O acordo da serpente
Normalmente, nosso espírito está treinado para receber apenas promessas; porém, quando pensamos em advertência, geralmente isso gera um desconforto em nosso meio. Jesus falou à igreja de Tiatira. Ele disse que ela deveria se atentar ao espírito de Jezabel em seu tempo e que deveria manter-se conservando o que tinha, abstendo-se de toda imoralidade.
Sobre Tiatira, duas visões estavam em disputa: de um lado, manter-se no caminho dos ensinamentos de Jesus, sob uma visão do evangelho que conduz à vida eterna; de outro, o caminho de Jezabel, que engana e seduz pela promessa de poder e manipulação.
O cerco da imoralidade
Outro arquétipo de imoralidade é Naás. Esse líder dos amonitas representava a casa de Ló, que foi influenciada por Sodoma e Gomorra. Assim como Jezabel, ele representa uma figura que se opõe aos padrões morais de Deus. Vejamos o episódio em que Jabes-Gileade foi cercada pelos amonitas:
“Então, subiu Naás, amonita, e sitiou a Jabes-Gileade; e disseram todos os homens de Jabes a Naás: Faze aliança conosco, e te serviremos. Porém Naás, amonita, lhes respondeu: Farei aliança convosco sob a condição de vos serem vazados os olhos direitos, trazendo assim eu vergonha sobre todo o Israel.” — 1 Samuel 11:1-2 ARA
Talvez na Bíblia não haja uma proposta de rendição em guerras mais maliciosa do que esta. Naás pede os olhos direitos do inimigo. Isso representa a captura da visão. Trazendo isso para termos de vida em ministério, podemos aprender alguns princípios.
Alguns ataques são previsíveis em determinadas fases de um ministério. Existem pessoas que estão em processo de fortalecimento moral e espiritual, porém outras estão em processo de enfraquecimento.
Esse cerco de Naás aconteceu em virtude de um momento de baixa moral da nação de Israel. Ela se debilitou a ponto de essa situação ocorrer. A arrogância desse personagem em seu pedido, ao querer os olhos de seus adversários, demonstra-se no significado que têm os olhos direitos que ele queria. Pois os olhos representam não somente a visão física (isso é a vista), mas também a visão espiritual e moral. A perda da alma, a perda dos nortes que guiam uma pessoa no caminho correto da vida e, por consequência, do ministério.
Uma das coisas que proporciona sentido à vida é a visão e o propósito. O que concede mais sabor à existência é ter um alvo na vida que a direcione.
Contexto histórico antes do cerco de Naás
A nação de Israel foi decaindo moralmente com o passar dos anos, inicialmente após a morte de Josué e o surgimento dos juízes. Até que, em um ponto de sua história, Deus levantou um profeta chamado Samuel. Entretanto, para entender esse processo, é necessário pensar no processo descrito através das histórias dos juízes.
Devemos analisar alguns exemplos de lideranças sem visão que, devido à sua perda, não pouparam o povo de Israel de seguir líderes sem um norte espiritual sólido.
No livro de Juízes, Sansão, por exemplo, perdeu os seus olhos, pois não soube viver sem ser escravo de suas paixões. Acabou morrendo, sendo alvo de sua própria unção ao derrubar o templo de Dagom e matar vários filisteus, bem como a si mesmo, nesse episódio.
Outra história do mesmo livro é a do ocorrido na cidade de Gibeá, quando a concubina do levita foi morta de forma brutal (um estupro) por homens de Belial. Esse levita era um sacerdote de aluguel, servia a si mesmo. Seu nome era Mica, e era um homem que representava o fruto da falta de visão do povo de Israel, o qual não lembrava e não tinha mais critério para levantar um sacerdote. Mica era a face da perda total da visão de um povo.
O acontecimento da morte da esposa de Mica revela alguns precedentes
Diante do crime cometido contra a esposa de Mica, o sacerdote a esquartejou e distribuiu seus restos a cada líder de Israel, pois seu objetivo era um alerta inconsequente à nação. Ele queria punição para aqueles homens. Sua reação foi dramática, mas, naqueles dias, não havia visão correta.
Diante do ocorrido, todas as tribos decidem se reunir para matar aqueles homens, exceto Benjamim. Pois, normalmente, Israel não tolerava a impunidade; porém, essa tribo, em específico, recusou-se a punir esses homens que mataram a concubina, o que ocasionou uma guerra civil. Pois ainda o zelo de Fineias estava vivo (veja Números 25:10-13). Eram 400 mil homens de Israel contra mil de Benjamim. Essa tribo foi reduzida a apenas 600 homens.
A guerra entre Israel e Benjamim gerou um déficit de homens, mas, mais grave que isso, de mulheres, o que ocasionaria a dissolução da tribo, pois não haveria mais filhos nascidos de Benjamim. Isso não poderia ocorrer. Os povos de Israel não queriam ceder mulheres a essa tribo devido a um acordo feito de não cooperação entre tribos.
Entretanto, mesmo assim, Israel decide ajudar a tribo de Benjamim. Isso demonstra um sinal para o nosso tempo: devemos ajudar novos ministérios e parceiros a não desistirem ou fracassarem em seus tempos de crise.
Israel escolhe uma cidade de Manassés, e Jabes-Gileade foi a cidade escolhida e sacrificada para que os homens jovens de Benjamim tomassem mulheres, e isso impediu o extermínio de Benjamim.
Reconhecendo Jabes-Gileade
Jabes-Gileade representa uma igreja ferida, um ministério que precisa de socorro dos seus parceiros.
Naás é um descendente de Ló e carrega o espírito de Sodoma, que deixa a terra arrasada. Ele tenta atacar justamente o ponto fraco de Israel, no lugar onde ela quase destruiu uma tribo devido à imoralidade.
Voltando a 1 Samuel, vemos que, nesse período, surge Samuel como profeta e, logo depois, o povo pede um rei. O governante foi proveniente de Benjamim: esse era Saul. A tribo que quase foi destruída agora liderava a nação. A tribo que não deixaram morrer agora foi o lugar de onde Deus escolheu um governante. Isso mostra que, onde abundou o pecado, agora operava a graça por conta da cidade de Jabes-Gileade. Isso também demonstra como Deus caminha transformando o nosso caos em coisas que podem ser revestidas em bem ao nosso favor, quando Ele transforma fracasso em reviravolta de bênção.
Foi Saul quem libertou Jabes-Gileade de Naás anos depois, pelo zelo de Deus na unção dada a Saul para libertar o povo.
Jabes-Gileade era uma cidade proveniente de Jabes, um homem que nasceu em meio às dores de sua mãe. Ele orou a Deus e pediu que Ele expandisse suas tendas. Era um homem vivido em dores, e seu nome representava isso; porém, ele se tornou um homem de oração, que transformou sua vida da dor para o sucesso.
Reconhecendo a serpente
Naás era amonita e remontava à imoralidade dos amonitas: indiferença espiritual, incesto, morte conjugal, desonra, a incorporação do legado de Ló. Ele representa a serpente, e Jesus relembrou Ló:
“Lembrai-vos da mulher de Ló. Quem quiser preservar a sua vida perdê-la-á; e quem a perder de fato a salvará.” — Lucas 17:32-33 ARA
Esse texto traz à tona a batalha entre a serpente enganadora versus a vida de discipulado e igreja. Ló foi lembrado para que tomemos cuidado de não perdermos a visão plena do evangelho e acabarmos escolhendo o caminho da imoralidade, o caminho que parece mais próspero e vantajoso, deixando a cruz.
“Levantou Ló os olhos e viu toda a campina do Jordão, que era toda bem-regada (antes de haver o Senhor destruído Sodoma e Gomorra), como o jardim do Senhor, como a terra do Egito, como quem vai para Zoar.” — Gênesis 13:10 ARA
Retornando a Naás, ele cercou Jabes-Gileade, e isso significa o cerco não apenas de uma cidade, mas de uma visão de oração, de hombridade e de moralidade, pois era isso que representava Jabes. Representa a estratégia do inimigo, que é remover a visão espiritual, remover aquilo que lhe dá a motivação correta: a sua visão.
Assim como no contexto abordado acima, hoje temos uma derrocada da imoralidade e da perversão na sociedade. Cercou-se tudo aquilo que representa o cristianismo, porém Deus levanta seus ungidos para desmanchar os cercos sobre as vidas.
A Janela de Overton é a estratégia de mudar a escala de valores da sociedade por meio da imposição de práticas e propostas moralmente absurdas. Maridos cercados pela imoralidade, filhos que não conhecem sua identidade, líderes espirituais perdidos e depressivos.
Jabes-Gileade representa o cerco que a igreja vive e viveu, cercada pela imoralidade do espírito de Amom, a cultura contrária à Palavra de Deus. Uma comunidade em sofrimento que, assim como Jabes, cresce em dores e sofrimento, mas cresce em oração e ouvindo a Deus, restaurando sua vida.
Jabes transforma dor em ministério
Remover a visão, os olhos, representa o acordo da serpente: transformar uma pessoa em um caolho espiritual.
No cerco, foi pedido o olho direito, aquele usado para ver sobre o escudo, o estratégico. Caso se removesse esse olho, o guerreiro se tornava alguém que necessitava de muito esforço, porém com pouco resultado. A perda da visão proporciona passividade, alienação e, por fim, imoralidade.
- A visão determina a precisão na batalha contra o mal;
- A visão dá a direção e a velocidade com que se caminha;
- A visão leva à ação e sempre traz provisão em meio ao caminho;
- A visão inspira e dá sentido à existência de muitos;
- A visão torna a vida empolgante e deve ser protegida.
Saul foi o homem levantado para vencer Naás e romper o cerco. Ele representa o avanço da graça sobre os cercos do mal, pois saiu de Benjamim, a menor tribo, que não puniu o mal em Juízes, mas foi redimida.
A proposta do cerco de Jabes-Gileade representa o cerco da imoralidade, o acordo que vende a visão e promove a perda de uma vida plena. Esse é o acordo da serpente, Satanás. Não negociemos nosso futuro.
