Salmo 149: o Cântico Novo e o Louvor Como Arma de Guerra Espiritual

Salmo 149 - A Canção da Guerra Espiritual | JB Carvalho — thumbnail do vídeo

Aleluia. Cantai ao Senhor um cântico novo, e o seu louvor na assembleia dos santos. Regozije-se Israel no seu Criador; exultem no seu Rei os filhos de Sião. Louvem-lhe o nome com flauta; cantem-lhe salmos com adufe e harpa. Porque o Senhor se agrada do seu povo, e de salvação adorna os humildes. Exultem de glória os santos, no seu leito de júbilo. Nos seus lábios estejam os altos louvores de Deus, e nas suas mãos espada de dois gumes, para exercer vingança entre as nações, e castigo sobre os povos; para meter os seus reis em cadeias, e os seus nobres em grilhões de ferro; para executar contra eles a sentença escrita. O que será honra para todos os seus santos. Aleluia.

Salmo 149.1-9

Há muitos anos essa mensagem não era pregada, e ela está totalmente atualizada para o momento que a igreja vive. Estamos no mês da adoração, um mês inteiro dedicado a falar sobre o poder do louvor e da adoração, e coincide com o mês da primavera, quando um ciclo novo começa e os frutos voltam a brotar. O tema é simples de dizer e profundo de viver: o louvor vem antes das batalhas.

Um cântico de guerra e de vitória

O Salmo 149 é um cântico de guerra e de vitória. Ele mostra que o povo de Deus não luta apenas com armas humanas, mas com louvor e com a Palavra de Deus. Charles Spurgeon chamou esse salmo de o cântico da espada e da arpa, do altar e do campo de batalha. A expressão “louvai ao Senhor”, o aleluia, aparece nos últimos cinco dos cento e cinquenta salmos reunidos, e termina exatamente com essa mesma palavra. Em muitos dos cânticos anteriores havia um problema, uma crise, um mal descrito e trazido diante do Senhor. Mas nesses últimos salmos, tudo é louvor.

O texto abre dizendo para cantar ao Senhor um cântico novo, uma canção nova. É uma canção espontânea que nasce de um coração agradecido. Quando temos corações agradecidos, podemos cantar uma nova canção. Deus ama receber a alegria e o louvor do seu povo expresso em cânticos, especialmente cânticos novos. O cântico novo é a resposta do céu às vitórias de Deus. E o louvor sempre marca novos ciclos de vitória. Sempre que Deus faz algo novo, ele põe em nós um novo cântico.

Ficamos alguns anos sem produzir canções novas, e neste último sábado não somente fizemos canções como gravamos um novo álbum. E agora a determinação é não ter mais nenhuma estação sem canções novas, porque daqui para a frente as novas canções vão determinar os atos que Deus está fazendo no nosso meio. Precisamos nos atualizar com novas canções.

João Crisóstomo dizia que um cântico novo aponta para nova vida em Cristo. Charles Spurgeon chama esse salmo de o cântico de guerra e de vitória. João Wesley relacionava o cântico novo com o avivamento, e seu irmão Carlos Wesley foi autor de milhares de canções. Sempre que Deus renova, ele põe uma nova canção. Quando se olha para a história dos avivamentos, sempre houve um som novo acompanhando o mover de Deus. Pense em “Castelo Forte”, de Lutero. Pense nos irmãos Wesley. Pense nos avivamentos e movimentos que o Brasil já viveu, como o de Bené Gomes, que ministrava através de canções uma voz profética, uma palavra apostólica, junto a um grupo que gerou um movimento cantando a escatologia vitoriosa. Houve um júbilo de todos os povos, os reis se dobraram ao Senhor, houve um brado de vitória, o dia do Senhor chegou, houve em todos os povos o anúncio de que um novo rei surgiu, e impérios reconheceram que sua destra reinará.

Isso é canção apostólica com uma pregação sobre o reino de Deus chegando e todos os joelhos se dobrando. As nossas canções definem muito bem a nossa teologia. Spurgeon diz que Deus é sempre novo em suas manifestações. Suas misericórdias são novas a cada manhã. Suas libertações são novas em cada noite de tristeza. Precisamos que nossa gratidão e nossas ações de graças sejam também novas. Precisamos nos renovar. Se você fica inspirado apenas por aquilo que foi no evangelho um dia, você está doente. A nossa vida é de glória em glória. Precisamos melhorar, ser melhores pessoas, melhores cidadãos, melhores pais, melhores cristãos. Há muitas pessoas que ficam com saudade do passado, e isso define que o termômetro delas hoje está baixo. A temperatura está baixa. Não existe fogo nem paixão na vida dessa pessoa. O fato é que Deus tem uma experiência nova para você, e essa experiência vem carregada de um cântico novo.

Paulo escreve aos Efésios pedindo para não se embriagarem com vinho, no qual há dissolução, mas se encherem do Espírito Santo, falando entre si com salmos, hinos e cânticos espirituais (Efésios 5.18). A expressão de alguém cheio do Espírito Santo é cantar uma nova canção para Deus. Um novo cântico é a expressão da obra contínua de Deus. É louvor fresco, resposta a uma nova obra que ele está fazendo. Deus está fazendo uma nova obra na Comunidade das Nações. Deus está florescendo vidas. Deus está florescendo famílias. Deus está fazendo uma nova obra no Brasil. Mas não é por força, nem por violência, é pelo seu Espírito, diz o Senhor.

O louvor na assembleia dos santos

O texto diz que esse cântico deve ser cantado na assembleia dos santos. Por que na assembleia? Porque é maravilhoso oferecer louvor a Deus sozinho, mas ainda é melhor e mais grandioso fazê-lo juntos. Quando estamos juntos, o nosso louvor cresce. Há uma sinergia, uma radioatividade, um movimento espiritual, uma alegria comunitária. O louvor nasce do povo de Deus reunido. O cântico novo nasce no meio do povo reunido, na assembleia dos santos.

Depois o texto diz: regozije-se Israel no seu Criador. A palavra regozijar-se fala de dar pulinhos, tomado de fortes sentimentos. Exultem no seu Rei os filhos de Sião, louvem-lhe o nome com flauta, cantem-lhe salmos com adufe e harpa, porque o Senhor se agrada do seu povo e de salvação adorna os humildes. Exultar é uma alegria explosiva, uma celebração pública. Que Israel se alegre em seu Criador, diz o texto. É justo e honroso louvar e se alegrar no nosso Criador. O chamado é para um cântico alegre que transforma a nossa química interior. Você não pode ficar triste quando celebra Deus.

Paulo disse: regozijai-vos, outra vez digo, regozijai-vos. Paulo disse: alegrai-vos no Senhor. Ele não está mandando fazer algo impossível. Louvor é sinônimo de alegria. Quem está triste, cante louvores. Quando você canta e celebra a Deus, a tristeza pede para sair.

O sofisma da dopamina

Por isso é preciso ter cuidado com os sofismas da moda evangélica. É incrível a estupidez, a ignorância que existe hoje no meio da internet entre alguns cristãos pouco desenvolvidos espiritualmente. É comum ver hoje nas redes a expressão: não é louvor, é dopamina. Essas pessoas estão dizendo que a euforia e o prazer sentidos no culto não vêm de Deus, mas apenas da liberação de dopamina no cérebro. Dopamina é um neurotransmissor associado a sentimentos de recompensa e bem-estar, que pode ser provocada pela música, pelas luzes, pelos sons. Com isso, essa gente está dizendo que não temos uma experiência espiritual na adoração, apenas química. Isso é falacioso. É o retorno do velho chavão de que estamos dançando na carne. Ninguém pode dançar fora da carne, a não ser que já não tenha mais um corpo. Dissociar o ser humano sempre foi um sofisma da moda evangélica de gente com a cabecinha de alfinete. Nós somos espírito, alma e corpo, diz a Bíblia.

A nossa adoração começa nos átrios, apresentando o nosso corpo como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o nosso culto racional, como disse Paulo. O corpo e o espírito estão integrados. Deus nos criou como seres integrais, espírito, alma e corpo. E no culto usamos vozes, gestos, cânticos, música, lágrimas, para expressar algo que nasce dentro de nós, no nosso espírito. O corpo, templo do Espírito Santo, é instrumento legítimo de culto. Devemos usar os nossos corpos, diz a Bíblia.

A dopamina é liberada em resposta a estímulos de prazer, expectativa ou recompensa. Está ligada a motivação, aprendizado, tomada de decisões e movimento. Pode ser liberada em atividades saudáveis, como praticar exercícios, comer bem, dormir adequadamente, ouvir música, socializar, aprender algo novo. E pode também ser liberada em comportamentos de vício, como drogas, pornografia, jogos de prazer, redes sociais em excesso, comida ultraprocessada. Nesse caso, o cérebro não diferencia moralmente, apenas registra que aquilo trouxe recompensa, e pode criar ciclos de dependência. A dopamina saudável gera prazer, mas também crescimento, gera prazer e bem-estar sustentável. Você corre, faz exercício físico, isso melhora você, te desenvolve. Mas a dopamina nociva dá prazer imediato e causa consequências negativas ou dependência: prazer rápido, mas prejuízo para o corpo e para a alma.

Não existe nenhum prejuízo em estarmos adorando a Deus com luzes ou sem luzes, com parede preta ou com parede branca. Não interessa. Estamos ali para celebrá-lo com o corpo, com a alma, com o espírito. Essa gente está combatendo o evangelho em nome de defendê-lo. O argumento do sofisma é: se você sente prazer, emoção ou estímulo no culto, isso é apenas dopamina e não adoração. Mas toda experiência humana, espiritual, intelectual ou emocional, tem correlação biológica. Somos seres integrados. Quando oramos, liberamos dopamina. Quando ajudamos alguém, liberamos ocitocina. Quando adoramos, nosso cérebro responde quimicamente. Isso não é apenas biologia, isso ensina que o corpo participa da nossa experiência espiritual. Reduzir a adoração à dopamina é como dizer que o amor é apenas ocitocina, que o perdão é apenas serotonina, que a comida é apenas dopamina. É muita estupidez.

Alegre-se Israel no seu Criador. Nosso louvor deveria ser alegre, e não uma expressão de levantar as mãos como se fosse um assalto. Alegrem-se os filhos de Sião no seu Rei, louvem o seu nome com danças, cantem louvores com adufe e harpa. A Bíblia legitima as emoções na adoração.

Somos seres integrados, criados para sentir prazer na presença de Deus

Fomos desenhados por Deus para expressar e experimentar prazer em sua presença. Não existe nada de errado nisso. Você vai ministrar a ele e ele ministra você, porque ele não pode ficar devendo a ninguém. O que você oferece a ele em adoração, ele devolve em ministração, com prazer, com alegria, com regozijo, com libertação. Davi dançava com alegria diante do Senhor. Os salmos são cheios de emoções intensas: lágrimas, júbilo, aplausos, cânticos, instrumentos. Jesus se emociona profundamente em oração, segundo Lucas. O texto diz que ele era o mais feliz da festa, porque amou a justiça e odiou a iniquidade, e o seu Deus o ungiu com óleo de alegria (Salmo 45.7). A Bíblia diz que Jesus exultou, e exultar é ficar realmente emocionado. Jesus tinha emoções tão intensas que foi chamado de comilão e beberrão. Ele mesmo disse que tocou canções e não choraram, que tocou canções alegres e não se alegraram, que veio João Batista que não comia nem bebia e disseram que tinha demônio, e veio o Filho do Homem que come e bebe e disseram que é beberrão e fanfarrão (Mateus 11.16-19). Tem gente que não tem como agradar. Qualquer coisa é motivo de crítica. Se você prospera, arrumou algum caminho errado. Se não prospera, é um miserável falido. Então é melhor escolher prosperar. De qualquer maneira vão criticar, então melhor crescer, avançar, vencer, mesmo que critiquem.

Essa história de que não é louvor, é dopamina, é a nova gnose espiritual. A velha heresia gnóstica de separar o espiritual do material, como se o corpo fosse um inimigo. Não é para gastar o corpo, é para cuidar do corpo, que é santuário do Espírito Santo, para viver cem anos e cumprir a missão da vida. O Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade. Todo aquele que não confessa que Jesus veio em carne é o espírito do anticristo. O apóstolo João escreveu contra o gnosticismo, porque diziam que a carne, a matéria, era má, e daí vinham os votos de pobreza e os votos de castidade, porque, se a matéria era má, Deus não poderia ter se encarnado. E João escreveu que o que os olhos viram, o que os ouvidos ouviram, o que as mãos tocaram, foi o Verbo de Deus. A matéria não é má. Deus viu tudo o que fez e disse que era muito bom. Tanto assim que ele vai redimir cada coisa debaixo desse céu. A ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus, na expectativa de que a própria criação seja redimida do cativeiro da corrupção para a liberdade da glória dos filhos de Deus, quando todos os nossos corpos serão glorificados.

O que diferencia adoração de entretenimento é que o entretenimento busca o prazer em si mesmo. A adoração busca a Deus, e o prazer é consequência disso, não é o fim. Os sacrifícios de louvor são o fruto dos lábios que confessam o seu nome. A sua química vai mudar no momento em que você se posicionar, oferecendo o seu corpo como sacrifício vivo, santo e agradável, que é o culto racional. Fé inteligente não é a mesma coisa que culto racional. Culto racional é colocar o corpo na adoração. A questão não é se tem ou não tem dopamina, porque tem e sempre vai ter, mas se o coração está correto ou não diante de Deus. E nesse caso você não deve julgar, porque não é assunto seu. O coração é a terra onde só Deus anda. Pare de avaliar se a adoração do irmão é genuína ou não. Presta atenção na sua. A adoração busca a Deus, e o prazer é consequência.

O Rei que se agrada do seu povo

Que os filhos de Sião se alegrem em seu Rei, diz o texto. Precisamos nos alegrar no Criador. Ele é Criador de toda a humanidade, mas é Rei apenas do seu povo. Estamos sob o seu domínio, mas não mais sob a servidão do pecado. Fomos transportados do império das trevas para o Reino do Filho do seu amor, no qual temos a redenção, a remissão dos pecados, e devemos fazer canções sobre isso. Aqueles cânticos de vitória antigos, do Egito eu fui liberto, faraó deixa meu povo ir, eu estou caminhando para a nova Jerusalém, marcaram uma geração inteira. Quando reconhecemos a presença do Rei, desfrutamos da alegria de tê-lo em nosso meio.

Charles Spurgeon diz que o verdadeiro esplendor dos reis não reside no que o seu povo faz por eles, mas no que eles fazem pelo seu povo, e nisso o nosso Senhor supera todos os príncipes que já viveram. Você não pode fazer nada para Deus que ele não venha a te recompensar. Tudo o que você ministra a ele, ele vem ministrar a você. É sempre assim. Louvem o seu nome com danças. A alegria entre o povo de Deus em seu Criador, o Rei, era evidenciada por danças, cânticos e músicas instrumentais, porque o Senhor tem prazer no seu povo. Deus se agrada do seu povo, e o louvor revela o favor divino sobre nós. É quando Deus nos contempla no meio da adoração que ele nos abençoa.

Não se surpreenda se no meio da adoração você for curado. Não se surpreenda se os nós da sua alma forem desfeitos no meio da adoração. Não se surpreenda se você for tocado de uma maneira tão poderosa e ativado em coisas que nunca experimentou antes. Isso tem acontecido em minha vida e na vida de milhares de pessoas. No meio da adoração, algo se quebra, grilhões se rompem, vidas transbordam, alegria brota, a vitória chega. Deus tem prazer no seu povo, apesar do seu povo.

As Escrituras ensinam que podemos agradar a Deus. Paulo nos exorta a andar dignamente diante do Senhor para agradá-lo em tudo. O que há em nós em que o Senhor possa se agradar? Nada, a menos que ele o tenha colocado ali. Se ele vê alguma beleza em nós, deve ser o reflexo do seu próprio rosto. Mesmo assim, o texto diz, e portanto deve ser verdade, que o Senhor se agrada do seu povo. Diga ao seu irmão: Deus se agrada de você. Portanto, sorria. Você define e molda as suas emoções, e não é controlado por elas. Suas emoções vêm e vão, e você tem que ter domínio sobre elas. É isso que um líder faz. Independente do que estou vivendo, vou me alegrar em Deus, porque ele está me dando vitória.

Ele adornará, embelezará os humildes com salvação. Que coisa linda. As pessoas verdadeiramente humildes são as mais bonitas que existem, e não estou falando de falsa humildade, porque tem gente que tem orgulho da própria humildade. A humildade é adornada com salvação, a alma humilde é adornada com uma estranha beleza. Deus se agrada de todos os seus filhos, assim como Jacó amou todos os seus filhos, mas os mansos são seus, e sobre estes ele coloca o manto de muitas cores, embelezando-os com paz, contentamento, alegria, santidade e influência. O coração alegre é bom remédio, é um adorno para quem quer casar, porque a cara feia não vai chamar a atenção de ninguém. Quando você tem essa graça, esse adorno, as pessoas dizem: nossa, tem uma beleza estranha ali.

O louvor que continua no leito, de noite

Exultem de glória os santos, exultar é uma palavra forte no hebraico, no seu leito, cantem de júbilo. O louvor não terminou quando o culto acaba. Ele continua quando você deita, quando levanta as suas mãos em casa. Ainda no apartamento onde morávamos no Sudoeste, quando a filha era pequenininha, ficávamos cantando na cama, e o vizinho pedia para parar de gritar porque a gente incomodava. Havia noites de oração marchando de madrugada, num apartamento, marchando. Exultem de glória os santos é um bom incômodo para os vizinhos. Talvez até mandava anjos para ministrar a eles: Senhor, visita eles também ali.

Nos seus lábios estejam os altos louvores de Deus, nas suas mãos espada de dois gumes. Os santos estão tão felizes na glória de Deus que cantam em voz alta em suas camas. Embora os cânticos de louvor sejam maravilhosos na assembleia do povo de Deus, eles nunca devem ser restritos apenas à reunião da igreja. Porque, se assim fosse, seria como vestir uma capa, um personagem, e depois de tirar a capa em casa mudar de personagem. É gente que aqui adora, chega em casa, xinga, grita, fala mal. É algo sagrado e maravilhoso para os santos cantarem em voz alta à noite em suas camas. Os santos exultam de glória mesmo em seus leitos. Louvor é contínuo.

A espada de dois gumes: boca e mão

Que os altos louvores de Deus estejam em suas bocas, e uma espada de dois gumes em suas mãos. Boca, adoração. Mão, ação. Espada de dois gumes é uma espada de duas bocas, símbolo de eficácia completa. Rashi, o rabino, entende os dois gumes como a Torá, a lei de Deus, que instrui e também condena. Jesus disse, e João 3.16 registra, que Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Mas o texto continua dizendo que os homens não quiseram, porque as suas obras eram más, não aceitaram a salvação gratuita porque não quiseram abrir mão dos seus pecados. Rashi diz que a Palavra de Deus instrui, mas também condena aqueles que não aceitaram a graça de Deus, a salvação dos seus pecados.

O povo de Deus é retratado como equipado com duas armas poderosas. Carregam os altos louvores de Deus, e sua adoração indica fidelidade e entrega a Deus em cada vitória, como Josafá em 2 Crônicas 20, que colocou o ministério de louvor na frente. Eles adoravam, e enquanto adoravam os inimigos se destruíam entre si. Você adora e os inimigos começam a se matar. E carregam a espada de dois gumes em suas mãos. A Palavra de Deus é descrita como espada de dois gumes em Apocalipse 19, como ainda mais afiada do que qualquer espada de dois gumes em Hebreus 4, e como a espada do Espírito em Efésios 6. Quem louva com fidelidade possui uma espada invisível. Enquanto os altos louvores a Deus estiverem em suas bocas, uma espada de dois gumes estará em suas mãos, com a qual executarão seus propósitos entre os povos, os reis e os nobres. Nesse estado de espírito, o Senhor concederá a vitória ao seu povo, como fez com Neemias e seus homens, que trabalharam com a espada e a colher de pedreiro enquanto oravam ao Senhor, numa mão a colher, na outra a espada. E assim Deus lutou por eles. Deus lutará por você.

Um ditado americano surgiu durante a Segunda Guerra Mundial: louvem o Senhor e passem a munição. A combinação desses dois elementos, os altos louvores a Deus e a espada de dois gumes, indica que as reuniões do povo de Deus devem se destacar tanto numa adoração genuína quanto na pregação da mensagem do evangelho. Devemos ter excelentes louvores a Deus e um manejo correto e afiado da espada do Espírito. A Palavra de Deus é toda afiada, ela desfere golpes mortais contra a falsidade e a maldade. Se não louvarmos, ficaremos tristes em nosso conflito. Se não lutarmos, nos tornaremos presunçosos no nosso cântico.

O louvor como arma de guerra

O verso 7 diz para exercer vingança entre as nações e castigo sobre os povos, para meter os seus reis em cadeias e os seus nobres em grilhões de ferro, para executar contra eles a sentença escrita, o que será honra para todos os seus santos. Veja o que o louvor faz. Enquanto estamos adorando, e quem ler o livro de Apocalipse vê isso, o povo adora, adora, adora, e os julgamentos de Deus chegam. Vimos tantas pessoas no Brasil lutando com armas erradas, armas carnais, xingando, gritando, amaldiçoando, de forma que não dava para diferenciar um cristão de um pagão. A Bíblia está dizendo que o louvor é a arma de guerra. A adoração exalta a Deus e derruba os inimigos, porque no momento em que adoramos a Deus estabelecemos um trono para ele, e nesse momento todos os tronos falsos começam a cair.

O louvor também é a proclamação do governo de Deus sobre as nações. O que estabelece tronos é adoração. Quando os deuses são esquecidos, quando param de ser adorados, eles não conseguem ter influência. O que permite que uma entidade esteja agindo numa sociedade é a oração e a adoração prestada a ela. Por isso pactos feitos por antepassados são confirmados por novas gerações através de festas sagradas, procissões, cultos oferecidos. E essas entidades se tornam, ou acham que têm o direito de governar sobre os homens, porque os homens as reconhecem e as adoram. No momento em que prestamos legítima adoração ao legítimo Senhor, ele vem, e todos esses tronos caem.

Os fiéis participam do juízo de Deus contra a injustiça e a idolatria. Nossa adoração aponta para o triunfo de Jesus, quando os santos reinarão com ele, conforme Apocalipse. É no meio da adoração que a Bíblia diz que os julgamentos de Deus chegam. A nossa adoração anuncia ao mundo que só Deus é Rei, e que todo sistema maligno que se opõe a ele vai cair. A nossa luta não é contra carne e sangue, é contra principados e potestades, poderes dominadores deste mundo tenebroso. E o louvor é a nossa arma que abre as prisões. Em Atos 16, quando Paulo e Silas estavam adorando no cárcere profundo, no meio da noite, um terremoto aconteceu no meio da adoração e as portas se abriram. O carcereiro ia se matar, pensando que os prisioneiros haviam fugido, e Paulo disse: não faça mal nenhum a ti. Ele perguntou o que devia fazer, e a resposta foi: crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e a tua casa. E o carcereiro se converteu. Paulo estava preso, mas a sua adoração o libertou.

A adoração, o grito do povo diante das muralhas de Jericó, derrubou aquelas muralhas. A adoração traz a presença do Rei. Levantai, ó portas, as vossas cabeças, levantai-vos, ó portais eternos, para que entre o Rei da glória. A sua adoração convida a Deus para entrar nas suas circunstâncias. A sua murmuração traz outra pessoa. O que o louvor é para Deus, a murmuração é para o diabo. Louvor é uma arma. Adoração não é passiva, ela é ativa contra as trevas. Proclamar Cristo é participar do juízo sobre o mal. Louvar é mais do que música, é juízo contra as trevas. Da boca dos pequeninos e dos que mamam, Deus suscitou perfeito louvor para fazer calar o inimigo e o vingador. O seu louvor cala o inimigo. A sua adoração cala o adversário.

Executar vingança sobre as nações significa que o poder do louvor e da Palavra de Deus realizará a obra de Deus nas nações. Ele trará vingança e punições, os reis e os nobres não poderão escapar desse julgamento. A sua adoração promoverá a chegada da justiça. Quando Deus aparece, tudo o que está errado fica em perspectiva. A presença de Deus traz ordem ou julgamento. Se Deus aparecesse aqui de maneira plena, ia dar ruim para algumas pessoas. Deus é tão santo, tão radioativo, que o mal não subsiste. Ele habita no meio dos louvores, diz a Bíblia, e Satanás não pode ficar num ambiente genuíno de adoração.

O Midrash Tehillim lê esse salmo como cântico messiânico. Os fiéis participam com o Messias do juízo das nações. Não é para usarmos a arma do inimigo contra o inimigo, não nos tornamos o inimigo na guerra. Nós declaramos a vitória de Jesus. A espada de dois gumes, a Palavra de Deus e a adoração, os altos louvores de Deus, não são sobre vingança pessoal, não são com ira, não são com animosidade, não são com amargura, não são com amaleque, mas são sobre a libertação das nações, sobre a libertação do Brasil. O que poderia abalar os tronos de Satanás nesse país é uma reunião de genuína adoração, onde vamos ao centro de Brasília adorar a Deus e só isso.

Uma história difícil, e o verdadeiro sentido da sentença escrita

A história dessa canção traz alguns elementos de grande tristeza, devido a graves interpretações erradas, equivocadas, graves erros na aplicação do texto. Delitzsch registra que, por meio desse salmo, Caspar Scioppius, em seu clássico Classicum Belli Sacri, inflamou os príncipes católicos romanos para a guerra religiosa dos trinta anos, usando esse salmo para matar protestantes. E dentro da igreja protestante, Thomas Müntzer, por meio desse mesmo salmo, incitou a guerra dos camponeses. Não, não é por força, não é por violência, é pelo meu Espírito, diz o Senhor. Não é carnal, não é ódio, não é raiva, não é amargura. Diga ao seu irmão: deixa de Amaleque.

O nosso equivalente a acorrentar reis, como diz o salmo no verso 8, é levar cativo todo pensamento à obediência de Cristo, para executar neles o julgamento escrito. Em Colossenses há um julgamento escrito contra o inimigo, e Jesus escreveu isso por meio da sua obra na cruz. Em Êxodo 12, quando a última praga chegou, todo o panteão dos deuses egípcios caiu por terra. Eles estavam caindo um por um: a praga das rãs, a praga dos piolhos, a praga dos furúnculos, e a praga mais terrível contra o deus-sol, o principal deus do Egito, três dias sem sol. Os egípcios ficavam perguntando onde estava a divindade do sol, ela havia desaparecido. Deus estava humilhando todos os deuses do Egito. Na última praga, Deus destronou de uma vez todo o panteão do Egito.

Mas Paulo vai dizer em Colossenses 2.14-15 que na cruz do Calvário não foi apenas o panteão egípcio que caiu, foram todos os panteões de todos os falsos deuses do planeta. Naquela cruz, Jesus envergonhou, expôs os principados e potestades ao desprezo e à ignomínia, e triunfou sobre eles. O Êxodo foi a transição do povo de Israel para a libertação, para a terra prometida. Na cruz, a humanidade inteira é convidada para o seu próprio êxodo, e todos os falsos deuses são destronados mediante os altos louvores do povo de Deus.

O livro de Apocalipse não é sobre medo, é sobre o trono de Deus. Quando adoramos a Deus, o trono de Deus chega, com os querubins que o carregam, aquele mar de vidro e cristal, aqueles seres que carregam o trono e aparecem com o tatalar das asas. A atmosfera muda quando o trono de Deus chega. O mal é punido, tudo o que está errado é corrigido. O que precisamos no Brasil é de um trono de adoração pelos altos louvores do povo de Deus. Os justos julgamentos de Deus serão liberados por meio da adoração, quando tronos ocupados pelo mal são quebrados e o verdadeiro Rei vem para se assentar sobre nós.

A honra que pertence aos santos

O texto termina dizendo que isso será honra para todos os seus santos. Essa honra pertence a você. A palavra glória, cavod, fala de peso, de honra, que recai sobre os fiéis que participam do juízo de Deus. Você não participa com Deus como um ímpio, perverso, cheio de ira e de vingança. Você participa com um coração puro, de quem quer ver os oprimidos sendo libertos, de quem quer ver a justiça chegando sobre a terra, de quem quer ver a redenção de Deus sobre o mundo, até mesmo a conversão dos maus, porque Deus não tem prazer na morte do ímpio, mas que eles se arrependam e venham ao conhecimento de Jesus Cristo.

Louvai ao Senhor, no hebraico aleluia, é a última expressão do salmo, entendida como uma declaração ou como uma exortação. Toda vez que você diz aleluia, isso pode ser entendido como uma exortação, um encorajamento para todos aqueles que rejeitam e resistem a Deus, para que em vez disso eles o louvem, estejam entre os seus santos, e não entre as nações que receberão a vingança de Deus.

Quatro convites deste salmo

Primeiro, um convite a um cântico novo, uma nova canção. Pare de cantar música velha. Há canções que a igreja cantou tantas vezes que já não conseguimos mais nem ouvir. É hora de uma canção nova.

Segundo, a alegria é celebração. O louvor tem que ser alegre, feliz, espontâneo, tem que usar o corpo para adorar. Ninguém precisa ficar frio, gelado, quase morto diante de Deus. Precisamos adorar, gritar, sorrir, celebrar, nos manifestar, porque estamos celebrando um grande Rei.

Terceiro, o louvor é uma arma. A exaltação a Deus é uma espada de dois gumes.

Quarto, o louvor traz juízo sobre as nações. É a proclamação do governo divino, a mesma coisa que pedimos na oração do Pai Nosso: venha a nós o teu reino. E se o reino de Deus chega, a injustiça é quebrada, o mal é vencido, Satanás é julgado.

Uma semana de adoração como desafio prático

O desafio é fazer uma semana inteira de adoração e de agradecimento. Quando vier a vontade de murmurar, lembrar disso. Quando vier a vontade de reclamar, lembrar disso. Quando vier a vontade de falar mal de alguém, lembrar disso, e aprender a falar bem pelas costas. É hora de mudar essa sinapse, transformar os pensamentos, o sistema de crenças. Honrar a Deus com um cântico novo, uma nova playlist, e fazer isso intencionalmente. Acordar de manhã e dizer: este é o dia que o Senhor fez, regozijemo-nos e alegremo-nos nele. Colocar adoração no fundo, porque Satanás não consegue conviver com a adoração, não consegue permanecer num ambiente de gratidão. O ambiente onde Deus se sente à vontade para ficar é um ambiente de humildade e quebrantamento.

Você pode estar ressentido e amargurado, ou pode estar quebrantado e humilde. Você pode ir para a cruz quando as coisas dão errado, ou pode procurar culpados e ficar emburrado com Deus. Tudo é escolha. E o que você faz com as suas dores define quem você é.

O salmo termina, na versão da Passion, com esse convite: é hora de cantar para Deus uma canção nova, para que todo o seu povo santo ouça o quão maravilhoso ele é. Que Israel se alegre com ele, e que os filhos de Sião derramem seus alegres louvores ao seu Rei. Comece a dançar, faça música e cante louvores a Deus no ritmo de tambores. Cada batida no tambor é como um castigo contra os poderes do mal. Ele se alegra com os seus amantes fiéis, adorna os humildes com a sua beleza. A verdadeira humildade põe a face de Deus em nós, e ele adora dar-lhes vitória. Seus louvores gritados são armas de guerra, e essas armas trarão vingança sobre as nações, e todo poder resistente será aprisionado com grilhões de ferro. Guerreiros cheios de louvor farão cumprir o julgamento decretado contra seus inimigos. Esta é a honra que ele dá a todos os seus amantes piedosos.

Este salmo convida a igreja a viver o louvor não como um momento isolado dentro de um culto, mas como um estilo de vida contínuo, que atravessa o leito, a casa, o trabalho, a semana inteira, e que se torna, ao mesmo tempo, celebração e combate. Para ouvir essa mensagem na íntegra, com toda a força da pregação ao vivo, vale a pena assistir ao vídeo completo e acompanhar também o podcast pessoal de Bispo JB Carvalho.