Curando o Coração Órfão
O tema central desta mensagem é a cura do coração órfão.
Vivemos em um mundo que, espiritualmente falando, tem se tornado um grande orfanato. Muitas das crises de identidade, competição, insegurança, rejeição e busca incessante por reconhecimento encontram sua raiz nessa realidade. Para compreender a cura do coração órfão, é necessário voltar ao princípio de todas as coisas.
Gênesis declara: “No princípio, Deus…” A palavra utilizada para Deus é Elohim, um termo plural que revela a existência do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Antes de existir qualquer coisa criada, já existia uma família perfeita. Se alguém perguntasse quem era mais importante entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, a resposta seria simples: todos são igualmente importantes.
O Pai aponta para o Filho, o Filho aponta para o Espírito Santo. O Espírito Santo aponta para o Filho e o Filho para o Pai. E eles são um. O Pai ama o Filho, o Filho ama o Espírito, o Espírito ama o Filho e o Filho ama o Pai. Tudo acontece dentro de uma perfeita unidade.
Existe uma verdade fundamental: a honra é aquilo com que o amor se parece. O Pai ama o Filho da forma como o Filho merece ser amado, o Filho responde a esse amor honrando o Pai, essa dinâmica recebe um nome: aliança.
Nas Escrituras nunca se vê Jesus questionando sua posição dentro da Trindade. Não existe competição, não existe comparação, não existe disputa por reconhecimento, contudo, muitas vezes esse comportamento aparece dentro da própria igreja. Perguntas como: “Por que ele ocupa essa posição e eu não?” “Por que aquela pessoa foi usada por Deus e eu não?” “Por que ela recebeu aquilo que eu não recebi?” revelam sintomas do espírito de orfandade.
A Origem do Espírito de Orfandade
Antes da criação da humanidade, havia um ambiente perfeito, Lúcifer ocupava uma posição de destaque. As Escrituras falam sobre ele em Isaías 14, Ezequiel 28 e Apocalipse 12, ele estava inserido em um ambiente perfeito, uma família perfeita, uma atmosfera perfeita. O problema não era a falta de amor do Pai, o problema era que Lúcifer não conseguia enxergar a si mesmo da forma como o Pai o enxergava.
Em Isaías aparecem suas famosas declarações: “Eu subirei”, “Eu serei”, “Eu me assentarei.” O foco deixa de ser o Pai e passa a ser o próprio eu. A rebelião nasce quando alguém deixa de se enxergar através do amor do Pai e começa a buscar identidade por conta própria. O espírito de orfandade começa exatamente nesse ponto, não é ausência de amor, é incapacidade de receber e acreditar no amor do Pai.
A Criação de Adão
Após a criação do universo, Deus forma Adão do pó da terra, acredita-se que a primeira coisa que Adão viu foi o rosto do Pai, a primeira voz que ouviu foi a voz do Pai, o primeiro sentimento que experimentou foi o amor perfeito do Pai. Antes de realizar qualquer tarefa, de receber qualquer responsabilidade, de cumprir qualquer missão, Adão foi amado. Ele foi criado para viver a partir da aceitação, não para conquistar aceitação.
A palavra Éden significa deleite, prazer e satisfação, Deus colocou Adão em um ambiente onde pudesse experimentar comunhão, segurança e pertencimento, o projeto original de Deus nunca foi baseado em desempenho, foi baseado em relacionamento. A identidade vinha antes da função, o pertencimento vinha antes da responsabilidade, o amor vinha antes da missão.
O maior problema da humanidade não é apenas moral, é um problema de identidade. Pessoas que não sabem quem são vivem tentando provar seu valor, pessoas que não se sentem amadas vivem buscando aprovação, pessoas que não conhecem o coração do Pai vivem competindo por posições, reconhecimento e importância, mas quando alguém recebe a revelação do amor do Pai, a necessidade de provar alguma coisa desaparece.
A segurança substitui a comparação, a honra substitui a competição, a aliança substitui a rivalidade, e o coração órfão começa a ser curado.
A Cura da Mentalidade Órfã e a Restauração da Filiação
Deus fez Adão adormecer e, enquanto Adão descansava, Deus trabalhava. Esse princípio continua verdadeiro: muitas vezes, Deus realiza suas maiores obras quando seus filhos aprendem a descansar nEle. A Escritura diz que Deus trouxe Eva a Adão, mas existe uma pergunta importante: com quem Eva estava antes de estar com Adão? Ela estava com Deus. Antes de conhecer seu marido, conheceu seu Pai. Antes de qualquer relacionamento humano, experimentou o amor do Pai. Foi formada em Sua presença, moldada em um ambiente de deleite, prazer e comunhão. Somente depois disso Deus uniu Adão e Eva.
Quando Deus os abençoou, o propósito não era apenas que realizassem algo. Existe um princípio espiritual: aquilo que alguém se torna é o que multiplica, e aquilo que multiplica determina a autoridade que exerce.
No jardim havia uma árvore proibida. Então surge a serpente, o primeiro teólogo da dúvida, o primeiro a questionar a Palavra de Deus. Sua pergunta era simples: “Foi isso mesmo que Deus disse?” A tentação não era apenas comer um fruto. A tentação era buscar identidade fora do relacionamento com o Pai. A proposta da serpente era: “Vocês serão como Deus”. A humanidade já havia sido criada à imagem de Deus, mas o espírito de orfandade sempre tenta convencer alguém a conquistar aquilo que já recebeu.
Adão e Eva acreditaram na mentira e imediatamente surgiram vergonha, culpa e medo. Eles começaram a se esconder. Aquilo que antes era comunhão tornou-se separação. Aquilo que antes era segurança tornou-se insegurança. Aquilo que antes era identidade tornou-se esforço. O resultado foi a mentalidade órfã.
Jesus declarou em João 14:18: “Não vos deixarei órfãos”. Essa declaração aponta diretamente para o jardim. Desde a queda, o Pai está trabalhando para restaurar Sua família. A cruz não foi apenas uma solução para o pecado; foi um caminho de volta para a filiação. Na cruz, Jesus tornou-se pecado por nós para que nos tornássemos justiça de Deus. Ele levou nossas enfermidades, carregou nossas dores, assumiu nossas feridas e tomou sobre si nossa separação.
Durante toda a Sua vida, Jesus chamou Deus de Pai. Houve apenas um momento em que isso mudou. Na cruz, declarou: “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?” Por um instante, Jesus experimentou aquilo que a humanidade merecia para que a humanidade pudesse experimentar aquilo que Ele merecia. Ele foi separado para que fôssemos adotados. Carregou o abandono para que recebêssemos filiação.
Uma das maiores diferenças entre a mentalidade órfã e a mentalidade de filhos aparece na forma como a bênção de Deus é enxergada. Órfãos pedem que Deus abençoe aquilo que estão fazendo. Filhos e filhas fazem aquilo que Deus já está abençoando. Órfãos trabalham em busca de aprovação. Filhos trabalham a partir da aprovação. Órfãos tentam conquistar amor. Filhos vivem a partir do amor. Órfãos esforçam-se para receber. Filhos sabem receber. Tudo vem dEle, tudo passa por Ele e tudo retorna para Ele.
Até mesmo na área financeira existe diferença entre essas duas mentalidades. O órfão vive com medo da escassez. O filho vive na segurança da provisão. Filhos entendem que Deus é o dono da provisão. Por isso existe descanso, confiança e generosidade. No Reino de Deus sempre há mais do que o suficiente.
Órfãos competem. Filhos complementam. Quando alguém é abençoado, o órfão sente ameaça. Quando alguém é abençoado, o filho celebra, porque entende que o Reino é uma família. O sucesso de um irmão não representa perda para os demais. A bênção sobre um membro da família revela a bondade do Pai para todos.
Filhos e filhas vivem a partir desta verdade: “Eu sou, por isso faço”. A mentalidade órfã funciona de forma oposta: “Eu faço para tentar me tornar alguém”. A identidade nunca deve ser construída pelo desempenho. Não é aquilo que alguém faz que determina quem ele é. É quem ele é que determina aquilo que faz.
A última palavra do Antigo Testamento é “maldição”. Porém, antes da vinda do Senhor, Deus promete enviar o espírito de Elias. Sua missão seria restaurar o coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos aos pais. A cura da orfandade passa pela restauração dos relacionamentos, pela reconciliação e pela recuperação da identidade de família.
Grande parte do mundo opera a partir da árvore do conhecimento do bem e do mal. Tudo se resume a lados opostos, grupos opostos e disputas constantes, mas o Reino oferece uma alternativa diferente: a árvore da vida. O Reino não funciona pela lógica da polarização. Funciona pela lógica da vida. Enquanto o sistema órfão vive de oposição, comparação e competição, os filhos vivem a partir da vida que recebem do Pai.
A cura do coração órfão acontece quando alguém deixa de buscar identidade em desempenho, posição ou reconhecimento e volta a encontrar sua identidade no amor perfeito do Pai. É nesse lugar que a filiação é restaurada, a identidade é fortalecida e a vida volta a fluir da forma como Deus planejou desde o princípio.
