Salmo 142: o laxante da alma e a prisão de ventre emocional

Salmo 142 - Lidando com a prisão de ventre emocional - O Laxante da Alma | JB Carvalho — thumbnail do vídeo

Com minha voz clamei ao Senhor, com a minha voz supliquei ao Senhor. Derramei a minha queixa perante a sua face. Pus-lhe a minha angústia quando o meu espírito estava angustiado em mim. Então conheceste a minha vereda? No caminho em que eu andava? Esconderam-me um laço. Olhei para a minha direita e vi, mas não havia quem me conhecesse. Refúgio me faltou, ninguém cuidou da minha alma. A ti, ó Senhor, clamei. Eu disse: tu és o meu refúgio e a minha porção na terra dos viventes. Atende ao meu clamor, porque estou muito abatido. Livra-me dos meus perseguidores, porque são mais fortes do que eu. Tira a minha alma da prisão para louve o teu nome. Os justos me rodearão, pois me fizeste bem.

Salmo 142.1-7 (conforme lido por Bispo JB Carvalho)

A proposta desta manhã não é apenas uma palavra devocional. É uma reprogramação. É um plano de ação para sair daqui com uma atitude nova, porque toda mensagem que se ouve e não produz comportamento novo foi tempo perdido, seu e de quem pregou. Não adianta ouvir a palavra de Deus e continuar exatamente como se estava antes. O convite de hoje é para uma mudança imediata de postura diante do que a Palavra revela.

A versão TPT, dos Salmos, traduzida como The Passion Translation, traz o mesmo texto com outra coloração: “Deus, eu clamo a ti. Eu levanto minha voz corajosamente para implorar por sua misericórdia. Eu derramo meu coração diante de você e conto todos os meus problemas. Pois quando eu estava desesperado, sobrecarregado e prestes a desistir, você foi o único que esteve lá para ajudar. Você me deu uma maneira de escapar das armadilhas ocultas dos meus inimigos. Olho para a minha esquerda e para a minha direita para ver se há alguém que possa ajudar. Mas não há ninguém que me note. Não tenho esperança de escapar e ninguém se importa se estou vivo ou morto. Então clamei a ti, Senhor, meu único refúgio. Você é tudo que eu tenho, minha única esperança nessa vida, minha última chance de ajuda. Por favor, ouça o clamor do meu coração, pois estou abatido e preciso desesperadamente de você. Livra-me de todos os que me perseguem, pois não sou páreo para eles. Tira-me dessa masmorra para que eu possa proclamar o teu louvor. E todos os justos celebrarão todas as coisas maravilhosas que você fez por mim” (Salmo 142, TPT).

Um cântico instrutivo escrito dentro de uma caverna

Salmo 142 é intitulado “uma contemplação de Davi, uma oração quando ele estava na caverna”. A palavra hebraica traduzida como contemplação é masquil, que também poderia ser traduzida como instrução. É um salmo instrutivo. Significa cântico instrutivo ou meditação sábia. O título completo é masquil de Davi quando estava na caverna, uma oração.

A patrística lê este salmo como profecia da oração de Jesus na solidão do Getsêmani. É um manual de oração em tempos de crise e perseguição. O contexto histórico está ligado à fuga de Davi para a caverna de Adulão ou para a caverna de Engedi, enquanto ele era perseguido por Saul. Davi passou tempos em cavernas, como alguns de nós. Na jornada, na caminhada, na trajetória de todo homem de Deus, existem esses momentos de solidão no oculto das cavernas.

Esta é uma oração de lamentação individual, mas com elementos instrutivos para os que passam pelas mesmas situações que passou o rei Davi. Ele estava isolado, acuado, cercado de perigos e sem apoio humano. Sem apoio humano. O estado de Davi na caverna de Adulão era de completa miséria: perseguido por seus próprios compatriotas, perseguido pelo seu próprio rei, rejeitado por Aquis e ainda sem a companhia de seus parentes, de seus familiares ou de quaisquer outros acompanhantes. Ele se refugiou na caverna e ficou ali sozinho. Sozinho.

Davi expressa aflição, um sentimento profundo de abandono, mas também tem fé no cuidado de Deus no futuro. Há duas notas que correm lado a lado ao longo desta canção. A primeira é a deste terrível sentimento de desamparo, de desesperança, no que diz respeito aos homens. E a outra é a entrega determinada de uma alma desamparada a Yahweh. Ele não tem mais em quem se apoiar, em quem confiar. Ele só tem Deus e mais nada.

O grito que rompe a apatia

São somente sete versos. O primeiro diz: “Com minha alma clamo ao Senhor, com a minha voz suplico ao Senhor.” Veja a expressão: eu clamo, eu suplico. Há uma ascensão. Eu estou clamando, suplicando. Os rabinos dizem que Davi elevou a voz na caverna porque o coração aflito precisa liberar um som, precisa liberar sua voz. Agostinho de Hipona nota que o clamor não é um grito do corpo, mas um grito do coração, da alma.

Veja a progressão. Clama ao Senhor, suplica ao Senhor. Deus ouve o menor suspiro. Deus ouve os seus pensamentos, mas valoriza o clamor que rompe a apatia. O grito da alma é quando você tem que lidar com a inércia, quando você tem que vencer a gravidade, quando você tem que reagir. Clamo ao Senhor é mais do que um apelo por ajuda. Essa foi também uma declaração de fidelidade ao Senhor, o Deus de Israel. Eu clamo ao Senhor. Haviam tantos deuses, tanta idolatria, e Davi se pega com Deus com todas as forças. Essa é uma das características desse homem. Ele gruda em Deus. Ele não larga Deus. Ele não tem outra opção.

Cavernas são bons refúgios para oração. Sua penumbra e solidão são úteis ao exercício da devoção. Diz Charles Spurgeon: se Davi tivesse orado tanto em seu palácio quanto orava em sua caverna, talvez nunca tivesse cometido o ato que trouxe tamanha miséria nos seus últimos dias.

Catarse: o laxante da alma

Com a minha voz clamei ao Senhor, com a minha voz supliquei ao Senhor. Davi clamou a Deus com a sua voz. Seus sentimentos silenciosos foram expostos a si mesmo. Ele passa a entender o que está vivendo, porque a sua oração tem efeitos catárticos. Catártico é uma palavra que se refere a substâncias utilizadas na medicina para a limpeza do trato gastrointestinal, que aceleram a evacuação intestinal, funcionando como laxantes potentes. E na psicologia refere-se à liberação de sentimentos reprimidos que resultam em sensação de leveza e renovação.

Deixa explicar da maneira mais polida possível isso. Tem gente que sofre de prisão de ventre e tem gente que sofre de prisão da alma. Emoções mal resolvidas se tornam lixo e precisam ser liberadas. Assim existe constipação nasal, constipação intestinal e constipação emocional. Catarse é um conceito que vem do grego katharsis, que significa purificação ou limpeza. O termo carrega a ideia de liberação de algo que está retido.

Na psicanálise, catarse é a descarga emocional resultante da lembrança de experiências reprimidas. Quando a pessoa fala da sua dor em um ambiente apropriado, e vale repetir isso, falar da sua dor em um ambiente apropriado libera a tensão emocional associada. Ao falar sobre um assunto no ambiente com a pessoa certa, você começa a compreendê-lo. Compreendê-lo. Essa coisa da psicologia, na sua raiz, foi uma obra de Agostinho de Hipona. Ele inventou o mergulho dentro de si. E, no caso, no divã não era um médico, era o próprio Deus. Ele tratou das questões do coração, mas antes, muito antes, temos esse Davi em seus salmos lidando com as coisas mal resolvidas que estão ali entupindo a sua alma e impedindo a expressão de sentimentos saudáveis, porque ele está constipado.

Catarse passou a significar qualquer experiência de desabafo, libertação emocional ou espiritual. Pode ser um momento de oração profunda, um choro intenso, uma confissão, uma reconciliação ou experiências que lavam a alma. Davi tem algo dentro dele que ele não conseguiu digerir, e ele aprendeu a liberar suas emoções reprimidas por meio de um clamor, de uma verdadeira súplica. Quando ele se abre, quando ele se expõe, quando ele se derrama, é isso que diz o verso dois.

Derramar a queixa diante de Deus, não diante dos homens

“Derramo perante ele a minha queixa. Diante dele exponho a minha angústia.” Derramar é verter, despejar como líquido. A imagem de derramar a alma. Almas líquidas, almas que se desfazem em oração, que se desintegram, que se desconjuntam, que se quebrantam. Você tem a opção de ficar amargo, azedo, entupido de ódio, ou você tem a opção de se derramar diante de Deus em oração?

Aqui não temos um clamor polido ou educado. Temos um desabafo sincero. Essa é a marca de um homem segundo o coração de Deus. Ele rasga o coração e não apenas as suas vestes. A oração autêntica não esconde a angústia, mas a coloca diante de Deus. Davi tinha um lugar para derramar suas insatisfações, suas queixas, suas lamúrias. Ele clama pela ajuda de Deus diante dos inimigos que esperavam prendê-lo. Ele coloca os inimigos na mesa e faz isso com integridade. Davi fez a coisa certa com a sua queixa: ele a apresentou ao Senhor.

Enquanto muitos de nós estamos nos queixando uns aos outros, enquanto muitos de nós estamos levando esse lixo acumulado da alma e despejando nas redes sociais. É incrível, vomitar não é uma coisa que você faz em público. E tem gente vomitando no Instagram.

Uma reprogramação começa aqui: levar as suas queixas diretamente a Deus e parar de levá-las às pessoas, fazer como Davi. Porque tem gente que vai levar aos homens suas queixas, e é o que chamamos de lamúria, murmuração, reclamação. É quando você reclama, compartilha seus problemas com quem não pode te ajudar, buscando amparo, apoio. Assim, a queixa apresentada fora do lugar apropriado se transforma em rebeldia verbal. Amargura derramada como veneno vira fofoca, falatório, se torna contenda.

A expressão “minha queixa” não é uma palavra petulante, mas poderia ser traduzida como meus pensamentos perturbados. Derramo a ele meus pensamentos perturbados. Eu apresento a ele os conflitos não digeridos da minha alma. Diante dele exponho a minha angústia. A capacidade de exprimir, de expressar, de falar do que está sentindo torna Davi uma das razões de ser chamado um homem segundo o coração de Deus. Falar dos seus sentimentos não é coisa para meninos, mas para homens. E ele sabe falar apropriadamente para a pessoa certa. Ele não está buscando cúmplices ou pessoas que possam simplesmente ouvi-lo e não ajudá-lo em coisa nenhuma. Por vezes até atrapalha falar com algumas pessoas.

No Salmo 55 ele diz que à tarde, de manhã e ao meio-dia se queixa e geme, e Deus ouve a sua voz. No Salmo 64, ele pede que Deus ouça a sua voz na sua queixa. O salmista não reprime a angústia, nem a dirige a outros. Leva o peso diretamente a quem pode resolver. Davi sabe fazer da oração uma exposição honesta da sua dor, vale repetir, uma exposição honesta da sua dor, como uma criança conta suas tristezas à sua mãe. Conte ao Senhor todas as suas tristezas e queixas, suas misérias, seus medos. Conte tudo, e grande alívio virá ao seu espírito.

A vereda que Deus conhece e a armadilha oculta

O verso três diz: “Quando dentro em mim esmorece o meu espírito, conheces a minha vereda? No caminho em que ando, ocultaram-me uma armadilha.” Esmorecer o espírito é o mesmo que desmaiar, desfalecer, sentir-se sufocado, constipado emocionalmente. Davi viveu sob muitas pressões e foi sincero para admitir sua fraqueza, porque tem gente que parece forte todo o tempo. E é óbvio que você não pode ficar fraco na frente dos inimigos, porque senão eles vão acabar com você. Mas você precisa de um lugar onde você é fraco.

Para Davi, a fé não é bravata. A fé não é triunfalismo, não é coisa de pose, de tentar parecer interessante quando se é apenas interesseiro. Ele não é dramático, mas a vida dele era. Há uma diferença entre fazer drama, aumentar uma situação, e realmente ter uma situação dramática para resolver. Davi tá cheio disso. Ele vive tensionado, esticado, pressionado, porque seu chamado exigia dele a estrutura de um rei. E reis são formados sob pressão, sobre calor, sobre fogo. Davi deveria ser preparado, treinado, equipado para ser esse modelo que seria espelhado por gerações e até por milênios.

Quando dentro de mim esmorece o meu espírito, conheces a minha vereda? Seu espírito esmorece e a sua vereda é exposta. Às vezes nós somos impactados e abalados para que nossos caminhos se revelem. Paulo diz: provai a vós mesmos se vocês estão na fé. É quando Deus está questionando alguns comportamentos nossos. Deus conhece a vereda, ele vê cada passo que damos. Mesmo no escuro da caverna, Deus sabia o caminho que Davi fazia em seu coração. E vale repetir: todos nós fazemos um caminho em nossos próprios corações.

E nesse caminho, diz ele, colocaram para mim um laço. É incrível isso. Nada novo debaixo do céu. É só a repetição. Estamos vivendo no século vinte e um o que outrora viveram profetas, reis, apóstolos. Colocaram para mim uma armadilha. A palavra hebraica aponta para o laço do caçador. Eles secretamente me armaram uma armadilha. Davi não sabia onde estavam as armadilhas, mas sabia que elas estavam ali. Davi também sabia que Deus poderia preservá-lo das ciladas, das emboscadas, das arapucas secretas.

Charles Spurgeon diz que homens perversos precisam encontrar algum exercício para sua malícia. Diz a Bíblia que o homem mal não dorme antes de fazer o mal. Que terrível. É um desabafo, é uma cura, é uma catarse, poder rir disso. E, portanto, quando não ousam atacar abertamente, eles trabalham secretamente. O maligno não ataca de frente, ele não olha nos olhos, ataca pelas costas. Fala pelas costas, calunia pelas costas, inventa histórias pelas costas. Deus conhece os caminhos e as armadilhas invisíveis que nos cercam. A TPT traz: “Você me deu uma maneira de escapar das armadilhas ocultas dos meus inimigos.”

Quando a direita falha

O verso quatro diz: “Olho para a direita e vejo. Não há quem me reconheça. Refúgio me falta. Ninguém se interessa por minha alma.” Davi foi abandonado por amigos e aliados. A direita é a posição do aliado. Um defensor no tribunal ficava à direita, ou no campo de batalha, à direita. Mas a direita às vezes não ajuda. Os que estão à direita não ajudam, às vezes atrapalham, vivem de bravata.

Basílio Magno diz que quem não encontra socorro humano descobre em Deus refúgio seguro. Foi quando eu perdi o chão que eu aprendi a voar. Não há ninguém que me reconheça não é uma reclamação, é uma declaração que cura a alma dele. Ninguém que se importa com a minha alma. Mas isso não é um ponto final, não é um desfecho, não é uma sentença. A perda de apoios humanos é um convite à dependência do refúgio divino. Quando todos os apoios humanos falham, Deus é o refúgio, a herança e a libertação do seu servo. Davi sabia que mesmo que fosse abandonado pelos homens, Deus jamais o deixaria.

Diz o Salmo 16 que o Senhor tem sempre a sua presença, estando ele à sua direita, para não ser abalado. Porque o Salmo 109 diz que ele se põe à direita do pobre, nunca à esquerda, para o livrar dos que julgam a sua alma. O lado direito significa o lugar onde a testemunha ou o conselho legal de alguém se encontrava. Disse o Senhor ao meu Senhor: “Assenta-te à minha direita até que eu ponha os teus inimigos por estrado dos teus pés.” O Salmo 121 diz que o Senhor te guarda, o Senhor é a tua sombra à tua direita.

Da caverna ao trono: um exército formado com gente pária

No caso, parece que Deus respondeu abundantemente, enviando logo os irmãos de Davi. Demorou, mas os irmãos se uniram a ele, e toda a casa do seu pai, para se juntarem a ele na caverna. A caverna se tornou o lugar do culto, o lugar da solidão e da angústia das noites maldormidas, dos assombros, dos fantasmas, e começou a ser visitada por gente humana. Mas o tipo de gente que apareceu gradualmente é um grupo de pessoas párias, mal recomendadas, mal resolvidas. E Davi se torna líder daqueles amargurados, ressentidos e endividados que se tornam o núcleo duro do seu reino futuro. Ele transforma aquela gente que ninguém mais queria nos melhores soldados e guerreiros que jamais existiram na face da terra.

Isso provou ser de fato um ponto de virada. Sigamos o exemplo de Davi, e de alguém maior que Davi, que quando os judeus e gentios conspiraram contra ele foi deixado sozinho no jardim e na cruz e entregou-se à oração. Não havia ninguém do seu lado. Todos os homens dormiram. Ele ficou solitário e levou sua oração até os céus, suando gotas de sangue.

Tu és o meu refúgio, minha porção na terra dos viventes

O verso cinco diz: “A ti clamo, Senhor, digo, tu és o meu refúgio, a minha porção na terra dos viventes.” Davi pôde proclamar com confiança que Deus era de fato o seu refúgio. Entre os homens, Davi não tinha refúgio. Se Davi não tivesse clamado, não teria dito isso. E se o Senhor não tivesse sido o seu refúgio, nunca teria sido a sua porção. O degrau mais baixo é tão necessário quanto o mais alto.

Minha porção na terra dos viventes destoa dos cânticos antigos que falavam da porção nos céus, na eternidade. O que Davi está dizendo é que o Senhor é a sua porção agora, hoje, nessa vida. Davi, como fugitivo, teve motivos para acreditar que toda sua herança havia sido perdida. Ele tinha entrado na lista negra. Entrou em desgraça para com o trono, o rei e toda a corte real. Era legal, era bacana, dava ibope falar mal de Davi, porque Davi tinha perdido o favor. Até que, na vida, sempre tem um até que. Quando você se mantém firme, quando você não desiste, quando você continua sendo fiel, Deus tem um até que.

Ele tinha confiança de que o próprio Deus era a sua porção, a sua herança. Davi também sabia que se beneficiaria dessa porção na terra dos viventes. Como disse Jó: eu sei que o meu redentor vive e que por fim se levantará sobre a terra, e em minha carne, em vida, eu verei a Deus. Eu terei todas as respostas. A minha vitória não está na eternidade. A eternidade é a celebração da vitória que conquistamos nessa vida. Importante isso aqui e agora, não apenas na era vindoura.

A força que nasce da fraqueza

O verso seis diz: “Atende ao meu clamor, porque estou muito abatido. Livra-me dos que me perseguem, pois são mais fortes do que eu.” A palavra abatido significa enfraquecido, oprimido, empobrecido. Davi reconhece a sua desvantagem humana diante dos inimigos. Ele diz que seus inimigos são mais fortes, que ele não é páreo.

Jonathan Edwards, o grande avivalista do primeiro grande despertamento americano, talvez o maior teólogo da história americana, diz que a consciência da própria fraqueza é o início do avivamento. É quando você para de lutar e se entrega, não à luta, mas a Deus. É quando cai a ficha de que você não tem como vencer isso e você precisa de uma força maior. Paulo disse que quando ele está fraco é que é forte, porque na fraqueza é que Deus aperfeiçoou o seu poder. É como Jacó, que lutou com Deus e quando foi ferido e quebrantado pôde vencer. Porque feridos e quebrantados que confiaram, como alguém disse, a fé não é um esforço, é uma entrega.

A oração, antes de tudo, precisa ser honesta. Tudo que precisamos ao orar é de honestidade. Há orações que são feitas para impressionar. Os fariseus ficavam fazendo longas orações para que as pessoas vissem como eles eram espirituais. Tem gente que imposta a voz na oração para parecer um cara piedoso, extraordinário, maravilhoso, para que as pessoas ouçam. Há orações água com açúcar, feitas como calmante para acalmar por apenas um momento, para enxugar gelo. Há orações esotéricas, orações místicas que parecem mais mágica, que não são fundamentadas sobre princípios, mas simplesmente por emoções. Há orações de gente infeliz, conformada com os problemas lá no segundo céu, como dizia Beni Johnson.

Num evento em São Paulo, Bill Johnson falou sobre o testemunho de Beni Johnson, que faleceu recentemente. Ele contou que a esposa tinha uma grande resistência com os intercessores, porque muitos dos que afirmavam ser pessoas de oração eram pessoas tenebrosas, infelizes, tristes. É preciso confessar que dá arrepio olhar para alguns intercessores e perguntar onde eles estavam, porque diante de Deus não estavam com essa cara. Bill Johnson contou que Beni escreveu um livro, o intercessor feliz, porque interceder deveria ser uma identidade de alguém que conseguiu virar as chaves, que ainda que sob pressão e sobre angústia consegue sair do outro lado e não fica nivelado nesse ambiente de problemas, de críticas, de crises e batalhas.

Davi clamou ao Senhor confessando honestamente a sua situação precária. Davi não sentia a necessidade de fingir que tudo estava bem ou que ele não era fraco. Ele podia recorrer a Deus em busca de ajuda, mesmo quando estava muito abatido por perseguidores mais fortes do que ele. Davi compreendeu bem a sua fraqueza atual. Aquele que matou Golias sentiu-se mais fraco, muito fraco. E na verdade esse era um bom lugar para Davi estar. Este lugar de fraqueza é onde Deus mostra a sua força. A força de Deus logo o inundaria.

Charles Spurgeon pergunta se você já ouviu falar da luta de Jacó. Ele diz que ouve dizer que sim, mas que não foi Jacó o principal lutador. A luta deveria esgotar todas as suas forças. E quando suas forças se esgotaram, Deus o chamou de príncipe. Agora Davi seria rei de todo Israel. Qual era o caminho para Jerusalém, Davi? Qual era o caminho para o trono? Sinto dizer que era bem perto da caverna de Adulão.

Tira a minha alma da prisão

O verso sete, para terminar, diz assim: “Tira a minha alma da prisão para que eu louve o teu nome. Os justos me rodearão quando me fizeres esse bem.” Tira-me da prisão. Davi está preso literalmente, porque está escondido, acuado na caverna, e ele carrega angústia. Ele está constipado pelo medo, cheio de opressão. Há uma prisão interior, uma alma em prisão. O ventre da sua alma estava presa.

A ideia do texto é: faz minha alma sair do confinamento. Isso está falando com muita gente que não conseguiu digerir muita coisa na vida. Gente que tem arranhões na alma, que tem lixo acumulado dentro de si. Isso está apodrecendo, está fazendo secar por dentro, porque é isso que acontece no intestino, ou na alma, ou nas vias aéreas superiores. Quando você não resolve a sua constipação, ela vira uma infecção, e isso pode matar você.

Davi diz: livra a minha alma da prisão. Minha alma é frequentemente uma forma de dizer eu, apenas eu, minha alma sou eu. Ele ansiava por se libertar de um sentimento que o consumia. Seu louvor público estava sendo impedido por uma obstrução na alma. A expressão “para que eu te louve” declara que a libertação tinha o propósito de adoração. A libertação tem como objetivo glorificar a Deus publicamente, declaradamente, em todos os lugares. É um poderoso testemunho adorar a Deus em ambientes não congregacionais. Não guarde o seu louvor somente pra igreja. Celebre em público, no carro, nas ruas, nas praças, nos shoppings, onde você for, crie uma atmosfera ao seu redor, porque isso é extremamente poderoso.

Enquanto você está levando o seu lixo às pessoas, sua queixa às pessoas, você não vai poder viver a realidade da promessa desse verso sete. O efeito daquilo era que os justos o rodeariam. Quando você deixar de levar suas queixas a todas as pessoas e trocá-las por louvor comunitário, novas pessoas vão se juntar a você. Essa é a reprogramação: parar de falar das coisas que atrapalham, virar o disco, mudar a música, trocar as histórias e as narrativas, adorar a Deus, celebrá-lo publicamente. Há coisas dentro de nós que estão nos constipando e que vão deixar de existir quando nós adorarmos, ao invés de nos queixarmos.

Os justos te rodearão: o novo time de Deus

Após a crise, diz a Bíblia, Davi seria cercado por justos em vez de inimigos. “Os justos me cercarão” pode ser traduzido, ou deve ser traduzido, como “os justos me coroarão”. É isso que diz a palavra hebraica atar, ou catar, no dicionário Strong. Coroar, cercar como coroa. Os justos formarão círculo de honra e comunhão ao redor do liberto, do que teve a sua alma livre da queixa.

Tem gente que nada está certo. Há um vício, uma sinapse, um caminho neural onde a insatisfação tem que ser declarada. Provérbios diz que o estulto, o idiota, o tolo, quer publicizar a sua dor, a sua insatisfação, quando deveria fazer isso perante o Senhor. O cenário de solidão de Davi, o cenário de desamparo, o homem da caverna, seria alterado em pouquíssimo tempo, porque uma multidão de homens estava chegando para apoiá-lo. Quando ele virou o disco, quando mudou a narrativa, quando alterou o seu estado de ânimo, quando se desconstipou, quando lidou com a prisão de ventre da sua alma, algo externamente aconteceu fora dele. Os ímpios que o perseguiam foram trocados por gente boa que começou a chegar num estado bruto, gente muito boa que estava amargurada, ressentida, endividada, em perigo, descontente, para começar o processo de levá-lo até o trono.

Você vai ver que até a limpeza interior vai limpar o exterior. Muitas das perdas que temos relacionais, na verdade, são podas. Deixe ir. Deus está libertando você de pessoas que não vão lhe ajudar a chegar onde você precisa ir. Deixe essas pessoas irem. Deus vai cercar de pessoas que vão coroar você para um novo tempo.

A TPT traz no hebraico esse sentido: “me coroarão”, isto é, “me cercarão”, como se estivessem maravilhados com a bondade na libertação, e colocarão a coroa na cabeça. Davi tocou a lamúria, a reclamação, conseguiu apresentar sua queixa sinceramente, honestamente, diante de Deus. E Deus trocou o seu estado de ânimo, a sua angústia, os seus medos, as suas perturbações, a sua solidão. Quando enviou pessoas para apoiá-lo, ele perdeu todos os falsos amigos, perdeu todos os falsos parceiros. E Deus compôs um novo time. Deus estava equipando.

O que está impedindo você de gritar hoje, de louvá-lo publicamente? Onde está o povo que conhece os brados de júbilo? Tira a minha alma da prisão para que eu louve o teu nome. Os justos me rodearão quando me fizeres este bem. O verbo hebraico gamal aponta para a bondade merecida de Deus. Strong diz que é recompensa, agir com bondade. Não é o seu mérito, é a mudança da sua atitude que traz o favor de Deus a você, e realça não um pagamento, mas a benevolência gratuita de um Deus gracioso. Deus não liberta apenas para aliviar o ventre da alma, mas para devolver a alegria de adorá-lo e a comunhão com os seus santos, com o seu povo.

Deus sempre melhora no caminho

Davi terminou esse salmo com grande confiança. Veja o início, veja o final. Deus sempre melhora no caminho. Deus termina melhor do que começa. Deus está fazendo algo novo, está aperfeiçoando, está trabalhando, está enviando pessoas, está formando um novo time, está destravando, desconstipando a alma.

Davi começa o cântico com um grande sentimento de isolamento. Ele termina na companhia do povo de Deus e do apoio vindouro do Senhor. Davi começou com a sensação de ser baixo, de ser fraco. Ele termina confiante na bondade futura de Deus, sabendo que Deus o trataria generosamente. Ele dizia que seus inimigos eram mais fortes do que ele, mas terminou cercado, coroado, por gente muito correta, muito certa, por verdadeiros parceiros para a vida inteira. Quando ele digeriu o que havia dentro dele, esvaziou o ventre da alma, Deus também trouxe para perto dele as pessoas do seu destino.

Mude o seu discurso, vire o disco, troque a narrativa, conte outras histórias, celebre publicamente o seu louvor a Deus. O que Deus estava fazendo com Davi era limpá-lo por dentro, por fora e também em suas conexões, em seus relacionamentos. Davi foi liberto dos seus perseguidores, aliviado da sua angústia, exaltado ao trono e unido a todas as tribos de Israel.

A reprogramação começa agora

Vamos ter um laxante emocional na alma. Vamos liberar a alma dessas angústias e medos, deste lixo acumulado. Vamos ser transformados das coisas que estão azedando a alma, a vida, do ódio, da raiva, da amargura, do ressentimento, da crítica, da insatisfação. Apresente a sua queixa diante do Senhor, e não diante das pessoas que não podem carregar esse peso com você.

A oração que fecha essa palavra pede que Deus faça uma reprogramação no coração, no interior, nos circuitos neurais. Que tire a reclamação, a queixa, e coloque a adoração, o louvor, a gratidão, a celebração. Que restaure o louvor público, a adoração comunitária dentro da igreja, fora da igreja, em todos os lugares. Que alinhe os corações com o coração de Deus, que liberte os sentimentos e as emoções para expressarem louvor, gratidão e adoração diante do trono, e que faça os justos alcançarem cada um que ora.

Se essa palavra tocou você, o convite é simples: assista ao vídeo completo e acompanhe o episódio no podcast pessoal de Bispo JB Carvalho, onde essa e outras ministrações continuam sendo aprofundadas semana após semana.