Até que eu me levantei como uma mãe sobre o Brasil

Desperta, Débora: um cântico depois da batalha

Juízes 5 registra o cântico de Débora e Baraque após a vitória de Israel. Eles não apenas celebram o fim de uma guerra. O cântico conta como o Senhor agiu, reconhece quem respondeu ao chamado e mostra o que aconteceu quando outros permaneceram onde estavam.

A gratidão também exige memória. Mesmo quando ainda não vemos o fim de todas as batalhas, podemos recordar o que Deus já fez e confiar que Ele continua agindo.

Naquele dia, cantaram Débora e Baraque, filho de Abinoão, dizendo: “Desde que os chefes se puseram à frente de Israel, desde que o povo se ofereceu voluntariamente, bendizei ao Senhor”.

Juízes 5.1–2

A primeira resposta à vitória é bendizer ao Senhor. Os líderes se colocaram à frente, o povo se ofereceu voluntariamente, mas a glória pertence a Deus. Débora canta para que essa história não seja lembrada como uma conquista humana.

Senhor, saindo de Seir, marchando desde o campo de Edom, a terra estremeceu, os céus gotejaram, sim, as nuvens gotejaram água.

Juízes 5.4

A imagem é grandiosa porque o cântico apresenta o próprio Senhor marchando em favor do Seu povo. A batalha de Israel não estava restrita ao que seus olhos conseguiam enxergar.

O texto, então, relembra a condição em que o povo vivia:

Nos dias de Sangar, filho de Anate, nos dias de Jael, cessaram as caravanas, e os viajantes tomavam veredas tortuosas.

Juízes 5.6

As aldeias estavam desertas, e as pessoas evitavam os caminhos habituais. A opressão havia alterado a vida cotidiana de Israel. Foi nesse cenário que Débora se levantou como mãe em Israel.

Seu cântico não esconde a gravidade da situação. Havia guerra às portas, e o povo parecia despreparado para enfrentá-la. Ainda assim, homens e mulheres responderam ao chamado. Débora honra os comandantes que se ofereceram voluntariamente e convoca o povo a falar dos atos de justiça do Senhor.

Desperta, desperta, Débora, desperta, desperta, entoa um cântico; levanta-te, Baraque, e leva presos os teus prisioneiros, tu, filho de Abinoão.

Juízes 5.12

O cântico nomeia aqueles que desceram para a batalha. Efraim, Benjamim, Maquir, Zebulom e Issacar aparecem entre os que se mobilizaram. Também registra as hesitações. Entre as divisões de Rúben houve discussão, enquanto Gileade permaneceu além do Jordão, Dã se deteve junto aos navios e Aser ficou nas costas do mar. Zebulom e Naftali, por sua vez, expuseram a vida no campo de batalha.

Essa diferença importa. Diante de uma guerra que atingia o povo inteiro, alguns assumiram seu lugar, enquanto outros permaneceram ocupados com seus próprios caminhos. O cântico preserva a memória de ambas as respostas.

Débora descreve a chegada dos reis de Canaã e declara que até os céus pelejaram contra Sísera. O ribeiro de Quisom arrastou os inimigos, e o avanço dos cavalos não lhes garantiu a vitória. O texto não atribui o resultado apenas à disposição dos combatentes. Ele aponta para a ação do Senhor na batalha.

Por isso, a ausência de Meroz recebe uma palavra severa:

Amaldiçoai a Meroz, diz o anjo do Senhor, amaldiçoai duramente os seus moradores, porque não vieram em socorro do Senhor, em socorro do Senhor e dos seus heróis.

Juízes 5.23

Em seguida, o cântico volta sua atenção para Jael. Sísera chegou à sua tenda fugindo da batalha. Pediu água, e ela lhe ofereceu leite. Quando ele dormiu, Jael tomou uma estaca e um martelo e pôs fim à vida do comandante inimigo.

Débora chama Jael de bendita entre as mulheres. A cena é dura, mas sua presença no cântico é decisiva: a vitória anunciada por Deus encontrou resposta também nas mãos de uma mulher que estava em sua tenda.

O contraste final é doloroso. Enquanto Sísera estava morto, sua mãe aguardava seu retorno à janela. Ela imaginava que a demora se devia à divisão dos despojos. Não sabia que o filho não voltaria. Com essa imagem, o cântico encerra a história do homem que havia oprimido Israel.

Assim pereçam todos os teus inimigos, ó Senhor; porém os que te amam sejam como o sol quando sai em todo o seu esplendor. E a terra teve paz por quarenta anos.

Juízes 5.31

Débora pôde cantar depois de ver a vitória. Seu cântico nos ensina a reconhecer a fidelidade do Senhor e a confiar n’Ele enquanto atravessamos nossas próprias batalhas. A gratidão não depende de termos todas as respostas. Ela nasce do conhecimento de quem Deus é e da memória do que Ele já fez.

A autoridade de ouvir o céu

O chamado de Débora também nos leva a examinar o que entendemos por autoridade. É possível estar ocupada, produzir muito, manter reuniões, publicar conteúdos e receber reconhecimento, sem perceber que deixamos de ouvir o Senhor com atenção.

A quantidade de tarefas cumpridas não responde, por si só, à pergunta sobre fidelidade ao chamado. Precisamos permitir que Deus examine até aquilo que consideramos bem-sucedido. Se algo precisa ser corrigido, a resposta não é proteger o que construímos a qualquer custo. É voltar a ouvir Sua voz.

Débora se levantou e chamou outros à frente da batalha. Sua atuação mostra que exercer autoridade não exige ocupar todos os lugares. Há mulheres chamadas a conduzir, ensinar, interceder, sustentar e discernir o que precisa ser feito. Esse papel não é definido por título, diploma, tempo de serviço ou visibilidade.

A autoridade que buscamos nasce da vida de filhas que ouvem a Deus. Mulheres que discernem as batalhas diante delas também precisam aprender a examinar o próprio coração. Quando os sentimentos se confundem e muitas vozes disputam nossa atenção, é necessário silenciar e voltar a ouvir o Senhor.

Jael e a estaca nas mãos

Jael não saiu à procura de Sísera no campo de batalha. Ele chegou à sua porta, e ela precisou responder ao que estava diante dela. Não se esquivou. Também não agiu sem perceber o momento. Usou aquilo que tinha nas mãos.

Sua história nos convida a discernir as situações que chegam à nossa casa e a não fazer acordo com aquilo que contraria os princípios de Deus. Nem sempre a batalha se apresenta como uma pessoa. Ela pode envolver um pecado tolerado, um padrão que se repete na família, conflitos no casamento, medo, escassez ou a dificuldade persistente de concluir o que foi começado.

É preciso cuidado ao nomear essas lutas. Pessoas não são o inimigo a ser caçado. Por isso, a imagem da estaca e do martelo não autoriza agressividade contra quem nos cerca. Ela nos chama a agir com firmeza, sabedoria e fidelidade a Deus diante daquilo que precisa ser enfrentado.

Podemos orar por nossas famílias, por filhos que se afastaram da fé e por situações que parecem repetir antigas dores. Também precisamos examinar nossas escolhas. Não faz sentido pedir o fim de uma batalha enquanto continuamos coniventes com o que alimenta essa mesma situação.

Jael conhecia Sísera, mas não se aliou ao opressor do povo de Deus. Seu posicionamento nos lembra que a familiaridade com algo não exige nossa concordância. Há momentos em que é necessário dizer basta e permanecer firme no que o Senhor estabeleceu.

Uma vida que se torna testemunho

O cântico de Débora termina com uma informação que não deve passar despercebida: a terra teve paz por quarenta anos. Aquela mulher havia visto a opressão de seu povo. Depois, pôde contar o que o Senhor fez.

O testemunho não apagou os dias difíceis. Deu a eles um lugar dentro da história que Débora agora cantava. Ela chamou pessoas à batalha, viu a resposta de quem se ofereceu voluntariamente e reconheceu a mão de Deus na vitória.

Também somos chamadas a permanecer atentas ao que o Senhor está fazendo em nossa casa, família, trabalho, saúde e comunidade. Algumas mulheres servirão como intercessoras; outras, como professoras, pastoras ou líderes em diferentes espaços. Em cada lugar, é possível assumir a responsabilidade recebida e ajudar outras pessoas a se levantarem.

Que a nossa voz saiba agradecer pelo que Deus já fez, pedir Sua direção para o que ainda enfrentamos e contar, com fidelidade, os testemunhos que Ele nos permitir viver.