Até onde o rio quer te levar

Dra. Ilma Cunha pregando no palco do Modeladas Mais 2026, com o violão e o telão ao fundo
Dra. Ilma Cunha no Modeladas Mais 2026

Experimentar Deus Não é Ser Governada por Ele

“Eu não quero apenas a Tua presença comigo. Eu quero a Tua presença me governando.”

É isso que todas nós viemos buscar, não apenas a presença de Deus, mas a presença que governa a nossa vida. Só que a pergunta é outra: até onde nós estamos dispostas a permitir que essa presença nos conduza?

Porque há uma diferença entre experimentar e entregar. Experimentar é uma experiência. E nós não podemos viver de experiências momentâneas. Nós precisamos nos entregar a essa presença.

Rendição, profundidade e propósito. É esse o eixo desta palavra.

Depois disto, o homem me fez voltar à entrada do templo, e eis que saíam águas de debaixo do limiar do templo, para o oriente; porque a face da casa dava para o oriente, e as águas vinham de baixo, do lado direito da casa, do lado sul do altar. Saiu aquele homem para o oriente, tendo na mão um cordel de medir; mediu mil côvados e me fez passar pelas águas, águas que me davam pelos tornozelos. Mediu mais mil e me fez passar pelas águas, águas que me davam pelos joelhos; mediu mais mil e me fez passar pelas águas, águas que me davam pelos lombos. Mediu ainda outros mil, e era já um rio que eu não podia atravessar, porque as águas tinham crescido, águas que se deviam passar a nado, rio pelo qual não se podia passar. Junto ao rio, às ribanceiras, de um e de outro lado, nascerá toda sorte de árvore que dá fruto para se comer; não fenecerá a sua folha, nem faltará o seu fruto; nos seus meses, produzirá novos frutos, porque as suas águas saem do santuário; o seu fruto servirá de alimento, e a sua folha, de remédio.
Ezequiel 47.1, 3-5, 12

A nascente não está em nós

Antes de olhar para a profundidade, precisamos olhar para a origem. Ezequiel tem a visão de águas que vêm do trono de Deus, não de nós. A nascente está nele.

Dra. Ilma Cunha falando ao microfone durante a pregação no Modeladas Mais 2026
Dra. Ilma Cunha ministrando sobre Ezequiel 47 no Modeladas Mais 2026

Não produzimos a presença, não fabricamos o mover, ainda que às vezes tentemos. Não controlamos o rio. Apenas decidimos se entraremos nele.

Todos os dias nós somos convocadas a fazer escolhas. Quando levantamos, já precisamos decidir como queremos que seja o nosso dia, porque as demandas, os desafios e os problemas vamos ter todos os dias. Jesus disse: basta a cada dia o seu mal, não acrescente mais nenhum. Já é suficiente. Mas às vezes somos nós que acrescentamos, pela forma como lidamos com os desafios da vida.

Uma mulher governada pela presença não tenta produzir o rio. Ela aprende a discernir para onde ele está fluindo. Não é mais o fazer atarefado, é entrar no que Deus já está fazendo. Ele já preparou o rio que desce do seu trono.

Tornozelos, joelhos, lombos

Muitas de nós crescemos amando o controle. Desde cedo aprendemos que temos que controlar.

Quando temos feridas na alma, traumas, quando passamos por adversidades na família, não tínhamos como controlar nada disso. Não podíamos controlar que um pai nos ferisse, que uma mãe nos ferisse, que uma família produzisse uma mentalidade de escassez, a sensação de que tudo vai faltar. E ficamos o tempo inteiro nessa mentalidade, tentando controlar tudo. Mesmo quando recebemos a abundância, ainda não sabemos lidar com ela e continuamos vivendo na escassez.

A criança não tem recursos para controlar. Mas vai entrando na mente dela uma sentença que se torna verdade: quando eu crescer, ninguém mais vai me ferir, me humilhar, me abandonar. E ela cresce tentando controlar tudo para não sofrer mais.

Porque a dor pode ser nomeada em todos os tempos da vida. Ela acontece aqui e agora, quando somos machucadas, feridas, magoadas. Mas quando essas sentenças entram na mente, a Bíblia chama de fortalezas, porque criam sofismas, conceitos, percepções do mundo. Olhamos o mundo, os relacionamentos, tudo à nossa volta por essa ótica, e tentamos nos proteger para não sofrer de novo a dor que já conhecemos do passado. Para não sofrer, tentamos controlar.

Aquilo que mais tememos nos sobrevém: ao tentar se defender tanto, a pessoa vai afastando quem se aproxima. Cria defesas, entra num sistema de defensivismo. A melhor defesa é o ataque, dizem, e a pessoa se torna agressiva, reativa, de pavio curto. Algumas nem pavio têm mais, já queimaram todos, de tanto tentar se proteger. Os relacionamentos ficam tumultuados.

No presente, aquele sentimento do passado volta como raiva. Mulheres raivosas, mulheres com irritabilidade à flor da pele. A ira é a dor oculta da alma.

A ansiedade nada mais é do que essa tentativa de controlar tudo para se proteger da dor. Não é a ansiedade comum, essa de viajar amanhã e ficar preocupada hoje. É a ansiedade patológica, que já toma a vida, já define comportamentos, já produz sintomas no corpo. Isso adoece a alma e adoece o corpo.

E por trás de toda depressão há um tanto de raiva recalcada, guardada no emocional. Quando essa raiva não é direcionada para a origem do sofrimento, é redirecionada para si mesma. Achamos que não vamos sofrer, mas acabamos sofrendo, porque atraímos relacionamentos que só aumentam essa dor.

Ainda há chão debaixo dos pés enquanto conseguimos decidir para onde vamos, porque ainda estamos no controle.

Senhor, eu vou por aqui, eu quero o Teu governo, eu desejo o Teu governo, mas deixa eu controlar algumas coisas.

Podemos estar dentro da água e, ainda assim, seguir nos conduzindo. Podemos frequentar ambientes de presença, sentir, chorar, ministrar. Podemos até experimentar manifestações profundas de Deus e continuar segurando o governo da nossa vida. Presença experimentada não significa necessariamente governo estabelecido.

Águas que se deviam passar a nado

Aqui está a rendição. No versículo 5, era já um rio que não podíamos atravessar, porque as águas tinham crescido, águas que se deviam passar a nado.

Quando os pés deixam de tocar o chão, perdemos o nosso ponto humano de apoio. Chega uma profundidade em Deus em que os nossos recursos já não são suficientes, quando sentimos que não damos conta mais. Precisamos às vezes passar por esses limites, onde o Senhor nos permite passar, porque quer aprofundar a nossa experiência e a intimidade com Ele, para entendermos o que é ser governadas pela presença.

Minha experiência não é suficiente. Minha inteligência não é suficiente. Meu planejamento não é suficiente. Minha capacidade de liderança não é suficiente. Minha necessidade de compreender tudo também não é suficiente. Chega um momento em que não há mais chão para os meus pés.

Enquanto os pés alcançam o fundo, ainda podemos escolher o caminho. Quando não alcançam mais, precisamos nos entregar ao rio. E aí sim podemos ser governadas pela presença.

Qual é o chão que você ainda não consegue deixar? A necessidade de aprovação. O controle. O medo, que começou lá no Éden, no capítulo 3. A autossuficiência, a ideia de que não precisamos de ninguém, de que damos conta sozinhas, uma ferida que muitas de nós carregamos desde cedo. A dependência relacional, o amor que se torna patológico, que faz perder o sentido da vida quando o relacionamento acaba. Um projeto. A reputação, construída ao longo de anos e derrubada por um vacilo, uma calúnia. A necessidade de saber antecipadamente o que Deus fará, porque queremos saber tudo antes, e Ele vai devagar, um passo de cada vez.

Algumas mulheres querem águas profundas, desde que continuem tocando o chão. Mas existe uma dimensão de confiança em que Deus diz:

Agora, filha, deixe o chão. Confie, eu vou fazer. Vamos mais quinhentos côvados.

O rio tem destino

A mensagem desse texto não termina na experiência individual. Ezequiel diz que as águas chegam a lugares de águas mortas e as tornam saudáveis. Por onde esse rio passar, tudo viverá.

O que precisa viver na sua vida? A profundidade não é para nos impressionar, é para nos tornar portadoras de vida.

É a mulher que gera. Por isso Satanás, desde o início, foi experimentar e fazer abordagem de “amizade” com a mulher, para roubar o que ela carrega no ventre. A mulher é geradora de vida, é portadora de vida. Deus não nos chama para águas profundas apenas para termos experiências profundas. O rio quer passar por nós e chegar a lugares mortos.

Esse rio pode chegar ao casamento, aos filhos, à mesa, aos quartos, às memórias feridas, às relações interrompidas, aos conflitos que separaram e dividiram. Pode chegar à igreja, ao ministério. Nunca vimos tanto diagnóstico de burnout como hoje, tanta gente cansada, exausta, com a motivação e o sentido ministerial queimados. O rio pode chegar às mulheres que cuidamos. E onde ele chega, aquilo que estava morrendo pode voltar a viver.

Fruto para alimento, folha para remédio

Ezequiel fala das árvores às margens do rio. Folhas que não murcham, frutos que não acabam, fruto para alimento e folhas para cura. A mulher que mergulha no rio torna-se alguém que frutifica nas margens.

Muitas estão pedindo fruto, e Deus está oferecendo o rio. Você quer fruto? Deus está te oferecendo o rio. É preciso mergulhar para confiar. Quando encontramos a fonte, aquilo que precisamos começa a encontrar o seu lugar, porque Deus vai dando a direção.

O texto termina mostrando o que consigo enxergar profeticamente aqui: árvores plantadas junto às águas. Você está plantada junto às águas, nutrida pela presença, com folhas que não murcham, produzindo fruto, com uma vida que se torna alimento para outras pessoas.

A maternidade está ligada à ordem do alimento, porque nutrir é uma das funções mais bonitas da mãe. Quando trabalhamos com pessoas que têm transtornos alimentares, bulimia, anorexia, qualquer tipo de transtorno, isso costuma remeter à relação com a mãe, porque o primeiro alimento de uma criança vem dela. A amamentação é muito mais do que o leite que dá vigor e saúde física, é um vínculo que se constrói na estrutura psíquica da criança, formando os afetos, a forma dela organizar a vida.

Essa vida que se torna alimento não é só para os filhos do ventre, mas também para os filhos do coração e para aqueles que Deus coloca diante de nós para cuidarmos.

E quem cuida de você? Nós todas cuidamos, já nascemos cuidadoras, aprendemos a cuidar desde as bonecas. Agora, quem cuida de você?

A sua casa pode ter se tornado um campo de batalha. Mas quando você é governada pela presença, a saúde e a cura vão para a sua casa, porque você carrega a cura para o ambiente adoecido. Você é a resposta para o mundo.

Ser governada pela presença é deixar de perguntar até onde podemos controlar e começar a perguntar até onde o rio quer nos levar. É deixar-se fluir a uma profundidade que só conheceremos quando aceitarmos perder o chão. O que hoje representa, para você, o chão que o Pai está pedindo que você deixe?

As folhas que curam nas mãos

Há quatro anos, numa Conferência Global, quando saímos da casa da Bispa Dirce, recebi duas palavras proféticas, uma da Stacey Stanley e outra da Cindy Jacobs. Estava ali pregando um pastor da casa de oração de Israel, um amigo meu. Eu disse que ia tirar uma foto com ele, e ele olhou para mim e falou que precisava orar por mim.

Ele começou a orar o texto de Ezequiel 47. À medida que orava, ia dizendo: Senhor, as águas estão descendo na vida dela, na profundidade. Foi quando eu pensava em parar de viajar, de atender convite, porque tinha feito 70 anos. E o Senhor respondeu que não era hora de parar.

Ele chegou ao final e disse que via as minhas mãos cheias das folhas que curam, frutos que nutrem nações e folhas que curam.

Dra. Ilma Cunha com a mão erguida durante a oração no Modeladas Mais 2026
Dra. Ilma Cunha conduzindo a oração pelas folhas que curam

Você é mulher que porta as folhas que curam. No meu consultório há crianças curadas no ventre, inclusive de síndrome de Down. Tenho tanta experiência com Deus, com aquilo que Ele faz.

Coloque as mãos e comece a orar, dizendo ao Senhor que você quer ver essas folhas que curam nas suas mãos. A árvore dá fruto que nutre as nações. A mulher é nutridora, ela gera, nasceu para ser portadora de vida. Podemos curar os nossos filhos, a nossa família, podemos nos curar umas às outras, na unidade de propósito, caminhando juntas e não competindo, uma apoiando a outra.

Pai, eu me entrego ao Teu rio. Leva-me mais profundo. Leva-me além, como diz o cântico que cantamos. Como é bom poder te chamar de Pai. O Pai que nos abraça como filhas, filhas amadas do Pai. O Pai que nos dá o privilégio da confiança e da intimidade, para que como filhas possamos nos entregar, sabendo que o Senhor nos conduz. Não somos nós que produzimos o rio, Pai. Não somos nós que fazemos o mover, mas o Senhor, que faz, porque ele desce do Teu trono, desce da Tua presença, do governo da Tua presença. E nós nos entregamos, Pai. Não queremos ter apenas uma experiência contigo. Queremos continuar isso na nossa casa, nos nossos lares, no nosso ministério, em qualquer lugar aonde o Senhor nos levar, na nossa profissão. Ajuda-nos agora, Pai, a entender o que significam essas folhas que curam. Já nutrimos com a palavra que consola, que edifica, que transforma. Mas queremos agora exercer o ministério da cura de uma forma integral, nesse mundo que caminha para a loucura, tão distante do Senhor, onde as pessoas estão adoecendo cada vez mais, perdendo a dignidade da alma e do corpo, indo em direção à morte. Ó Pai, o Teu rio leva vida por onde passa, leva vida para esse mundo, leva nutrição e leva cura. Em nome de Jesus, que cada mulher aqui assuma o seu ministério, para levar cura onde estiver. Em nome de Jesus, amém.


 

SOBRE ILMA CUNHA

Ilma Cunha é idealizadora do Integralmente, Congresso Cristão de Saúde Mental, Ciência e Fé, e autora de Enigmas da Alma. Atua na área da família, articulando conceitos psicológicos e espirituais a partir da primazia da Palavra de Deus.