Quando o Impossível se Torna Inevitável: os Ciclos de Deus e a Travessia Rumo à Promessa
Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu.
Eclesiastes 3.1 (ACF)
Existe uma palavra para este momento. Não uma palavra genérica, solta no ar, mas uma palavra específica para a sua estação, para o seu tempo, para o lugar exato em que você está parado agora. E existe também uma palavra para o Brasil. O país está num ponto de inflexão, um ponto de ruptura entre um tempo e outro, e isso acontece de maneira pessoal e de maneira coletiva ao mesmo tempo. Quatorze anos de caminhada numa conferência global falam de dois ciclos de sete. Isso não é coincidência de calendário. É estrutura. É a forma como Deus organiza a história.
Um professor de economia chamado Milton Friedman, da Universidade de Chicago, aquele que discipulou Thomas Sowell e influenciou profundamente Paulo Guedes, deixou uma frase que resume o que está em jogo agora: somente uma crise produz uma mudança real, porque é quando o politicamente impossível se torna politicamente inevitável. É quando o impossível se torna inevitável. Ele estava falando de economia e de política, mas estava, sem saber, descrevendo um princípio espiritual. Guerras, rumores de guerra, fome, terremotos, tremores de todo tipo. Não são o fim do mundo sendo formado ao acaso. São o mundo sendo formado dentro daquilo que já foi programado por Deus.
O texto de Juízes 6.1 começa assim: fizeram os filhos de Israel o que era mal perante o Senhor. Por isso o Senhor os entregou nas mãos dos midianitas por sete anos. Sete anos. Depois de sete anos de assalto, de roubo sistemático das colheitas, um anjo do Senhor aparece a um homem chamado Gideão e o Senhor se apresenta a ele como Yahvé Shalom. Ali, algo começa a romper aquele ciclo de perdas. Os midianitas, os povos do Oriente e os amalequitas se juntaram para roubar o que Israel plantava. Quantas pessoas já tiveram suas colheitas roubadas, coisas que levaram anos para construir e que foram tomadas por forças que não escolheram enfrentar? A Bíblia promete restituir os anos consumidos pelos gafanhotos. E quando o texto fala de perdas, está falando inclusive de coisas que a pessoa nem sabia que eram suas.
No livro de Joel aparecem quatro tipos de gafanhotos: os migradores, os cortadores, os destruidores e os devoradores. Alguns chegam, roubam e voltam. Outros instauram ciclos inteiros de destruição. Há pessoas presas em ciclos intermináveis de desânimo, de quedas, de perdas repetidas. Mas também existem ciclos bons, e a Bíblia inteira é, no fundo, um livro sobre fechamentos e começos de ciclo.
O sete como o número que organiza o tempo de Deus
As festas bíblicas, a Páscoa, o Pentecostes, os Tabernáculos, sempre fechavam uma estação agrícola e espiritual ao mesmo tempo. O calendário hebraico inteiro é construído em ciclos. A Páscoa marcou a inauguração de um novo tempo em Êxodo 12, quando Deus julgou todos os deuses do Egito de uma só vez. Ela não foi apenas o fim da escravidão, foi o início da jornada rumo à liberdade. Deus fecha um ciclo e abre outro sempre com uma nova promessa.
O ano novo hebraico é celebrado como fechamento de ciclo e renascimento espiritual, um tempo de arrependimento, de realinhamento e de expectativa para o novo ano. O jubileu, descrito em Levítico 25, era um reset completo sobre a nação inteira a cada cinquenta anos: perdão de dívidas, libertação de escravos, devolução de propriedades. Era a oportunidade de recomeçar social e espiritualmente, restaurando o equilíbrio de todo um povo.
Na Bíblia, o número sete, sheva, é o número dos ciclos completos, da plenitude, do encerramento ordenado. Ele aparece como estrutura econômica do tempo, o modo como Deus ensinou Israel a viver entre trabalho, descanso, restituição e renovo. Desde a criação esse padrão já está estabelecido: havendo Deus completado no sétimo dia a sua obra, descansou no sétimo dia. Esse descanso não é uma simples pausa, é a consagração de um tempo. A escritura repete esse padrão de seis mais um, seis para agir e um para restaurar.
A Torá estrutura toda a vida de Israel sob ciclos de sete. O Shabat, um dia em sete, é separado para descanso e adoração, e seu propósito é lembrar que o homem não é escravo da produção, não é escravo do trabalho. Não é a força dele, não é o esforço dele, é a graça, é o favor, é a bondade de Deus. Isso significa colocar a confiança em Deus como fonte, e não em si mesmo. Quem não descansa não confia. No vosso descanso, na vossa confiança está a vossa força, disse Isaías, mas vós não quisestes. A quebra do sábado, no texto bíblico, está sempre associada a idolatria e a julgamento.
No sétimo ano havia o Shabat da terra, descrito em Levítico 25. A terra deveria descansar a cada sete anos, nada era plantado nem colhido, e ela era renovada. Era tempo de descanso e de dependência total do Senhor, um sábado dedicado ao Senhor. Os anos de cativeiro na Babilônia correspondem exatamente aos anos em que esse descanso da terra não foi guardado. Ao fim de cada ciclo de sete anos havia também o ano de remissão, quando as dívidas eram perdoadas, conforme Deuteronômio. O propósito era libertar a sociedade da opressão financeira e restaurar a dignidade das pessoas. Era uma espécie de recuperação judicial sobre o povo, a cada sete anos, com perdão e novo começo, um reset econômico e moral.
Depois de sete ciclos de sete anos, quarenta e nove anos, chegava o quinquagésimo ano, o jubileu, quando as terras voltavam aos seus donos originais, os escravos eram libertos, as dívidas canceladas e a terra descansava de novo. É esse o ano aceitável do Senhor que Jesus proclamou em Lucas 4. José interpretou sete anos de fartura e sete anos de fome no sonho de faraó. O rei Nabucodonosor foi humilhado por Deus por sete tempos. Daniel falou das setenta semanas proféticas. O sete é Deus educando o tempo. Sete dias completam uma criação, sete anos completam um ciclo de dependência, e ao fim de cada sete há mudança de estação: o que foi cultivado dá fruto, o que foi desgastado é restaurado, as dívidas são perdoadas.
Isaías 11 fala dos sete espíritos de Deus, retomados depois em Apocalipse: repousará sobre ele o espírito do Senhor, espírito de sabedoria, de entendimento, espírito de fortaleza e conselho, espírito de conhecimento e temor do Senhor. Um só é o Espírito, mas muitas são as suas manifestações. A tradição rabínica também associa o número sete a fases da vida humana. De zero a sete anos é a formação da identidade básica, inclusive a formação do cérebro. De sete a catorze é descoberta e instrução. De catorze a vinte e um é afirmação e propósito. De vinte e um a vinte e oito é estabelecimento. De vinte e oito a trinta e cinco é frutificação. De trinta e cinco a quarenta e dois é consolidação. De quarenta e dois a quarenta e nove é legado e transmissão. E depois disso, o jubileu pessoal, o tempo de reinvenção e sabedoria. Biologicamente também existem ciclos no corpo humano, de renovação celular, hormonais e emocionais. O sete é o metrônomo do Espírito Santo. Em cada sétimo momento, Deus fecha um ciclo com plenitude e abre outro com uma nova promessa.
Os filhos de Issacar e o discernimento dos tempos
Deus não mede o tempo apenas em segundos, minutos ou horas. Ele mede em significados proféticos. Em Primeira Crônicas 12.32 estão descritos os filhos de Issacar, conhecedores dos tempos para saberem o que Israel deveria fazer. O contexto era a reunião de guerreiros em Hebrom, quando Davi foi aclamado rei depois de uma guerra civil e de anos de instabilidade entre a casa de Saul e a casa de Davi. Cada tribo trazia uma força diferente: Judá trazia força de combate, Zebulom navegava e trazia lealdade, e Issacar trazia discernimento estratégico. Os outros sabiam lutar, mas Issacar sabia quando lutar.
Saber até quando falar é tão importante quanto saber o que falar. Maçãs de ouro em salvas de prata é a palavra dita na hora certa. Tem coisa que não é para falar agora, tem o seu tempo de ser dita. Os filhos de Issacar eram conhecedores dos tempos, entendiam os ciclos, tinham a capacidade de interpretar padrões e compreender o propósito de cada estação, como disse Eclesiastes: tudo tem o seu tempo determinado, há um tempo para todo propósito debaixo do céu. Tempo, nesse sentido, são ciclos, estações, mudanças e momentos proféticos.
Issacar discernia ciclos, não era apenas cronólogo, era intérprete profético para saber o que Israel deveria fazer. A palavra usada para fazer é asah, a mesma que aparece em Gênesis quando Deus formou o corpo humano a partir do solo. Ali Deus não estava criando do nada, estava pegando algo que já existia e transformando. A palavra para criar de verdade, bara, aparece só três vezes no relato da criação, nos versículos 1, 27 e 21. A tradição rabínica associa Issacar aos escribas e cronologistas de Israel, aqueles que sabiam interpretar o calendário celestial, o moedim, os ciclos, e instruir os demais. Eram, portanto, mestres do calendário divino. Sabiam quando Deus estava prestes a se mover, conheciam o relógio de Deus e sabiam o que cada estação exigia e qual resposta deveria ser dada.
Toda mensagem precisa terminar em um plano de ação. Ouvir uma palavra e sair sem uma decisão tomada é desperdiçar o próprio tempo. O discernimento de Issacar era estratégico: entendia o quando e o como. Isso resulta numa fórmula simples, tempo certo mais ação correta igual a propósito cumprido. Israel precisava de direção, e Issacar trazia a chave do tempo oportuno e divino para agir.
Nas genealogias, em Gênesis 49, Issacar aparece como povo agricultor, ligado às estações e à terra. O ofício natural, o cultivo, reflete o dom espiritual, saber quando plantar e quando colher. Enquanto Zebulom navegava e Judá guerreava, Issacar lia os sinais dos tempos. Existem pessoas certas fazendo coisas certas no tempo errado, e uma herança recebida antes da hora pode se tornar maldição. A coisa certa no tempo errado se torna coisa errada. Issacar orientava o que Israel devia fazer, e esse povo não apenas sobrevivia às estações, governava sobre elas.
Moed: o tempo designado e o lugar do encontro
A palavra hebraica para ciclos, para tempos marcados por Deus, é moed, no plural moedim. Ela significa designar, determinar, marcar um encontro. O termo aparece mais de duzentas vezes no Antigo Testamento, sempre associado a tempos marcados, encontros designados ou estações sagradas. Deus tem um encontro marcado com cada pessoa que lê este texto. Existe uma graça liberada para um novo ciclo.
A palavra moed era usada para designar as festas de Israel. Cada festa era um moedim, uma estação determinada. O ciclo da vida dos judeus antigos passava por essas festas: Jesus morre na Páscoa, ressuscita nas primícias, envia o Espírito Santo em Pentecostes. Páscoa, Pentecostes e Tabernáculos são ciclos proféticos marcados por Deus no tempo, calendários do espírito. Cada ciclo é um ponto de encontro entre o tempo e a eternidade, onde o céu se choca com a terra, e a igreja deveria ter sensibilidade para perceber esses momentos em que o céu agenda um encontro com a terra.
Quando Milton Friedman falava que o impossível se torna inevitável, ele estava, sem perceber, descrevendo o fato de que de quando em quando a história se corrige. Deus não deixa a história ser conduzida por forças fortuitas ou casuais, como o manifesto comunista imaginava, movida por forças anônimas e inanimadas até o seu fim. Existe alguém que está no trono, digno de abrir o livro, desatar os seus selos e levar a história ao seu ponto final. Deus está conduzindo a história, e se for permitido, ele conduz cada pessoa ao melhor ciclo da sua própria história.
O discernimento de Issacar é perceber o tempo natural, os movimentos históricos, sociais e culturais. O historiador Eric Hobsbawm dizia que quem conhece o passado consegue prever o futuro, porque o passado deixa marcas, deixa padrões. E a lição da história é que o mal não é sólido. Ele pode permanecer por um tempo, mas chega a hora em que Deus vem corrigir a história. Deus vai corrigir a história de um país, a história de decisões tomadas, a história de uma família, porque ninguém está por conta própria.
Foi exatamente isso que aconteceu com Israel em Juízes 6. O povo fez o que era mal ao Senhor, os midianitas foram roubar suas colheitas, e então um anjo do Senhor aparece e diz: o Senhor é sua paz. Existe um tempo de paz, um tempo de refrigério, de recuperação, de restituição. O discernimento de Issacar é discernir o tempo divino e o que Deus está marcando sobre esse tempo. É o espírito de conselho, um dos sete espíritos de Deus mencionados em Isaías 11. Espírito de conselho não é simplesmente ouvir um conselho, é sentar-se na mesa e ouvir o que Deus quer fazer no mundo. O discernimento de Issacar é atuar com sabedoria, alinhar ações humanas com os decretos divinos.
Levítico 23 diz: fala aos filhos de Israel e dize-lhes, as festas fixas do Senhor que proclamareis como santas convocações, estas são as minhas festas. Ali, moedim não significa apenas datas religiosas, mas portais de tempo profético, momentos em que o céu abre uma janela sobre a terra. Cada moed revela um ciclo espiritual: a Páscoa fala de redenção, o Shavuot, Pentecostes, fala de capacitação, o Sucot, Tabernáculos, fala de plenitude. Em Números 28 está escrito que em seu tempo determinado se oferecia a oferta ao Senhor. Existe até um tempo determinado para uma oferta especial.
O tabernáculo da congregação é chamado em hebraico de Ohel Moed, literalmente a tenda do encontro. Moisés tomou a tenda e a estendeu fora do arraial, e a chamou tenda do encontro, e todo aquele que buscava o Senhor saía até a tenda do encontro. Nesse caso, moed não é apenas um tempo, é um lugar marcado para o encontro. Deus tem um lugar marcado, assim como Yahweh Jireh é um espaço, uma geografia. Existe uma geografia que Deus habita, assim como Shiló era um ambiente espiritual dentro de uma geografia física. Deus traz uma atmosfera sobre ambientes, batiza lugares, visita lugares. Em todo lugar é possível adorar a Deus, mas Deus tem manifestações especiais, momentos de encontro marcados.
A palavra moed também aparece em Habacuque 2.3: escreve a visão, a visão ainda está para se cumprir no tempo determinado, se tardar espera-o, porque certamente virá, não tardará. Moed é o tempo que Deus marca, o tempo em que Deus visita. Deus tem um agendamento com o Brasil, com cada família, com cada vida. Deus tem visitações preparadas, sonhos proféticos, anjos que visitam, um batismo de fogo e de poder, uma nova unção reservados para o tempo certo.
Em Gênesis, sobre o nascimento de Isaque, Deus pergunta se haveria alguma coisa demasiado difícil para o Senhor, e promete: ao tempo determinado, ao ciclo, moed, tornarei a ti e Sara terá um filho. O nascimento de Isaque não aconteceu quando fez sentido biologicamente, mas no tempo designado de Deus. Existe algo para nascer no tempo designado por Deus, inclusive promessas sobre infertilidade. No Salmo 102.13 está escrito: tu te levantarás e terás misericórdia de Sião, porque é tempo de te compadeceres dela, sim, o tempo determinado chegou. Existem momentos divinos de favor, quando a estação muda sobre uma nação ou ministério, e a sorte muda. Quando o Senhor restaurou a nossa sorte, ficamos como quem sonha, a boca se encheu de riso, os lábios de cântico, e se dizia entre as nações: grandes coisas fez o Senhor por eles. Com efeito, grandes coisas fez o Senhor por nós.
A cruz, a ressurreição e a ascensão como o maior fechamento de ciclo da história
Jesus na cruz encerrou o ciclo da lei e inaugurou o ciclo da graça. Foi a transição da antiga para a nova aliança. Quando ele disse está consumado, em João 19.30, fechou a era da lei como sistema de justificação. Na cruz encerra-se tudo que era transitório: o sacerdócio levítico, o templo físico, o sistema de sacrifícios, o poder do pecado. A cruz é o ritual mais solene do universo, o cordeiro sendo imolado desde a fundação do mundo. O véu se rasga, em Mateus 27.51, indicando que um ciclo novo surgiu, separando-se do velho. O velho homem morre com ele, e o próprio Deus entra na morte para encerrar o ciclo da morte. É o fechamento do tempo da culpa e da condenação, a transição da justiça da lei para a justiça da graça.
A ressurreição é o início da nova criação, o primeiro dia de uma nova criação. Cristo ressuscitado inaugura um novo ciclo, e Paulo o chama de primícias dentre os mortos, em Primeira Coríntios 15. É o início de uma nova humanidade. A ressurreição é o selo de que o antigo ciclo foi concluído com sucesso. Sem ela, a cruz seria apenas tragédia, com ela, a cruz se torna vitória.
A ascensão é a transferência de autoridade. Ele foi elevado às alturas, levou cativo o cativeiro, concedeu dons aos homens, a uns apóstolos, a outros profetas, pastores, evangelistas e mestres, conforme Efésios 4. A ascensão é o rito celestial da entronização. Não significa que Jesus foi para o céu e ficou lá, significa que ele é Rei dos reis e Senhor dos senhores, que reina sobre tudo, embora ainda nem tudo esteja debaixo dos seus pés. Assenta-te à minha direita até que todos os teus inimigos sejam postos por estrado dos teus pés, diz o Salmo 110. Cristo sobe não apenas para ir ao céu, mas para assumir o trono. O Filho do Homem entra na presença do Pai como sumo sacerdote eterno, e sua autoridade é delegada à igreja: toda autoridade me foi dada nos céus e na terra, portanto ide.
Abre-se então um novo ciclo apostólico. Cristo é entronizado e envia o Espírito Santo, e a igreja vive o segundo ato, onde o Espírito Santo continua a agir. Recebereis poder ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis testemunhas, diz Atos 1.8. O Espírito sela os discípulos como embaixadores do reino de Deus. É o batismo de fogo que inaugura o tempo da igreja, o ciclo do testemunho, da missão e do discipulado global. O espírito que estava em Cristo agora habita no corpo coletivo da igreja.
A ceia do Senhor e o batismo são ritos que precisam ser observados, liturgias, sacramentos. Todas as culturas têm ritos para marcar mudanças de ciclo: nascimento, puberdade, casamento, morte, coroação, consagração. São ritos de passagem, cerimônias de transição, e qualquer pessoa precisa de uma cerimônia própria de transição de um ciclo para o novo. A unção de um rei, na história de Israel, costumava vir depois do luto ou da morte do rei anterior. O ano da morte do rei Uzias começou um novo ciclo, conforme Isaías 6: eu vi a glória do Senhor no templo. Às vezes alguma coisa precisa morrer para que o novo comece, e Herodes é o exemplo contrário, aquele que não quis dar glória a Deus, tomou a glória para si e foi ferido pelos vermes.
Paulo expressa em Filipenses 3 o mesmo princípio: esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as coisas que estão adiante. O futuro está à frente, os pés estão para frente, os braços estão para frente, os olhos estão para frente, não para trás. A vida segue para frente. Existe um futuro à frente de cada pessoa, e é preciso esquecer o que ficou para trás para inaugurar o novo tempo.
A travessia do Jordão como modelo de transição espiritual
Moisés fez a transição de liderança para Josué depois de libertar o povo do Egito e caminhar com eles por quarenta anos no deserto. Subiu ao monte Nebo, contemplou a terra prometida e entregou o cajado a Josué. Havia um luto nesse processo. O luto é um ritual de passagem, é preciso enterrar, é preciso atravessar essa fase, é difícil, mas é necessário sofrer o luto. Foi um tempo de encerramento e de preparação para o novo ciclo de conquista, o fechamento do ciclo do deserto e o início da terra prometida.
Em Josué, capítulos 1 a 6, está descrita essa transição. Depois de quarenta anos de peregrinação, o povo de Israel encerra o ciclo da dependência, do maná, da imaturidade e das provisões temporárias. Deus está encerrando ciclos de provisões temporárias. Deus está encerrando o ciclo do aluguel. Muitas vezes o que está sendo pago aos poucos está, na verdade, dando lugar a uma terra, expandindo territórios, fazendo transbordar casas, famílias, à direita e à esquerda, estendendo as cortinas da morada, firmando bem as estacas.
Cada ato dessa transição tem caráter profético. A travessia do Jordão foi, segundo Paulo, um batismo coletivo. É preciso fazer a travessia para o novo, deixando o velho para trás. O Jordão representa a linha de separação entre o passado e o futuro, entre o deserto e a promessa, entre a servidão e o reino. Quando as plantas dos pés dos sacerdotes tocam o rio, as águas se separam, repetindo intencionalmente o milagre do Mar Vermelho. O Deus que abriu o caminho no início do ciclo é o mesmo que fecha o ciclo abrindo o rio. O Jordão é o batismo da nação, o sepultamento do velho Israel é o nascimento de uma geração preparada para o governo. Governo é a palavra forte para o próximo ciclo: tende domínio, disse o Senhor em Gênesis, o mandato cultural.
Em cada novo ciclo é preciso ter a coragem de colocar os pés na água antes que ela se abra. Não há necessidade de esperar condições ideais. Lança o teu pão sobre as águas, porque depois de muitos dias o acharás, diz Eclesiastes 11. Coloca a tua semente de manhã e à tarde, não repouses a tua mão, porque não se sabe qual delas vai prosperar, mas uma delas ou todas elas vão.
Deus ordena então que doze homens, um de cada tribo, tirem pedras do leito do Jordão e as ergam como memorial em Gilgal. Dentro do Jordão e fora dele, doze pedras formam um memorial de transição que serve de testemunho geracional. O texto diz que, quando os filhos perguntarem o que significam essas pedras, a resposta será que as águas do Jordão se dividiram diante da presença de Deus, diante da arca da aliança. Todo fechamento de ciclo deve ser celebrado e registrado. O rito lembra a si mesmo e aos que virão depois o que Deus fez e por que se está ali.
Seis passos para atravessar de um ciclo para o novo
O fechamento do ciclo do deserto funciona como modelo completo de transição espiritual, e pode ser resumido em seis movimentos. O primeiro é fazer a travessia. É preciso atravessar, de fato, deixando o ciclo anterior do outro lado, uma linha imaginária, um caminho sem volta.
O segundo é deixar o memorial registrado. Uma fotografia, uma anotação, um gesto concreto que marque a data. Marcar esse memorial do dia em que Deus está mudando de fase, de estação, de ciclo, levando a uma terra que mana leite e mel, mas que também tem gigantes, gigantes que se tornam o próprio pão de quem atravessa.
O terceiro é cortar o velho. Cada pessoa sabe o que ainda carrega do ciclo anterior e precisa deixar para trás. Isso aparece no rito da circuncisão, em Gilgal, que significa rolo, ou remover. Deus diz a todo o povo: hoje removi de vós o opróbio do Egito. Antes de conquistar, Deus exige o selo do pacto. Antes de conquistar, é preciso refazer a aliança, confirmar que a carne foi cortada, renunciar aos ciclos de pecado, de mentira, de luxúria, de engano. Circuncidar é remover o excesso da carne, cortar o que impede a aliança com Deus e com o próprio povo. Não se entra em novas promessas com velhos hábitos. Conquistar sem aliança transforma a ocupação em desgraça.
O quarto é celebrar a aliança. Depois da circuncisão em Gilgal, o povo celebra a primeira Páscoa na terra prometida. Lembram o êxodo, mas não mais como escravos, agora como filhos. Não são vítimas, são vencedores, e é preciso declarar isso: sobrevivemos, prevalecemos, Deus fez grandes coisas por nós. Não se é mais vítima do passado, mas herdeiro do futuro. Depois dessa Páscoa, o maná cessa e o povo passa a comer o fruto da terra. O novo ciclo tem novidade de provisão, o maná era a provisão do deserto, o trigo de Canaã é a provisão da maturidade, e o novo ciclo exige novos recursos e nova administração.
O quinto é submeter-se à presença e à autoridade. Josué tem um encontro com o príncipe do exército do Senhor para colocar tudo em contexto e em perspectiva. É preciso saber quem está no comando. Josué encontra um homem com a espada desembainhada e pergunta se ele é por Israel ou pelos seus inimigos. A resposta é: não, mas venho agora como príncipe do Senhor. A pergunta certa não é se ele está do lado de alguém, é se alguém está do lado dele. Josué se prostra, e o príncipe ordena: tira as sandálias dos teus pés, porque o lugar em que pisas é santo. Ele vem assumir o comando. É a entrega da liderança de Josué ao verdadeiro líder dos exércitos de Israel. O que Josué vai conquistar não depende da sua força, mas da sua submissão e da sua dependência. O que qualquer pessoa vai conquistar não depende do tamanho, da conta bancária, do poder, do dom ou da aparência. As nações diante dele eram mais poderosas, sete nações mais poderosas, mas a diferença é a promessa de que Deus enviaria os seus vespões adiante, enviaria socorro e livramento, daria força para derrubar os gigantes. Antes de conquistar, Josué precisa reconhecer quem está no comando. A liderança humana se submete à liderança divina.
O sexto é oferecer as primícias. Jericó não é de Israel, é a primeira cidade, e o primeiro nunca é seu. O primogênito nunca é seu. Acã pega as coisas destinadas à destruição e Israel sofre reveses justamente porque o povo tomou para si o que pertencia às primícias. O primeiro fruto sempre é de Deus.
Por que todo ciclo precisa de um rito de encerramento
Nas escrituras, esses atos intencionais de registro de transição se repetem: a transmissão de comando de Elias para Eliseu, a celebração da aliança com a circuncisão em Gilgal, o comissionamento dos apóstolos com imposição de mãos. A mente humana precisa de marcos concretos para processar mudanças. Formaturas são importantes. Ninguém lembra do que não celebra. Casamentos, funerais, é preciso enterrar o morto, sofrer o luto e mudar de fase, porque existe gente que continua enterrada junto com o morto até hoje. Unções, consagrações, batismos, todos esses atos dão linguagem ao invisível, transformando a mudança interior em gesto exterior.
Sem isso, as pessoas permanecem emocionalmente presas a ciclos antigos: relacionamentos não resolvidos, ministérios que já terminaram, fases da vida que já se foram. O ritual oferece um ato simbólico de libertação: reconhece o que foi vivido, honra o que foi, entrega o que acabou e se abre para o novo. Ele cumpre quatro funções específicas. Reconhecimento, do que terminou. Gratidão, que ressignifica o passado. Perdão, que libera as mágoas do ciclo anterior. Projeção, que planta esperança no que vem adiante.
Na economia do reino, Deus não promove quem não encerra bem um ciclo. A ansiedade matou o ministério de muita gente. Deus honra o encerramento correto dos ciclos. Cada ciclo precisa ser honrado, mesmo quando foi doloroso, porque foi ali que o caráter foi formado. Às vezes foi em Gilgal que a carne foi cortada, o orgulho foi removido, houve circuncisão, houve ferida para que houvesse cura, para pertencer à aliança, para permanecer em Deus, para dizer que nenhuma ferida tira do reino, que nada do que fizeram contra alguém será capaz de abalar quem está sobre o monte de Sião, que não se abala, mas permanece para sempre.
Quem fecha bem começa forte. Quem não encerra, repete. Foi isso que Israel fez repetidas vezes ao longo da sua história, repetindo ciclo após ciclo. Existe gente presa num loop do tempo, as mesmas lutas, as mesmas batalhas, os mesmos inimigos, os mesmos conflitos, as mesmas dívidas, as mesmas doenças, as mesmas coisas. Mas existe uma promoção para um novo ciclo disponível, um comissionamento para um novo tempo.
Erguer o altar de um novo tempo
A história da redenção se move em ondas, ciclos espirituais, transições e padrões de tempo. Jacó ergueu um altar depois de uma promessa feita vinte anos antes: se o Senhor o guardasse no caminho, lhe desse roupa para vestir e pão para comer, ele daria o dízimo de tudo. Vinte anos depois, ele volta ao mesmo lugar, Betel, e ali ergue uma pedra como altar. Deus foi fiel durante os vinte anos que se passaram, o abençoou, o multiplicou e o fez patriarca, pai das doze tribos.
Deus disse a Josué: dei-vos a terra em que não trabalhastes, cidades que não edificastes e habitais nelas, comeis das vinhas e dos olivais que não plantastes, conforme Josué 24.13. A graça é o nome desse novo tempo. Uma nova estação chamada favor, que não é mérito, não é capacidade, não é força, nem bondade própria, mas é fidelidade. Ninguém está por conta própria. A mão do Todo-poderoso defende, o Senhor luta por quem é seu, o Senhor cuida como um pai cuida de um filho a quem ama.
A pergunta que fica é qual altar está sendo erguido agora, qual é a lembrança que vai marcar este momento, qual é o batismo que está em curso. Um tempo onde a luz é mais poderosa do que toda escuridão, onde a cura é mais poderosa do que a dor e a ferida, onde a graça inunda e faz de quem a recebe alguém favorecido, profundamente amado, altamente favorecido.
Cantai ao Senhor um cântico novo, cantai ao Senhor todos os moradores da terra, tributai ao Senhor glória e força, a glória devida ao seu nome, porque o Senhor fez maravilhas, está escrito no Salmo 96. Onde está a canção nova de quem lê isso agora? Onde está o rito de passagem, a canção que vai inaugurar o novo tempo? Ao que está sentado no trono, e ao Cordeiro, seja o louvor, seja a honra, seja a glória, seja o domínio pelos séculos dos séculos, como está escrito em Apocalipse 5.
Existe um tempo de restituição sendo declarado sobre famílias, sobre histórias, sobre o Brasil. Um novo ciclo de livramento, onde o roubo da colheita termina e o ciclo do assalto se encerra. As bênçãos descritas em Deuteronômio 28 continuam valendo: ser bendito no campo e na cidade, bendito o fruto do ventre, o fruto da terra, o fruto dos animais, o fruto do solo, os inimigos que vierem por um caminho fugindo por sete, a chuva no seu tempo, o orvalho, a restituição de coisas perdidas ou que nem chegaram a ser recebidas, mas que eram de direito. Isso não é o fim de nada. É um começo. Deus premia com novos frutos, novidades da terra, ferramentas novas, dons, habilidades e capacidades, entregando inimigos nas mãos de quem atravessa, como fez com Davi.
Que o amor de Deus, a graça de Jesus e a comunhão do Espírito Santo marquem essa travessia, do deserto à promessa, de um ciclo encerrado a um novo tempo que já começou.
Para acompanhar essa ministração na íntegra, com todo o desenvolvimento desses ciclos bíblicos, vale a pena assistir ao vídeo completo e ouvir também o episódio no podcast pessoal de Bispo JB Carvalho.
