Salmo 8: a majestade de Deus e o propósito do homem
Salmo 8.3,4
O Salmo 8 tem um título curioso: “ao músico-mor, sobre o instrumento de Gate, um salmo de Davi”. Nele, Davi contempla a glória de Deus e descobre, no meio dessa contemplação, algo sobre a glória e o destino do próprio homem. É um salmo cosmológico, porque fala do universo. É um salmo antropológico, porque fala do homem. E é um salmo cristológico, porque aponta, no fim das contas, para Cristo, o homem perfeito. O Midrash Tehillim, que é a interpretação judaica clássica dos salmos, entende esse texto como um hino à criação do homem à imagem de Deus. Davi está debaixo do céu estrelado, boquiaberto, chocado com a grandeza do que vê, e daquilo nasce a sua poesia.
Uma canção nova para tempos novos
Antes de entrar no salmo em si, vale registrar o contexto dessa ministração. Existe uma diferença entre atualizar uma mensagem e repetir uma mensagem. Esse mesmo salmo já havia sido pregado antes, em outras ocasiões, mas a mensagem de hoje é outra, atualizada, diferente daquela pregada anos atrás. E isso não é só um detalhe de método homilético. É um princípio espiritual.
Há muitos cristãos que ficam interrompidos na jornada, bloqueados, que não se desenvolvem mais, não crescem, ficam com saudade do passado, daquilo que foram, daquilo que fizeram. Isso demonstra um adoecimento. Porque se o seu termômetro de sucesso está no passado, você está estagnado. Mas Deus tem uma nova unção para você. Deus tem uma nova canção para você. Deus tem uma nova visão para te dar. Assim como nove são os meses para o nascimento de um bebê, há algo para nascer numa vida entregue a Deus. Setembro é sempre mês de primavera, mês de colheita, de resposta, de ação de Deus, de mover do Espírito Santo.
O Salmo 8 é exatamente esse cântico de admiração pela criação e pelo lugar que Deus deu ao homem dentro dela.
A majestade que enche a terra
“Ó Senhor, Senhor nosso, quão admirável, quão magnífico é o teu nome em toda a terra, pois expuseste nos céus a tua majestade” (Salmo 8.1). Davi fica boquiaberto, chocado com a grandeza do universo. As pegadas de Deus estão espalhadas por toda a criação. A palavra traduzida por “magnífico”, no hebraico adir, significa majestoso, poderoso, excelente. Os céus são a moldura da glória de Deus, exatamente como diz o Salmo 19: os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos. Um dia discursa a outro dia, uma noite revela conhecimento a outra noite. Não há linguagem, não há palavras, e deles não se ouve som algum, mas por toda a terra se faz ouvir a sua voz.
Chama a atenção a repetição no início: “Ó Senhor, Senhor nosso”. Davi reconhece ali tanto o nome da aliança de Deus quanto a posição de Yahweh para com o seu povo. Deus é criador de todos, mas ele só pode ser chamado de Senhor por alguns. Deus é criador do universo e de todas as nações, mas só alguns podem chamá-lo de Rei. Era uma maneira simples e direta de dizer: nosso Deus é o nosso Senhor, Yah Adonai, nosso apoio, nosso sustento, nosso suporte. A raiz da palavra Adon significa dirigir, governar, julgar, apoiar. Portanto, Adonai é o diretor, o governante, o juiz e o sustentador dos homens.
Quão admirável é o teu nome, diz Davi. Embora o Senhor fosse o Deus da aliança de Israel, ele também é o Deus de todas as nações. Seu nome é admirável em toda a terra. A terra não é suficiente para medir a glória e a excelência de Deus. A sua glória está acima dos céus.
A força que vem da boca dos pequenos
“Da boca de pequeninos e de crianças de peito suscitaste força por causa dos teus inimigos, para fazeres emudecer o adversário vingador” (Salmo 8.2). No primeiro versículo, Davi considerou a grandeza de Deus pelo poder e pela glória vistos na criação, tanto na terra como nos céus. Agora ele considera que esse mesmo poder pode ser visto em crianças pequenas, em bebês que ainda mamam, porque a força de Deus é evidente também nelas. Davi deixa a ideia de que Deus usa coisas que de outra forma seriam fracas, e exibe a sua força justamente nelas. A boca de gente humilde e pura tem o poder de emudecer, de calar o inimigo.
É difícil pensar em algo mais fraco, mais indefeso do que um bebê. Ainda assim, Deus pode ordenar força da boca deles e das crianças que ainda mamam. Os louvores ao Messias, celebrados na igreja por seus filhos, têm em si uma força e um poder que nada pode resistir. Eles conseguem intimidar a infidelidade no seu auge e silenciar o próprio inferno.
Jesus citou essa mesma passagem diante dos discípulos quando estava sendo acusado por pessoas indignadas enquanto realizava milagres no templo e recebia louvores de crianças que cantavam Hosana ao Filho de Davi. Vieram a ele, no templo, cegos e coxos, e ele os curou. Mas, vendo os principais sacerdotes e os escribas as maravilhas que Jesus fazia, e os meninos clamando “Hosana ao Filho de Davi”, eles se indignaram e perguntaram: “Ouves o que estes estão dizendo?” Jesus respondeu: “Sim, nunca lestes?” (Mateus 21.14-16). Ele estava citando o Salmo 8, mudando levemente o texto: “da boca de pequeninos e crianças de peito tiraste perfeito louvor”. É desse louvor perfeito que o inimigo tem medo, porque isso o emudece, o silencia. É o perfeito louvor que faz os inimigos calarem.
Pode haver uma grande diferença entre a glória dos céus e as boquinhas das crianças e dos bebês, mas por ambos o majestoso nome do Senhor é revelado, por causa dos inimigos, para que possa silenciá-los. João Crisóstomo, um dos pais da igreja, destaca esse paradoxo: Deus silencia inimigos usando crianças, mostrando que a força divina se manifesta na fraqueza. Isso é um gesto de humilhação de Deus, pegar o mais pequeno para derrotar os principados e as potestades. Não são os poderosos, os incrivelmente fortes e sábios que Deus usa. Deus escolheu as coisas loucas para confundir as sábias, as coisas que não são para reduzir a nada as que são, e as coisas fracas para envergonhar as fortes.
Deus opera poderosamente usando pessoas fracas. Não é a nossa força que ele usa, porque é na nossa fraqueza que ele aperfeiçoa o seu poder. A cruz é o maior símbolo de fracasso, de fraqueza, e ao mesmo tempo é a fraqueza de Deus vencendo todos os homens. Deus ama pegar coisas fracas para destruir Satanás. Deus nos sustenta com sua mão invisível em meio à nossa profunda fraqueza. Charles Spurgeon, o príncipe dos pregadores, escreveu que ser vencido por um gigante ou um leviatã pode deixar um adversário irado, mas ser arrancado da boca de crianças, que faz morder o pó, completa a desonra: estás profundamente quebrado agora que da boca de crianças e bebês és envergonhado.
Que é o homem, diante da imensidão dos céus?
A partir daí o salmo segue dizendo que, embora aparentemente insignificante, o homem é coroado de glória e de honra. E Davi faz uma comparação incrível: “Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, e a lua e as estrelas que estabeleceste, que é o homem que dele te lembres, e o filho do homem que o visites?” (Salmo 8.3,4).
Davi contempla os céus e se pergunta: quem sou eu diante disso tudo? A palavra usada aqui para “homem” é enosh, que não fala de macho nem de fêmea, mas do homem frágil, do homem mortal. Quando Adão entendeu que a ficha havia caído, ele deu ao seu filho o nome de Enos, que significa justamente frágil.
Davi não tinha telescópio, e já estava assombrado ao comparar o homem com os céus. Vale imaginar se ele soubesse que existem cerca de 200 bilhões de estrelas apenas na Via Láctea, e, segundo estimativas de astrônomos, entre 100 e 200 milhões de galáxias no universo observável. A olho nu é possível ver apenas cerca de cinco mil estrelas. Com um telescópio de quatro polegadas, cerca de dois milhões. Com o espelho de duzentas polegadas de um grande observatório, mais de um bilhão. Olhar para os céus faz ver a grandeza de Deus e a nossa pequenez. E ainda tem gente que se acha.
Esses grandes objetos celestes, a lua, as estrelas, são obra dos dedos de Deus. Que mão pode mover, formar e lançar mundos inteiros? Isaías 40 responde com uma sequência de perguntas retóricas: quem mediu as águas na concha da sua mão, quem tomou a medida dos céus a palmo, quem recolheu o pó da terra numa medida e pesou os montes em balança? As nações inteiras são consideradas por ele como uma gota que cai de um balde, como um grão de pó na balança. As ilhas são como pó fino que se levanta. Nem todo o Líbano bastaria para um holocausto proporcional à sua grandeza. Todas as nações, diante dele, são como coisa que não é nada, menos que nada, um vácuo.
O mesmo capítulo de Isaías pergunta ainda: com quem se compararia Deus, se um artesão funde uma imagem, a cobre de ouro, forja cadeias de prata, escolhe madeira que não apodrece e busca um artífice perito para que a imagem não oscile? Ele é quem está assentado sobre o círculo da terra, muito antes de Galileu Galilei ou Nicolau Copérnico, muito antes de qualquer astronauta subir à estratosfera confirmar a redondeza do planeta. Está escrito na Bíblia. Ele é quem estende os céus como cortina e os desenrola como tenda para neles habitar. Ele reduz a nada os príncipes e torna nulos os juízes da terra: mal foram plantados, mal se arraigaram, e já um sopro os leva como palha.
A quem, então, Deus poderia ser comparado? Levantai ao alto os olhos e vede quem criou essas coisas, aquele que faz sair o seu exército de estrelas, todas contadas, chamando cada uma pelo nome, de tal forma que, por sua força e seu poder, nenhuma vem a faltar. E por que, então, alguém diria que o seu caminho está encoberto ao Senhor, que o seu direito passa desapercebido a Deus? O eterno Deus, criador dos confins da terra, não se cansa nem se fadiga, e o seu entendimento não pode ser esquadrinhado. Ele dá força ao cansado e multiplica as forças ao que não tem nenhum vigor. Os jovens se cansam e se fadigam, os moços caem exaustos, mas os que esperam no Senhor renovam as suas forças, sobem com asas como águias, correm e não se cansam, caminham e não se fadigam (Isaías 40.12-31).
Considerar a grandeza dos céus levou Davi a considerar a pequenez e a insignificância do homem. Ele se perguntou se um Deus tão grande e grandioso se importaria com seres tão pequenos. Se o nosso planeta desaparecesse do meio de todo o universo, seria a mesma coisa que uma folha caindo agora numa floresta imensa. Ou seja, praticamente nada. O Salmo 144 diz que o homem é como um sopro, os seus dias como a sombra que passa. E Isaías 51 pergunta: quem é você para temer o homem mortal, o homem que vai morrer amanhã, a ponto de se esquecer do seu Deus? Deus está dizendo, em outras palavras, que para temer o homem é preciso esquecer quem Deus é, e é exatamente por isso que existe tanto medo hoje: porque muita gente esqueceu de quem Deus é.
No entanto, como bebês indefesos e fracos, fomos chamados para calar o inimigo e o vingador. Que é o homem que dele te lembres? O filho do homem que o visites? Não há pessimismo nessa pergunta, apenas espanto por Deus estar atento e se importar. Davi está chocado porque somos tão ínfimos, tão pequenos, e ainda assim ele tem uma revelação da grandeza de Deus que o deixa perplexo por Deus se importar com a gente.
Deus se lembra de você
Deus se lembra de nós. Ele pensa em nós. Deus considera o que estamos fazendo. Deus se importa com o estacionamento do carro, com os cabelos que voltaram a crescer, com a saúde física, com os filhos, com os detalhes, com a roupa. Deus não apenas pensa cuidadosamente no homem, segundo Davi, mas tem algum tipo de conexão e contato pessoal com ele. Ele pensa em nós e age em nossas vidas.
Dwight L. Moody, possivelmente o maior evangelista do século dezenove, usava o versículo quatro para mostrar a pequenez humana diante do universo, mas também a sua grandeza diante da cruz. Veja o que Deus foi capaz de fazer: ele se importou tanto que deu o seu único Filho, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Esse salmo é um golpe mortal no deísmo, a ideia de que Deus existe, mas está distante, foi embora depois de criar o universo e não tem mais interesse em nós.
“E o filho do homem, para que o visites?” A palavra usada aqui, paqad, significa cuidar, se importar. Somos frágeis, mas não somos esquecidos. Deus está se lembrando de você esses dias para te recompensar, para responder as suas orações, para lidar com aqueles assuntos que incomodam. Filho do homem é um título que enfatiza justamente a humanidade do homem, e dizer que Deus o visita é ainda mais forte do que dizer que ele apenas presta atenção. Não é simplesmente Deus saber que você existe. Visitar implica empenho e consideração. Deus tem uma visita marcada com você, e a pergunta é se você está preparado para isso.
Vale lembrar que Deus veio nos visitar um dia, e os homens não estavam prontos para isso. Não prepararam um palácio, não organizaram uma cerimônia de recepção. Quem viu não foi a religião oficial, ocupada demais em manter seu status, sua liturgia, sua religiosidade. Foram reis magos, reis de outras nações, que viram a estrela e foram atrás de saber onde o rei iria nascer.
Coroado de glória e honra
“Fizeste-o, no entanto, por um pouco menor do que Deus, e de glória e de honra o coroaste” (Salmo 8.5). A palavra usada é Elohim, a mesma do princípio, quando Elohim criou os céus e a terra. Há uma discussão exegética sobre se o texto quer dizer “um pouco menor do que os anjos” ou “um pouco menor do que Deus mesmo”. James Montgomery Boice, intérprete das Escrituras, acredita que Davi quis dizer que o homem é um pouco inferior a Deus, enfatizando que o homem é feito à imagem de Deus. Davi não disse que o homem era um pouco superior aos animais, embora isso também seja verdade. Feitos à imagem de Deus, homens e mulheres foram ordenados a se tornar cada vez mais semelhantes ao Deus para quem olham. Quando viram as costas para Deus e deixam de olhar para cima, que é o privilégio e o dever de todos, na verdade passam a olhar para baixo, para os animais, e assim se tornam cada vez mais parecidos com eles. Há uma agenda que hoje destrói a imagem de Deus nas pessoas, reduzindo a transcendência à pura imanência.
A condição humilde do homem se refere apenas a esta existência, e não ao mundo vindouro. Essa é uma declaração ousada e poderosa. Limitados ao tempo e ao espaço, restringidos de maneira tão pequena, e ainda assim alguns se acham. O livro de Hebreus retoma exatamente esse ponto: “pois não foi a anjos que sujeitou o mundo que há de vir, sobre o qual estamos falando” (Hebreus 2.5). E o autor complementa: “antes, alguém em certo lugar deu pleno testemunho, dizendo: que é o homem, que dele te lembres, ou o filho do homem, que o visites?” (Hebreus 2.6). Esse “alguém em certo lugar” é o próprio Davi, no Salmo 8. O autor de Hebreus, que a tradição não consegue identificar com certeza (uns dizem Paulo, outros Apolo, outros apóstolos, mas a certeza só a eternidade vai trazer), mostra que há uma transição em curso: o mundo que há de vir não foi sujeitado a anjos, mas a homens.
Jesus exaltou a raça humana, elevando-a às estrelas. Deus não se fez anjo, Deus se fez homem. Derek Kidner observa que “por um pouco menor” pode significar também “por um tempo”, tanto em hebraico quanto em grego, sentido provavelmente implícito no texto. Boice complementa dizendo que é um pouco inferior em natureza, já que os anjos são imortais, e apenas um pouco porque o tempo é curto, e quando esse tempo termina os santos deixam de ser inferiores aos anjos. O livro de Judas afirma que os anjos são mais poderosos em poder e em glória do que os seres humanos, mas apenas agora. Porque Paulo escreve que havemos de julgar os próprios anjos: “não sabeis que havemos de julgar os anjos? Quanto mais as coisas desta vida” (1 Coríntios 6.3). O contexto ali é que os irmãos não deveriam levar suas brigas a tribunais seculares, deveriam resolver essas questões entre si, porque um dia julgarão os próprios anjos.
Este é o destino dos homens e mulheres redimidos: um dia serem elevados acima dos anjos. Como diz a primeira carta de João: “amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser; mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque assim como é o veremos” (1 João 3.2). Ao soar da última trombeta, corpos glorificados serão dados, com uma nova estrutura, e o mortal se revestirá da imortalidade, a corrupção da incorruptibilidade, e a imagem de Deus em nós será plenamente manifesta.
O destino do homem é, um dia, ser coroado com uma glória e uma honra que ultrapassam mesmo a dos anjos. Deus expôs a sua majestade nos céus e colocou a sua glória nos homens. Como disse Jesus aos discípulos: “e eu lhes tenho dado a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um” (João 17.22). Deus não dá a sua glória a outrem, muito menos a imagens de escultura, como afirma Isaías 44. Mas o ser humano, criado por ele, é um rei neste planeta, cercado e coroado de glória e majestade. Deus colocou sua glória e sua honra sobre o homem como uma coroa. Boice chama isso de “uma maneira eficaz de identificar o homem com Deus”, dizendo que ele foi feito à imagem de Deus, refletindo essa glória de um jeito que nenhuma outra parte da criação reflete. Spurgeon dizia que Satanás se enche de desprezo pelo homem quando o olha e o compara consigo: “é esta a criatura que será colocada sobre todas as obras das mãos de Deus? Eu posso brilhar como um relâmpago, enquanto ele precisa rastejar pelo mundo e encontrar uma sepultura.”
Mas a Bíblia diz que ele foi coroado de glória e honra, que é peso, dignidade e beleza real. O homem é pó, mas é pó coroado. Num mundo que reduz o homem a pó cósmico, Deus lembra que somos coroados de propósito. O universo revela a grandeza de Deus, e o homem revela o cuidado de Deus.
O domínio que começa por dominar a si mesmo
“Deste-lhe domínio sobre a obra das tuas mãos e sobre os teus pés. Tudo puseste, ovelhas e bois, todos, e também os animais do campo, as aves dos céus e os peixes do mar, e tudo o que percorre a senda dos mares” (Salmo 8.6-8). O homem é o senhor deste planeta, extensão do governo e do domínio de Deus. Davi retorna aqui a Gênesis capítulo um, ao mandato cultural dado a Adão e aos seus descendentes, e depois a Noé e aos seus. Quando Deus cria o homem, diz: “façamos o homem à nossa semelhança, tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os répteis.” E, ao criá-lo, ordena: “sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra, sujeitai-a e dominai sobre ela” (Gênesis 1.26-28).
Cada homem deveria dominar. Dominar sobre substâncias químicas, sobre bebidas, sobre o sexo, sobre si mesmo, sobre as próprias emoções. Fomos feitos reis que dominam. Mas para dominar, primeiro é preciso dominar a si mesmo. E esse domínio, no texto, não se refere a dominar o semelhante. Somos uma só raça, e todos somos reis. Há aqui humildade, porque diante dos céus reconhecemos a nossa pequenez. Há dignidade, porque, apesar da fragilidade, Deus nos coroa com a sua glória. E há responsabilidade, porque fomos feitos mordomos da criação. Quanto mais fiel alguém é nessa vida, mais Deus aposta e entrega mordomias, recursos, dinheiro. Ter dinheiro é incrível, mas se o dinheiro tem alguém, essa pessoa não pode ser mordoma de Deus. No mundo, as pessoas juntam com medo de ficar sem. No reino de Deus, alguém é medido por aquilo que dá. O quanto de prosperidade alguém tem é medido pela sua capacidade de abençoar. Lá fora a lógica é comprar e vender, aqui dentro é dar e receber.
The Passion Translation traz esse versículo assim: “você delegou a eles governo sobre tudo o que fez, colocando sua própria autoridade sobre a terra, sob os pés dos portadores da sua imagem.” Somos portadores da imagem de Deus. O paganismo é apenas uma imitação daquilo que Deus já fez, porque imagens marcam territórios. Deus marcou o território do planeta ao colocar sua própria imagem no templo que é a terra, cheia da imagem dele, que é o homem. O homem representa Deus.
Na antiguidade, reis costumavam fazer aliança entre reinos por meio de casamentos com princesas, como aconteceu aqui no Brasil, quando a princesa Leopoldina, do império austríaco, veio selar essa aliança de povos. Salomão gostou tanto dessa ideia que fez isso setecentas vezes, e ainda arranjou trezentas concubinas. O Rei dos céus quis fazer uma aliança com o reino da terra, e tem uma noiva para desposar. No dia do casamento, a terra vai se unir definitivamente com os céus, e se abraçarão num único reino, o reino de Deus sobre o mundo, quando a noiva do Cordeiro consumar esse matrimônio.
Cristo, o homem que cumpriu o Salmo 8
Agostinho vê Cristo como o homem coroado de glória que cumpre plenamente esse salmo, certamente por conta do texto de Hebreus que mostra que o homem falhou em cumprir sua missão de governança, e por isso Deus nos visitou. “Fizeste-o por um pouco menor do que os anjos e de glória e de honra o coroaste, constituíste-o sobre as obras das tuas mãos, todas as coisas sujeitaste debaixo dos seus pés. Ora, desde que lhe sujeitou todas as coisas, nada deixou de fora do seu domínio. Agora, porém, ainda não vemos todas as coisas a ele sujeitas” (Hebreus 2.7-8).
É exatamente disso que trata o livro de Apocalipse. Ele não é um livro sobre medo, mas a história de como todos os domínios e reinos estão se sujeitando ao único trono. A palavra trono aparece vinte e quatro vezes em Apocalipse. A história do livro é a história de como o trono de Deus está sendo estabelecido sobre o mundo, do reino de Deus chegando e de todos os poderes sendo vencidos, de maneira sistemática, gradual, muito devagar. O autor de Hebreus mostra que essa promessa de domínio ainda está incompleta, mas será finalmente cumprida em Jesus, o homem supremo, e um dia também será cumprida em seus seguidores ressuscitados. Ele é o homem que vence onde Adão falhou. Jesus é o nosso campeão.
Na antiguidade, quando havia disputa entre exércitos, uma maneira de resolver a demanda era cada lado escolher um campeão, e eles se enfrentavam para que o vencedor decidisse a sorte das duas nações. Foi o que aconteceu entre Davi e Golias: um pedido de um campeão para lutar, Davi indo e matando o gigante, e Israel indo para cima dos filisteus. Deus nos enviou o seu campeão. Jesus veio à cruz para despojar os principados e potestades, expondo-os à vergonha e ao desprezo. E, assim como os israelitas avançaram sobre os filisteus, a igreja também deveria avançar, e não viver na defensiva, despojando o exército do inimigo. Porque o inimigo bem armado guarda os seus bens até que venha alguém mais valente do que ele. Jesus é o mais valente. Ele já venceu o inimigo e disse: “ide, expulsai os demônios, curai os enfermos, pregai o evangelho do reino de Deus, limpai os leprosos, ressuscitai os mortos.” Esse é o chamado da igreja, que não é simplesmente viver um status de pessoas boazinhas tentando preservar o que está posto.
O texto de Hebreus continua: “vemos, todavia, aquele que foi feito um pouco menor do que os anjos, a saber, Jesus, coroado de glória e de honra por causa da morte que sofreu, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todo homem. Porque convinha que aquele por cuja causa e por quem todas as coisas existem, conduzindo muitos filhos à glória, aperfeiçoasse por meio dos sofrimentos o autor da salvação deles” (Hebreus 2.9-10). Deus não sabia obedecer, ele só sabia mandar. E em Cristo, Deus aprendeu a obediência pelos sofrimentos que padeceu, segundo a Bíblia diz. Isso é revolucionário: e ainda há quem não tenha aprendido a obedecer até hoje.
A posição do homem na criação diz muito mais sobre a glória de Deus do que qualquer coisa sobre a glória do próprio homem. Compreender isso deveria levar a louvar a Deus, e não ao homem. Existem três verdades sobre o homem, encontradas nesse salmo, que, quando negadas ou negligenciadas, impedem o homem de ser aquilo que Deus o criou para ser: Deus fez do homem algo glorioso, uma poderosa antropologia, e nenhum sistema filosófico ou religioso colocou o homem tão alto quanto a fé cristã coloca. Deus se fez um de nós. Deus nos fez à sua imagem e semelhança. E Deus criou o homem para um destino alto e digno, para o domínio, para o governo.
O plano de Deus se cumpre quando o homem, enfim, é empossado como extensão do domínio de Deus na terra. Isso não é opinião, é o que a Bíblia diz: “da parte de Jesus Cristo, a fiel testemunha, o primogênito dos mortos e o soberano dos reis da terra” (Apocalipse 1.5). Jesus não é apenas o Senhor da igreja ou o Senhor da família, é o Senhor do planeta inteiro, o rei das nações, o rei do Brasil, o rei da América Latina, o rei de todos os povos, de todos os continentes. “Aquele que nos ama e pelo seu sangue nos libertou dos nossos pecados, e nos constituiu reino e sacerdotes para o seu Deus e Pai, a ele seja a glória e o domínio pelos séculos dos séculos” (Apocalipse 1.5-6). Deus colocou a sua imagem na terra através do homem, e o cântico novo de Apocalipse 5 diz: “digno és de tomar o livro e de abrir os seus selos, porque foste morto e com o teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação, e para o nosso Deus os constituíste reino e sacerdotes, e eles reinarão sobre a terra” (Apocalipse 5.9-10).
Tanto no Salmo 37 quanto nas bem-aventuranças está escrito que os mansos herdarão a terra (Mateus 5.5). E a palavra manso não descreve alguém lerdo, apagado, esquecido das coisas. Manso é aquele que controla o poder, os próprios instintos, os próprios hormônios, aquele que pega um monte de dinheiro e o coração não sobe junto. É aquele que é posto numa posição de autoridade e isso não faz diferença nenhuma, porque presta contas a Deus e não fica arrogante por ter sido exaltado. Manso é quem vai herdar a terra. Está sendo feito um estágio agora, neste planeta, para saber se realmente vai poder fazer isso. Na parábola das minas, aquele que for fiel recebe cidades para governar (Lucas 19.11-27). A Bíblia está dizendo que esta vida é apenas o teste para, na eternidade, recebermos a verdadeira recompensa. Fiel no pouco, Deus coloca sobre o muito, e assim se reinará sobre a terra.
“Ó Senhor, Senhor nosso, quão magnífico em toda a terra é o teu nome.” Entre esses dois refrões, Davi mostra a grandeza da criação e o lugar especial que temos nela. Existe um texto na Bíblia em que Deus diz a alguém: “você expulsou demônio em meu nome, você curou enfermos em meu nome, mas apartai-vos de mim, porque nunca vos conheci.” Imaginar Deus dizendo “eu não conheço, não sei quem você é” é algo que deveria mexer com qualquer um.
A característica mais marcante desse salmo é a sua descrição do homem e do seu lugar na ordem criada. Mas o salmo não começa nem termina falando do homem. Ele não é antropocêntrico, é cristocêntrico, como tudo na Bíblia. Começa dizendo “Senhor, quão admirável é o teu nome em toda a terra” e termina dizendo exatamente a mesma coisa. O resumo do salmo passa por cinco pontos: a exaltação da majestade de Deus; o louvor dos pequenos e dos fracos, porque não se deve subestimar o que alguém humilde pode fazer, mover os céus, trazer julgamento sobre os poderes do mal, calar o inimigo; a contemplação do cosmos, o contraste entre a grandeza do universo e a nossa pequenez; a dignidade do homem, coroado como senhor desta criação; e, por fim, a repetição do refrão, a majestade de Deus sobre a terra.
Uma semana de adoração
É esse o convite que fecha a ministração deste Salmo 8: uma aliança de adoração, uma semana inteira até a Santa Ceia, marcada pela ausência intencional de murmúrios, reclamações e queixas, e pela busca deliberada de Deus. Louvar o seu nome muda a forma de pensar, produz uma mudança interior, na medida em que os olhos se voltam para as coisas certas e não para as coisas erradas.
O convite não é para um momento isolado, mas para um estilo de vida. Pegar essas canções e levá-las para o carro, para casa, fazer da vida um contínuo louvor, uma contínua adoração. “Cantai ao Senhor um cântico novo, cantai ao Senhor todos os moradores da terra, tributai ao Senhor glória e força, tributai ao Senhor a glória devida ao seu nome” (Salmo 96.1, 7-8). O louvor humilde silencia o inimigo, silencia os acusadores, silencia o acusador antigo. A adoração produz um efeito extraordinário sobre a atmosfera exterior de quem adora, atraindo pessoas e conexões certas, e livrando de coisas erradas, de conexões e frequências que não dariam certo.
Deus tem uma visita marcada para quem se dispuser a viver essa semana de adoração até a Santa Ceia, com o coração em altíssima frequência, nos leitos, em casa, no meio da família, nos carros, nas ruas, nas praças, no trabalho, vivendo a experiência de cura, libertação e salvação que só a presença de Deus pode dar. Não é surpresa se, no meio dessa adoração, Deus tocar alguém com visões, desatar nós da alma, quebrar a culpa e a condenação, a depressão e a tristeza que tentam invadir. Existe um encontro marcado entre Deus e cada um, e uma extraordinária colheita à espera de quem se dispuser a buscá-lo com um coração ensinável, disposto a aprender rápido, até com os próprios erros, e a tomar decisões pautadas naquilo que já se sabe ser a vontade de Deus.
Fica um convite final: assista ao vídeo completo dessa ministração sobre o Salmo 8 e acompanhe também o podcast de Bispo JB Carvalho, onde essa e outras mensagens continuam sendo aprofundadas.
