Os caminhos de Deus
Estamos vivendo um tempo em que precisamos aprofundar o discipulado. Dar chão, dar caminho, dar destino às pessoas. Uma vida pastoreada, mais do que por pessoas, por princípios. Uma vida orientada por propósito. E para isso quero falar dos caminhos de Deus.
Manifestou os seus caminhos a Moisés e os seus feitos aos filhos de Israel.
Salmos 103.7 (ARA)
Há uma enorme diferença entre conhecer os caminhos de Deus e ver os seus feitos. A Moisés, Deus revelou caminhos. Talvez esse tenha sido o maior segredo dele como líder: ele deixou algo perene, deixou legado, e legado é aquilo que permanece. Ver os feitos tem a ver com o que Deus faz por nós. Conhecer os caminhos tem a ver com o que Deus faz em nós e através de nós. Ver os feitos muitas vezes nos deixa como espectadores. É maravilhoso, mas conhecer os caminhos de Deus nos torna íntimos dele, protagonistas da história da nossa geração. Ver os feitos de Deus nos empolga. Conhecer os seus caminhos nos coloca na direção certa e nos dá destino.
Faze-me, Senhor, conhecer os teus caminhos, ensina-me as tuas veredas.
Salmos 25.4 (ARA)
Andar com Deus
Deus se move, se manifesta, por caminhos que Ele mesmo estabeleceu. Quem aqui gostaria de andar com Deus? A questão é muito mais do que ter um rótulo religioso ou algumas práticas que repetimos com certa rotina. A essência da lógica do Reino é andar com Ele. A Bíblia diz que Enoque andou com Deus. E só há uma maneira de andar com Deus: conhecer os seus caminhos.
Os caminhos e os pensamentos de Deus são elevados, ordenados, fundamentados em leis e princípios. São indesgastáveis, imutáveis. Deus não age aleatoriamente, e a presença dele não se estabelece aleatoriamente. Ele se move por caminhos, por processos. E todo processo carrega provas, tem as suas dores. Muitas vezes a dor do processo é a mesma que nos cura, que nos fortalece, que produz crescimento.
Esses caminhos são elevados, mas habitáveis. São estreitos, porém suaves. Neles não cabem a nossa arrogância, o nosso orgulho, o nosso egoísmo e tudo o que incha, intoxica e inflama a alma.
Porque estreita é a porta, e apertado, o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que acertam com ela.
Mateus 7.14 (ARA)
Isso significa aprender a se submeter às restrições, aos limites que protegem a nossa alma, num exercício contínuo de render a vontade. Os caminhos de Deus também são perfeitos.
O caminho de Deus é perfeito; a palavra do Senhor é provada; ele é escudo para todos os que nele se refugiam.
Salmos 18.30 (ARA)
É o caminho da retidão interior: a retidão do coração, da motivação. Os caminhos de Deus nos levam a enfrentar tudo o que é tortuoso, obscuro, espiritualmente condenável. É impressionante como, quando você se alinha com eles, essas questões vão sendo confrontadas a fundo.

Caminhos escondidos
Mas, acima de tudo, os caminhos de Deus são escondidos. São paradoxais, aparentemente contraditórios, encobertos. Um paradoxo é uma verdade escondida numa contradição aparente: parece que não é, mas é exatamente assim que funciona.
Por aquele tempo, exclamou Jesus: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos.
Mateus 11.25 (ARA)
Há muitas coisas que Deus faz questão de encobrir, e não é todo mundo que tem acesso a elas. A maneira como nos relacionamos com a humildade vai determinar se Deus vai ocultar de nós ou nos revelar os seus caminhos. Esse caráter paradoxal do Reino é intrigante. A essência da revelação nos mostra um reino secreto. Os caminhos de Deus, as verdades de Deus, a vida de Deus não são óbvios. Eles exigem revelação, e revelação é muito mais do que informação. Os maiores segredos da vida espiritual têm esse caráter paradoxal: existe um véu que precisa ser tirado. A lógica carnal de pensar em vantagens e em sucesso impõe uma série de pontos cegos à nossa capacidade de perceber a realidade espiritual. Por isso cada um destes caminhos carrega um paradoxo a ser compreendido.

A marca da manjedoura: o grande valor das pequenas coisas
E isto vos servirá de sinal: encontrareis uma criança envolta em faixas e deitada em manjedoura.
Lucas 2.12 (ARA)
O primeiro berço de Jesus foi um cocho dentro de um estábulo. E, para quem tem ouvidos para ouvir, isso é um sinal divino. Quando você vê alguém disposto a começar sem recurso nenhum, é sinal de que o Reino de Deus está em funcionamento. O que é de Deus sempre nasce no berço da simplicidade. Essa é a dinâmica do pioneirismo, do ministério apostólico.
Nós gostamos das coisas grandes e sofisticadas, que chamam a atenção de muita gente. Nos impressionamos com números, com tamanho, com volume, com repercussão. Sonhamos com coisas que nos confiram superioridade, queremos nos projetar através de grandes empreendimentos. Gostamos de começar do topo, onde já está tudo pronto, e assim idealizamos um sucesso sem processo.
Uma verdade pouco percebida é que inferioridade e superioridade são os dois extremos da mesma vara. Quem precisa se afirmar na superioridade normalmente está compensando inferioridades e rejeições, e por isso muitos têm tendência à megalomania. Apesar de ser infinito em grandeza, Deus não é megalomaníaco. Ele não se impressiona com as coisas grandes e volumosas do nosso mundo. Ele procura com avidez pessoas fiéis nas pequenas responsabilidades e nas pequenas oportunidades, gente que não despreza os pequenos começos.
Quem é fiel no pouco também é fiel no muito; e quem é injusto no pouco também é injusto no muito.
Lucas 16.10 (ARA)
Deus não se impressiona com a quantidade dos nossos recursos, riquezas, dotes culturais, inteligência ou potencial de trabalho. Essas coisas têm a sua importância, mas Ele está muito mais interessado em gerar qualidade moral, inteligência espiritual, confiabilidade. Por isso Deus nunca começa do pronto. Sucesso e prosperidade sem formação de caráter é receita de tragédia, e vemos esse filme toda hora. Quem crê não se apressa. A maior expectativa de Deus em relação a nós é o nosso quebrantamento, a nossa obediência. Ele quer trabalhar o nosso caráter, senão podemos nos tornar vítimas de nós mesmos, do nosso sucesso, do nosso ministério, do nosso potencial. O tamanho da queda tem a ver com a altura de onde se cai.
O que temos em Lucas 2.12 é um bebê numa manjedoura, um recém-nascido frágil, indefeso, totalmente dependente de cuidado. Os religiosos desprezaram: pode vir alguma coisa boa de Nazaré? Poucos, como Simeão, Ana e os magos do Oriente, perceberam que aquele era o salvador prometido. O Reino funciona assim. Não começa do fim, do ômega, da realeza. Primeiro vem o alfa, a manjedoura, os humildes começos. E um dos principais inimigos do legado é a herança precipitada.
A posse antecipada de uma herança no fim não será abençoada.
Provérbios 20.21 (ARA)
Pois quem despreza o dia dos humildes começos, esse alegrar-se-á vendo o prumo na mão de Zorobabel.
Zacarias 4.10 (ARA)
O texto de Zacarias revela a fibra apostólica de Josué e Zorobabel, indo contra as possibilidades, as opiniões, as adversidades e as limitações. Eles estavam no meio de um processo de restauração, adiando tudo, até que alguém se dispôs a começar. E foi ignorado pela maneira como começou, porque parecia irrisório. Mas Deus deixa claro que é assim que as coisas funcionam. Você pode prever o futuro das pessoas observando como elas lidam com os seus pequenos começos. E aqui está o paradoxo: quanto menos Deus nos dá para começar alguma coisa, mais Ele está investindo em nós. Quanto menos você tem para começar, maior o potencial de se desenvolver e chegar além do que sonhou. É a marca da manjedoura.

A marca da cruz: o direito de renúncia
Normalmente pensamos na renúncia como um dever. No mundo missionário, uma das mensagens mais frequentes é sobre renunciar a direitos. Eu prefiro inverter a lógica e falar do direito de renúncia. Quando você entende a dinâmica escondida nesse princípio, ele se revela muito poderoso.
Assim, pois, todo aquele que dentre vós não renuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo.
Lucas 14.33 (ARA)
Eu enxergo essa lacuna hoje. Na igreja há uma proporção muito desequilibrada entre a multidão que segue Jesus pelo pão que Ele multiplica, pelas coisas que Ele pode dar, e as pessoas que estão ouvindo as batidas do coração de Deus e andando nas pegadas abertas por Ele. A igreja brasileira está saindo da adolescência e entrando na fase adulta, e precisamos deixar as coisas de menino.
Só existe virtude na renúncia quando ela é motivada por obediência. Paulo diz que, ainda que entregasse o próprio corpo para ser queimado, sem amor de nada valeria. A força virtuosa da vontade está no quebrantamento, não no egoísmo. A renúncia talvez seja o primeiro traço de uma pessoa madura, porque criança não sabe abrir mão das coisas. Quando você aprende a ouvir o não de Deus, o espera de Deus, a exercitar o domínio próprio, isso é sinal de maturidade. Não dá para seguir Jesus nem andar com Deus sem a disposição de negar a si mesmo. Jesus não vendeu uma ideia fácil de redenção.
Se você quer andar com Deus, prepare-se para vencer a si mesmo. E só há um jeito de vencer a si mesmo: negar a si mesmo. A renúncia transforma um caminho extenso e cansativo num percurso curto e leve. A porta larga leva a um caminho pesado. A porta estreita leva a uma vida suave. Um estilo de vida sem renúncia foi definido por Jesus como o caminho largo: aparentemente fácil, mas extremamente pesado e desastroso.
Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.
Romanos 12.1-2 (ARA)
Quando sacrificamos a nossa vontade, isso santifica as nossas decisões. No altar da entrega, o que é palha queima e o que é ouro se torna ainda mais puro. Quer acertar numa decisão? Coloque aquilo no altar, seja um sentimento, um desejo, até um relacionamento. Entregue. A palha queima, o ouro fica mais puro, e você experimenta a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.
A nossa vida é pontuada por muitos Getsêmanis e muitos Calvários, que produzem renascimentos e ressurreições gloriosas. É exatamente nesses momentos que as tentações de comprometer o nosso destino são mais fortes. A renúncia é a expressão mais elevada do domínio próprio. Santidade é ser livre para não fazer o que você quer. É ser livre para dizer não a si mesmo, às inclinações, às compulsões pecaminosas. O exercício da renúncia fortalece a musculatura espiritual.
Costumamos ler como forte a pessoa de temperamento muito forte, em que só a vontade dela tem que prevalecer. Mas quem não consegue dizer não a si mesmo e está sempre impondo a sua vontade sobre tudo e todos não é forte. É fraco. Forte é quem sabe negar a si mesmo. Esse princípio separa as crianças dos adultos. As pessoas infantis costumam ser imediatistas e reativas. A maturidade só vem quando aprendemos a combinar renúncia com voluntariedade: se Deus não tem algo para você, você é o primeiro a dizer amém, Senhor, se não é para mim, eu sou o primeiro a não querer.
A cruz não é uma pessoa ou uma situação difícil que nos aflige. É a capacidade de negar a nós mesmos para que, no que depender de nós, tenhamos paz com todos. A cruz não tem a ver com o mal que os outros nos fazem, mas com a forma como lidamos com isso.
Por que algumas orações nunca são respondidas? Muitas vezes o impedimento não está fora de nós, está dentro. A chave pode não ser ganhar, mas perder. Não receber, mas ceder. Não vencer, mas ser vencido pelo Espírito Santo. Oração tem muito mais a ver com ouvir do que com falar, muito mais a ver com ceder. Uma vida sem renúncia tende à idolatria. Por isso a renúncia é irrenunciável, e deve ser encarada como um direito, não só como um dever. É menos ruim não ter certas coisas do que não ter, em Deus, a capacidade de possuí-las.
Isso é uma lei, é um caminho: quando Deus quer abençoar você muito, primeiro Ele leva você a entregar a Ele aquilo que Ele quer lhe dar. Isaque só se tornou uma descendência numerosa como as estrelas do céu e a areia do mar quando Abraão se dispôs a sacrificá-lo.
Em Cesareia de Filipe, Jesus pergunta aos discípulos quem os outros dizem que Ele é, e depois quem eles dizem que Ele é. Pedro recebe a revelação: tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. Jesus se alegra, diz que não foi carne nem sangue que revelou aquilo, e devolve a Pedro uma revelação sobre quem ele era: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja. Mas logo em seguida, quando Jesus começa a falar da cruz, de entregar a própria vida, Pedro o repreende: isso de modo nenhum te acontecerá. E Jesus responde: para trás de mim, Satanás, porque não cogitas das coisas de Deus, e sim das dos homens.
É impressionante quanta gente confessa que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo, mas, quando se vê chamada a ser herdeira dos sofrimentos de Cristo, a morrer para si mesma, dá muito mais ouvidos a Satanás do que a Jesus. E então Jesus explica o mapa do esconderijo de Deus.
Então, disse Jesus a seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. Porquanto, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á.
Mateus 16.24-25 (ARA)
Não tente salvar o que Deus quer que você perca. Essa é a lei da conquista. Quando perdemos a nossa vida para Deus, a vida ressurreta de Jesus se manifesta em nós. Quando perdemos os nossos direitos para Deus, os direitos de Deus passam a ser nossos. Quando damos a Deus tudo o que Ele pede, recebemos tudo o que Ele promete. Ser cheio do Espírito Santo não é o quanto você tem do Espírito Santo, mas o quanto o Espírito Santo tem de você. É a marca da cruz.

A marca da toalha: a grandeza de um servo
Sabendo este que o Pai tudo confiara às suas mãos, e que ele viera de Deus, e voltava para Deus, levantou-se da ceia, tirou a vestimenta de cima e, tomando uma toalha, cingiu-se com ela. Depois, deitou água na bacia e passou a lavar os pés aos discípulos e a enxugar-lhos com a toalha com que estava cingido. Aproximou-se, pois, de Simão Pedro, e este lhe disse: Senhor, tu me lavas os pés a mim? Respondeu-lhe Jesus: O que eu faço não o sabes agora; compreendê-lo-ás depois. Disse-lhe Pedro: Nunca me lavarás os pés. Respondeu-lhe Jesus: Se eu não te lavar, não tens parte comigo.
João 13.3-8 (ARA)
Na iminência da morte, Jesus faz algo inusitado. Tira a vestimenta de cima, ou seja, se despe da aparência, da exigência, do conforto, da reputação, da posição, e se cinge com uma toalha para lavar os pés dos discípulos. Essa é a credencial de um líder espiritualmente maduro, cheio do Espírito Santo: a marca da toalha, a motivação íntima de servir que move um ministério autêntico, um sacerdócio real. De um jeito estranho e muito direto, Jesus explica que o maior no Reino é aquele que serve, que tem como missão de vida servir, promover e preferir os outros em honra. É assim que deixamos legado: fazendo com que as pessoas façam as obras que fizemos, e maiores ainda.
Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.
Marcos 10.45 (ARA)
Ao lavar os pés dos discípulos, Jesus dá uma das aulas de liderança mais impactantes da história, na contramão de todas as escolas rabínicas e proféticas. Destroça a lógica de grandeza da liderança e do discipulado. Inverte a pirâmide, colocando-se na base, não no topo, como servo de todos. O que os discípulos faziam para servir os seus mestres, é Ele quem faz por eles. A mudança foi tão grande que Pedro tentou se esquivar: nunca me lavarás os pés. Talvez o difícil para Pedro não fosse ter os pés lavados por Jesus, mas seguir esse exemplo na própria liderança. Ali os discípulos entenderam que buscar privilégios e vantagens por meio de uma posição de liderança era espiritualmente reprovável, mesquinho. Discipulado muitas vezes tem mais a ver com desconstrução do que com construção, e não há como construir certas coisas sem desconstruir outras.
Essa é talvez a principal chave do sacerdócio universal. Toda pessoa nascida de novo carrega um sacerdócio, uma maneira especial de servir ao próximo como expressão da sua adoração a Deus. Duas coisas dão sentido à nossa existência: a vocação e o próximo. Servir ao próximo como quem faz para Deus. A nossa vida só tem sentido no outro. As pessoas mais egoístas costumam ser as mais insatisfeitas. Quando você começa a amar e servir sem interesse, sem esperar recompensa, percebe que a sua vida tem sentido. Quando ama a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo, você não está fazendo um favor a Deus. Está fazendo um favor a si mesmo, destrancando o seu senso de realização. E pode fazer isso de maneira inteligente, encaixando-se no seu dom. Quer ser usado por Deus? O segredo é ser servo. No Reino de Deus, quem não é servo não serve, nos dois sentidos.
A marca da pomba: a autoridade da submissão
No Jordão, Jesus se submete ao batismo de João, e isso cria um constrangimento enorme em João, que tenta recusar: sou eu que preciso ser batizado por ti. Jesus responde que convém cumprir toda a justiça.
Batizado Jesus, saiu logo da água, e eis que se lhe abriram os céus, e viu o Espírito de Deus descendo como pomba, vindo sobre ele. E eis uma voz dos céus, que dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo.
Mateus 3.16-17 (ARA)
É um texto messiânico, mas carrega princípios importantes, e o principal deles é a submissão. Todo ministério, para exercer autoridade legítima, precisa começar com um espírito de submissão. E Jesus não pulou essa etapa. Ele era o novo Adão, o Filho de Deus que venceu o pecado que Adão não venceu. Existia antes de João: antes que Abraão existisse, eu sou. Tinha um ministério muito mais significativo do que qualquer ser humano poderia ter, o de tirar o pecado do mundo. E mesmo assim se submeteu ao ministério e ao batismo de João.
Submissão, essencialmente, é se comprometer a cumprir uma missão dada, e para isso é preciso a humildade de ter uma cobertura ministerial correta, apontada por Deus. Ali acontece um encaixe tremendo no quebra-cabeça da redenção: a missão de João se encaixa com a submissão de Jesus. Enquanto a missão profética de João chega ao auge, a missão de Jesus recebe o impulso inicial do endosso de João. E os céus se abriram. Existem vários tipos de autoridade, mas a mais relevante é a autoridade espiritual, um respaldo que vem do alto: céus abertos, a marca da pomba, a voz do Pai.
Jesus honrou o ministério de João com a sua submissão, e João honrou o ministério de Jesus com a sua autoridade profética. O ministério de João foi aplanar a terra. O ministério de Jesus foi abrir os céus. João fez uma reforma na sociedade; Jesus trouxe um avivamento que culminou na redenção da humanidade. O fim da missão de João foi o início da missão de Jesus. Isso é continuidade, isso é legado. E João deixou claro: importa que ele cresça e que eu diminua. Imagine um pastor dizendo aos membros da sua igreja que agora eles vão ter que ir para a igreja de outro.
O que deu sinergia a esses ministérios foi a submissão, a honra. A submissão conecta gerações no propósito da bênção de Deus e consolida a herança. O mesmo processo de submissão e disciplina vivido por Jesus vai se replicando de geração em geração na igreja. Todo ministério precisa chegar a esse nível de submissão que abre os céus. A principal missão de um líder é abrir os céus sobre a sua igreja, a sua cidade, a sua nação. Isso não acontece do dia para a noite. É um caminho. E sem a marca da pomba o ministério pode se tornar um peso desgastante, até adoecedor.
Submissão é vista cada vez mais como algo depreciativo, mas no Reino ela revela um dos aspectos centrais dos relacionamentos humanos. A submissão se conjuga com o exercício da autoridade. As mesmas falhas que semeamos na submissão vamos colher na liderança. A nossa autoridade tem a mesma natureza da nossa submissão. Quem tem aversão à submissão costuma exercer a autoridade de forma arrogante e abusiva. No Reino de Deus, a autoridade genuína nasce da submissão.
Gosto de quebrar o tabu de definir liderar como mandar, ter temperamento forte, ser superior. Não quero tirar o valor das pessoas contundentes, de iniciativa, mas todo líder que não exercitou humildade e submissão é uma catástrofe. O líder que se apoia apenas no próprio temperamento exerce uma liderança fraca e desgastante. A autoridade tem a ver com cooperação, com submissão, com fazer os outros irem mais longe do que nós fomos.
Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer.
João 15.15 (ARA)
O ponto mais elevado da liderança tem a ver com amizade. Quando você amadurece nesse caminho, faz a trajetória de servos a amigos, porque isso envolve confiança. Liderar é totalmente diferente de chefiar. Na chefia, se a pessoa não atende a expectativa, você manda embora. Na liderança, as pessoas seguem você porque se sentem respeitadas, investidas. Tem a ver com amizade. Não é ter um rol de subservientes, mas o poder da confiança.

Do avivamento à reforma
Esses caminhos não são meus. Eu os estudo e tento caminhar assim em cada decisão, porque caminho tem a ver com processo, com uma dinâmica cheia de percalços e de provas em que somos fortemente tentados a não seguir a lógica de como o Reino funciona. Mas eles precisam marcar a nossa vida espiritual. São marcas: a marca da manjedoura, a marca da cruz, a marca da toalha, a marca da pomba. Precisamos incorporá-las ao nosso estilo de vida e às nossas decisões.
Às vezes me pergunto por que ainda temos um número tão grande de evangélicos com tão pouco resultado prático na sociedade. Por que, numa eleição, alguém vota num candidato que defende valores totalmente opostos aos do Reino de Deus? Eu creio que o Brasil está vivendo um avivamento. Em todo lugar a igreja não para de crescer, há uma adoração poderosa. Mas o avivamento precisa evoluir para uma reforma, precisa virar fundamento. Senão, o poder vem, o avivamento vem, gera formas de adoração, de louvor, certas práticas, e daqui a pouco o poder foi embora e só ficou a forma. Continuamos engessados numa lógica apenas religiosa, avivamentos vêm e vão e as coisas continuam iguais.
Mas eu creio que Deus quer fazer tremer esta terra e colocar fundamentos. É hora de deixar as coisas de menino. É hora de deixar de seguir Jesus pelo pão que Ele multiplica e ser discípulo. Não só andar atrás, nas pegadas abertas pelo Filho de Deus, mas andar ao lado, dividindo a carga com Jesus. É o princípio do jugo. Por que tanta gente está pifando no ministério? É sinal de que está caminhando sozinha há muito tempo. O arado não é pesado quando Jesus está do seu lado. E você só pode andar com Deus discernindo os seus caminhos. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.
Para guardar
- Ver os feitos de Deus nos empolga. Conhecer os seus caminhos nos coloca na direção certa.
- Inferioridade e superioridade são os dois extremos da mesma vara.
- Você pode prever o futuro das pessoas observando como elas lidam com os seus pequenos começos.
- Santidade é ser livre para não fazer o que você quer.
- Não tente salvar o que Deus quer que você perca.
- Ser cheio do Espírito Santo não é o quanto você tem do Espírito, mas o quanto o Espírito tem de você.
- No Reino de Deus, quem não é servo não serve.
- A nossa autoridade tem a mesma natureza da nossa submissão.
Marcos Borges, conhecido como Coty, é pastor, escritor, missionário, conferencista e engenheiro mecânico. Lidera a base da Jovens Com Uma Missão (JOCUM) em Almirante Tamandaré, no Paraná.

