tem amigos.

Sétimo batismo: a renúncia oficial a Rimon

No sétimo e último batismo, Naamã renuncia oficialmente a Rimon. Ele diz: “Se não queres, contudo, dê-se ao teu servo uma quantidade de terra que duas mulas possam transportar, pois nunca mais oferecerá este teu servo holocausto, nem sacrifício a outros deuses, senão ao Senhor” (2 Reis 5.17). Veja a mudança de postura diante do profeta. Naamã era um líder que trocou de senhorio.

Ele renunciou Rimon e, ao fazer isso, declarou fidelidade e culto exclusivo ao Senhor. Em qualquer área da vida, amor parcial é infidelidade. Assim como Deus não deseja uma adoração dividida, não existe entrega meia. Ser íntegro é ser inteiro. A palavra integridade significa feito de uma peça só. É preciso ser inteiro em tudo que se faz, senão não há integridade de verdade.

Por fim, Naamã pede para levar terra de Israel para adorar ao Senhor, mas pede perdão por ter de acompanhar o rei no templo de Rimon: “Nisto perdoe o Senhor a teu servo: quando o meu senhor entrar na casa de Rimon para ali adorar, e ele se encostar na minha mão, e eu também me prostrar na casa de Rimon, quando assim me prostrar na casa de Rimon, nisto perdoe o Senhor a teu servo” (2 Reis 5.18). Naamã, depois de curado e convertido, admite que ainda terá de acompanhar o rei da Síria nas cerimônias do templo de Rimon. E Eliseu responde: “Vai-te em paz” (2 Reis 5.19).

Isso mostra a paciência divina com a fé iniciante. O gesto de Eliseu revela a longanimidade, a calma de Deus com a fé nascente de um convertido que ainda está preso a deveres sociais. O profeta não é legalista. Ele entende que a fé crescente é aceita mesmo quando é inicial e imperfeita.

O que fica dessa história

Naamã foi confrontado duramente e foi quebrantado. A humilhação tem uma ação libertadora, ela opera milagres sobrenaturais. A humilhação promove favor divino, porque Deus dá graça aos humildes. Com humildade, alguém não vai apenas longe, vai muito longe e permanece lá. O dom leva alguém ao topo da montanha, mas é o caráter que mantém a pessoa lá em cima.

Charles Spurgeon dizia que Deus cura corações orgulhosos em rios de graça humilde. Existe uma tradição judaica antiga que conta que Salomão pediu a um orives, um ourives, um anel que o lembrasse de manter o coração no lugar certo. O ourives gravou no anel: “Isso passará.” Quando Salomão estava exaltado, por cima, ele lia no anel “isso vai passar” e lembrava que a glória é passageira. Quando ele estava abatido e lia o mesmo anel, também se lembrava de que a dor igualmente vai passar.

E fecha-se essa passagem com o verso de Miqueias 6.8: Deus já declarou ao homem o que é bom, e o que o Senhor pede, que se pratique a justiça, se ame a misericórdia e se ande humildemente com Deus.

Uma diferença de cosmovisão

Existe uma diferença radical entre a cosmovisão cristã e certa filosofia pedagógica moderna, herdeira de Rousseau, para quem o homem é produto do meio e não nasce mal. Nessa lógica, o problema é sempre o sistema, o ambiente, e o próprio autor de qualquer mal é apenas vítima da sociedade. No cristianismo, o homem nasce mal, propenso a erros, enganoso é o coração, desesperadamente corrupto. E a cura para isso não é um ajuste de sistema. É uma cruz, é um sacrifício, é um batismo de arrependimento.

É a aceitação de um Senhor onde a pessoa sai do trono e o deixa no lugar central. É como sair da direção do carro e deixar alguém dirigir a vida. Chamar Deus de Senhor não é um apelido. É dizer: estou ao seu serviço, o que devo fazer? Muitos cristãos deveriam ter abandonado muitas coisas na vida, como Naamã fez, ao declarar que desde aquele momento não adoraria mais ninguém senão ao Senhor. Muitos ainda querem adorar a Jesus e continuar com os próprios ídolos, mantendo práticas antigas, com muito Rimon ainda vivo, muita superioridade, muita arrogância escondida.

Lidar com o orgulho não é um evento definitivo, é uma crucificação diária, um estilo de vida onde se presta contas, onde não se anda sozinho, porque todos têm pontos cegos. Um ponto cego é justamente aquilo que não se enxerga sozinho. Por isso é preciso de alguém que veja o que está atrás, o que não está sendo percebido. É preciso de feedback, de um espelho onde alguém diga o real estado de uma pessoa. Ninguém deveria andar sozinho, e há um cuidado especial com quem anda sozinho, com quem tem segredos que têm segredos, gente cujo deus, na linguagem de Paulo, é o próprio ventre. É preciso de amigos, é preciso de pessoas. Isso é humildade: entender os próprios limites sem negar a própria força.

Um convite ao batismo de humildade

O obstáculo mais comum na vida de alguém não está fora, está dentro. Quando as chaves do coração mudam, tudo ao redor também muda. Trata-se de um convite a um batismo, a uma morte do velho, do orgulhoso, do arrogante, da velha postura briguenta e raivosa. É um convite a tomar a cruz e seguir, a viver as implicações da própria fé, assumir o chamado no mundo. Mas para isso é preciso se expor, ser vulnerável, ser quebrantado, despretensioso, celebrar o sucesso dos outros, bater palmas quando alguém mais está ganhando. Isso é coisa de gente resolvida.

Deus quer desfazer inseguranças, aquela necessidade de ser sempre o centro dos aplausos, a sensação de que a festa não foi boa porque não se esteve no centro dela, ou que a reunião não foi boa porque não se assumiu a liderança. No momento em que essas chaves viram no coração, alguém está pronto para liderar. Não no modelo do rei da Síria, com ordens e determinações, mas com inspiração, com modelo, com referência, no estilo de liderança do maior líder de toda a história, aquele que lavou os pés dos seus discípulos e disse que o maior de todos é aquele que serve.

Existe algo poderoso disponível para quem lê essa história hoje. É como uma linha marcada no chão entre o antes e o depois. Talvez seja hora de se reconectar com pessoas com quem se rompeu, criar pontes, desfazer muros, diminuir o tom, chegar mais por baixo. Talvez seja hora de reconectar primeiro com Deus, depois com o cônjuge, com os filhos. Há pais que não conversam com filhos, filhos que não conversam com pais, amizades desfeitas que precisam ser reconstruídas, alianças e relacionamentos importantes perdidos, pessoas que carregam as chaves necessárias para o próximo passo do destino de alguém.

A proposta é de um batismo de humildade, de quebrantamento, de verdade, de transparência, de pureza de alma, de solidariedade com o sofrimento dos outros. A verdadeira mudança acontece por dentro, de dentro para fora. Não é uma plástica, não é uma maquiagem, não é um personagem. É de verdade. Um novo dia pode estar raiando para quem decide, hoje, afogar Rimon nas águas do Jordão.

Assista ao vídeo completo com essa mensagem e ouça também o episódio no podcast de Bispo JB Carvalho, para aprofundar cada um dos sete batismos de Naamã e caminhar, na prática, da soberba para a graça.