Guerra Contra Amaleque: A Batalha Entre a Dor e o Destino

Guerra contra Amaleque | JB Carvalho — thumbnail do vídeo

Êxodo 17.8 registra uma frase curta que carrega dentro de si uma guerra que atravessa todas as gerações: “Então veio Amaleque e pelejou contra Israel em Refidim.” Essa frase não descreve apenas um episódio militar do deserto. Ela descreve um padrão que se repete em cada geração, em cada casa, em cada coração ferido que ainda não decidiu o que fazer com a própria dor.

A proposta aqui é caminhar entre a dor e o destino, entendendo o que Amaleque representa, como ele opera e, principalmente, como ele é vencido. São três observações rápidas sobre o texto de Êxodo, e depois uma jornada mais longa por Ana, por Esaú, por Davi e pelos vales onde a amargura nasce e se transforma em algo maior do que ela mesma.

Amaleque ataca exatamente no lugar do descanso

A primeira observação do texto é geográfica e espiritual ao mesmo tempo. Amaleque veio lutar contra Israel em Refidim, e Refidim significa descanso. Esse inimigo não escolhe qualquer lugar para atacar. Ele escolhe justamente o lugar onde você deveria estar descansando, recuperando forças, respirando depois da travessia.

Se você quer um tempo de rompimento, você precisa primeiro encontrar um lugar de descanso. E o descanso, por mais estranho que pareça, às vezes é o maior inimigo de alguns homens de Deus, porque é justamente quando a guarda baixa que o ataque vem.

Lembre-se de Davi, que ficou no palácio enquanto seus exércitos estavam na guerra. Toda a sua crise, toda a sua tragédia pessoal, começou ali, quando ao invés de estar no lugar da batalha, no lugar da convergência, ele estava assistindo o que hoje seria um seriado na Netflix, vendo Bate-Seba do alto do terraço. Deu muito errado, e a história inteira de Israel carregou as consequências disso.

Lembre-se de Moisés, que ficou extremamente cansado e feriu a rocha porque ouviu a murmuração do povo. A murmuração dos próximos tira a paciência até do homem mais manso de toda a terra. Lembre-se de Elias, que tinha o que hoje chamaríamos de fadiga adrenal crônica, um burnout profundo, cansado a ponto de pedir para morrer. E Deus não repreendeu Elias, Deus o alimentou, deixou ele dormir, e depois disse, em outras palavras: vamos substituir você no segundo turno, entre Eliseu no seu lugar.

Veja os homens mais poderosos da Bíblia descrevendo o cansaço, e é exatamente isso que Amaleque explora. Ele não quer deixar você descansar. Se nós queremos romper ciclos, nós precisamos aprender a descansar de verdade, porque Amaleque não vai querer te deixar distensionar. Um líder cansado é um grande problema, e Amaleque sabe disso melhor do que ninguém.

Você não vence essa guerra sozinho

A segunda observação do texto de Êxodo 17 é sobre companhia. Enquanto Amaleque gasta energia para nos derrubar, nós precisamos ter gente ao nosso lado para levantar nossas mãos. E às vezes a gente faz falta um para o outro de um jeito que só se percebe na hora da batalha.

O texto diz, nos versos 12 e 13, que as mãos de Moisés eram pesadas, e por isso tomaram uma pedra e a puseram debaixo dele, e ele se assentou sobre ela. Arão e Hur sustentavam suas mãos, um de um lado e outro do outro, e assim suas mãos ficaram firmes até o pôr do sol. E Josué desbaratou Amaleque e seu povo ao fio da espada.

Para vencer Amaleque, Moisés se senta na rocha, com as mãos levantadas, sustentadas por Arão e Hur. Ninguém venceu essa batalha sozinho. Nem Moisés no monte, nem Josué no campo. A vitória foi dividida entre quem orava, quem sustentava e quem lutava.

Uma guerra de todas as gerações

A terceira observação é sobre a natureza dessa guerra. Para vencer, é preciso entender que essa não é uma batalha pontual. É uma guerra de todas as gerações. Em Gênesis 3, Deus já havia dito que porá inimizade entre a mulher e a serpente, entre a descendência dela e a descendência dela, e que a serpente feriria o calcanhar enquanto seria ferida na cabeça. E em Apocalipse 12, o dragão continua pelejando contra a descendência da mulher.

Nesse período intermediário entre Gênesis e Apocalipse, a guerra aconteceu o tempo todo, e está acontecendo hoje. Seus filhos vão lutar contra Amaleque. Seus pais lutaram contra Amaleque. E você, decisivamente, já lutou ou está lutando contra Amaleque agora.

Esse é um inimigo que não conhece regras. A Bíblia diz que ele atacou pelas costas Israel quando o povo estava entrando na terra prometida, cansado, afadigado, vulnerável. O Senhor jurou que haveria guerra contra Amaleque em todas as gerações. E o texto começa dizendo apenas “e veio Amaleque”. Ninguém convidou essa guerra. Quando a equipe de mídia foi produzir a divulgação de um material sobre esse tema, escreveram: “você tem que entrar nessa guerra”. A correção precisa ser feita: você não entra nessa guerra, você nasce dentro dela. Não é opcional. Você está lutando contra Amaleque e você não pediu para lutar.

Na história, Amaleque era um povo de assassinos, selvagens brutais, covardes, ladrões que pilhavam e roubavam todos os que encontravam. Filo os chama de “o povo que lambe”. Para os comentaristas bíblicos, Amaleque é a própria encarnação do mal. Um dos grandes rabinos da história dos judeus dizia que Amaleque é o eterno inimigo do povo de Deus. Deuteronômio 25 registra que eles atacaram pelas costas, exatamente quando o povo estava cansado, entrando na terra. Mais uma vez o cansaço aparece como a porta de entrada.

Os amalequitas de hoje: de Refidim às “Regras para Radicais”

Hoje Amaleque não é mais um povo, não é mais uma pessoa. É uma mentalidade, uma maneira de pensar, uma ideologia, um arquétipo, um estilo de vida. Existem amalequitas de todo tipo hoje, inclusive engenheiros sociais, como Saul Alinsky.

Alinsky mentorou nomes como Barack Obama e Hillary Clinton. Morreu em 1972, mas antes escreveu um livro chamado “Regras para Radicais”, dedicado ao diabo, que segundo ele foi o primeiro rebelde. A dedicatória diz que se trata do primeiro radical que se conhece, alguém que se rebelou contra o establishment e fez isso tão bem que ao menos conquistou o seu próprio reino: Lúcifer.

Entre as treze regras de Alinsky estão coisas como: poder não é apenas o que você tem, mas o que o inimigo pensa que você tem. Expor o inimigo ao ridículo é a arma mais poderosa do homem. Mantenha a pressão. A ameaça é normalmente mais aterrorizante do que a própria coisa. Se você fizer uma acusação gravíssima, irá despedaçar a oposição, faça a calúnia mais terrível contra o seu inimigo, desestabilize-o. E a última regra: escolha o alvo, congele-o, personalize-o e polarize-o.

Alinsky era um amalequita, e o inferno provavelmente o recebeu de braços abertos. Os amalequitas de hoje não são mais aqueles povos que viviam no deserto catorze séculos antes de Cristo. Os amalequitas de hoje têm livros, centros de treinamento, estão nas universidades, na mídia, no governo e até na igreja. Eles usam táticas mais refinadas, programas de destruição mais avançados, mas continuam atacando pelas costas. Eles não olham nos olhos. Atacam principalmente a família, e nos põem uns contra os outros.

Vale a pena lembrar que a reprovação final de Deus contra Saul foi justamente a sua recusa em destruir Amaleque completamente. Deus disse a ele: lembra-te do que fez Amaleque, passa tudo ao fio da espada. Saul se recusou. E quem terminou o que Saul deixou pela metade foi o filho de Ana, que venceu Amaleque porque primeiro venceu a amargura.

Ana e a decisão de não se amalequizar

Ana tinha tudo para se amalequizar. Ela era infértil, e num momento de dor profunda, derramando sua alma diante de Deus, encontra um sacerdote sem discernimento que diz a ela: “você está bêbada nessa hora, mulher?” Era a oportunidade perfeita para se tornar ressentida, para dizer “eu vou sair dessa igreja, eu nunca mais volto para orar aqui”. Ela não fez isso.

Ana respondeu: “não tenhas, meu senhor, a tua serva como filha de Belial, eu estou aqui buscando em Deus uma resposta.” E o sacerdote, mesmo cego, mesmo sem discernimento, deu uma palavra sobre aquela mulher que se cumpriu. Nasce Samuel. E é Samuel quem vai matar Agague, o rei amalequita que Saul se recusou a matar.

A pergunta que fica é simples e desconfortável: qual é o Agague que está na sua vida, que você se recusou a matar?

O fator Esaú e Jacó: os estágios da amargura

Para entender Amaleque, é preciso entender o que a Escritura chama de raiz de amargura. Hebreus fala em seguir a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá a Deus, atentando diligentemente para que não haja raiz de amargura que, brotando, perturbe e contamine muitos. Uma pessoa contaminada contamina os outros.

Efésios 4.31 descreve os estágios dessa amargura: longe de vós toda amargura, cólera, ira, gritaria, blasfêmia e malícia. O texto mostra a amargura se transformando progressivamente em outras coisas. Ela avança e se torna ressentimento profundo, ódio profundo, e faz a pessoa blasfemar, ferir com a boca, tanto contra Deus quanto contra os homens. No fim, ela se torna malícia, um viés maldoso de enxergar a vida, uma maneira contaminada de olhar. Gente com olhar sujo, gente que perdeu a inocência e acredita que ninguém mais é inocente.

A Escritura continua falando sobre Esaú, chamado de profano por vender seu direito de primogenitura por um prato de lentilhas. Depois, querendo herdar a bênção, foi rejeitado, e não achou lugar de arrependimento, embora com lágrimas tivesse buscado. A amargura tem lágrimas. Esaú, ressentido por ter perdido seu lugar, não conseguiu virar a chave do coração. Se rebelou contra pai e mãe, casando-se com mulheres eteias para atribuir peso e angústia aos pais. Tanto Isaque quanto Sara se amarguraram por causa dele.

Esaú gera Edom, porque se transforma naquilo que o venceu. A cor do prato de lentilhas passa a definir o que ele se tornou: vermelho. É Edom. O que te vence muda a sua própria natureza. E Esaú gera Amaleque, que é neto dele. A amargura é atemporal. Assim como Isaque, filho da promessa, gera bênçãos que se transferem geracionalmente através de Abraão, Isaque e Jacó, há famílias com a tendência de transmitir a mesma amargura, o mesmo ressentimento, geração após geração.

Não subestime o poder da amargura. Ela destrói casamentos, destrói famílias, produz guerras. Não é um detalhe marginal na história humana. Ela tem o poder de transformar pessoas boas em pessoas más. Esse filme já foi visto dezenas, centenas, milhares de vezes. Hitler, Mussolini, Fidel Castro, todos carregavam uma situação mal resolvida na vida. A história de Lênin mostra como a política de um tirano maligno foi fruto de uma ferida mal resolvida no coração.

A amargura na cultura, na literatura e no cinema

Charles Dickens escreveu sobre isso pelo menos em dez obras diferentes, incluindo a mulher abandonada no altar que nunca mais tirou o vestido de noiva, deixou o bolo apodrecer e infernizou a vida de todo mundo ao redor. A amargura é homicida e suicida ao mesmo tempo, porque para destruir os outros, a pessoa amargurada já está disposta a destruir a si mesma.

Ressentimento e decepção são a gênese do fenômeno amalequita. A contracultura de hoje, com sua marcha dos oprimidos, carrega esse mesmo espírito. Thomas Sowell observou que tratar pessoas igualmente é visto como preconceito por quem se acha superior, e algumas pessoas, quando tratadas de forma igual, sentem-se alvo de discriminação porque desejam algum tipo de reparação histórica. A decepção é a mãe da descrença, e o desapontamento é a origem da má teologia. Há muitas pessoas enviesadas pela sua própria dor.

Hebreus 3.12 é claro sobre isso: tende cuidado, irmãos, para que nunca aconteça haver em qualquer de vós um perverso coração de incredulidade que vos afaste do Deus vivo. Um perverso coração de incredulidade é de alguém que decidiu não acreditar porque está machucado, porque está ferido, e resolve fazer birra, lutar contra Deus.

Dinesh D’Souza conta a biografia de Christopher Hitchens, jornalista e filósofo ateu, cujo pastor da família adulterou com a mãe dele, levou-a embora, e tempos depois o pastor se matou e a mãe também se suicidou. Hitchens tinha seis anos e cresceu odiando a igreja, odiando Deus, odiando tudo relacionado a religião. Tornou-se um dos ateus mais raivosos da sua geração, não porque não acreditava na existência de Deus, mas porque odiava Deus. O que nos define não é o que aconteceu conosco, é o que nós fazemos com as nossas dores, com as nossas perdas, com as coisas que deram errado.

A cultura pop está repleta desse padrão. Scar, do Rei Leão, é um amargo ressentido. Nos X-Men, o professor Xavier passou por poucas e boas, mas há também Magneto, que passou pelos campos de concentração e nunca se recuperou daquilo, e está ali tentando fazer o mal. Entre um herói e um vilão, a diferença muitas vezes é a pessoa que foi ferida e conseguiu ser curada versus a pessoa que continua lambendo as próprias feridas.

O menino Messias de Star Wars se transforma em Darth Vader por causa da sua incapacidade de lidar com a perda da esposa no parto do filho, Luke Skywalker. Ele era do bem e se tornou do mal porque não conseguiu administrar as coisas do coração. A batalha é de dois reinos pelo coração de cada homem nesse planeta. A coisa mais importante na sua vida está acontecendo dentro de você.

Smeagol, no Senhor dos Anéis, se torna Golum. Enfeitiçado pelo poder do anel, ele se corrompe por dentro e se transforma num monstrinho. A inveja amargurada, diz a Bíblia, apodrece os ossos. Há gente se monstrificando, gente mudando de lado, mudando de reino, ficando amarga e tentando destruir os outros.

Absalão foi pego pela ofensa, profundamente machucado pelo que aconteceu com sua irmã Tamar, pelo irmão Amnom e por Davi não ter feito nada a respeito. Quando nasce uma filha para Absalão, ele dá a ela o nome de Tamar, como quem diz: com a filha do rei qualquer um mexe, mas mexam com a minha para ver. Tomado de ressentimento, dá um golpe de estado contra o próprio pai e morre rebelde, pendurado numa árvore pelos cabelos.

Davi: o homem que virou a chave do coração

Mas há também Davi, o homem que vira a chave, que supera suas crises, que faz das suas batalhas salmos e das suas dores cânticos. Muitos não vão terminar a jornada, mas Davi era um homem rejeitado, com tudo a favor de se tornar um ressentido, e não se tornou.

Na caverna de Adulão, ele reuniu os piores homens, os falidos, os amargurados, os ressentidos, todo mundo com nome sujo, como diríamos hoje, no SPC e no Serasa. Davi foi ungido rei por Samuel enquanto já existia outro rei reinando. Ele lidou com a vergonha de Israel, que era Golias. Enfrentou a inveja de Saul, que o perseguiu por treze anos, não foi um fim de semana, foram treze anos de perseguição movida por ciúme, porque as mulheres cantavam que Davi matou dez mil e Saul apenas mil. Davi foi rejeitado por Saul, pelo povo de Israel, por Mical, pelos filisteus. Davi sabia o que era ser rejeitado, e um líder que aprendeu a lição da rejeição carrega uma força diferente.

Davi fugiu para o deserto, onde se juntou a ele um exército de gente amargurada, os rejeitados da sociedade, e ele se fez líder deles. Segunda Samuel 23 revela as realizações extraordinárias de trinta e três desses homens, citados por nome. Eram como leões, diante deles a terra tremia. Um pegou a espada e matou trezentos. Um pegou a lança e matou oitocentos. Eram matadores de gigantes porque se uniram a um matador de gigantes, absorveram o DNA de Davi.

Ziclague: entre a dor e o destino

Davi se muda para a terra dos filisteus, que lhe dão uma aldeia chamada Ziclague. Ele saía à noite para guerrear contra os inimigos dos filisteus, na verdade lutando contra os inimigos de Israel, e trazia os despojos. Um dia, quando seus homens voltavam, só viram fogo, fumaça e cinzas. Os amalequitas passaram por Ziclague, levaram as esposas e os filhos, e queimaram tudo. Eles não apenas pilharam e roubaram, eles queimaram tudo. Essa é a natureza amalequita: ele não quer ver ninguém ganhando, e se possível prefere perder para ver você perdendo também.

Há uma história de um sujeito tomado de amargura que chuta uma lata e aparece um gênio, dizendo que é seu dia de sorte, que pode fazer um pedido. Mas antes de conceder, o gênio avisa que vai dar o dobro do que for pedido para a pessoa que o sujeito mais odeia. Se ele pedir um milhão, o inimigo ganha dois. Se pedir cem casas, o inimigo ganha duzentas. O sujeito pensa, pensa, e diz: “fura um olho meu.” É a caricatura mais exata do espírito amalequita.

Quando os homens de Davi chegam a Ziclague, a Bíblia diz que eles muito se amarguraram. Existe um Amaleque de fora e um Amaleque de dentro. A amargura tomou conta deles, e eles queriam apedrejar Davi. É isso que acontece hoje: quando as pessoas falham, elas precisam de um culpado, alguém tem que pagar pelo que deu errado. Os amargurados normalmente querem matar os líderes. Eles estavam sintonizados na frequência da amargura.

Mas entre a estupidez e a vitória existe um momento decisivo. Primeira Samuel 30 diz que Davi se angustiou, pois o povo falava em apedrejá-lo, cada um amargurado por causa dos seus próprios filhos e filhas. Porém Davi, porém Davi, porém Davi se reanimou no Senhor seu Deus. É isso que um líder faz: ele se levanta, ele se reanima. Há uma interpretação desse texto que diz que Davi pegou emprestada a força de Deus, porque a nossa força não é suficiente para vencer algumas guerras.

As três chaves da liderança de Davi

Ali estão as três chaves que transformaram o pior dia de Davi no seu ponto de ascensão. A primeira: Davi lidou com as frequências do próprio coração, ele ministrou a si mesmo. É isso que um líder faz, ele se governa. Você tem que aprender a falar com você, a ministrar você, a profetizar para você mesmo. Se não tem ninguém que te elogia, elogie a si mesmo, vá na frente do espelho e profetize. Seja o seu próprio profeta, ministre a si mesmo, se encoraje, pegue a força de Deus e se reanime nele.

Toda jornada de um homem de Deus envolve lidar com a sua escuridão pessoal. Satanás está recrutando pessoas, e ele normalmente recruta as pessoas feridas. Pessoas feridas fazem parte de um exército de gente ressentida, mas vencer a escuridão pessoal exige a solidão do deserto. A vida em comunidade cura, mas às vezes é preciso fazer o caminho dos santos sozinho, buscar o espírito de conselho, de sabedoria, de entendimento, de fortaleza, chegar ao trono da graça a fim de receber misericórdia e socorro em tempo oportuno.

Quando você aprende a se liderar, Deus está pronto para liberar uma nova medida de autoridade e de bênção na sua vida. Autoliderança é poder. Davi está outra vez sozinho, e é sozinho que ele pode encontrar a Deus, como Jacó no vale do Jaboque, como Paulo em três anos e meio no deserto da Arábia. É quando você lida com a rejeição das pessoas para não ficar condicionado ao aplauso delas. Naquela hora, os homens de Davi estavam cegos, ele havia dado a vida por eles e eles se voltaram contra ele com pedras nas mãos. Davi teve que virar uma chave dentro do próprio coração, escolher alegria no meio das cinzas.

Paulo disse a Timóteo: cuide de você e cuide do seu ensino. Antes de cuidar de qualquer outra coisa, cuide de você mesmo. O manso, segundo a Escritura, herdará a terra, e manso não é sinônimo de fraco ou de um sujeito entregue à estupidez alheia. O manso é quem controla o poder, quem controla a si mesmo, quem administra as bênçãos sem deixar que elas subam à cabeça, quem é estabelecido em uma posição de autoridade sem que o coração mude. Os mansos herdam a terra porque são confiáveis, se governam e por isso podem governar tudo à sua volta. A chave da promoção é aprender a ministrar a si mesmo primeiro.

Você tem que vencer o amalequita interior. Os homens de Davi estavam amalequizados, amargurados, ressentidos, e você só consegue virar a chave do seu ambiente externo depois de virar a chave do seu ambiente interno. É do coração que procedem as fontes da vida, e a vingança nos torna iguais ao inimigo. Há muita gente querendo vencer o inimigo com as armas do inimigo, e é preciso vencer sem se tornar um deles.

A segunda chave, depois de virar a chave do coração, é virar a chave do ambiente imediato, o que significa engravidar a atmosfera. É preciso lidar com o Amaleque do próprio círculo de liderança, ministrar aos seus, ao seu ambiente. Um líder dobra metais. Jesus disse à igreja de Éfeso: conheço o teu labor, e labor é o trabalho de quem está entortando metal, um trabalho extremamente difícil. Somos chamados para dobrar a realidade.

O espírito pós-moderno e a era do desencanto

Amaleque é amargura, e a amargura é hemorragia da alma. Há pessoas sangrando que nunca se deixaram curar, que vivem feridas. Amaleque é ressentimento, e é fácil ficar viciado em problemas, fácil colocar o foco no que está errado. A melancolia e a decepção são a expressão do espírito pós-moderno, o desencanto ou a desesperança. Para ser um pós-modernista raiz, é preciso ser um sujeito cínico.

A geração Z viu a geração Y se arrebentar, e existe uma expectativa de que essa geração seja a geração da virada, atrás de esperança, um contraespírito ao espírito do tempo. A pós-modernidade surgiu na França, marcada por pessoas sem perspectiva de futuro. Filósofos como Derrida e Foucault foram adorados dentro das universidades, mesmo carregando comportamentos extremos e distorcidos, celebrados entre os intelectuais como símbolo de ruptura.

Esta é uma era de decepção, onde Hollywood decidiu acabar com o final feliz, onde os fracos não têm vez, onde o bandido às vezes vence no final, onde as princesas da Disney decidiram não arriscar um casamento e permanecem solteiras ou separadas, abraçando o cinismo. É uma era de desencanto, onde o espírito do tempo exige frieza, distância, ausência de esperança.

A desilusão tem sido a marca de uma geração de pais divorciados, meninos e meninas que sentiram na pele a dor do desamparo e do abandono. A estratégia de muitos políticos se tornou fazer tudo para piorar a fim de se vender como solução. As pessoas andam desiludidas, perderam a fé: o marido infiel, a esposa infiel, a ladainha política, o policial bandido, o pastor enganador, os amigos que traem e abandonam. A depressão se tornou epidêmica, e há gente se rebelando contra a vida e contra o próprio Deus, com um coração perverso de incredulidade, dizendo: as coisas não deram certo, agora eu vou ficar duro, bruto, endurecido.

Mas é preciso andar mais um pouco, caminhar outra vez, jogar as redes de novo. As coisas vão se encaixar, as coisas vão fazer sentido, porque Deus faz cooperar juntamente todas as coisas para o bem daqueles que o amam. José foi jogado no fosso, vendido como escravo, caluniado na casa de Potifar, esquecido na prisão depois de interpretar sonhos. Ele só estava se aproximando do lugar onde deveria estar. Quando seus irmãos finalmente o procuraram, ele disse que não foram eles que o enviaram para ali, foi Deus quem o enviou, havia um propósito. O mal que vocês intentaram contra mim, Deus o tornou em bem. É preciso de uma revelação do Deus que começa e termina o que começou, mesmo diante de injustiças e decepções.

Perseguindo Amaleque: o caminho da restituição

Existe cura na comunidade. Lidar com Amaleque exige parcerias, porque se Amaleque divide, o grande inimigo dele é a amizade, a aliança, a lealdade. O grande inimigo de Amaleque é encontrar pessoas em quem você possa de fato confiar, que vão levantar suas mãos, que sabem quem você é e vão te defender quando os inimigos acusarem você falsamente, porque elas te conhecem de perto, não de longe.

Davi não vence sozinho. Ele chama o sacerdote Abiatar, consulta o Senhor, toma a estola sacerdotal e apresenta uma visão para o seu time. Um líder mostra uma saída, apresenta uma visão de futuro, porque sem visão o povo se corrompe. Ele segue o protocolo, faz coisas óbvias, chama os principais para a mesa. E os homens que queriam matar Davi largaram as pedras porque viram a visão: resgatar as famílias, perseguir Amaleque. Eles estavam exatamente entre dividir-se, matar Davi, ou seguir para a vitória. Estavam entre a dor e o destino.

Você tem uma escolha para fazer. Pode continuar ferido e machucado, com motivos legítimos para se sentir assim. Pode ficar deprimido, afundar na tristeza. Ou pode confiar que Deus vai lidar com a situação, que Deus vai resolver isso, e o nome disso é perdão. Perdão é tirar das suas próprias mãos e dizer: resolve isso, eu sou incapaz, a justiça e a vingança pertencem a ti.

Há pessoas vingativas, no modo de dar o troco, no modo de ressentimento, na autocomiseração, lambendo as próprias feridas. E a terceira atitude, depois de reanimar-se e reunir aliados, é ir atrás de Amaleque. Davi passa pelo inferno porque foi chamado para ser rei. Depois de todo o caos e da ingratidão, depois da desordem, a página muda, o trono está vazio, Saul está morto. Depois do pior dia de Davi, surge a sua melhor temporada.

No caminho da restituição, existe um egípcio abandonado pelos amalequitas para morrer, três dias sem comer nem beber. Davi salva a vida dele. O homem se identifica como servo de um amalequita, deixado para trás. Davi o alimenta, e em troca do juramento de que não seria entregue de volta aos amalequitas, o egípcio guia Davi até o lugar exato onde eles estavam. Aquele homem que Davi salvou foi o homem que levou Davi à geografia da sua restituição.

Davi os perseguiu e só voltou depois de ter dado cabo deles. No caminho, duzentos dos seus homens ficaram tão cansados que não puderam prosseguir, mais uma vez o cansaço aparecendo como limite humano, e ficaram guardando os despojos, enquanto quatrocentos foram e acabaram com os amalequitas. Davi estabelece então a lei do despojo: reparte tudo igualmente entre quem lutou e quem guardou a bagagem, porque os amalequitas não haviam roubado só de Ziclague, essa era a natureza deles em todo lugar por onde passavam. Davi, ao recuperar mais do que havia sido roubado, reparte generosamente. Ele estava se preparando para se tornar rei.

A coroa que veio das mãos do próprio inimigo

No capítulo primeiro de Segunda Samuel, chega até Davi um amalequita trazendo o bracelete e a coroa de Saul. Ele afirma ter matado Saul a pedido do próprio rei. O texto revela que ele está mentindo, mas ainda assim carrega os símbolos do trono. Davi ordena que aquele amalequita seja morto. E a justiça poética é exatamente essa: foi um amalequita quem trouxe a Davi a coroa que ele estava prestes a governar. Aqueles que intentaram contra você muitas vezes são os mesmos que, sem saber, trazem até você a sua promoção.

A Bíblia registra que Moisés edificou um altar depois da batalha e lhe chamou “o Senhor é a minha bandeira”. Arão e Hur sustentavam suas mãos, Josué lutava contra Amaleque. Pelas pisaduras de Jesus somos sarados, e quando as suas dores são curadas, você se torna um modelo para outras pessoas feridas no mesmo lugar, para que elas também sejam saradas. Feridas glorificadas curam a muitos.

A pergunta que fica

Vale parar e olhar para a própria trajetória com honestidade. Você é um ressentido? Tiago fala sobre a inveja amargurada. Você tem sido um crítico, e a crítica normalmente vem da insatisfação da própria alma? Você tem vencido as batalhas do seu coração, ou está perdendo essa guerra pela sua integridade, pela sua pureza? Seguir a paz com todos e a santificação é o caminho, sem raiz de amargura que, brotando, perturbe e contamine os demais.

Vale também escutar com mais cuidado a voz dos amargurados ao redor. Por detrás do que se fala, há muita dor, há muito ódio. A amargura passa por estágios, da cólera à ira, da ira à blasfêmia, até se transformar em maldade e malícia. É hora de pedir o bálsamo sobre as feridas abertas de gente que foi injustiçada, e também de gente que feriu a si mesma através dos próprios erros. Que haja liberdade para que o Espírito visite os quartinhos escuros da alma e traga reconciliação, pontes onde havia muros, cura sobre relacionamentos, restauração do coração dos pais para os filhos e dos filhos para os pais, da esposa para o marido e do marido para a esposa, de amigo para amigo.

Diante da cruz, a palavra ainda é: Pai, perdoa-lhes, eles não sabem o que fazem. A opção do perdão continua sendo entregar nas mãos de Deus a certeza de que a vingança não pertence a nós, mas a ele. Que venha reconciliação, que cessem as guerras, os rumores de guerra, as mentiras, as maldades, sobre famílias, sobre relacionamentos, sobre a cidade e sobre o Brasil, tão dividido, tão cheio de ressentimento e amargura. Que os corações se levantem em oração sem ira nem contenda, e que venha cura, restauração e reconciliação sobre essa nação.

Essa é só uma parte do que foi ministrado sobre Amaleque, a dor e o destino. Vale a pena assistir ao vídeo completo e acompanhar também o episódio no podcast pessoal de Bispo JB Carvalho, onde esse e outros temas são aprofundados com ainda mais detalhes.