Guarde os filhos do rei

Charles Scott, de cabelos brancos e óculos, fala ao microfone diante do painel azul

Você é abençoado quando entra e abençoado quando sai. Abençoado quando as coisas te empurram para baixo e abençoado quando o Senhor te levanta. O lugar onde você trabalha é abençoado só porque você está lá. Você foi abençoado para ser uma bênção, e o Brasil é abençoado porque você é abençoado.

Uma das coisas que aprendi na minha caminhada é reconhecer a unção que repousa sobre alguns homens e mulheres: uma unção que atrai. É um favor singular de Deus que faz líderes se aproximarem de um líder apostólico. E quem é atraído por essa unção é conduzido com integridade de coração e humildade de espírito.

Quero levar você a uma história antiga das Escrituras. Ela acontece uns quatrocentos anos depois da batalha de Josué contra os cinco reis em Maquedá, mas é a continuação daquela saga.

Durante o reinado de Davi, houve uma fome que durou três anos. Davi consultou o Senhor, que lhe disse: “A fome veio por causa de Saul e da família sanguinária dele, por terem matado os gibeonitas”. Então, o rei mandou chamar os gibeonitas e falou com eles. Os gibeonitas não eram de origem israelita, mas remanescentes dos amorreus. Os israelitas tinham feito com eles um acordo sob juramento; Saul, porém, no seu zelo por Israel e Judá, havia tentado exterminá-los.

2 Samuel 21.1-2 (NVI)

Três anos sem orar

Por mais de três anos a chuva se recusou a cair. As plantações morreram, faltou comida, a economia sofreu. Passou o primeiro ano, passou o segundo, e só no terceiro ano Davi buscou o Senhor sobre a fome. Ele não orou no primeiro ano. Não buscou o Senhor no segundo. Por que levou três anos para perguntar a Deus o motivo? O povo sofria e passava fome porque o rei não orou, porque Davi deixou de ser o rei e o líder que deveria ser. E isso teve um efeito sobre a nação inteira.

Por isso eu desafio os líderes: continuem buscando o Senhor. Continuem se colocando na brecha pela sua nação. As suas orações podem mudar esta nação. As suas orações podem afetar a economia deste país.

Vocês são o sal da terra. Mas, se o sal perder o seu sabor, como restaurá-lo? Não servirá para nada, exceto para ser jogado fora e pisado pelos homens. Vocês são a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade construída sobre um monte.

Mateus 5.13-14 (NVI)

Vocês são a igreja do Deus vivo. Representam o Rei dos reis e o nome de Jesus Cristo, diante de quem todo joelho se dobrará e toda língua confessará que Ele é o Senhor.

Charles Scott aponta para o público enquanto fala ao microfone
Charles Scott na manhã do terceiro dia da Conferência Global 2026

Uma aliança quebrada

Quando Davi finalmente pergunta, o Senhor revela a causa da fome: o sangue derramado por Saul ao matar os gibeonitas. Os gibeonitas eram sobreviventes de uma antiga tribo amorreia. Lembre-se de que eles tinham enganado Josué, se disfarçando de viajantes. Mesmo assim, Josué fez uma aliança com eles, um tratado de que viveriam em paz com Israel. E Deus disse: cumpra a sua palavra, guarde a sua aliança. Não importava que o acordo tivesse nascido de uma mentira. Havia uma aliança. Saul quis livrar a terra daquela tribo, violou o tratado, e agora a terra e a nação sofriam.

Davi quer reparar o erro e pergunta aos gibeonitas o que pode fazer. Eles não querem dinheiro, nem terra, nem propriedade, nada material. E então pedem sete filhos de Saul, para executá-los no monte.

Que sete descendentes dele sejam executados diante do Senhor, em Gibeá de Saul, o escolhido do Senhor. “Eu os entregarei a vocês”, disse o rei. O rei poupou Mefibosete, filho de Jônatas e neto de Saul, por causa do juramento feito diante do Senhor entre Davi e Jônatas, filho de Saul.

2 Samuel 21.6-7 (NVI)

Em Maquedá foram cinco reis. Aqui, por causa de um líder que não honrou a palavra de Deus e a aliança feita, não são cinco filhos, são sete. Há uma multiplicação do dano. Quando quebramos a palavra e a aliança de Deus, a dor e o sofrimento sempre aumentam. Sete jovens príncipes, filhos do rei, pagam pela desobediência de Saul.

Ele os entregou aos gibeonitas, que os executaram no monte, diante do Senhor. Os sete foram mortos ao mesmo tempo, nos primeiros dias da colheita de cevada.

2 Samuel 21.9 (NVI)

Charles Scott no palco ao lado de figuras cobertas por mantos pretos que representam os filhos de Saul
No palco, mantos pretos lembravam os filhos que Rispa guardou

Rispa entra em cena

E então a história vira. Entra em cena uma mulher chamada Rispa. Ela era concubina do rei Saul, e dois daqueles jovens eram filhos dela. Os outros cinco não eram. Ela é, em todos os sentidos, uma personagem sem importância. Não era esposa principal, não tinha posição legal, não tinha direitos no reino, não era reconhecida pela realeza. Para todos os efeitos, era ninguém. Ainda assim, a Bíblia a inclui nas Escrituras.

Então, Rispa, filha de Aiá, pegou um pano de saco e o estendeu para si sobre uma rocha. Desde o início da colheita até cair chuva do céu sobre os corpos, ela não deixou que as aves de rapina tocassem neles de dia nem os animais selvagens de noite.

2 Samuel 21.10 (NVI)

Quando os filhos do rei são pendurados, ela vem guardá-los. Vem dar a eles dignidade e honra. Rispa não tem título nem posição, e mesmo assim está na Bíblia, como Noé, que construiu a arca, e como Abraão, que gerou uma nação. A coragem dela é contada como a de Rute. Ela é uma heroína das Escrituras, e tudo o que fez foi guardar os corpos dos filhos do rei.

Pense no que isso significa. De dia ela espantava as aves. De noite, os animais que vinham devorar os corpos. Ela precisou ficar acordada a noite inteira e de guarda o dia inteiro, do início da colheita até a chegada das chuvas. Não sabemos o tempo exato, mas foi algo entre cinco e seis meses. A Bíblia não mostra ninguém levando comida ou água para ela. Ela se colocou em perigo, podia ter sido atacada pelos animais. Mas eu creio que Deus estava com ela, porque ela decidiu honrar a aliança e a palavra de Deus. Os corpos já se decompunham, e ela não se importou com o próprio conforto. Ia proteger os filhos do rei.

Você não precisa buscar título ou posição. Não precisa de reconhecimento, nem de um crachá importante. Talvez você não pastoreie a maior igreja, talvez não tenha um cargo na rede ou na conferência. Mas pode decidir: eu vou guardar a próxima geração. Vou proteger os meus filhos, os meus netos e a próxima geração. Vou lutar por eles e me levantar por eles em nome de Jesus.

Está na hora de a nossa geração esquecer o próprio conforto e a própria segurança, esquecer título e posição, e lutar pela próxima geração. Está na hora de anunciar às aves das trevas e a todos os demônios do inferno: vocês não vão levar os nossos filhos. Não vão levar esta geração. Nós vamos guardá-los e protegê-los em nome de Jesus.

Charles Scott ergue o punho enquanto o público levanta as mãos
O público responde à palavra

Guardar os filhos do rei

Quando me perguntam o que torna diferente a universidade onde eu sirvo, eu respondo assim: nós estamos lá para guardar os filhos do rei. Temos professores reconhecidos em várias áreas, temos culto na capela e momentos de oração e adoração durante a semana, e todos os professores são cristãos nascidos de novo, cheios do Espírito Santo, que ensinam a partir da Bíblia. Se é economia, ensinamos que Deus suprirá todas as nossas necessidades segundo as suas riquezas em glória. Se é ciência, ensinamos que no princípio Deus criou os céus e a terra. Se é política, declaramos que o governo está sobre os ombros dele. Mas, acima de tudo, estamos lá para que haja uma próxima geração que leve o nome de Jesus a todas as esferas de influência e a todas as partes do mundo.

Vivemos uma época em que os filhos do rei estão sob ataque. Quero mostrar rapidamente sete coisas que estão vindo contra os seus filhos e netos.

A secularização e o afastamento da fé. Em boa parte da Europa, da América do Norte e da Austrália, e cada vez mais na América Latina, no Brasil e na Ásia, jovens criados na igreja a deixam no fim da adolescência e no começo dos vinte anos. Um dos principais motivos é a influência de uma educação secular que ensina que a Bíblia e a igreja são irrelevantes, e que alimenta as dúvidas e as perguntas deles. As pesquisas mostram uma parcela grande de jovens que não creem que Jesus é o Filho de Deus, que não creem na ressurreição, que acham que todas as religiões têm o mesmo valor e que não acreditam numa verdade moral absoluta.

O mundo digital e as redes sociais. A conexão constante molda a identidade, a atenção e os relacionamentos. As redes criam uma cultura de comparação, há o cyberbullying, e a pornografia está ao alcance dos nossos filhos cada vez mais cedo. Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, 92% dos brasileiros de 9 a 17 anos estão na internet, cerca de 24,5 milhões de jovens. A igreja não pode ignorar o poder da tecnologia. O inimigo está usando isso para atacar os nossos filhos, então precisamos usá-la como ferramenta que Deus nos deu para alcançar esta geração. Muitos jovens já conversam com a inteligência artificial como se fosse uma pessoa. Por quê? Porque há uma ausência de líderes na vida deles. Hoje declaramos que não vamos mais estar ausentes.

A saúde mental. Ansiedade, depressão, solidão e automutilação estão crescendo entre os jovens, e os jovens cristãos não estão isentos. Precisamos estar presentes para eles.

As perguntas sobre identidade, sexualidade e ética. Os nossos filhos e netos estão tentando entender sexualidade, identidade de gênero e o valor da vida humana, e é difícil para eles encontrar respostas. No meu tempo a gente dizia: leia a Bíblia e creia. Hoje as perguntas são mais sofisticadas. Precisamos dar a palavra de Deus, mas ir mais fundo nas perguntas deles e ajudá-los a compreender a verdade absoluta. Se os ignorarmos, o inimigo vai pendurá-los no monte.

A pobreza, a instabilidade e a falta de oportunidade. Muitos jovens perguntam se têm futuro, e essa falta de perspectiva os afasta ainda mais da fé.

A perseguição. Muitos jovens cristãos enfrentam violência, sequestro e perigo por confessar a Cristo. Precisamos levantar uma proteção de oração em volta dos nossos filhos.

O discipulado fraco e a falta de mentores. Faltam adultos que invistam na vida deles, e eles estão procurando alguém que se importe.

Mulher abraça o filho adolescente durante a oração, entre o público
Uma mãe abraça o filho durante a oração

Quatro jovens por ano

Algum tempo atrás eu pedi uma coisa a Deus. Os meus netos moram longe e não vão à igreja comigo. Os pais deles viram Deus fazer milagres, viram olhos cegos se abrirem e doenças serem curadas, sentiram o poder do Espírito Santo. Mas os meus netos nunca viram um milagre. Então eu disse a Deus: se o Senhor me der quatro jovens por ano, eu vou ser mentor deles. Vou derramar o meu coração e a minha alma neles, vou ser um pai espiritual para eles. E, se eu me der a esses quatro, que o Senhor envie alguém para revelar o Senhor aos meus quatro netos. Todo ano, sem falhar, aparecem jovens pedindo que eu seja mentor deles, às vezes nos lugares mais inesperados.

Eu faço assim. Eu escuto. Escuto e escuto. Ninguém lidera nem orienta sem escutar. Deixo que eles falem mais do que eu. E, quando falo, faço perguntas, porque quero que eles abram o coração. Quando eles me perguntam alguma coisa, eu conto os meus fracassos e as minhas dores, não só as vitórias e os sucessos. Eles querem saber como cheguei a ser vice-presidente, como cheguei a ser bispo de uma denominação, como tenho um casamento de 45 anos. E eu respondo: eu sou fiel. Eu sou fiel. Eu sou fiel. Deus nem sempre procura o mais criativo ou o mais talentoso. Procura gente que aparece, gente fiel.

Muito bem, servo bom e fiel! Você foi fiel no pouco; eu o porei sobre o muito. Venha e participe da alegria do seu senhor!

Mateus 25.21 (NVI)

O rei mudou a lei

Sete filhos do rei estão pendurados. Os corpos estão se decompondo, as identidades se perdendo. De longe, ninguém sabe quem eles são. Que diferença fazem? Estão mortos. Sofrem por algo que não fizeram, porque alguém quebrou a aliança de Deus. Mas existe uma mulher, uma mulher sem importância, que diz: quando as aves vierem, eu vou guardá-los. Vou protegê-los. Não vou deixar que nada mais os atinja.

Quando Davi foi informado do que Rispa, filha de Aiá, concubina de Saul, havia feito, mandou recolher os ossos de Saul e de Jônatas. […] Davi trouxe de lá os ossos de Saul e de Jônatas, o seu filho, e também os ossos dos que haviam sido executados. […] Depois disso, Deus respondeu às orações em favor da terra de Israel.

2 Samuel 21.11-14 (NVI)

Na sala do trono, o rei ouve o que Rispa está fazendo e diz: espere, vamos mudar a lei. Vamos tirar esses homens de lá. Vamos restaurar a dignidade e a honra deles, porque são filhos do rei. E foi depois disso que Deus respondeu às orações pela terra.

Muitos de vocês já são mentores de jovens no ministério, no negócio, na carreira. Outros ainda não. Se esse é o seu caso, peça agora ao Espírito Santo: Deus, me dê um número. Um, três, quatro. Você não pode só vir à igreja e ser espectador. Você diz: eu não tenho título, não tenho posição. Mas pode ser mentor, pode guardar os filhos do rei. E, se você pensa nos seus próprios filhos, eu prometo: cuide dos filhos de Deus, e Deus vai cuidar dos seus filhos.

Homem de cabeça baixa e mãos no rosto, em oração diante do palco
Oração no fim da manhã

Uma oração

Espírito Santo, paira sobre nós neste momento. Desperta-nos para a próxima geração. Coloca sobre nós um peso profundo por ela. Que possamos clamar pela próxima geração, guardar a próxima geração, levantar outra geração: uma geração que te conhece, que anda contigo e que te serve. Deus, dá-nos as gerações. Em nome de Jesus.

Para guardar

  • As suas orações podem mudar esta nação.
  • Quando quebramos a palavra e a aliança de Deus, a dor e o sofrimento sempre aumentam.
  • Você não precisa buscar título ou posição.
  • Ninguém lidera nem orienta sem escutar.
  • Cuide dos filhos de Deus, e Deus vai cuidar dos seus filhos.

Charles Scott é vice-presidente de Relações Externas da Oral Roberts University, nos Estados Unidos, onde trabalha na ampliação das parcerias e do alcance global da universidade. Foi bispo geral da Pentecostal Church of God. É doutor em Educação pela Oral Roberts University, com foco em liderança e desenvolvimento organizacional, e autor do livro Storms Don’t Bother Me.