As Maldições de Malaquias: Quando a Adoração Perde a Reverência (Parte I)
Sentença pronunciada pelo Senhor contra Israel por intermédio de Malaquias.
Malaquias 1.1
Deus sempre termina melhor do que começa. Essa é a natureza dele. O livro de Malaquias começa bem pesado, mas no final tem uma chave poderosa que Deus entrega ao seu povo. São quatro partes nessa mensagem, e hoje caminhamos apenas pelas duas primeiras. O livro começa com uma sentença, e isso já avisa: não vai ser uma mensagem agradável, não vai ser confortável. É uma denúncia que o profeta faz sobre a distância entre a religião confessada e a fé que era praticada.
Uma religião restaurada, mas um coração frio
Israel tinha saído do exílio babilônico e voltado para casa. Jerusalém estava novamente construída. O templo estava em funcionamento e os sacerdotes ofereciam sacrifícios. As instituições religiosas haviam sido restauradas, mas o coração do povo estava gelado, frio, desviado. O altar estava funcionando, mas não havia fogo, não havia paixão. Deus não estava sendo honrado na congregação. Os sacerdotes haviam corrompido as suas responsabilidades. Havia religião, liturgia, culto, e ao mesmo tempo injustiça, infidelidade, exploração, fofoca, rebelião e irreverência. Faltava integridade, faltava justiça, faltava temor de Deus.
No meio dessa situação, Deus levanta um mensageiro, um profeta. Malaquias significa “meu mensageiro” ou “meu enviado”. Esse profeta vai denunciar a conduta do povo, e o povo vai questionar o profeta e as acusações que estava recebendo. Eles vão responder: “Em que desprezamos nós o nome de Deus? Em que te havemos roubado?” Eles perderam a capacidade de reconhecer a sua própria condição espiritual, porque lhes faltava um espelho. Tem gente que precisa de um espelho porque não consegue se ver na sua condição verdadeira, porque muitas vezes o pecado é normatizado. Não há mais escândalo diante das obras más praticadas no meio da congregação. Adultérios se tornam comuns, a fofoca vira coisa natural, a boca suja fica cheia de maledicência, a avareza e até o roubo passam a acontecer no meio daqueles que são chamados de povo de Deus. O povo de Deus, por dentro, não era de Deus. Continuava com suas atividades religiosas, mas era ímpio.
Quantos de nós hoje somos ímpios crentes? Crentes ímpios. Essa gente que conserva a aparência religiosa enquanto perde a sensibilidade moral. É quando nos acostumamos com o mau cheiro. Se você sente o mau cheiro em qualquer lugar, você vai protestar, vai achar ruim. No segundo dia já vai ficar mais normal. Daqui a uma semana, o mau cheiro passa a fazer parte da sua ambiência, da sua atmosfera. O homem pratica o mal, aprende a justificar e desenvolve uma explicação religiosa segundo a qual aquilo que pratica não ofende a Deus. É quando o pecado passa a receber proteção teológica. “Eu tenho textos para cometer esse tipo de transgressão.” A maior evidência de uma consciência comprometida é a capacidade de praticar o erro sem nenhuma disposição para se arrepender.
Existe uma diferença profunda entre lutar contra uma fraqueza e transformar uma fraqueza em estilo de vida. Uma pessoa canta num louvor e depois se alimenta de maledicência. Ensina a Bíblia e depois pratica a desonestidade. Defende publicamente a família enquanto mantém relacionamentos extraconjugais. Pode contribuir financeiramente para a igreja e explorar seus empregados. Assim, a religião exterior sobrevive à deterioração da vida interior. A pergunta que fica é: o que acontece com o nosso caráter quando saímos do templo no domingo?
O profeta Isaías denuncia aqueles que chamam o mal de bem e o bem de mal, que fazem da escuridão luz e da luz escuridão, que põem o amargo por doce e o doce por amargo. É quando os lábios que adoram mais desonram a Deus. Como disse Tito, no tocante a Deus professam conhecê-lo, entretanto o negam pelas suas obras. Então a mentira recebe uma nova estratégia. A fofoca passa a ser chamada de preocupação: “estou preocupado com você.” A avareza se transforma em prudência financeira, e a pessoa fica ranzinza, adoradora de mamom, ridiculamente sovina, pão duro. O orgulho se apresenta como personalidade forte: “eu tenho uma personalidade forte, entendi.” E o adultério é justificado como resposta às dificuldades conjugais. “Pastor, minha esposa é fria.” E você não é frio, você é canalha.
A primeira maldição: o altar profanado
Dito isso, Malaquias anuncia quatro maldições, e hoje tratamos das duas primeiras. A primeira é a maldição do altar, quando a religião perdeu a sua reverência. O texto diz:
O filho honra o pai, o servo ao seu senhor. Se Deus é pai, onde está a sua honra? Se é Senhor, onde está o respeito para com ele? É o que o Senhor dos Exércitos pergunta aos sacerdotes que desprezavam o seu nome. E eles respondem, com toda a coragem: “Em que desprezamos nós o teu nome?” A resposta vem dura: oferecendo pão imundo sobre o altar. E ainda perguntam em que profanaram. A resposta está no que pensavam: que a mesa do Senhor era desprezível. Traziam animal cego para sacrificar, não é isso mal? Traziam o coxo ou o enfermo, não é isso mal? O Senhor pergunta: apresenta isso ao teu governador, será que ele vai aceitar? Será que vai te ser favorável?
O texto segue dizendo que, mesmo suplicando o favor de Deus, com tais ofertas nas mãos, o Senhor não aceitaria a pessoa. Deus tá dizendo: “Eu não recebo a oferta, eu recebo a pessoa primeiro.” Ele chega a desejar que alguém feche as portas do templo, para que não se acendesse debalde o fogo do altar. “Eu não tenho prazer em vós, nem aceitarei da vossa mão a oferta, mas desde o nascente do sol até o poente é grande entre as nações o meu nome.” E em todo lugar lhe é queimado incenso e trazidas ofertas puras, porque o seu nome é grande entre as nações. Mas o povo profanava isso dizendo que a mesa do Senhor é imunda e que o que nela se oferece é desprezível, reclamando: “que canseira!” Ofereciam o dilacerado, o coxo, o enfermo. E Deus pergunta: aceitaria eu isso da vossa mão? E então pronuncia: maldito seja o enganador que, tendo um animal sadio no seu rebanho, promete e oferece ao Senhor um defeituoso. “Porque eu sou grande rei, diz o Senhor dos Exércitos, o meu nome é terrível entre as nações.” (Malaquias 1.6-14)
Que texto, que surra. A primeira denúncia de Malaquias é dirigida aos sacerdotes. Eles perderam a reverência e tratavam o culto como uma atividade cansativa. Segundo, perderam o compromisso com a excelência, apresentavam qualquer coisa para Deus, e Deus diz: entrega isso para o teu governador, veja se ele vai aceitar o que você está me dando. A terceira coisa é que eles perderam a integridade, prometiam o melhor e deliberadamente entregavam o pior. E Deus pronuncia uma maldição sobre o enganador.
É fazer a obra de Deus com pouco esforço. É gastar sua força e sua energia em tantas atividades da vida, no trabalho. Você tem uma reunião marcada com um executivo onde vai fechar um negócio. Você chega no horário, se prepara para isso, porque tem interesse naquilo. Mas na igreja não. Você já chegou atrasado no cinema para assistir o filme pela metade? Tem gente que participa do culto pela metade. É possível manter o altar aceso e perder o temor de Deus? O Senhor apresenta uma pergunta: se eu sou o Pai, onde está a minha honra? E se eu sou o Senhor, onde está o respeito para comigo? Deus tá dizendo: me respeita.
O problema não era a ausência de atividades religiosas. Elas ocorriam. Os sacrifícios continuavam sendo apresentados, as cerimônias permaneciam em funcionamento, os sacerdotes ocupavam suas posições. O problema era aquilo que era colocado sobre o altar. O povo trazia ao Deus todo-poderoso, ao rei de todas as nações, animais cegos, coxos e enfermos. Os sacerdotes desprezavam o altar apresentando ofertas defeituosas ao Senhor. Como disse Jeremias, maldito todo aquele que fizer a obra do Senhor relaxadamente. Malaquias denuncia uma geração que havia transformado a adoração em atividade secundária. Deus sempre fica em segundo lugar. As coisas relacionadas a ele sempre estão em segundo plano. O templo funcionava, os sacrifícios eram apresentados, o calendário era cumprido, mas o povo entregava a Deus animais doentes, oferecia aquilo que não possuía valor para eles mesmos. O Senhor então apresentou uma pergunta constrangedora: apresenta isso ao teu governador, acaso terá ele agrado de ti? Eles tinham mais respeito pelos homens do que respeito por Deus.
Ananias e Safira: o altar não pode virar palco
O livro de Atos dos Apóstolos traz o relato de Ananias e Safira, que apresentaram uma oferta ao Senhor contaminada pela mentira. Eles venderam uma propriedade e decidiram entregar apenas uma parte do valor, apresentando sua contribuição como se correspondesse ao preço integral da venda. Pedro os confrontou e primeiro esclareceu que a propriedade lhes pertencia, e eles fariam o que quisessem com ela. Depois de vendida, o dinheiro continuaria sob o seu controle. Eles não tinham obrigação nenhuma de doar tudo. Mas o pecado não foi reter o dinheiro, foi mentir ao Espírito Santo para receber o reconhecimento de uma generosidade que não haviam praticado. A oferta era financeiramente real, mas moralmente fraudulenta.
Senhoras e senhores, o altar não pode se tornar um palco. Ananias e Safira queriam o reconhecimento público de quem havia entregado todo o dinheiro, entregando apenas uma parte dele. Desejavam a reputação do sacrifício sem a realidade do sacrifício. É possível oferecer dinheiro no altar com o coração comprometido pela vaidade, pela fraude, pela busca de reconhecimento. A Bíblia diz: não toque trombeta diante da sua oferta, e que a tua mão esquerda não veja o que a tua mão direita está fazendo (Mateus 6.3). Deus não está interessado apenas no que é depositado no altar. Ele considera a integridade de quem oferece a oferta. O problema de Ananias e Safira não foi o dinheiro que ficou nas suas mãos, foi a mentira que estava nos seus corações. Pedro recusou a oferta, assim como Caim teve a sua oferta recusada. Porque quando Deus recusou a oferta de Caim, ele não recusava a oferta, recusava a pessoa.
Em Malaquias, os sacerdotes aceitaram aquelas ofertas trazidas de maneira irresponsável e participavam assim desse ecossistema da maldade. O altar havia se transformado em um lugar onde as pessoas entregavam aquilo de que desejavam se desfazer. “Eu tenho uma coisa aqui que não serve mais, posso levar para a igreja?” O povo, os sacerdotes, tratavam o serviço prestado ao Senhor como um fardo: “que canseira, e me desprezais, diz o Senhor dos Exércitos. Vós ofereceis o dilacerado, o coxo, o enfermo.” Que canseira é quando a adoração se transforma em obrigação. O texto descreve uma atitude de desprezo diante do sagrado.
Quando a familiaridade substitui o temor
Deveríamos reparar o tanto que igreja é uma coisa radioativa. Esse negócio de ministério faz Ananias e Safira caírem duros de repente, porque simplesmente mentiram diante daquilo que toca a presença de Deus. Deus é radioativo. Não dá para se aproximar de um Deus santo com mentiras. Antes precisamos nos converter, nos arrepender. Há pessoas que ainda comparecem ao templo, mas perderam completamente o interesse pela presença de Deus. Continuam cumprindo obrigações, mas não encontram alegria no relacionamento com Deus. Cantam sem adorar, oram sem prestar atenção nas próprias palavras, oferecem um culto sem verdadeiro sacrifício, sem nenhum compromisso, oferecem apenas o que lhes sobra. A liturgia vira formalismo, e a repetição em si não é problema, a Escritura sempre apresenta celebrações e práticas religiosas recorrentes. O problema é quando aquilo que os lábios proclamam está em desacordo com o coração. Jesus confrontou essa situação dizendo que aquele povo o honrava com os lábios, mas o coração estava longe dele. Eles têm Deus na boca e um coração gelado de morto. A religiosidade nos permite preservar uma aparência de piedade enquanto resistimos a Deus no interior.
Salomão fala dessa conduta diante da autoridade real: observa o mandamento do rei, e por causa do juramento feito a Deus não te apresses em deixar a presença dele (Eclesiastes 8.2-3). O texto recomenda prudência e respeito diante de alguém investido de autoridade. A pressa de sair de um culto revela a perda da reverência à palavra e à presença. Se somos convidados a uma audiência com um presidente, nos preparamos com antecedência, escolhemos nossas palavras, chegamos no horário, dificilmente demonstramos impaciência para encerrar aquele encontro. No entanto, se o culto se prolonga alguns minutos, já vira canseira. O privilégio se torna fardo. Se a presença de uma autoridade humana exige respeito, quanto mais a presença do Rei dos Reis em nosso meio. Eclesiastes diz: guarda o teu pé quando entrares na casa do Senhor, não te precipites com a tua boca (Eclesiastes 5.1). Aproximar-se de Deus exige prudência, disposição para ouvir, reverência. A intimidade se quebra quando as pessoas não obedecem mais protocolos. Existem protocolos para falar com seu pai, protocolos para falar com pessoas revestidas de autoridade, protocolos até para uma rainha ou um rei. Todo lugar tem protocolo, e tem gente que não quer obedecer protocolo nenhum porque é “sem protocolo”. Lá no céu tinha um sujeito sem protocolo, e foi expulso de lá porque queria fazer bagunça.
A familiaridade com o altar por vezes se transforma em desprezo. Tem gente que é neto de Deus, filho de um irmão crente, de uma irmã crente, e acha que Deus vai atendê-lo porque a mamãe e o papai fazem o caminho. J. Hile disse que nada endurece mais o coração do homem do que uma familiaridade estéril com as coisas sagradas. Tem gente que está na igreja precisando de um novo nascimento, crentes precisando de salvação, porque quando se nasce de novo não dá para compactuar com o erro. Quem é nascido de Deus é guardado, não vive na prática do pecado, e o maligno não o toca (1 João 5.18). O Salmo 84 diz que um dia nos átrios do Senhor vale mais do que mil (Salmo 84.10). Os sacerdotes de Malaquias conviviam diariamente com o altar, conheciam os sacrifícios, os procedimentos, as cerimônias. A repetição havia sido acompanhada pela perda de reverência. Podemos conhecer as músicas, dominar a linguagem religiosa e participar dos cultos enquanto o nosso coração está apenas morto. Independente de o louvor ser bom ou ruim, Deus fala se você tiver sensibilidade para ouvi-lo. A mensagem pode ser a pior pregada, mas existe sempre algum texto, alguma frase, alguma comunicação divina para você naquela palavra.
A primeira maldição é quando oferecemos a Deus aquilo que não queremos mais. É um sacrifício defeituoso. O que entregamos demonstra o valor que atribuímos a quem recebe. Podemos oferecer a Deus a aparência de nossa devoção enquanto resistimos a ele. Podemos oferecer nossas palavras sem obediência, nosso dinheiro sem integridade, nosso trabalho religioso sem coração. O que Deus denuncia é a fraude de quem transforma a adoração em representação. Numa época em que as pessoas disputavam para ver quem falava em línguas de maneira mais bonita, o “glória a Deus” perdeu a alma. Virou um glória a Deus repetitivo, decorado. Quando você ouve um glória a Deus de verdade, as outras pessoas ao seu lado começam a dar glória a Deus junto, porque você falou com o coração, e as pessoas se movem porque você se moveu em Deus. Deus diz: “Eu não tenho prazer em vocês.” Ele afirma que determinados cultos não lhe agradam, e chega a dizer que preferiria que alguém fechasse as portas do templo, impedindo a continuidade daqueles sacrifícios inúteis. É possível possuir edifícios, programas, equipes, recursos, calendários, enquanto a verdade, a justiça e a reverência são negligenciadas.
A resposta à primeira maldição: entrega verdadeira
A resposta à primeira maldição deve ser a restauração da adoração verdadeira. Exige entrega completa. Davi recusou oferecer ao Senhor aquilo que recebeu gratuitamente. Depois de realizar o recenseamento de Israel, o julgamento divino atingiu a nação, e o profeta Gad lhe ordenou que levantasse um altar ao Senhor na eira de Araúna. Quando Araúna soube do propósito do rei, ofereceu gratuitamente o terreno, os bois, o sacrifício e a madeira necessária. Davi disse: não, antes comprarei pelo devido preço, porque não oferecerei ao Senhor uma religião fácil, não entrarei pela porta larga, não oferecerei ao Senhor meu Deus holocaustos que não me custem nada (2 Samuel 24.24). Davi compreendeu que adoração envolve entrega pessoal, envolve sacrifício. Não é “eu só adoro quando quero adorar”, “não tô sentindo vontade de levantar as mãos”, “não tô sentindo vontade de ir ao culto”. Ele não queria apresentar como seu um sacrifício que não representasse nenhum valor, nenhum preço, nenhum custo. Davi compra a eira, os bois, e sacrifica. O que colocamos no altar revela o valor que atribuímos a Deus.
Jesus elogiou a viúva que entregou duas pequenas moedas, porque ela deu tudo. Ela só tinha aquilo, e Jesus disse: muitos depositam o que lhes sobra, essa mulher deu tudo o que tinha. E Jesus disse: “Uau.” Tem algumas vezes que Jesus diz na Bíblia: “Uau.” A questão não é quanto damos de oferta, mas quanto de nós mesmos estamos entregando a Deus. Porque o que ele quer é o coração que nos governa, que é mais importante do que qualquer coisa que você tenha, porque afinal de contas ele é dono de tudo.
Terminando essa introdução, precisamos de arrependimento por conta da irreverência. Conheço lugares onde Deus aparece: é quando as pessoas estão com fome, quando têm desejo, quando estão famintas, Deus se revela. Precisamos nos arrepender, render o coração, entregar sacrificialmente e consagrar a vida. Paulo diz: rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional (Romanos 12.1). No Antigo Testamento, os animais eram levados ao altar como sacrifício. No Novo, somos nós. Não se trata apenas de entregar alguma coisa que possuímos, trata-se de entregar a nós mesmos, porque Deus quer você inteiro. A salvação não te custa nada, somos salvos pela graça mediante a fé, isso não vem de nós, é dom de Deus (Efésios 2.8). O discipulado vai te custar tudo. Qual parte da sua vida ainda não foi consagrada verdadeiramente ao Senhor?
Davi recusou o sacrifício gratuito. Hebreus diz: retenhamos a graça pela qual sirvamos a Deus de modo agradável, com reverência e santo temor, porque o nosso Deus é fogo consumidor (Hebreus 12.28-29). A intimidade com Deus não elimina a reverência. A liberdade não transforma a sua presença em algo comum ou desprezível. Paulo diz: o que para mim era lucro, considerei por perda por causa de Cristo (Filipenses 3.7-8). Paulo construiu uma trajetória marcada por reconhecimento, conhecimento, prestígio, formado aos pés de Gamaliel, fariseu, doutor da lei, e disse que tudo isso era refugo, como lixo, pela sublimidade do conhecimento de Jesus Cristo. Isso não significa que você tenha que desprezar as coisas boas da vida. Paulo também disse: tudo é vosso, vós sois de Cristo, e Cristo de Deus (1 Coríntios 3.21-23). A questão é reconhecer que nenhuma dessas coisas boas pode ocupar o lugar de Deus na sua vida.
O discipulado é uma decisão que envolve renúncia e perseverança. Jesus disse: se alguém quiser vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e me siga (Mateus 16.24). Negue o seu impulso, a sua obstinação, a sua compulsão, o seu desejo mau, a sua língua de falar ou os seus dedos de escrever o que não deveriam ser escritos. A cruz representa a disposição de abandonar o governo absoluto de si mesmo para seguir a Jesus. A entrega do domingo precisa continuar na segunda-feira. O verdadeiro sacrifício se manifesta nas decisões que tomamos na vida cotidiana. Alguém chega e fala: “Vou me divorciar.” E a pergunta que fica é: e aquele papo de que Jesus é o Senhor da sua vida, como é isso? É só conversa? Tem gente que chama Jesus de Senhor, mas Senhor é só apelido. Quando eu digo Senhor, eu me coloco sob o seu governo e pergunto: o que devo fazer?
O sacrifício continua depois do culto. Ofereçamos a Deus sempre sacrifício de louvor, que é fruto dos lábios que confessam o seu nome (Hebreus 13.15). “Eu não quero adorar, mas vou adorar assim mesmo. Eu não quero levantar as mãos, mas a Bíblia diz: levantai as mãos santas, sem ira nem animosidade” (1 Timóteo 2.8). “Eu não quero falar em outras línguas, não quero jejuar, não quero fazer uma oferta, não quero pedir perdão ao meu irmão a quem feri, a quem machuquei.” Não é o que você quer. Quando você tem um Senhor, você oferece sacrifícios de louvor. E não é simplesmente cantar uma canção na igreja, é dizer: eu não sou dono de mim e não estou por conta própria. Adoração é serviço. Os reformadores diziam que adorar é trabalhar, e trabalhar é adorar. O sacrifício agradável a Deus se manifesta na generosidade, na disposição de fazer o bem, de atropelar o próprio ego. Não dá para separar a devoção do templo do comportamento fora do templo. A verdadeira entrega continua na maneira como vivemos. Cristianismo não é um conjunto de regras, é um estilo de vida.
A segunda maldição: a traição das alianças
A segunda maldição de Malaquias é a traição das alianças. Deus confronta a infidelidade dos sacerdotes e dos homens que traíram a aliança com suas esposas. A negligência no altar se reflete na deslealdade dentro de casa. Antes de uma pessoa trair sua esposa, ela primeiro traiu a Deus. Quando alguém tem um relacionamento de fidelidade com Deus, nunca vai trair quem está ao seu lado.
O texto diz: agora, ó sacerdotes, para vós outros é esse mandamento. Se não ouvirdes e se não propuserdes no vosso coração dar honra ao meu nome, diz o Senhor dos Exércitos, enviarei sobre vós a maldição e amaldiçoarei as vossas bênçãos, já as tenho amaldiçoado, porque não propondes isso no coração (Malaquias 2.1-2). Deus começa por aqueles que tinham a responsabilidade de ensinar o povo, os sacerdotes. Como uma bênção pode se tornar uma maldição? Deus havia ordenado que os sacerdotes invocassem seu nome sobre Israel para abençoar o povo, com aquela bênção conhecida: o Senhor te abençoe e te guarde, o Senhor faça resplandecer a luz do seu rosto sobre ti, o Senhor tenha misericórdia de ti, o Senhor te dê a paz (Números 6.24-26). O sacerdote tinha autorização para abençoar, uma autorização para prosperar. A palavra maldição não é um evento, é um bloqueio. É quando algo não acontece, deveria estar acontecendo, isso é a maldição. A bênção é a autorização para o fluxo acontecer, para ir, multiplicar, prosperar. O sacerdote, no entanto, perdeu a fidelidade à aliança que dizia representar. As bênçãos pronunciadas por esses sacerdotes iriam se transformar em maldição. Por isso não se deve receber oração de qualquer pessoa que quer colocar a mão na cabeça de alguém. Às vezes a pessoa abençoa e morre, abençoa e seca.
Deus recorda aos sacerdotes que a aliança estabelecida com Levi era uma aliança de vida e de paz, marcada pelo temor do Senhor, pelo ensino da verdade e pelo compromisso de se afastar da iniquidade. O texto diz: minha aliança com ele foi de vida e de paz, ambas lhe dei eu para que me temesse. Com efeito, ele me temeu e tremeu por causa do meu nome. A verdadeira instrução esteve na sua boca, a injustiça não se achou nos seus lábios. É isso que um sacerdote faz, dá direção. Não combina com a vida de um ministro, de um cristão, falar coisas não provadas sobre a vida dos outros. Isso é injusto e tem um preço. Andou comigo em paz, em retidão, e da iniquidade apartou a muitos. Mas eles se haviam desviado e feito muitos tropeçar por meio da sua própria instrução. Porque os lábios dos sacerdotes devem guardar o conhecimento, e da sua boca devem os homens procurar instrução, porque ele é o mensageiro do Senhor dos Exércitos. Mas vós vos tendes desviado do caminho e por vossa instrução tendes feito tropeçar a muitos. Violastes a aliança de Levi, por isso também eu vos fiz desprezíveis e indignos diante de todo o povo, visto que não guardastes os meus mandamentos e vos mostrastes parciais em aplicardes a lei (Malaquias 2.5-9).
O sacerdote que deveria conduzir as pessoas para Deus torna-se responsável por afastá-las dele. O guia se torna uma pedra de tropeço. Uma comunidade sofre quando a liderança protege a injustiça. Os responsáveis por ensinar desenvolvem critérios diferentes para pessoas diferentes, a verdade é administrada de acordo com a posição ou influência de quem está diante deles.
Quando a infidelidade sai do templo e entra em casa
O capítulo 2 chega a um ponto final: a infidelidade que sai do templo e entra no casamento. Sai do templo porque saiu do altar, porque o que não entra e não prospera no altar, também não prospera dentro de casa. O texto diz: nós temos todos o mesmo Pai? Não nos criou o mesmo Deus? Por que seremos desleais uns para com os outros, profanando a aliança de nossos pais? Judá tem sido desleal e abominação se tem cometido em Israel e em Jerusalém, porque Judá profanou o santuário do Senhor, o qual ele ama, e se casou com a adoradora de deus estranho. O Senhor eliminará das tendas de Jacó o homem que fizer tal, seja quem for, e o que apresenta ofertas ao Senhor dos Exércitos (Malaquias 2.10-12). Ele está dizendo: nós somos irmãos e devemos nos tratar como tais, sem deslealdade.
O texto muda, e o profeta sai da zona do sacerdócio e agora confronta a infidelidade de Judá com duas acusações distintas. Os membros do povo agem deslealmente uns contra os outros, profanando a aliança dos pais, e há a denúncia de casamentos com adoradoras de deuses estrangeiros. A expressão bíblica destaca o vínculo com a adoração de outros deuses. Você pode até se arriscar casando com alguém que não tem a sua fé, pode até dar certo, mas se der errado, o custo é muito mais alto do que aquilo que você está pronto para pagar. Casamento é a maior escolha que você faz na vida, depois de entregar sua vida para Jesus. Escolher com quem você se casa é a escolha mais importante que você faz.
Chegamos então à infidelidade conjugal, quando Deus se torna testemunha contra o repúdio. Essa palavra repúdio é forte. O texto diz: ainda fazeis isso, cobris o altar do Senhor de lágrimas, de choro e de gemidos, de sorte que ele já não olha para a oferta, nem a aceita com prazer da vossa mão. E perguntais: por quê? Porque o Senhor foi testemunha da aliança entre ti e a mulher da tua mocidade, com a qual tu fostes desleal, sendo ela a tua companheira e a mulher da tua aliança. Não fez o Senhor um, mesmo havendo nele um pouco de espírito? E por que somente um? Ele buscava a descendência que prometera. Portanto, cuidai de vós mesmos e ninguém seja infiel para com a mulher da sua mocidade, porque o Senhor, o Deus de Israel, diz que odeia o repúdio e também aquele que cobre de violência as suas vestes, diz o Senhor dos Exércitos. Portanto, cuidai de vós mesmos e não sejais infiéis (Malaquias 2.13-16).
Os homens compareciam no templo com suas ofertas, cobrindo o altar de lágrimas, lamentando porque Deus já não era favorável àquilo que apresentavam. Por quê? Porque o Senhor foi testemunha da aliança entre eles e a mulher da sua mocidade, com a qual foram desleais. O marido pode tentar justificar sua conduta, preservar sua reputação pública, continuar oferecendo sacrifícios e aparecer nos cultos, nas atividades religiosas, mas não pode esconder de Deus a maneira como tratou sua esposa. Deus é testemunha da maneira como tratamos aqueles com quem fazemos aliança. Na verdade, Deus é testemunha de qualquer acordo que fazemos. A Bíblia diz que se o jornaleiro, aquele que trabalhava por um dia, não recebeu o salário do dia, e ele clamar ao Senhor, o Senhor vai ouvi-lo. Justiça e juízo são a base do seu trono (Salmo 89.14). Essa expressão “mulher da tua mocidade” possui uma dimensão afetiva extraordinária. Os dois ainda eram jovens quando se conheceram, a mulher compartilhou anos da vida, construiu uma história, participou de responsabilidades, e estava sendo tratada com deslealdade. É possível que o passar dos anos tenha modificado muitas coisas, mas essas transformações não anulam a responsabilidade assumida no altar do casamento.
Uma aliança não depende das circunstâncias favoráveis que acompanharam o seu início. Provérbios diz: alegra-te com a mulher da tua mocidade (Provérbios 5.18). Ela é a sua companheira, não um objeto que pode ser substituído, é alguém com quem o marido compartilhou sua história. O casamento envolve fidelidade, respeito, cuidado e compromisso mútuo. Ela é a mulher da sua aliança. Os sacerdotes haviam corrompido a aliança de Levi, agora os homens de Judá estavam traindo a aliança matrimonial. Nos dois casos, a infidelidade comprometia compromissos assumidos diante de Deus. O casamento não é apenas um acordo privado, para Malaquias, Deus é a testemunha. Você levou algumas testemunhas para o seu casamento, mas Deus era a testemunha mais importante, ele estava lá presente. E se você disse “até que a morte nos separe”, isso confere solenidade e seriedade enorme às promessas matrimoniais e a outras promessas que fazemos.
Isso não significa que o casamento deva ser preservado a qualquer custo. Se há violência, se alguém não consegue se conter, existem motivos bíblicos para uma separação. Um homem que bate numa mulher é um covarde. Mas quando há apenas lágrimas no altar, essas lágrimas não substituem a justiça dentro de casa. Os homens choravam diante do altar porque Deus não estava abençoando eles. Demonstrações religiosas não resolvem a quebra da aliança. É possível lamentar as consequências dos próprios atos sem estar arrependido da injustiça cometida. É preciso reparar o dano causado às outras pessoas. Isso vale repetir: é preciso reparar o dano causado às outras pessoas. Não é simplesmente pedir perdão, é restituir. Não é simplesmente se reconciliar, é dar de volta aquilo que foi tomado. Malaquias ensina que procurar o favor de Deus no templo não funciona enquanto continuamos traindo compromissos assumidos dentro de casa. Jesus disse: antes de apresentar a tua oferta, lembra-te se o teu irmão tem alguma acusação verdadeira contra você (Mateus 5.23-24). Não podemos usar o altar para esconder o que recusamos a corrigir dentro de casa.
O casamento é uma aliança, não um relacionamento descartável. Malaquias 2.16 associa o comportamento do abandono, do repúdio, à violência. Nada é tão violento como um homem ou uma mulher que simplesmente viram as costas para os filhos ainda pequenos e vão embora. E como essa criança cresce? “Papai foi embora quando eu mais precisei dele.” Deus diz que odeia o repúdio e o que cobre de violência as suas vestes. O vestuário é aquilo que apresentamos publicamente, parte da aparência com que nos mostramos diante da sociedade, e nesse contexto é a tentativa de esconder a injustiça sob uma aparência respeitável. Um homem veste roupas religiosas, ocupa posição de liderança, participa das celebrações, mantém excelente reputação pública, mas nada justifica a violência, a traição ou a crueldade praticada dentro de casa.
A violência precisa ser interrompida, vítimas devem ser protegidas, os responsáveis precisam prestar contas. A acusação de Deus é: amaldiçoarei as vossas bênçãos. O problema não é comunicar esperança, consolo e bênção, a mensagem bíblica tem isso como parte dela, a graça, o favor, a bondade, a grandiosidade de Deus. O problema é silenciar as exigências de arrependimento, justiça, fidelidade e santidade. Malaquias denuncia a infidelidade matrimonial, e o seu confronto é forte porque os responsáveis por essas injustiças ainda estavam indo à igreja oferecer suas ofertas. Deus disse: eu quero receber você primeiro, antes de receber qualquer coisa das suas mãos. Havia choro, gemidos, lamentações, mas as ofertas não eram recebidas favoravelmente. E quando o povo pergunta a razão, Deus denuncia a infidelidade. O problema estava dentro de casa. A dracma perdida em casa foi achada dentro de casa. Há muitas coisas que você perdeu que só vão ser achadas dentro de casa. O milagre acontece dentro de casa. Não podemos separar a nossa espiritualidade pública da maneira como tratamos aqueles que são mais próximos de nós.
Um altar de arrependimento
A resposta diante de tudo isso é entrega, não performance. É reconhecer as vezes em que demos a Deus apenas aquilo que sobrava, as vezes em que a negligência, a irreverência e a familiaridade tiraram o temor da sua presença. É recusar sacrifícios defeituosos e a vida de aparências, pedindo um coração quebrantado, uma vontade rendida e a coragem de obedecer, mesmo quando isso exigir negar os próprios apetites e vontades. É colocar sobre o altar os sonhos, as ambições, os recursos, o tempo, os talentos e o futuro, não apenas trazer alguma coisa à presença de Deus, mas colocar a si mesmo sobre o altar.
Esse é um momento de reconciliação, com Deus e com o próximo, com os irmãos, inclusive com aqueles que professam outras fés, porque o ódio só alimenta o ódio. É um momento de reconciliação nos casamentos, de conversas difíceis para resolver questões que estão sendo arrastadas há tempo. É um momento de reconciliação entre obreiros e pessoas que estão sem se falar, líderes e irmãos que não se conversam, pessoas que alimentaram amargura e ódio e vivem nutridas desse absinto existencial. Esse é o tempo de cura, de restauração.
Existe um dever de casa para essa semana: viver com a consciência de que Deus é sempre o primeiro e não o segundo, de que adoração é um privilégio e servir ao Senhor é a maior coisa que se pode fazer. É deixar de lado a rotina religiosa, a vida mórbida de quem se acostumou com o sagrado, e buscar um verdadeiro encontro, uma verdadeira transformação, uma cura que limpe o coração e tire do ambiente aquilo que está fétido, mal cheiroso. É desacostumar-se com o que está errado, porque não é por ser comum que é normal. É a semana de reconciliar filhos com pais e pais com filhos, de ir até o altar entregar a vida inteira, sem hipocrisias, sem máscaras, sem vidas duplas, como filhos que não estão por conta própria.
Se você sabe que tem uma mão a levantar essa noite, uma entrega a fazer, uma conversa a ter, uma aliança a honrar, esse é o momento. Jesus não tem vergonha de você, e a todos quantos o recebem ele dá o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem em seu nome. Hoje é um dia de nova criação, de transformação, de cura e de reconciliação. Ele nos deu o ministério da reconciliação.
Essa é a primeira parte da mensagem sobre as maldições de Malaquias. A segunda parte, com as outras duas maldições, continua na próxima semana. Assista ao vídeo completo e acompanhe o episódio no podcast de Bispo JB Carvalho para aprofundar essa palavra e caminhar junto até a conclusão dessa mensagem.
