O Que o Amor de Mãe Ensina Sobre a Força da Presença
Houve um tempo em que as mulheres, ao dar à luz, não podiam ficar ao lado dos seus bebês nos hospitais. A medicina que eu amo e que escolhi para a minha vida por muito tempo afastou mães de seus filhos em uma fase crucial. Esse cuidado materno imediato acabou sendo deturpado com o tempo, sob a justificativa de que era preciso realizar diversos procedimentos na criança antes de entregá-la à mãe.
Tempos depois, a própria ciência resolveu estudar o que o coração materno já sabia e provou que o contato pele a pele prolongado no início da vida faz uma diferença extraordinária. Um estudo realizado com 3.211 recém-nascidos prematuros e de baixo peso mostrou que a mortalidade desses bebês chegava a 15,7%. Se olharmos friamente, dezesseis em cada cem crianças pode parecer um número pequeno. Mas quando acontece na nossa casa, esse percentual vira 100% e se torna um desastre na vida de uma mãe cheia de esperança. Esse mesmo estudo comprovou que o simples ato de colocar o bebê com a mãe logo após o nascimento reduz significativamente essa taxa para 12%.
Existe algo nessa entrega que a medicina não consegue explicar por hormônios ou nutrição, pois não passa alimento físico, mas passa vida. É o princípio da corregulação: eu te regulo, você me regula. O bebê é regulado pela mãe, e a mãe é regulada pelo bebê, tanto hormonal quanto emocionalmente.
A palavra amor acabou esvaziada com o tempo, mas só conhece o verdadeiro amor quem se sente amado por Deus. E é esse amor que garante que, mesmo quando um bebê não nasce inteiro, ou mesmo quando um filho se encontra no fundo de uma cela de prisão, existe uma pessoa que nunca vai abandoná-lo: a mãe. Hoje não venho aqui como médico. Venho como um filho para falar o que um filho médico, um pai que ama sua família e um marido tem a dizer sobre a força da presença.
Débora e o povo sem mãe
Pois o tema que nós estamos estudando hoje é sobre uma mulher. Mas o texto não começa com uma mulher, ele começa com um povo que se perdeu no caminho. E perderam-se tanto que, por 20 anos, eles estavam pagando o mesmo preço que os seus antepassados haviam pagado. E chega um momento em que esse texto traz uma nova agressão: 900 carros de ferro. Então, além de perdidos, eles iam ser agredidos, atacados novamente pela falha deles.
E nesse momento, o que acontece com a terra deles, com o mundo deles? Fica inacessível, se afasta, as estradas ficam abandonadas, e os viajantes seguiam por caminhos tortuosos. As aldeias, as cidades estavam ali desertas. E muitas mães estavam mais distantes dos seus filhos. O simples fato do afastamento, seja de uma mãe, ou entre pessoas que congregam a mesma fé, o mesmo princípio, o mesmo valor, deixa pessoas isoladas. E esse isolamento mata, esse isolamento traz angústia, esse isolamento acaba chegando a um ponto que se normaliza. E se tem algo que a normalidade nunca altera, é a verdade. A verdade sempre esteve lá.
Até que alguém ouve Deus e assume uma responsabilidade, e essa responsabilidade deixa de colaborar com a desordem. O homem é incapaz de sentir aquela dor, e não é por insensibilidade; é que eu não tenho como sentir o que a mãe sente, assim como a mãe não tem como ser o que o homem é.
“Cessaram as aldeias em Israel, cessaram; até que eu, Débora, me levantei, por mãe em Israel me levantei.” — Juízes 5.7
Essa mãe, que provavelmente foi mãe mesmo, mas que a Bíblia não precisa falar se ela foi mãe ou não, porque até se não tivesse sido, por algum motivo, por uma incapacidade ou infertilidade… As grandes mulheres no tempo bíblico eram marcadas por algumas características, e uma delas era a sua capacidade de dar filhos, a fertilidade. Pois essa mulher se levantou, ela era uma mãe. E ela se tornou uma mãe de todos. Tal como Samuel, ela era juíza, governante, profeta.
Por que será que Deus escolhe essa mulher para se levantar no momento em que o afastamento já estava impedindo que as pessoas estivessem com quem amavam, com quem pensavam da mesma forma? Para impedir que se unam, os governos mais nefastos da história sempre dividem as pessoas de tal modo que elas não conseguem mais se aglutinar. Pensar isolado não chega a lugar algum.
E ela se levanta numa época em que tantos falavam que a mulher era secundária em tudo. Aliás, o mundo mostrou por diversas vezes que não tem ninguém secundário. Cada um tem o seu papel. Levantar e se colocar como mãe em Israel é uma autoridade que protege, discerne, convoca e assume a responsabilidade pela vida coletiva. Percebe que tem um poder no homem que é assumir a segurança responsável pela vida coletiva. Mas assumir a responsabilidade por uma vida é só de quem deu a vida.
Débora não se tornou então uma única estrada, até porque as estradas estavam esvaziadas, segundo a Bíblia. Ela esperou a unção de Deus, que a colocou adiante: “Vá adiante, Débora”. E Débora teve que discernir, ouvir e convocar, para que Baraque liderasse dez mil homens sob o conselho dela, para que Jael assumisse a sua parte, e para que os líderes e a parte do povo que ouviram o chamado pudessem se levantar e se oferecer para essa batalha.
Quando o bispo me enviou essa proposta, eu fiquei pensando muito sobre o que é governar pela presença. Pois quando um bebê nasce e a mãe está do lado, ela está mandando ele viver, ela está com remédio para o bebê, ela está fazendo uma cirurgia no bebê para ele viver, ou ela está governando pela presença dela no local onde ela governa? E nunca ninguém será capaz de governar tanto quanto essa mãe. Aliás, na falta da mãe, uma mãe emprestada consegue governar pela presença.
E por que uma mulher naquele momento? Porque o povo estava sem mãe. E viver, crescer sem um pai, é um desastre. Mas sem uma mãe, é quase tirar um pedaço de uma criança, de uma pessoa. Essa pessoa que sabe que, no momento em que acontecer qualquer coisa na tua vida, quem vai estar lá chorando? A mãe. Quem estava aos pés do filho na cruz? A mãe. A mãe não abandona o filho nunca. Ela sempre tem esperança que aquele filho, que saiu do ventre dela, tem uma missão, tem um propósito. Mesmo que ela não conheça a palavra propósito, tem missão.
A infância da minha mãe
Aos 12 anos, ela e mais seis irmãos foram abandonados pelo pai e pela mãe, e tiveram que se tornar adultos muito cedo. Ela, como uma das filhas mais velhas, teve que se tornar, de alguma forma, a mãe muito jovem dos irmãos mais novos. A irmã menor tinha dois anos de idade. Em casa, sozinhos, aquelas sete crianças foram descobertas e percebidas por vizinhos pela ausência dos pais e pela falta de comida. Depois vieram os tios, até que, dentro de uma igreja, ela foi acolhida. Ali conheceu o meu pai e aos 18 anos engravidou. Quando eu nasci ela tinha 19, e quando a minha irmã Fernanda nasceu, ela tinha 20. Uma maturidade que ninguém precisa ter com essa idade para viver novamente um afastamento e uma perda.
A minha irmã Fernanda viveu apenas duas semanas, nessa época em que a mãe não podia ver a filha no hospital. Essa mãe já tinha um filho pequeno, com um aninho, em casa. Numa certa ocasião, numa manhã, depois de um final de semana em que o hospital não disponibilizava exames sanguíneos, ela recebeu a notícia de que a filha tinha morrido. E como ela tinha um filho de um ano que esperava em casa, a família colocou uma certa pressão: aquele filho já está há duas semanas sozinho, é hora de engolir a seco, molhado, aquilo que foi para engolir, e voltar para casa, ele precisa de você. Eu era aquele menino de um ano. Eu estava em casa com meus avós, que eram meus pais emprestados, e disseram a ela: o Vic está em casa, hora de voltar.
Foi só cinquenta anos depois, ao fazer uma imersão, que ela trouxe essa recordação. A minha mãe nunca quis remexer no passado, nunca quis falar sobre isso. Eu imaginei que haviam coisas muito fortes no passado dela e consegui convencê-la a ir a uma imersão emocional. Fiquei tão angustiado porque são pacientes meus, o Paulo Vieira e a Camila, que falei com a assessora deles: “Fica de olho nela, que ela vai fugir na hora em que começarem a falar do passado”.
Cinquenta anos depois, ela trouxe a recordação. Sabe o que ela me conta? Que não era a primeira ausência que ela tinha sentido, ela já carregava uma ausência do passado muito profunda. Mas foi o primeiro momento em que ela lembrou de alguns detalhes, para poder pensar sobre isso novamente e deixar a vida dela fluir de alguma forma por aquele caminho que estava interrompido. Deus encontrou vários outros caminhos, porque depois de mim e da Fernanda vieram mais três filhos, somos em quatro filhos em casa. Mas uma falta que para os outros pode parecer pequena, aquele um filho, para uma mãe, é sempre um vazio que vai ficar dentro dela. Ainda mais quando ela não teve a oportunidade de ver, de abraçar.
Nessa imersão ela lembrou da roupinha da Fernanda, que tinha apagado da memória. Lembrou do caixãozinho branco. Lembrou de quando, no dia de finados, foi ao cemitério e meu pai teve que dizer a ela que não fazia mais sentido continuar indo. Todo esse período da vida dela tinha ficado completamente apagado.
A prisão no Egito
Cortamos para a pandemia. Aquele filho primogênito dela, que foi a primeira sensação de que ela tinha construído uma família, passa a se posicionar publicamente. E essa posição começa a custar cada vez mais caro. No meio de cancelamentos, mentiras e calúnias, eu tive que entender mais uma vez que quanto mais especial você se torna para Deus, mais importante você se torna para o inimigo. Naquele momento, meu filho tinha recém-nascido e eu resolvi viajar ao Egito para gravar um material sobre medicina antiga para uma plataforma de saúde cujos lucros eu doava.
Até que, por exposição de um recorte de uma parte de um vídeo longo dos meus stories, o recorte atravessou uma fronteira indescritível e virou matéria nos Estados Unidos. Pois eu fui preso no Egito. Supostamente eu fui detido para esclarecimentos do porquê de uma piada que fizeram comigo, e eu devolvi a piada. Mas o recorte ficou a minha.
Ali, sobreviver deixou de ser uma metáfora. Eu não pensava em mim; olhava para o meu filho de dois anos e pensava que ele era muito novo e não lembraria de mim. Fiquei preso numa das prisões mais desumanas do mundo, a Scorpion. Não tinha lugar para sentar, não tinha lugar para deitar, não tinha lugar para fazer as necessidades. A água que eu tinha era a água que pingava de um caninho nesse buraco das necessidades. Eu orava a Deus pedindo que preservasse a minha esposa e o meu filho, mas a minha maior aflição era a minha mãe. A gente pode escolher uma nova esposa, um novo marido, ou um filho ter um novo pai. Mas a mãe não escolhe perder um filho. Para ela, seria a segunda perda.
Foram sete dias de cativeiro. Quando chegou ao Brasil a primeira notícia de que eu poderia não voltar, a minha mãe caiu. Ficou dois dias sem comer, sem conseguir tomar água, coberta com um cobertor, enquanto meus irmãos não sabiam o que fazer. Mas uma mãe sempre se levanta. Ela se levantou lá em Porto Alegre, não falou para ninguém, pegou um avião até Brasília e disse: “Eu só saio daqui quando resolver”.
Eu aprendi lá dentro que a fé nunca foi um contrato de ausência de dor; ela é a presença em meio à dor. Deus não nos prometeu um caminho sem gigantes, Ele prometeu que nunca nos deixaria sozinhos diante deles. Nem sempre Ele vai nos poupar da cova, mas invariavelmente Ele vai descer conosco até o fundo dela. O evangelho não anestesia a realidade, ele a ressignifica. Eu nunca perdi a fé lá. Tive medo, mas, por incrível que pareça, tive a paz que excede todo o entendimento.

As enchentes do Rio Grande do Sul
Dois anos depois, eu me preparava para ir em uma missão de paz no Congo. Estava tudo pronto, passagem comprada. Uma semana antes, vieram as enchentes no Rio Grande do Sul. As águas cobriram todas as estradas de novo, exatamente como na época de Débora. A minha esposa olhou para mim em casa e disse: “Vic, o que tu está fazendo em casa? A tua mãe largou tudo da vida dela e está lá no Sul fazendo comida para o povo. Vai lá ajudar ela”. Tive a bênção de ter em casa uma esposa que entendeu que eu tinha uma missão na rua e me apoiou.
Ao chegar lá, enxerguei a minha mãe com algo que só a Palavra de Deus explica. O que faz uma mulher largar tudo na idade dela para ficar dia e noite se doando? A minha mãe ficou dois anos lá. Ajudou a coordenar a distribuição de mais de 45 milhões de reais em doações e a construir mais de 30 casas. Eu tive que voltar a trabalhar depois de um tempo, mas ela não sossegou enquanto não entregou até o último real.
O fruto disso não foi uma mulher mais admirada, ela nunca precisou disso. O fruto foram pessoas menos abandonadas. A menina que foi deixada na infância tornou-se a mulher que não deixava ninguém para trás. Ela entregou tudo o que não tinha recebido dos pais e fez com que as aldeias voltassem a viver. Mas antes de fazer as aldeias de fora viverem, a nossa principal missão é fazer a aldeia da nossa casa viver. Não há sucesso na vida profissional ou social que compense o fracasso do nosso próprio lar, e ela entendeu isso muito cedo.
Débora não se levanta para construir uma imagem. O sinal de uma mulher governada pela presença não é quantos dependem dela, é quanta vida volta a obedecer à própria missão ao redor dela. Vocês, mulheres, têm uma sensibilidade no cuidado que a medicina convencional não alcança. Vocês transformam o cuidado em cura ao simples toque. São a imagem mais bela da medicina.
O nome da minha mãe é Maria Cristina. O nome da minha filha é Maria. Dificilmente vou conseguir ter a dimensão de tudo o que essa presença continua provocando dentro de mim. Se as mulheres que vocês mentoram, orientam ou pastoreiam um dia duvidarem do poder de mamãe, por qualquer coisa que possa ter acontecido em suas vidas, lembrem: Débora está dentro de qualquer uma delas. A Maria está dentro de qualquer uma delas.
Em toda cova em que fui colocado, quem mais renasceu com o meu retorno foi a minha mãe. Ver os filhos cuidando dela hoje é a prova de que o que se planta com amor continua dando frutos. Há cerca de um mês, em um evento com 600 homens, me pediram para falar sobre a importância do meu pai. Eu saí de lá honrado, mas com um peso no coração, perguntando a Deus: “Quando é que vou poder fazer isso pela minha mãe?”
E vocês me deram um presente que eu sei que é o presente de Deus. Eu nunca imaginei que alguém fosse me chamar para falar justamente numa passagem que, em todos os dias das mães, eu falo sobre. E Deus me deu a oportunidade, um mês depois de eu me sentir tão amargurado, de tocar a vida das pessoas. E agora eu pude saber que a história da minha mãe, de alguma forma, vai ficar uma pontinha com vocês. E não tem nada a ver com a minha mãe, tem a ver com o presente que vocês me deram.
Sobre Victor Sorrentino
O Dr. Victor Sorrentino é médico formado pela Universidade Luterana do Brasil, especialista em cirurgia plástica e pós-graduado em nutrologia e nutriendocrinologia funcional. É membro da American Academy of Anti-Aging Medicine.
Tornou-se um dos nomes mais conhecidos da medicina integrativa no Brasil, com foco em longevidade saudável, e é idealizador e professor da pós-graduação em Medicina Funcional Integrativa, voltada a profissionais de saúde, e da plataforma Vida & Saúde, voltada ao público leigo. É palestrante, escritor e apresentador de podcast.

