Até que eu me levante como mãe

Até que eu me levante como mãe

A frase de Débora tem ocupado meu coração: “Até que eu me levantei por mãe em Israel” (Juízes 5.7). Por que, ao recordar aquele momento, ela se apresenta como mãe? Débora era juíza e profetisa. Poderia ter mencionado sua posição diante do povo ou sua participação na batalha. No cântico, porém, ela escolhe dizer que se levantou como mãe.

Essa pergunta alcança também as mulheres que nunca tiveram filhos. Quando falo de maternidade aqui, não me refiro apenas à experiência de gerar uma criança. Penso também no cuidado com pessoas, na responsabilidade por aquilo que Deus nos confiou e na disposição de proteger o que ainda está crescendo.

Quantas vezes recebemos uma ideia e a abandonamos antes que ela amadureça? Quantas vezes reconhecemos uma missão, mas nos sentimos inadequadas para levá-la adiante? A imagem de uma mãe que se levanta nos convida a olhar novamente para essas responsabilidades.

Para algumas mulheres, a maternidade é uma das áreas mais delicadas da vida. Acertamos, erramos, rimos e choramos. Basta um filho adoecer ou atravessar uma fase difícil para que até a mulher mais segura se sinta vulnerável. Ao mesmo tempo, existe uma força que se manifesta quando precisamos cuidar. Levantamos durante a madrugada, mesmo cansadas, porque alguém precisa de nós.

Tenho pensado no que aconteceria se levássemos essa disposição também à oração pelo Brasil. Se olhássemos para nossa nação com atenção, reconhecendo suas feridas, sem desistir das pessoas que vivem nela.

Olhar além do quarto bagunçado

Durante muito tempo, a desorganização do quarto da minha filha, Sofia, foi motivo de conversas em casa. A bancada acumulava coisas, o armário precisava de ordem, e eu não conseguia entender por que aquilo era tão difícil para ela. Ao mesmo tempo, percebia que seus cadernos eram organizados. Como educadora, eu via ali um cuidado que ainda não aparecia no quarto.

Com o passar do tempo, Sofia começou a organizar seus próprios espaços. Primeiro a bancada, depois o armário. Hoje, seu quarto é uma das partes mais arrumadas da nossa casa.

Lembro dessa experiência porque, por um período, eu só conseguia ver a desordem à minha frente. Havia, porém, algo nela que aquela circunstância ainda não mostrava. Precisei aprender a olhar para minha filha com mais atenção e a acompanhá-la enquanto desenvolvia aquilo que já era capaz de fazer.

Também podemos olhar para o Brasil e concluir que nada mudará. Há problemas que se repetem, situações que nos desanimam e notícias que parecem confirmar nossa falta de esperança. Orar como mães não exige ignorar essas evidências. Exige que não deixemos que elas sejam a única coisa que conseguimos enxergar.

Uma mãe conhece a dificuldade que seu filho enfrenta, mas também se lembra de outros momentos em que ele demonstrou coragem, cuidado e capacidade de aprender. Por isso, consegue encorajá-lo quando ele mesmo não se vê capaz. Quero levar essa atenção para minhas orações pelo Brasil, pedindo a Deus que me ajude a ver as pessoas e as possibilidades de cuidado que o desânimo costuma esconder.

Nutrir exige proximidade

Quando Sofia nasceu, a amamentação me apresentou a uma responsabilidade que eu não podia dividir da maneira como desejava. Eu sentia o cansaço das noites interrompidas e, em alguns momentos, achava injusto que aquela tarefa dependesse de mim.

Com o tempo, passei a prestar atenção ao que acontecia enquanto a alimentava. Havia desconforto, mas havia também proximidade. Eu a segurava, observava seu rosto e aprendia a conhecê-la fora do meu ventre. Lembrava-me, muitas vezes, de Ana e Samuel. Aqueles momentos me levavam a pensar sobre o cuidado e a responsabilidade que acompanham uma vida confiada a nós.

Essa lembrança me ajuda a compreender outra parte da imagem da maternidade: nutrir requer parar e olhar. Não basta perceber de longe que há uma necessidade. É preciso dedicar tempo, oferecer o que temos e conhecer de perto quem recebe nosso cuidado.

Por isso, quando penso em abençoar o Brasil, penso nas palavras que dizemos sobre ele, nas pessoas por quem intercedemos e nas contribuições concretas que podemos oferecer. Podemos separar tempo para orar, servir em nossas comunidades e perguntar ao Senhor o que Ele deseja receber de nós nessa jornada.

Uma mãe também pensa no futuro. Ao olhar para uma criança, ela vê alguém que ainda está crescendo. Acompanha suas dificuldades sem limitar sua história ao que acontece hoje. Desejo conservar essa esperança quando oro pela nossa nação e pelas próximas gerações.

A maternidade de Débora

O livro de Juízes apresenta Débora como profetisa e juíza. Ela atendia os israelitas debaixo de uma palmeira, e o povo a procurava para obter decisões (Juízes 4.4–5). O texto menciona seu marido, Lapidote, mas não informa se ela tinha filhos.

Isso merece nossa atenção. Quando Débora diz que se levantou como mãe em Israel, não precisamos preencher o que a Bíblia não conta sobre sua família. Podemos ouvir o que ela própria declarou sobre a maneira como assumiu sua responsabilidade diante do povo.

Essa palavra acolhe também a mulher solteira, a mulher que não tem filhos, aquela que não pôde gerar e aquela que cuida de pessoas que não nasceram de seu ventre. Nenhuma delas precisa ser excluída desse chamado ao cuidado e à intercessão.

Uma mãe percebe quando um filho está ferido. Aproxima-se, acolhe e procura entender o que aconteceu. O Brasil precisa de mulheres dispostas a olhar com essa atenção para as pessoas, as cidades e as situações pelas quais oram. Precisa de mulheres que se importem o suficiente para permanecer, cuidar e agir.

Nossa oração pelo país pode, assim, ter um endereço. Podemos nos levantar como mulheres que cuidam do Brasil, sem deixar de cuidar das responsabilidades que Deus já colocou em nossas mãos.

Depois de vinte anos, quarenta anos de paz

Juízes 4 começa apresentando um tempo de sofrimento. Jabim, rei de Canaã, oprimia os israelitas, e Sísera comandava seu exército. O povo clamou ao Senhor depois de vinte anos de opressão.

Ao final do cântico de Débora e Baraque, Juízes 5 registra que a terra teve paz por quarenta anos. É comovente ler esses números: depois de tanto tempo sob opressão, Israel pôde viver um longo período de paz.

Não trato essa relação como uma fórmula para nossas batalhas. O texto nos conta o que Deus fez naquela história. Ele também nos lembra que a condição em que um povo vive não precisa determinar para sempre seu futuro. Israel clamou, o Senhor agiu e a opressão teve fim.

Se hoje você enfrenta uma situação que parece se repetir, leve-a diante de Deus. Peça a Ele discernimento para enxergá-la com clareza e coragem para assumir o que está ao seu alcance. O chamado para se levantar começa com disposição para ouvir o Senhor e responder a Ele.

A juíza debaixo da palmeira

Débora se levantou como mãe em Israel sem deixar de exercer a função pela qual o povo a conhecia. Ela continuava sendo juíza. Os israelitas a procuravam debaixo da palmeira, entre Ramá e Betel, para que julgasse suas causas.

Esse aspecto de sua história fala comigo porque muitas mulheres vivem uma tensão entre o cuidado com a família e o exercício da profissão. Já me perguntei como conciliar essas responsabilidades e quanto de mim deveria dedicar a cada uma delas. Conheço também, pelo meu trabalho como psicopedagoga, mães que se sentem culpadas quando os filhos atravessam dificuldades na aprendizagem.

Há ocasiões em que precisamos fazer ajustes. Uma fase da infância não volta, e devemos prestar atenção ao que nossos filhos necessitam naquele período. Ao mesmo tempo, os dons e talentos que Deus nos deu também podem servir a outras pessoas por meio do nosso trabalho.

Não há uma resposta única para a rotina de todas as famílias. Há decisões que precisam ser levadas ao Senhor e revistas conforme os filhos crescem e as circunstâncias mudam. Desejo que nenhuma mulher carregue sozinha um peso que pode ser apresentado a Deus com sinceridade.

Débora exercia sua função em um lugar conhecido pelo povo. A palmeira ficava à vista de quem precisava procurá-la. A Bíblia nos permite vê-la como uma mulher a quem as pessoas recorriam para obter julgamento. Sua responsabilidade diante de Israel fazia parte da vida em que respondeu ao chamado de Deus.

Você também pode consagrar ao Senhor aquilo que faz. Seu trabalho alcança pessoas, ajuda a sustentar sua casa e pode abençoar sua cidade. Se esta fase exige mudanças na rotina, peça sabedoria para fazê-las. Se Deus a mantém em sua profissão, exerça-a com fidelidade. Leve para cada lugar a atenção que aprendeu a desenvolver ao cuidar.

Quando o chamado nos leva a um lugar desconhecido

Há outro ponto da história de Débora que me impressiona. Quando ela transmitiu a Baraque a ordem do Senhor para reunir homens de Naftali e Zebulom, ele respondeu que só iria se ela fosse com ele. Débora aceitou acompanhá-lo.

A Bíblia não conta tudo o que ela viu no caminho ou durante a batalha. Conta que ela foi com Baraque e permaneceu fiel à palavra que havia recebido de Deus. Aquela decisão a levou para além do lugar onde costumava julgar as causas do povo.

Também podemos ser chamadas a enfrentar situações que ainda não conhecemos. Às vezes, não sabemos por onde começar. Precisamos perguntar ao Espírito Santo qual é o próximo passo e permanecer disponíveis para aquilo que Ele nos mostrar.

A vitória registrada em Juízes envolveu pessoas que se moveram, enfrentaram riscos e dependeram da ação do Senhor. Ao ler essa história, penso nas necessidades que nem sempre vemos quando pedimos a Deus uma resposta. Há pessoas feridas, famílias afetadas e responsabilidades que alguém precisa assumir enquanto a batalha ainda acontece.

Não quero falar de vitória sem reconhecer esse caminho. Quero pedir ao Senhor sensibilidade para enxergar as pessoas no meio dele. Há momentos em que ser forte significa permanecer presente diante de uma realidade difícil, ouvindo a Deus e fazendo o que Ele nos confiou.

Débora pôde, depois, entoar um cântico. Ela nomeou a ação do Senhor, lembrou a participação do povo e contou o que aconteceu. Seu testemunho nasceu de uma história que ela atravessou.

Consagrar ao Senhor o que carregamos

Tenho pedido a Deus que me ensine a cuidar sem me deixar governar pelo medo e a olhar para o Brasil sem entregar meu coração ao desprezo ou à desesperança. Quero perceber o que precisa de atenção, oferecer o que posso e permanecer fiel ao lugar em que Ele me colocou.

Talvez você esteja vivendo uma maternidade biológica ou adotiva. Talvez cuide de pessoas em sua igreja, acompanhe filhos espirituais ou carregue a responsabilidade por um projeto que ainda precisa crescer. Talvez o Senhor esteja chamando sua atenção para sua profissão, sua cidade ou para alguém que necessita da sua presença.

Leve tudo isso diante d’Ele. Débora não precisou negar sua função de juíza para dizer que se levantou como mãe em Israel. Peçamos ao Senhor que nos mostre como cuidar daquilo que confiou às nossas mãos e como responder quando nos chamar a dar um passo que ainda não conhecemos.

Oração

Senhor, obrigada pela palavra que o Senhor nos deixou por meio da história de Débora. Ela se levantou como mãe em Israel, e o Seu povo experimentou livramento. Queremos ouvir o que essa palavra pede de nós e responder com fidelidade.

Consagramos a Ti as pessoas e as responsabilidades que nos confiaste. Apresentamos nossos filhos, nossas famílias, as mulheres que acompanhamos, nosso trabalho e aquilo que ainda estamos aprendendo a cuidar. Dá-nos olhos atentos para perceber necessidades que temos deixado passar.

Ensina-nos a nutrir com presença, palavras e atitudes. Quando a rotina nos cansar, ajuda-nos a reconhecer o que precisa de ajuste. Quando nos sentirmos inadequadas diante de uma nova responsabilidade, lembra-nos de buscar Sua direção antes de recuar.

Oramos pelo Brasil. Renova nosso amor pelas pessoas desta nação e não permitas que a desesperança determine a maneira como olhamos para elas. Mostra-nos onde podemos servir, interceder e agir com responsabilidade.

Dá-nos força para enfrentar o que for difícil e sensibilidade para cuidar das pessoas durante o caminho. Que saibamos reconhecer Tua ação e, quando vier o tempo de cantar, dar a Ti a glória pelo que fizeste.

Em nome de Jesus. Amém.