Habacuque: a fé que sobrevive ao caos, do até quando ao todavia
Do “até quando” ao “todavia”: essa é a jornada de todo aquele que atravessa um tempo de caos sem perder a adoração.
O livro de Habacuque é um dos textos mais honestos de toda a Bíblia. Ele não começa com louvor, começa com reclamação. Não abre com fé tranquila, abre com um profeta encurralado pela realidade, perguntando a Deus por que o mal parece vencer. Habacuque 1.1 a 5 traz essa abertura: a sentença, o oráculo revelado ao profeta, e logo em seguida o clamor “até quando, Senhor” diante da violência, da iniquidade e da injustiça que cercam o seu povo.
O nome Habacuque significa abraçador, aquele que abraça. E ele abraça uma promessa cujo cumprimento ainda não havia chegado. Abraça a justiça de Deus quando a realidade parece injusta. Abraça a fidelidade de Deus quando as circunstâncias parecem contradizê-la. Sabe-se pouco sobre sua biografia, mas sabe-se muito sobre a tempestade histórica dos seus dias. O mundo de Habacuque estava desmoronando.
Um profeta no meio do colapso de um império
Habacuque profetizou antes da invasão de Nabucodonozor em Jerusalém e em Judá, no final do século VII antes de Cristo. O poder assírio entrava em colapso e a Babilônia emergia como nova potência imperial. Em 605 a.C., Nabucodonozor derrotou o Egito na batalha de Carquemis contra o faraó Neco, e esse episódio consolidou o avanço babilônico sobre toda a região. Judá passaria então, progressivamente, para a esfera de domínio da Babilônia. Habacuque vive às portas de uma catástrofe nacional, e ele pergunta: por que Deus não fazia nada a respeito da injustiça?
Ele era contemporâneo de Jeremias e se preocupava com a aparente relutância de Deus em julgar um povo que vivia em profunda apostasia. O livro começa questionando, inquirindo, ardendo: “até quando, Deus?” Injustiça, litígio, violência. Era uma verdadeira ladainha, uma reclamação, uma murmuração, uma queixa. Habacuque é um poço de lamentações. Ele está consternado profundamente. É o quartel da amargura, a torre da queixa, o arauto do desencanto e do desespero. É o muro das lamentações.
O livro começa com uma sentença, uma sentença pesada, revelada ao profeta Habacuque. Já se percebe que não vem coisa boa depois. A palavra usada no hebraico é massa, que pode significar algo carregado, levantado, um oráculo, um pronunciamento profético pesado. Muitas traduções trazem oráculo ou peso. Habacuque não está carregando apenas uma mensagem, está carregando um peso. Há pessoas que carregam um peso assim, um peso pela sua família, pelo seu país, pela sua geração. Às vezes vem sobre alguém um peso sobre assuntos que precisam ser resolvidos no mundo espiritual. Há coisas que se veem e não se consegue esquecer, coisas que se escutam e não se consegue seguir adiante, coisas que se tornam um peso na alma. Habacuque olha para a sua geração e aquilo dói profundamente em sua alma.
Até quando, Senhor: a pergunta mais humana da Bíblia
O profeta discute com Deus. Leva a ele uma reclamação. Até quando, Senhor? Até quando clamarei e tu não me escutarás? Violência, iniquidade, destruição, contenda, litígio. A lei se afrouxa, a justiça não se manifesta, os perversos prevalecem, a justiça é pervertida. Habacuque olha para uma sociedade em que as instituições perderam a capacidade de produzir justiça. Existe lei, existe constituição, mas ela não é respeitada. Existe justiça, mas ela está deformada. É uma nação cujos fundamentos estão apodrecendo.
Então aparece uma das perguntas mais humanas de toda a Bíblia: Deus, por que o Senhor está vendo isso e não faz nada? Habacuque é o profeta do até quando. Ele reclama, argumenta, interroga, protesta, lamenta. E ele ensina algo importante: Deus não se assusta com nossas perguntas. A Bíblia contém vários porquês. Até quando? Onde está, Senhor? Por que escondes o teu rosto? Por que o perverso prospera? Habacuque olha diretamente para o caos e depois olha para Deus, e começa a sua jornada carregando duas indagações perturbadoras e inquietantes.
A primeira pergunta é: Deus, o Senhor não se importa com a injustiça? A primeira crise do profeta é causada pela aparente inatividade de Deus diante do mal que parece prosperar. Habacuque não está se perguntando se existe mal no mundo. Ele pergunta por que o mal parece prosperar diante de um Deus justo. Essa é uma das perguntas mais antigas da experiência humana. Se Deus é bom, por que ele permite o mal? Se Deus é justo, por que ele não intervém? Se Deus vê, por que parece silencioso diante do mal?
Habacuque tem uma visão do problema. Seu olhar está tomado pelo que acontece ao seu redor. A violência é real, a corrupção é real, a injustiça é real. O perigo é quando aquilo que se vê se torna tudo o que existe, resumo da nossa perspectiva, da nossa pouca visão. A questão é mais complexa do que parece. Não é um pensamento binário. Então vem outra pergunta: até quando? Muitos vivem nesse lugar. Deus, até quando essa crise? Até quando essa injustiça? Até quando essa porta fechada? Até quando essa enfermidade? Até quando essa luta dentro de casa? Até quando aparentemente nada acontece nesse país? Existe um momento em que a alma se cansa da demora.
Quando a resposta de Deus perturba mais que o silêncio
E quando a resposta de Deus demora e não vem, isso cansa. Mas quando ela vem, pode ser ainda mais perturbadora. Habacuque não gosta do que Deus responde. Às vezes o silêncio de Deus perturba, mas a resposta de Deus pode perturbar ainda mais. Deus responde que está fazendo algo que o profeta nem imagina, algo tão terrível que, se as pessoas contarem, ele vai duvidar. O fato de não se conseguir ver Deus trabalhando não significa que ele não esteja trabalhando. “Vede entre as nações, olhai, maravilhai-vos e desvanecei, porque realizo em vossos dias obra tal que não crereis quando vos for contada” é o que está escrito em Habacuque 1.5. O silêncio de Deus não significa ausência de Deus. Deus estava movendo os impérios.
A resposta de Deus cria um problema maior. Ele diz que vai levantar os caldeus para julgar o seu povo. Habacuque responde, surpreso: os babilônios? A Babilônia era uma nação impetuosa, amarga, conquistadora, violenta, arrogante. Habacuque 1.6 e seguintes descrevem essa nação amarga e impetuosa que marcha pela largura da terra para se apoderar de moradas que não são suas. A primeira pergunta era se Deus não faz alguma coisa. A segunda pergunta passa a ser: como Deus pode estar fazendo isso dessa forma?
Primeiro reclama-se porque Deus não responde, depois reclama-se porque não se gosta da resposta de Deus. Como um Deus santo pode julgar uma nação, o seu próprio povo, usando uma nação mais ímpia ainda do que ele? O problema deixa de ser o silêncio de Deus e passa a ser o seu método, o seu modo de operar. Judá precisa de correção, mas os caldeus são uma nação ainda pior, mais violenta, mais cruel, mais idólatra, mais arrogante. Deus não é obrigado a usar instrumentos que aprovamos para realizar os seus propósitos. Às vezes a vara de Deus corrige o seu povo de uma maneira que não se gosta muito.
Deus estava agindo de uma forma que não cabia dentro da teologia de Habacuque. O texto descreve os caldeus como amargos, impetuosos, fazendo sua própria justiça, rápidos para conquistar, ajuntando povos, devorando territórios, zombando de reis, confiando em sua própria força. São pavorosos e terríveis, criam eles mesmos o seu direito e a sua dignidade. O que é a justiça para eles? É o que criam. O que é a lei? É o que escolhem. O que é a dignidade? É o que determinam. Eles não reconhecem uma lei superior, tornam-se a sua própria medida. A sua força determina a sua justiça. A sua vitória determina a sua verdade.
O texto diz que eles passam como passa o vento e seguem, fazendo-se culpados aqueles cujo poder é o seu deus. É a lógica de quem diz: meu deus é o meu poder, a minha força, o meu dinheiro, com o que posso comprar pessoas. O poder deixou de ser instrumento e se tornou um deus. É a lógica de Pilatos perguntando o que é a verdade, enquanto para Roma a verdade eram as legiões. Nós entramos e atropelamos, essa era a verdade romana. Nós conquistamos porque podemos conquistar. A espada parecia maior que a cruz, mas a história mostraria que a cruz é superior à espada.
A torre de vigia
No capítulo 2, Habacuque diz: “Por-me ei na torre de vigia, colocar-me ei na fortaleza, e de lá não sairei até que eu tenha uma resposta. Vigiarei para ver o que Deus me dirá.” Existe pouca gente assim, pouquíssima gente que busca a Deus e só sai depois que tem uma resposta, que invade a sala do trono, marca uma entrevista com Deus e, se não tem hora marcada, entra mesmo. É gente que diz: eu vou orar até ouvir Deus me falar, não vou sair daqui enquanto não me abençoares.
Há quem já tenha até prazo de validade para desistir, dizendo que se Deus não responder até tal data, está fora, não vai mais à igreja. Isso não funciona. No capítulo 1, Habacuque está reclamando. No capítulo 2, ele decide ouvir. Algumas respostas só serão recebidas quando pararmos de reclamar para escutar.
O soberbo e o justo: o eixo do livro
Habacuque 2.4 é o eixo sobre o qual todo o livro gira: “Eis o soberbo, sua alma não é reta nele, mas o justo viverá pela sua fé.” Deus apresenta aqui dois tipos de alma. O soberbo, cuja alma não é reta. A ideia hebraica envolve inchaço, elevação, inflação. O babilônio parece grande, mas sua alma é deformada. Existem pessoas que crescem por fora e se deformam por dentro. Ganham poder, dinheiro, influência, territórios, mas perdem a própria alma. A Babilônia conquistava nações, mas estava perdendo a batalha mais importante, a batalha pelo próprio coração.
Existe gente que enriquece e ganha dinheiro destruindo a própria alma. Existe gente com muito poder que perdeu o seu coração. A pergunta que fica é: o que a sua conquista está fazendo em você? Enquanto se trabalha, prospera, lidera, sofre, vence e perde, existe uma guerra pela alma. A grande batalha da vida é a alma humana. Não existe uma guerra entre Deus e o diabo em que eles se confrontam diretamente. Eles lutam pela alma de cada homem nesse planeta. Essa é a verdadeira guerra espiritual, a luta pela alma das pessoas. E de que vale ganhar o mundo e perder a própria alma? A pergunta que fica é se você está ganhando ou perdendo a luta pela sua própria alma, se é possível ganhar o mundo e perder o coração.
O segundo tipo de alma aparece na segunda parte do versículo: o justo viverá pela fé. Esse é o texto que Lutero usou para fazer a Reforma, depois de dias trancado num quarto, saindo gritando vitória. O justo viverá pela fé é o lema da Reforma: sola fide, sola gratia, soli Deo gloria, solus Christus, sola scriptura. O soberbo vive de sua força, o justo vive da sua fé. O soberbo confia em si, o justo confia em Deus. O soberbo precisa controlar, o justo consegue depender do tempo e da soberania de Deus. O soberbo diz que a sua força é o seu deus. O justo diz: ainda que demore, esperarei.
Emuná: a fé que permanece
A palavra usada aqui para fé é emuná, ideia de firmeza, de fidelidade, de constância, de confiança perseverante. Emuná não é uma emoção passageira, algo que inspira por um momento e depois derrete na primeira tribulação. Trata-se de continuar agarrado a Deus enquanto a promessa demora. Fé não é apenas acreditar em algo, é permanecer, é continuar, é sustentar-se, não abandonar sua posição quando a realidade ainda não corresponde à promessa. Fé e fidelidade têm a mesma raiz. É a fidelidade de quem decidiu confiar. Deus confia em quem confia nele. Alguém que verdadeiramente confia se torna alguém em quem se pode confiar. Os olhos do Senhor estão sobre toda a terra para mostrar-se forte para com aqueles cujo coração é totalmente dele.
Paulo toma Habacuque 2.4 em Romanos 1.17 e em Gálatas 3.11. Hebreus 10.38 repete o mesmo texto no contexto da perseverança. Habacuque 2.4 tem uma riqueza extraordinária: o justo é aquele que crê e, porque crê, permanece. No grego do Novo Testamento, a palavra crer é pistis, verbo e substantivo. Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu único filho para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha vida eterna. Não se trata de uma adesão, um consentimento intelectual. A fé bíblica significa colocar o peso da própria vida sobre essa verdade, apostar tudo. Habacuque não receberá todas as explicações que deseja. Ele receberá algo maior, uma palavra de Deus sobre a qual poderá colocar o peso da sua própria vida. Isso é acreditar, sem plano B, até o fim.
Usado sem ser aprovado
Deus então responde à segunda angústia de Habacuque. Se o Senhor vai usar a Babilônia para julgar Judá, quem julgará a Babilônia? A resposta é inequívoca: a Babilônia não ficará impune. O chicote que Deus usa para corrigir o seu povo vai receber um chicote ainda maior. Deus usaria a Babilônia, mas ela não escaparia do julgamento. Habacuque pergunta como um Deus santo pode usar os caldeus, que são ainda mais perversos do que o seu povo, e Deus responde que pode usá-los sem aprová-los.
Ser usado por Deus não significa ser aprovado por Deus. A jumenta de Balaão, no livro de Números, mostra que até um animal pode falar e profetizar. Eles podem ser instrumento de juízo, mas não estão acima do juízo. Ciro foi usado por Deus. A Assíria foi usada. A Babilônia foi usada. Deus pode utilizar acontecimentos, governos, nações e até pessoas cujas motivações ele posteriormente julgará.
Os cinco ais
Habacuque queria saber quem julgaria a Babilônia, e Deus responde com cinco ais. Quando Deus diz “ai”, é porque vai doer. Habacuque 2, versos 6 a 20, é um cântico de escárnio contra o opressor. Deus sempre responde na medida do adversário. Quando Senaqueribe manda um mensageiro afrontar Jerusalém com palavras horríveis, Deus responde colocando um anzol no seu nariz e o levando de volta pelo caminho por onde veio, sem que ele precise sequer atirar uma flecha, enviando um único anjo para resolver a situação, abatendo cento e oitenta e seis mil homens. Deus sempre responde em proporção. Quanto maior é a ofensa do inimigo, maior é a resposta de Deus.
Os cinco ais atingem a cobiça, a violência, a humilhação e a idolatria. A Babilônia colherá o que plantou. O saqueador será saqueado, o explorador será explorado. Aquele que construiu sobre sangue verá sua construção ruir. Aquele que expôs os outros à vergonha será exposto à vergonha. Aquele que adorou deuses mudos também ficará sem voz.
O primeiro ai é o ai da ganância, em Habacuque 2.6 a 8. “Ai daquele que acumula o que não é seu” e “daquele que a si mesmo se carrega de penhores.” A Babilônia aumentava seu patrimônio diminuindo o patrimônio dos outros. Não se pode ganhar fazendo os outros perder. Não se pode ter uma empresa em que se ganha e as pessoas perdem, essa não é a lógica do Reino de Deus. Não se contribui para a destruição de famílias achando que vai ficar tudo bem com a própria família. A Babilônia conquistava terras, saqueava riquezas, subjugava povos, impunha tributos. Era uma economia alimentada pela miséria de outros povos.
O texto diz que os credores se levantariam de repente contra o conquistador, que havia transformado outras nações em devedoras e descobriria que ele próprio possuía credores. Uma das grandes leis de Habacuque é que tudo aquilo que é tomado injustamente vira uma dívida no mundo espiritual. É possível ter dinheiro no banco e estar muito endividado com o céu, possuir terras e riquezas e ainda estar no vermelho, acumular patrimônios que espiritualmente estejam hipotecados. Porque se saqueou muitas nações, todos os restantes dos povos saqueariam de volta. O saqueador será saqueado, o predador se tornará presa. Aquele que morde descobrirá que existe alguém com dentes maiores. O que a injustiça acumula, a justiça eventualmente cobra.
Algumas pessoas se convertem e precisam se arrepender imediatamente, porque com Deus a regra é outra, não dá para prosperar no erro. Arrepender-se é a primeira palavra do Reino. Mas as pessoas podem escolher não se aproximar muito de Deus, viver em erro nesta vida, e na outra vida as coisas acontecem de outra forma.
O segundo ai é o ai da corrupção que procura segurança, em Habacuque 2.9 a 11. “Ai daquele que ajunta em sua casa bens mal adquiridos para pôr em lugar alto seu ninho, a fim de livrar-se das garras do mal.” Ele acumula, rouba, explora, constrói o seu ninho no alto para ficar fora do alcance do mal. Existe medo por detrás da ganância. Ele quer construir uma fortaleza econômica tão alta que ninguém consiga tocá-la. Mas a corrupção é um medo encoberto em forma de ambição. Medo do futuro, medo de perder, medo de depender, medo de envelhecer, medo de cair. O homem diz que vai construir o seu ninho tão alto que nada poderá alcançá-lo, mas nada é tão alto para ficar fora do alcance do escrutínio do Deus santo, do Deus Altíssimo. Nenhum palácio, nenhum sistema de proteção, nenhuma imunidade, nenhuma estrutura de poder, nenhum paraíso fiscal.
O texto diz que ele pecou contra a própria alma. Imaginava proteger a própria vida, mas na realidade estava ferindo a si mesmo. Para salvar-se, estava se perdendo. Para proteger sua casa, estava destruindo o seu próprio nome. Para garantir o futuro, comprometeu a sua eternidade. “A pedra clamará da parede e a trave lhe responderá do madeiramento.” A casa inteira se transforma em testemunha. As paredes sabem com o que foram construídas. A pedra sabe de onde veio o dinheiro. A madeira sabe quem foi explorado. O cimento conhece a história dos juros altos cobrados, do espólio, da ganância. O corrupto pode silenciar pessoas, destruir documentos, apagar mensagens, mas Deus está vendo. As pedras começarão a falar.
O terceiro ai é o ai dos impérios construídos com sangue, em Habacuque 2.12 a 14. “Ai daquele que edifica a cidade com sangue e a fundamenta com iniquidade.” Aqui o alvo são mais que indivíduos, são sistemas, cidades, governos, impérios, instituições, estruturas magníficas cujas fundações estão manchadas de sangue, de iniquidade. A Babilônia construiu grandeza usando a escravidão como material de construção. “Eis que não procede do Senhor dos Exércitos que os povos labutem para o fogo e as nações se cansem em vão.” Homens trabalham, constroem, planejam, acumulam, expandem, e no final descobrem que construíram combustível para uma fogueira. Existe trabalho que produz herança e existe trabalho que produz cinzas.
O salmista fala de fazer ver o bem pelo mal, confirmando a obra das mãos para que as obras apareçam aos filhos dos filhos. Isso é herança, aquilo que se constrói durando para as futuras gerações. Mas existe uma maldição sobre aqueles que vivem de soberba e injustiça. Se a fundação é injusta, a grandeza não sobreviverá às futuras gerações. Então o texto explode em esperança: “a terra se encherá do conhecimento da glória do Senhor, como as águas cobrem o mar.” No meio dos cinco ais aparece uma visão do futuro. A Babilônia quer encher a terra com a sua injustiça, mas Deus diz que a terra será cheia da sua glória. Há aqui um conflito entre a glória dos impérios e a glória de Deus. A Babilônia constrói monumentos em seu próprio nome, mas Deus está conduzindo a história para o conhecimento do seu nome.
O quarto ai é o ai de quem se alimenta da vergonha dos outros, em Habacuque 2.15 a 17. “Ai daquele que dá de beber ao seu companheiro, misturando bebida o seu furor, e o que embebeda para lhe contemplar as vergonhas.” A Babilônia embriagava os povos com uma embriaguez que não vinha do vinho, dominava, controlava, humilhava, tinha prazer em reduzir o outro à vergonha. Há pessoas que não se contentam em vencer, precisam humilhar. Não basta derrotar o adversário, é necessário vê-lo no chão. Não basta provar que estava errado, é preciso destruir a dignidade. A pessoa perde a sobriedade moral.
Aqui acontece uma reversão. Deus diz que o opressor também será saciado de vergonha em vez de honra. Ele expôs, será exposto. Humilhou, conhecerá a humilhação. Deu o cálice, agora é a sua hora de beber dele. Este é o princípio de medida por medida que atravessa os cinco ais. O verso 17 resume: “a violência contra o Líbano te cobrirá.” As obras voltam ao seu autor. Toda crueldade carrega o endereço de retorno.
O quinto ai é o ai da idolatria, em Habacuque 2.18 a 20. “Que aproveita o ídolo, visto que o seu artífice o esculpiu? A imagem de fundição mestra de mentiras, para que o artista confie na obra, fazendo ídolos mudos.” Ai daquele que diz à madeira “acorda” e à pedra muda “desperta”. Como pode o ídolo ensinar? Está coberto de ouro e de prata, mas no seu interior não há fôlego nenhum. “O Senhor, porém, está no seu santo templo, calai-vos diante dele, toda a terra.”
A raiz da coisa: um panteão contra o Deus vivo
Nabucodonozor não chegou a Jerusalém apenas com um exército, chegou com um panteão de deuses. Na mentalidade do antigo Oriente Próximo, a vitória de um império era interpretada também como a vitória dos seus deuses. Quando Jerusalém cai, quando o templo é saqueado, quando os utensílios da casa de Yavé são levados, quando os jovens de Judá recebem novos nomes babilônicos, a mensagem implícita parecia ser que Marduque havia vencido Yahweh. Mas Marduque é apenas uma nota de rodapé na história. A Babilônia pensa que está escrevendo a história, mas é apenas uma linha dentro da história que Deus está escrevendo.
O mais notável é o que acontece à Babilônia quando quatro jovens adolescentes sequestrados de sua família entram em ação. Ninguém esperava que aqueles quatro meninos virassem a Babilônia de cabeça para baixo. Um interpreta o sonho e dá a visão. Os outros três entram na fornalha e saem vivos. O rei fica estonteado, no capítulo quatro de Daniel se converte, perde a razão, passa sete anos com unhas grandes parecendo um pássaro, e depois reconhece que o Deus Altíssimo, o Deus de Daniel, o Deus de Sadraque, Mesaque e Abednego, é o único Deus, sempre eterno, cujo reino dura para sempre e que interfere no governo dos homens. Ainda assim, Daniel vai para a cova dos leões, e surge também uma mão escrevendo na parede: mene, mene, tequel. O livro de Daniel é a descrição do que esses quatro meninos fizeram na Babilônia.
Habacuque pergunta, diante da imagem esculpida, como o homem pode dizer à madeira que desperte e à pedra muda que acorde. O homem está vivo, mas adora uma coisa morta. Não se pode falar com mortos. A Bíblia diz que ao homem está destinado morrer uma só vez, e após a morte o juízo. Só é possível falar com aquele que morreu e está vivo pelos séculos dos séculos, assentado à destra da majestade nas alturas, porque ele é o caminho, a verdade e a vida, e ninguém vem ao Pai senão por ele. Não existe outro mediador entre Deus e os homens senão Jesus Cristo homem, e abaixo dos céus não existe outro nome dado entre os homens pelo qual importa que sejamos salvos.
O ídolo tem boca, mas se pede direção para algo que não fala. O homem tem olhos, mas se curva diante de algo que não vê. Tem ouvidos, mas clama a algo que não escuta. Habacuque desmonta todo o panteão da Babilônia numa frase: se você precisa acordar o seu deus, ele não é deus. A idolatria faz o homem fabricar aquilo diante do qual depois se ajoelha. Ele corta a árvore, trabalha a madeira, faz o ídolo, depois se prostra e diz “salva-me”. O homem primeiro cria o seu deus, depois se torna escravo do deus que criou. Habacuque termina esta seção dizendo que o Senhor está no seu santo templo, e que toda a terra se cale diante dele. No capítulo 1, Habacuque pergunta por que Deus está calado. No capítulo 2, depois que Deus fala, a ordem se inverte: agora se cale diante dele toda a terra.
A teofania: Deus em marcha
No capítulo 3, chega o grande desfecho do livro. Habacuque começa com uma oração, mas já não é a oração angustiada do início, não é mais o clamor aflito de quem pergunta até quando. O texto diz: “Oração do profeta Habacuque, sobre a forma de canto. Tenho ouvido ao Senhor as tuas declarações e me sinto alo. Aviva a tua obra, ó Senhor, no decurso dos anos, faze-a conhecida. Na tua ira, lembra-te da misericórdia.” Que mudança no texto. No capítulo 1, Habacuque cobrava explicações. No capítulo 3, ele pede avivamento e misericórdia. Antes perguntava por que Deus não agia, agora ora para que Deus aja outra vez. Antes estava perturbado com o silêncio de Deus, agora está quebrantado diante da sua santidade.
Então vem uma teofania, uma aparição de Deus. Habacuque tem uma revelação majestosa de Deus em marcha. “Deus vem de Temã, o Santo vem de Parã. Seu resplendor cobre os céus, a terra se enche do seu louvor. Seu brilho é como a luz, raios saem das suas mãos. A peste vai diante dele. Ele para e faz a terra tremer, olha, as nações se abalam, os montes antigos se desfazem, os outeiros eternos se curvam, o sol e a lua param em sua habitação. Ele marcha em indignação pela terra, ele sai para salvar o seu povo.” Habacuque não está mais vendo a violência dos homens, está vendo a majestade de Deus. Já não está fixado na força da Babilônia, está tomado pela visão do Senhor que governa a história. No início ele via o caos, agora vê o Deus que cavalga sobre a história.
No capítulo 1, Habacuque vê a Babilônia chegando. No capítulo 3, ele vê Deus chegando. E o que determina o seu ânimo não é quem está vindo contra ele, mas quem vem a seu favor. São mais os que estão conosco do que os que são contra nós. O Senhor está do lado daquele que confia nele, está entre aqueles que o ajudam. E se Deus é por nós, quem será contra nós?
Habacuque está vendo Deus refazer a rota da redenção. Deuteronômio 32 diz que o Senhor veio do Sinai e resplandeceu desde Seir, desde o monte Parã. Parã é a península do Sinai. No cântico de Débora, Yahweh marcha nos céus, em Seir, em Edom, com a terra tremendo diante dele. Deus vem pelo caminho do êxodo. Vem de Temã, o Santo vem de Parã. Habacuque olha para o sul, para Temã, Edom, Parã, Sinai, e de lá vê Deus nessa visão. Ele está vendo a rota do êxodo. O Deus que desceu do Sinai, o Deus que marchou diante de Israel, o Deus que abriu o mar, o Deus diante de quem as montanhas tremem, o Deus que derrotou os poderes que mantinham o seu povo escravizado, o Deus que entrou na história para tirar Israel do Egito, continua capaz de entrar na história hoje para libertar qualquer nação da sua própria escravidão.
Nos versos seguintes, a criação inteira reage. Os céus se enchem de resplendor, a terra se enche de louvor, os montes tremem, as nações se agitam, o sol e a lua param, as águas estremecem. Habacuque passa a enxergar a Babilônia a partir do Sinai. Nabucodonozor se torna minúsculo quando comparado ao Deus que vem de Temã, o Santo que vem de Parã, o Senhor dos Exércitos montado em seus carros e carruagens de vitória.
Depois de uma experiência com Deus, depois de um encontro verdadeiro, tudo muda. Nem sempre as circunstâncias mudam imediatamente, mas o homem muda. A ótica muda, o coração muda, a força muda, o eixo interior muda. Sempre que alguém encontra Deus de modo profundo, jamais permanece o mesmo. Isaías entra no templo e sai dizendo “eis-me aqui, Senhor, envia-me a mim”. Jó sai do debate, da discussão de que estava certo, e diz: “antes te ouvia de ouvir falar, mas agora os meus olhos te veem.” Ele sai do questionamento para a rendição, para a entrega. Moisés nunca mais seria um homem comum depois que viu a sarça ardendo. Jacó, depois de um encontro com Deus, sai mancando.
Do até quando ao todavia
Habacuque passa da queixa, da reclamação, para o cântico. Alguém encontrou a Deus quando para de murmurar, e murmuração é falar com pessoas sobre problemas que elas não podem resolver. Veja como ele começa: “até quando, Senhor, clamarei eu e tu não me escutarás? Gritar-te-ei violência.” Ele está esmagado pelo cenário, sua visão está reduzida às circunstâncias. Vê a desordem, a corrupção, a injustiça, a perversidade. Começa interrogando, lamentando. É o homem do até quando.
Mas veja como ele termina. “Ainda que a figueira não floresça e não haja fruto na vide, o produto da oliveira minta e os campos não produzam mantimento, as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco e nos currais não haja gado, todavia, eu me alegro no Senhor, exulto no Deus da minha salvação.” O até quando vira todavia. O cenário externo continua difícil. A figueira não floresce, a vinha não dá fruto, a oliveira falha, os campos não produzem, as ovelhas desaparecem, os currais estão vazios. É o colapso agrícola, econômico, social. Habacuque não está romantizando a realidade, não está dizendo que está tudo bem. Está dizendo algo muito mais profundo: mesmo que tudo falhe, Deus não falhará.
No começo do livro, ele avaliava Deus pelas circunstâncias. No fim, ele enfrenta as circunstâncias à luz de Deus. Ele vai do até quando, que nasce da dor, ao todavia, que nasce da revelação. Continua vendo a crise, mas agora a vê pelos olhos de Deus. O milagre não é uma mudança de cenário, é uma mudança do homem, e só o evangelho pode transformar pessoas. A Babilônia ainda existe, a ameaça ainda existe, a crise ainda não desapareceu, mas o profeta foi transformado na presença de Deus. Começa vendo a crise que o cerca, termina vendo o Deus acima da crise. Começa dominado pelas perguntas, termina sustentado pela presença. Começa em aflição, termina em adoração. Começa abatido e termina altaneiro, sublime.
A corça nas alturas
No final do texto, Habacuque diz: “O Senhor Deus é a minha fortaleza, e faz os meus pés como os da corça, e me faz andar altaneiramente.” A corça não elimina os montes, ela os atravessa. Não remove os lugares altos, aprende a caminhar neles. Deus não promete tirar Habacuque do terreno difícil. O terreno difícil é o lugar onde ele foi plantado, o lugar da sua identidade, o lugar do seu elemento. O terreno onde Deus colocou alguém é, muitas vezes, o terreno onde essa pessoa vai prosperar. Às vezes se quer que Deus mude o chão, mas Deus quer apenas fortalecer os pés. Às vezes se ora pedindo para sair de um lugar, e Deus responde que vai sustentar ali mesmo.
A fortaleza de Habacuque não está na figueira, na vinha, na oliveira, nos campos, no aprisco ou nos currais. Está em Deus, e é por isso que nada pode destruí-lo. Ele termina dizendo, em essência, que Deus lhe basta. Depois de ter visto o Senhor, está pronto para enfrentar a adversidade adorando, pronto para entrar na fornalha adorando, pronto para entrar na cova dos leões adorando. Termina com o cântico, não com argumentos ou com uma explicação complexa. Teologicamente falando, não termina entendendo tudo, termina crendo todavia.
Esteja alguém solteiro, com dívidas, enfrentando uma enfermidade ou sob batalhas e pressões, a resposta pode ser a mesma: eu me alegro no Senhor. Começa vendo o quadro, o cenário, a visão do problema, mas termina pronto para enfrentar todas as adversidades adorando a Deus. Nada é capaz de afastar, derrubar ou acabar com essa fé. É a postura de quem diz que não sabe o que será do amanhã, nem que futuro existe, mas vai louvar ao seu Deus assim mesmo. É isso que Paulo e Silas fazem no cárcere interior, e aquele louvor abre as portas da prisão e provoca um terremoto.
Um chamado prático: da torre de vigia ao arrependimento
Enquanto alguém permanece na frequência da violência, da injustiça, do até quando, não verá a ação daquele que vem em seus carros e cavalos de vitória, até que suba à sua própria torre de vigia. Esse é um desafio concreto: a torre de vigia é o lugar de onde não se sai sem uma resposta. Qual é a resposta que você busca? Qual é a demanda que você tem a apresentar diante de Deus? Como Ezequias, que recebe uma carta ameaçadora e vai apresentá-la diante do Senhor, recebendo depois uma resposta dramática.
Arrepender-se é a primeira palavra da Bíblia, mas não se pode ficar só nela. É importante corrigir caminhos e ter um plano de ação concreto a partir de uma mensagem como essa. Qual é o plano de ação, a mudança necessária, o arrependimento verdadeiro capaz de gerar fruto, uma transformação real nas relações pessoais? Isso pode começar com a reclamação, com a fofoca, os pecados da língua que produzem tanta injustiça e não podem ficar sem punição, porque geram contaminação. Pode envolver a área da moralidade sexual, de pessoas com incontinência que não conseguem sustentar sua aliança com Deus, ou a pornografia, ou pessoas que vivem de mentiras, enganando e dissimulando, ou ainda a ganância, a avareza, que faz tudo para ganhar mais dinheiro à custa da perda dos outros. Em todo negócio, todos ganham ou ninguém ganha.
O chamado é para que Deus mude a perspectiva de cada um, tirando do ambiente de queixa, de murmuração, de reclamação, de apontar o que está errado, para viver na montanha, no lugar alto, na fortaleza, na torre de vigia, obtendo uma resposta a todas as crises e enfrentamentos. É possível subir até Deus sem horário marcado, sem audiência prévia, pelo novo e vivo caminho, pelo sangue de Jesus, além do véu, com ousadia para receber misericórdia e socorro em ocasião oportuna. É possível acessar o santo dos santos celestial e ser bem recebido nas cortes celestiais, para dar testemunho, para se arrepender de verdade de coisas erradas praticadas, para interromper a colheita de coisas ruins, para que sentenças sejam mudadas e juízos sejam revogados.
Arrepender-se é uma palavra bíblica, e tudo começa com essa mudança de direção, com a verbalização de uma língua que não produz injustiça, calúnia, difamação, que não divulga fofocas e rumores que não puderam ser verificados ou atestados, que não toca naquilo que não lhe pertence, seja no corpo que não é seu fora da aliança do matrimônio, seja nos recursos que não foram ganhos de maneira correta. Deus chama ao arrependimento para que uma nova colheita seja possível, e para uma nova colheita é preciso semear novas sementes. Essa correção começa no coração do homem. Muitas vezes se ganha e, ao mesmo tempo, se está perdendo a si mesmo, pecando contra a própria alma. É tempo de alinhar o coração ao pai, à mãe, ao cônjuge, aos filhos, aos líderes e, acima de tudo, ao Senhor.
Dentro dessa proposta de consagração foi anunciado um jejum de vinte e um dias, como um tempo de torre de vigia coletiva, um período em que não se sai sem uma resposta. É um tempo também para orar por decisões importantes que afetam a vida em sociedade, pedindo que Deus levante, em posições de autoridade, pessoas justas, com valores e princípios eternos.
Para encerrar
O livro de Habacuque não resolve o mistério do sofrimento com uma fórmula fácil. Ele mostra um homem que começou reclamando da injustiça e terminou adorando em meio a ela, não porque as circunstâncias mudaram, mas porque ele mudou diante da revelação de quem Deus é. Do até quando ao todavia não é uma linha reta, é uma travessia, a mesma travessia da corça que não evita os montes, mas aprende a correr sobre eles.
Para acompanhar essa mensagem na íntegra, com todos os detalhes do texto original de Habacuque e a condução completa da pregação, vale a pena assistir ao vídeo completo e ouvir também o episódio correspondente no podcast de Bispo JB Carvalho.
