Salmo 127: a casa que Deus edifica e o legado que passamos aos filhos
Salmo 127.1-2, o cântico das ascensões atribuído a Salomão: a advertência de que toda casa, toda cidade e todo esforço humano são vãos se o Senhor não os edificar e não os guardar.
Há salmos que parecem escritos para serem cantados em festa e há salmos que parecem escritos para serem lidos em silêncio, quase como uma advertência sussurrada. O Salmo 127 é os dois ao mesmo tempo. Ele foi cantado, historicamente, por peregrinos que subiam a Jerusalém, num conjunto de quinze salmos que vai do 120 ao 134, chamado de cântico dos degraus ou cântico das peregrinações. Mas ele também é, desde a primeira linha, uma advertência dada de cima para baixo, sem rodeios, sobre tudo aquilo que o homem constrói sem contar com Deus.
O salmo é intitulado cântico das ascensões de Salomão, já que é atribuído a ele. E não é um detalhe qualquer que seja usado, até hoje, em cerimônias judaicas de casamento e de nascimento. Charles Spurgeon, o príncipe dos pregadores, chamava esse salmo de cântico da família feliz. Jonathan Edwards, o pai do primeiro grande avivamento americano, via nele o retrato da bênção de Deus sobre a herança espiritual. Dois homens, séculos e continentes de distância um do outro, olhando para o mesmo texto e enxergando a mesma coisa: um salmo sobre o que permanece depois que a construção humana já caiu.
Se o Senhor não edificar a casa
O salmista não começa devagar. Ele já chega dando na canela, como diz o próprio texto do Salmo 127.1: a menos que o Senhor construa a casa, ela vai cair. Sem a bênção de Deus, em vão trabalham aqueles que a constroem. E mais, a sentinela é inútil se Deus não proteger a cidade. Para o comentarista Morgan, nenhuma construção de casa é bem-sucedida se Deus não for levado em conta. Ele fala de homens que constroem casas com cuidado e a um custo enorme, apenas para vê-las ruir em pedaços, porque Deus foi esquecido. Deus foi esquecido.
Há um lema latino que nasce diretamente desse versículo: Nisi Dominus frustra, sem o Senhor, frustração. Sem o Senhor, frustração. É o lema da cidade de Edimburgo, na Escócia, gravado em seu brasão, fixado nos documentos oficiais da cidade até hoje. E esse lema poderia ser anexado à vida de tanta gente que insiste em viver sem o Todo-Poderoso, construindo carreira, casa, família e igreja como quem constrói sozinho, como se a arquitetura da vida dependesse só de esforço, de disciplina, de estratégia.
A palavra chave desse primeiro bloco é vazio. É oco. É sem sentido. A estabilidade não vem do tijolo, não vem do plano de negócios, não vem da genética boa. A estabilidade vem de Deus, tanto no lar quanto na linhagem espiritual, quanto na nação. O sucesso de uma geração depende de fundações estabelecidas por Deus. Ou Deus é o arquiteto dessa construção, ou ela vai ao chão.
A casa firme prometida a Davi
Para entender de onde Salomão tira essa frase, é preciso voltar a Segunda Samuel, capítulo 7. Davi tinha um desejo, o desejo de construir um templo para Deus, uma casa para o Senhor. E Deus inverte a proposta. Ele diz a Davi que gostou da ideia, mas que Davi era um homem de sangue, um homem de guerra, e que seria o filho de Davi quem construiria. E então vem a virada: já que Davi quis construir uma casa para Deus, Deus vai construir uma casa para Davi.
Deus promete descanso de todos os inimigos, e promete mais do que isso, promete casa. Mas aqui casa é mais do que um prédio, mais do que um edifício. É uma dinastia, é um legado espiritual, é uma descendência abençoada. Deus promete mais do que tijolos, ele estabelece uma linha de continuidade para cumprir seu propósito no mundo. Uma linha de continuidade, uma sucessão.
E é exatamente essa promessa, feita a Davi em Segunda Samuel 7, que Salomão está ecoando quando escreve, décadas depois, que se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que edificam. Salomão não está inventando uma frase de efeito. Ele está repetindo, em forma de cântico, uma promessa que ouviu sendo feita ao próprio pai. Deus é o verdadeiro construtor de uma linhagem, de uma dinastia sólida, firme, que permanece.
A casa que Deus constrói não é só física. É de pessoas, de valores, de missão. Uma casa firme não é apenas uma estrutura sólida, é uma família enraizada na presença e no propósito de Deus. A missão dos pais não é construir apenas uma vida confortável para os filhos, mas uma casa que Deus possa habitar e sustentar. Essa é a maior herança. Esse é o maior legado.
Bait, baná e a raiz de uma família
Existe, na língua hebraica, uma conexão entre as palavras que vale a pena nomear antes de seguir. O comentarista Clarke observa que ben significa filho, que bat significa filha, e que bait, casa, vem da mesma raiz de baná, que quer dizer construir, edificar. Porque filhos e filhas constroem uma casa, ou constituem uma família, tanto quanto pedras e madeira constroem um edifício. A própria língua já carrega a teologia: não existe casa sem gente, e não existe família sem construção.
No texto de Segunda Samuel sobre a casa firme que Deus promete a Davi, quando os dias de Davi se cumprirem e ele descansar com os pais, Deus levantaria seu descendente e estabeleceria seu reino. Este edificaria uma casa ao nome do Senhor, e o trono desse reino seria estabelecido para sempre. Deus se comprometeria a ser pai desse filho, e se ele viesse a transgredir, seria castigado, mas a misericórdia de Deus jamais se apartaria dele como se apartou de Saul. A tua casa e o teu reino, diz o texto, serão firmados para sempre diante de ti. Teu trono será estabelecido para sempre.
Esse texto anula, de uma vez, toda conspiração e toda leitura ligeira que diz que Salomão foi para o inferno, que Salomão se perdeu de vez. Salomão desviou, sim, isso é verdade, mas Deus corrigiu e o levou de volta ao caminho. A tua casa e o teu reino serão firmados para sempre, diz a Bíblia. Aqui, casa firme é promessa inviolável de estabilidade política e espiritual sobre a linhagem de Davi. Para os comentaristas Keil e Delitzsch, a casa prometida trata-se de uma linhagem real perpétua que culmina no Messias, em Jesus Cristo. E a graça soberana de Deus deu a Davi mais do que ele pediu.
É engraçado isso. Deus deu a Davi mais do que ele pediu. Deus gostava desse Davi. Deus gosta desse Davi. É como se Deus dissesse: eu gosto desse menino, esse rapaz me chamou atenção. O fundamento do pacto davídico aparece também no Salmo 89, ecoado depois no Novo Testamento, em Lucas e em Atos. Ali, Deus fala de ter encontrado Davi, seu servo. Achei Davi. É quase um eureca, um encontrei o que eu buscava: um homem guerreiro, corajoso, mas com coração humilde, quebrantado. Achei Davi. Olha ali aquele menino, aquele garoto. Esse menino tem que ser estudado.
Deus promete que os inimigos jamais o surpreenderiam, que sua fidelidade e bondade acompanhariam Davi, que em nome de Deus cresceria o poder dele. E é essa promessa, feita a um homem de carne e osso, que aponta para além dele mesmo. Davi é o arquétipo do Messias. O Messias é chamado, no Novo Testamento, de filho de Davi. Deus promete fazer durar para sempre a descendência e o trono de Davi como os dias dos céus, e mesmo que os filhos desprezassem a lei e fossem punidos por isso, a bondade de Deus jamais seria retirada, a aliança jamais seria violada, nem o que saiu dos lábios de Deus seria alterado.
O que Davi deixou para Salomão
Deus prometeu a Davi uma casa firme, e casa firme aqui significa estabilidade, continuidade através das gerações. Deus está mais interessado em formar pessoas do que prédios. E o legado que Davi deixou a Salomão não foi apenas um trono. Foi um pacote de missão, de princípios e de recursos. Vale a pena olhar cada peça desse pacote com calma, porque ele é, hoje, um roteiro de paternidade tão válido quanto era há três mil anos.
O primeiro legado que Davi deixa é espiritual. Ele deu a Salomão fé e aliança. Davi transmite a Salomão a consciência de que o reinado da casa de Davi é fruto de um pacto divino, e transmite à geração seguinte a própria aliança. Havia uma instrução espiritual direta nisso. Davi diz ao filho: conhece o Deus de teu pai, Salomão, e serve-o de coração íntegro, serve de alma voluntária, porque o Senhor esquadrinha todos os corações e penetra todos os desígnios do pensamento. Se o buscares, ele se deixará achar por ti. Se o deixares, ele te rejeitará para sempre. E então vem a incumbência: atende a tudo, porque o Senhor te escolheu para edificares casa para o santuário, sê forte e faz a obra. Esse trecho está registrado em Primeira Crônicas 28.
Davi não deixou apenas a fé como herança. Ele ensinou que a prosperidade do reino que ele construiu dependia da obediência à lei e aos princípios de Deus.
O segundo legado é moral, é de valores e princípios. Davi não foi um homem sem erros, mas foi um exemplo de arrependimento. Ele deixou claro que até um rei precisa se humilhar diante de Deus, e ele sabia fazer isso. Davi transmitiu coragem e liderança, disse a Salomão que a liderança exige coragem e dependência de Deus, transmitiu o temor de Deus acima do poder, do domínio, da autoridade. E Davi adverte que a estabilidade do trono depende da justiça.
Eu vou repetir isso, porque é o tipo de frase que precisa ser dita duas vezes: a estabilidade de uma nação depende da justiça. É por isso que tempos depois dessa conversa entre pai e filho, Salomão vai escrever, em Provérbios 14.34, que a justiça exalta as nações, mas o pecado é o opróbrio dos povos. E vai continuar, mais adiante, em Provérbios 16, dizendo que a prática da impiedade é abominável para os reis, porque com a justiça se estabelece o trono. E ainda vai dizer, em Provérbios 29, que quando se multiplicam os justos, o povo se alegra, mas quando domina o perverso, o povo suspira. E por fim, que o rei justo sustém a terra, mas o homem de impostos a transtorna. Diga isso para alguém, por favor.
O terceiro legado é material. O homem de bem deixa herança para os filhos e para os filhos dos filhos. Por favor, não morra deixando dívidas. Seu trabalho é dar uma vantagem, é passar o bastão lá na frente. Davi deixou recursos para a missão. A Bíblia diz que Davi fez os preparativos para o templo, reuniu ouro, prata, bronze, madeira, pedras preciosas, mão de obra, para que Salomão tivesse tudo pronto para iniciar a construção. Ele organizou o sacerdócio e o ministério levítico, estruturou turnos, funções, ministérios, para que a adoração fosse contínua. E por fim, ofereceu um plano estratégico, deixou alianças políticas feitas, território consolidado e um exército organizado para que Salomão começasse seu reinado de paz.
O legado de Davi a Salomão é um exemplo bíblico de transição geracional. O pai luta as batalhas e prepara o caminho para os filhos. O pai não deixa batalhas para os filhos, porque as batalhas que você não vence, seus filhos vão ter que lutar por você. O filho, então, consolida o que recebeu e expande a obra. E foi exatamente isso que Salomão fez, por bastante tempo.
Sucesso não é um evento, é continuidade
Sucesso na perspectiva bíblica não é apenas atingir objetivos pessoais, mas garantir que o propósito de Deus continue além de você. Além de você. Sucessão é o processo intencional de transferir missão, valores, responsabilidade para a próxima geração, seja ela biológica ou espiritual. Na Bíblia, sucesso não se mede pelo que você conquista em vida, mas pelo que permanece depois que você parte, pelo que dura depois da sua morte.
O reinado de Davi é considerado bem-sucedido não apenas pelas suas vitórias, mas porque ele preparou e capacitou Salomão para continuar a obra. Ele deu uma vantagem incrível ao filho. Como Moisés, que levou o povo até as portas da terra prometida, mas foi Josué quem os introduziu de fato na terra. O sucesso de Moisés foi formar um sucessor fiel. O sucesso de Moisés foi formar um sucessor fiel. O que Moisés fez não morreu, porque existiu um Josué para continuar aquilo que Moisés não terminou.
O mesmo padrão aparece em Elias e Eliseu. Eliseu recebe o manto, o ministério profético se multiplica porque Elias transferiu o manto e a unção. Mas o próprio Eliseu não foi capaz de transferir o manto adiante, porque o seu sucessor se contaminou com a lepra de Naamã. O ápice do ministério de Jesus foi preparar homens que, cheios do Espírito, continuariam sua missão. Foi isso que ele fez, ele se multiplicou em doze, depois em setenta e dois. E nós estamos aqui, dois mil anos depois, porque aqueles discípulos pegaram o bastão do bom mestre e o trouxeram até aqui. E nós vamos levar até o fim.
Paulo instruiu Timóteo, a quem ele chama de filho, a transmitir o que recebeu a homens fiéis que também pudessem ensinar. Como está em Segunda Timóteo 2.2, o que de mim ouviste mediante muitas testemunhas, transmite a homens fiéis e idôneos para instruir a outros. Sucesso não é um evento. Sucesso é continuidade. O que mantém o legado não são só habilidades, mas princípios. Sucessores não aparecem por acaso. Eles são treinados, formados, capacitados. E é preciso dar espaço e responsabilidade para a próxima geração. Espaço e responsabilidade para a próxima geração. Espaço e responsabilidade para a próxima geração.
Quando o legado dura mais que a vida
A história cristã está cheia de exemplos disso. João Wesley fundou o metodismo, mas seu sucesso se deveu à formação de líderes locais que perpetuaram o movimento depois da sua morte. Quando ele morreu, o movimento não parou, pelo contrário, ganhou proporções gigantescas. William Booth, fundador do Exército da Salvação, passou a liderança para o próprio filho, que expandiu a obra internacionalmente. Jonathan Edwards produziu uma geração de líderes, ministros, juízes, acadêmicos. Charles Spurgeon, que se converteu aos dezesseis anos e se tornou o príncipe dos pregadores, impactando milhões, dizia que o exemplo de piedade do pai foi a maior herança que recebeu. Eu aprendi sobre Deus, sobre caráter, sobre integridade, com o meu pai.
Às vezes o maior legado não é a posição social, mas o caráter transmitido. A integridade que você aprende com a primeira referência que vem de casa. Um homem que doma os seus instintos, as suas emoções, que controla a si mesmo, é mais poderoso do que um guerreiro que conquista uma cidade, diz Provérbios. Mas se a visão morre com você, sinto dizer que você fracassou. O sucesso autêntico não se mede apenas pelo que se conquista, mas pela capacidade de manter e multiplicar o que foi construído através de sucessores.
E isso não vale só para o campo espiritual. Civilizações, impérios, dinastias que prosperaram tinham mecanismos claros de sucessão. Falhas na sucessão geraram colapsos. O exemplo clássico é Alexandre, o Grande, que morreu cedo, e a morte sem sucessor fragmentou o seu império inteiro. Aristóteles e Cícero associavam virtude ao legado, a vida boa é aquela que constrói algo que permanece. Hannah Arendt via a educação como a ponte entre o mundo velho e o mundo novo, sucessão como um ato de responsabilidade. A continuidade de valores e cultura é o que mantém sociedades coesas.
Mas a ausência de sucessão cultural e moral resulta em colapso social. No Brasil, temos uma política de alguém governar e, depois que termina, desfazer tudo que foi feito para fazer tudo diferente. Assim como no Egito, onde os primogênitos morreram e faltou sucessão a partir dali, e até hoje o poder não é transmitido pacificamente em tantos governos, porque falta sucessores, alguém que pegue a partir daquilo que foi construído e dê continuidade. A alma do conservadorismo é construir sobre as conquistas dos que vieram antes de nós. Isaac Newton dizia que estava assentado sobre os ombros dos gigantes, e por isso conseguia ver mais longe. Conservadorismo não é ser retrógrado diante do progresso, é dizer que valorizamos o passado e todas as suas conquistas, e estamos prontos para construir a partir do ponto que eles nos entregaram. Ser progressista, nesse sentido negativo, é fazer tábula rasa, destruir esses valores, esses princípios, esses avanços, querer reinventar a roda, reinventar o mundo, redefinir homem, mulher, família.
Empresas bem-sucedidas têm planos de sucessão para preservar cultura e estratégia. Falhas nesse processo provocam a perda de identidade e o declínio. Herança não é apenas patrimônio, mas educação, valores e redes de relacionamento. Famílias que prosperam por gerações têm intencionalidade na formação dos filhos como sucessores. A família Médici, no Renascimento, criou um legado cultural e financeiro por gerações através de alianças estratégicas. As indústrias familiares japonesas se sustentam por sucessão e valores, algumas com mais de quinhentos anos de existência. Na Ford Motors Company, Henry Ford passou o bastão para o filho, que depois da Segunda Guerra modernizou a gestão, trouxe executivos qualificados e lançou carros icônicos como o Mustang. Na Walmart, Sam Walton comissionou os filhos e formou a liderança para manter a cultura de preços baixos, logística eficiente, e hoje a empresa continua sendo a maior varejista do mundo. A Samsung teve três gerações que transformaram a empresa de um comércio local em uma gigante da tecnologia global.
Sem sucessões políticas bem-sucedidas não existe estabilidade nem continuidade de visão. George Washington foi o primeiro presidente americano, e passou o bastão para John Adams, na primeira transição pacífica de poder da jovem república, fortalecendo a democracia. Esse era o grande medo deles, tanto que a emenda das armas nasceu da ideia de que, se o governo se tornasse tirânico, o povo teria o direito de se armar para lutar contra a tirania. Esse era o grande princípio americano. Winston Churchill transmitiu o poder a Clement Attlee no Reino Unido, e apesar de partidos diferentes, ideias diferentes, a transição preservou a estabilidade britânica do pós-guerra. Billy Graham passou o bastão para Franklin Graham, que assumiu a Associação Evangelística Billy Graham, mantendo as cruzadas e ampliando a atuação humanitária.
A geração que não conhecia o Senhor
Sem discipulado, movimentos espirituais morrem em uma geração. É incrível como pessoas começam coisas incríveis, extraordinárias, e elas simplesmente acabam. Como diz a Bíblia em Juízes 2.10, toda aquela geração foi também congregada aos seus pais, e outra geração se levantou depois dela, que não conhecia o Senhor, nem tampouco as obras que ele fizera a Israel. Essa foi a tragédia dos juízes.
E veja o que diz Juízes 17.6: naqueles dias não havia rei em Israel, cada qual fazia o que achava mais reto. Parece a internet, terra de ninguém, sem ordem, onde todo mundo é especialista em nada. Sem a sucessão de líderes capacitados, o povo fica perdido. Como diz a Bíblia, sem visão, sem profecia, o povo se corrompe, mas o que guarda a lei, esse é feliz.
Existe um dado que vale repetir com todas as letras: mais de setenta por cento das empresas familiares não sobrevivem à segunda geração. Eu vou repetir esse dado, mais de setenta por cento das empresas familiares não sobrevivem à segunda geração, por falta de preparo. Construir é grande, mas perpetuar é muito maior. O verdadeiro teste do sucesso é o que acontece quando você não está mais presente. O que não é transmitido se perde, e o que não é multiplicado morre.
O sono que só Deus dá
Depois de falar de casa e cidade, o Salmo 127 muda de tom. Inútil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão que penosamente grangeastes. E olha só essa frase seguinte: aos seus amados ele o dá enquanto dormem. Esse Salomão é esperto.
A confiança que muitos depositam no trabalho árduo demonstra confiança em si mesmo, e não em Deus. A insegurança é uma falsa segurança. É segurança no lugar errado. A ansiedade é fruto da dúvida, da falta de confiança em Deus. E na linguagem do salmista, isso é comer o pão das dores. Charles Spurgeon descreve esse pão das dores como a vida de miséria e trabalho de quem se lamenta com as próprias decepções, consumido pela inveja do progresso alheio, aflito por perdas e injustiças, onde não há fim para todos os seus trabalhos. Essa gente está lá na internet, gritando aleluia e sangue de Jesus tem poder, mas por dentro comendo o pão das dores.
Salomão não se manifestou contra o trabalho árduo. Existem textos em Provérbios que falam sobre diligência, sobre o preguiçoso que precisa aprender com a formiga. Mas Salomão apresenta o modo de vida mais elevado, que começa com a confiança no Senhor sobre o próprio trabalho. Longas horas não significam trabalho próspero. O homem exausto pelo trabalho come o pão amargo. A bênção de Deus é dar sono aos seus amados. Nessa era de gente tomando remédio para dormir, isso se aplica poderosamente na vida de muita gente.
O trecho pode ser traduzido literalmente como: aos seus amados ele dá o sono, ou aos seus amados ele dá durante o sono. Matthew Henry, o linguista incrível que deixou uma Bíblia de referência clássica, dizia que Deus pode fazer mais por nós em um momento da sua graça do que nós podemos fazer em anos de trabalho ansiosos. O sono é símbolo de confiança. Os comentaristas Keil e Delitzsch dizem que Deus dá aos seus amados o próprio sono, isso é paz e descanso, e nesse descanso, enquanto se descansa, o sustento vem naturalmente.
Repouse essa semana, porque no vosso descanso, na vossa confiança, está a vossa força. Spurgeon dizia que o sono do justo é tão produtivo quanto o trabalho do ímpio. Deus nos sustenta mesmo quando não estamos produzindo. Excesso de trabalho sem descanso é sinal de falta de fé. Enquanto você descansa, Deus continua trabalhando.
E há uma camada a mais nisso. Aos seus amados é, ao que tudo indica, uma referência de Salomão a si mesmo. Salomão foi chamado de Jedidias, que quer dizer o amado, o querido de Deus, o amado de Jeová. Ele está falando sobre si mesmo. Deus dá o pão enquanto ele dorme. Esse Salomão tem uma autoestima boa. E eu gosto dessa gente com autoestima boa, que fala de si mesma em enigmas, mas ao mesmo tempo está confiando em Deus e não em si mesma.
O texto que registra esse nome está em Segunda Samuel: Davi veio a Bate-Seba, a consolou, se deitou com ela, teve com ela um filho a quem deu o nome de Salomão, e o Senhor o amou. Davi o entregou nas mãos do profeta Natã, e ele o chamou de Jedidias, por amor do Senhor. Deus chamou Salomão de o amado de Jeová.
Mas um pai que não descansa em Deus transmite inquietação aos filhos, e muitas vezes está usando a própria família como paraíso substituto, tentando resolver na produtividade o que só se resolve na confiança. Vai melhorar, acredite. Vai embora, preocupação tediosa e inquietante, deixe-me descansar. Doce fé e esperança, feche meus olhos e acalme meu coração. Jesus, dê-me sono, e dormindo, dê-me o desejo do meu coração, para que eu possa acordar e ficar satisfeito.
Herança do Senhor são os filhos
Herança do Senhor são os filhos, o fruto do ventre é o seu galardão. Herança indica propriedade de Deus confiada aos pais. Os filhos não são nossos, são de Deus. Alguém já perguntou, e é uma pergunta antiga do pensamento judaico: por que a casa está sendo construída se não é para a família? E por que os guardas protegem a cidade se não para as famílias que vivem nela? Naquela época, como hoje, a família era a unidade básica e o elemento mais importante da sociedade. O que estamos fazendo? Deve ser para a família, ou não faz sentido.
Clarke escreve que os filhos são herança do Senhor, e o fruto do ventre é sua recompensa, e aquele que os deu os alimentará, pois é um fato, e a máxima formada a partir dele nunca falhou: onde Deus envia bocas, ele envia pão. Essa é a filosofia contrária ao que muitos pregam por aí, de muitas bocas para comer e pouca comida. Não é assim. Quando Deus envia filhos, ele envia anjos. Quando Deus envia filhos, ele envia provisão.
Spurgeon diz que Deus dá filhos não como uma penalidade, nem como um fardo, mas como um favor. Eles são o sinal do bem. Se os homens souberem como recebê-los e educá-los, eles não são bênçãos duvidosas, só somos nós que somos pessoas duvidosas. Não existem filhos bastardos, só pais bastardos. Não existem filhos ilegítimos, só pais ilegítimos. Mulheres, o fruto do ventre é a sua recompensa. Mulheres, o fruto do ventre é o seu galardão, diz o texto.
Vidas que quase não nasceram
Há histórias conhecidas de pessoas que impactaram profundamente o mundo, mas que, segundo relatos confiáveis, quase não nasceram, porque suas mães enfrentaram muita pressão para abortá-las. É o caso de Andrea Bocelli, o tenor e compositor italiano, um dos mais admirados do mundo. Sua mãe foi aconselhada por médicos a abortá-lo, porque previam que ele nasceria com deficiência. Ela recusou o conselho. Ele nasceu com problemas de visão e ficou cego ainda criança, mas se tornou um dos maiores cantores da história.
É o caso também de Steve Jobs, cofundador da Apple. Sua mãe biológica era universitária, solteira, e considerou o aborto. Decidiu levar a gestação adiante e entregou o filho à adoção. Jobs se tornaria um dos maiores inovadores tecnológicos do século vinte. O que seria o mundo sem ele? A lição é que vidas não planejadas podem transformar a história.
E é o caso de Beethoven, o compositor alemão considerado um dos maiores gênios musicais de todos os tempos. Segundo alguns relatos históricos, sua mãe sofreu pressões para interromper a gestação devido a problemas de saúde e dificuldades financeiras. Ela não cedeu, e nasceu um homem que mudou a história da música.
O fruto do ventre é o seu galardão. Mesmo quando o contexto parece desfavorável, Deus tem um propósito grandioso para todas as vidas que ele enviou ao mundo. Cada criança que nasce é uma mensagem de Deus dizendo que o mundo deve continuar. Alguém já disse que cada criança que nasce é Deus dizendo: eu não desisti de vocês. Continua acreditando.
Deus disse a Jeremias, em Jeremias 1.5, que antes de formá-lo no ventre materno já o conhecia, que antes que saísse da madre já o havia consagrado e constituído profeta às nações. Cada vida é intencional. Não existe acidente, nesse sentido, para Deus. Deus confia vidas aos pais como mordomia sagrada.
Flechas na mão do guerreiro
Filhos são postos de Deus, emprestados a nós, como flechas na mão do guerreiro, assim os filhos da mocidade. Feliz o homem que enche deles a sua aljava, não será envergonhado quando pleitear com os inimigos à porta. Então, caros irmãos e irmãs, ofereçam apoio, sustento, suporte às mães grávidas que estão em crise. Pais, vocês não sabem o alcance da flecha que vocês têm na mão. Nossos filhos são flechas com alvos que não conseguimos imaginar no presente, onde eles podem chegar. Vidas preservadas devem ser formadas e direcionadas.
Como disse John Stott, o pai é o arqueiro, sua função é lançar. Um rabino chamado Hadak dizia que a flecha é símbolo de impacto à distância, o pai molda, mas o filho alcança lugares que o pai não chegará. Nossos filhos irão aonde nós nunca fomos. Irão adiante, irão mais adiante, irão além, farão coisas mais extraordinárias. Foi o que Jesus disse aos discípulos, vocês vão fazer obras maiores. Esse é o coração de um pai.
João Crisóstomo, chamado de língua dourada, bispo de Constantinopla, dizia que como o arqueiro envia a flecha para onde a mão não alcança, assim o pai envia o filho para onde ele mesmo não pode ir. Mas se Deus não guiar a flecha, ela se perde no ar. Jerônimo, o tradutor da Vulgata, dizia que os filhos são confiados como flechas que devem ser preparadas para o alvo da glória de Deus. Jonathan Edwards afirmava que os seus próprios filhos eram pequenos discípulos sob a guarda pastoral dos pais.
Herança é a lembrança de que os filhos pertencem a Deus. Filhos devem ser treinados, alados com dever e amor, para voar em direção ao alvo, polidos e afiados para honrar e manter a causa dos pais. Devem ser direcionados ao ponto certo. Se os filhos são uma recompensa, então a grande bênção está na fidelidade e na felicidade de ter muitos filhos.
Não será envergonhado às portas
Por fim, tem a cena da porta. Não será envergonhado quando lutar, quando pleitear com os inimigos à porta. A porta de uma cidade antiga era o local do comércio, era o local da justiça, dos tribunais. Esse versículo fala de filhos piedosos ocupando posições de destaque. Está falando de filhos que ocupam lugares de influência, porque as portas eram esses lugares de decisão.
O portão era o local onde a justiça era administrada, o principal ponto de encontro de uma cidade. No antigo Oriente, era o lugar público de julgamento e decisões. Ali os anciãos julgavam casos, resolviam disputas, negociavam contratos. Quando a Bíblia diz que Jó estava nas portas da cidade, quando diz que Ló estava nas portas da cidade, está dizendo que ele era um juiz, uma autoridade reconhecida.
A imagem que temos do texto, então, é de um homem idoso que, amparado por filhos fortes, não teme acusações falsas nem injustiças contra ele. O fato é que seus filhos serão capazes de lidar com seus inimigos nos lugares mais disputados do planeta. Eles vão ocupar esses lugares mais disputados, as universidades mais concorridas, as áreas de tecnologia mais avançadas, os melhores empregos, as melhores empresas, os melhores negócios, os ministérios mais frutíferos, os lugares mais estratégicos. A porta do homem que teme a Deus estará cheia de filhos poderosos, porque a descendência do justo será poderosa na terra.
Hoje, a porta também representa lugares de influência na mídia, na política, na cultura. E filhos bem preparados podem pleitear pela fé e pelos valores dos pais diante da sociedade. Quem investe na próxima geração constrói uma defesa que nem o tempo, nem os inimigos, podem derrubar.
O resumo desse salmo é o seguinte: sem Deus, o esforço é vaidade. Filhos são um presente, não um peso. O papel do pai é preparar e lançar. E o legado é a defesa e a honra da família.
A carta de John Adams e o sacrifício de uma geração
Existe uma história que ilustra bem esse tipo de sacrifício intergeracional. John Adams, segundo presidente dos Estados Unidos, escreveu para seu filho, John Quincy Adams, algo que resume esse princípio: eu devo estudar guerra e política para que meus filhos tenham liberdade de estudar matemática, filosofia e arte. Adams via a própria geração como alicerce, lutando e construindo a segurança nacional para que a geração seguinte pudesse se dedicar a áreas mais elevadas do conhecimento e da cultura. Ele entendia o conceito de sacrifício intergeracional, abrir mão do conforto pessoal para que os descendentes vivessem melhor.
John Quincy Adams absorveu o senso de missão e serviço público do pai, tornou-se diplomata, secretário de estado e, eventualmente, o sexto presidente dos Estados Unidos. Depois da presidência, continuou servindo como congressista, lutando contra a escravidão até o fim da vida. O sacrifício do pai moldou não apenas a carreira do filho, mas o caráter e a visão de liderança dele.
A aplicação disso é simples de enunciar e difícil de viver: o sacrifício de uma geração prepara o palco para a próxima geração florescer. Enquanto tivermos playboys, gente que só quer se divertir, teremos casas em terra arrasada. Homens que só querem se satisfazer são meninos, não são adultos, não são homens de verdade. Nós estamos aqui hoje para confrontar os pais a fazerem uma transição intergeracional através de sacrifícios pelas próximas gerações. Pais batalham para dar segurança e valores. Filhos recebem um impulso para alcançar mais longe. Eles são lançados, impulsionados. Pais que entendem seu papel como alicerces não se importam em viver no porão da história, desde que seus filhos alcancem o andar de cima.
O velho e as tamareiras
E eu termino essa parte com a história do velho e do menino plantando tamareiras. É uma tradição árabe que conta que um ancião estava plantando tamareiras, árvore que só dá frutos depois de vinte anos. O homem já era velho e estava plantando tamareiras. Um jovem passou e perguntou: por que você planta se não vai viver para comê-las? O velho respondeu: eu planto porque outros plantaram para que eu comesse.
Legado é plantar o que talvez você nunca vá desfrutar, mas que vai abençoar os que virão depois de você. E você será lembrado na história como alguém que construiu pontes, caminhos, plataformas, ecossistemas que mudaram a realidade de uma geração e das próximas.
Ser pai e mãe é uma missão
Diante de tudo isso, vale a pena parar e decidir como se vai viver os próximos vinte anos. Trabalhar pelo futuro, trabalhar pelas próximas gerações, lutar pelos filhos, pelos netos, e quem sabe além disso. Eu quero desafiar você a assumir o papel de pai e de mãe de verdade. Ser pai é uma missão. Ser mãe é uma missão. Deus colocou instintos dentro do ser humano para a preservação da raça. Ele nos programou para lutar e amar.
A mensagem do evangelho é ama teu próximo como a ti mesmo. Em relação aos filhos, você ama mais do que a si mesmo. Essa é a programação divina para que possamos proteger e perpetuar a espécie humana, de forma que o maior instinto é o instinto maternal e paternal. Quando a Bíblia pergunta se pode uma mãe se esquecer do filho que amamenta, e responde que ainda que isso fosse possível, Deus jamais se esqueceria do seu povo, ela está descrevendo a conexão biológica mais poderosa que existe, o maior vínculo que existe.
Hoje o desafio é viver a história desse salmo como alguém que edifica com Deus, que convida Deus para sua empresa, para o seu negócio, que transforma a própria empresa em um negócio ministerial, onde Deus é sócio majoritário. Não é simplesmente para construir riqueza e ajuntar, ajuntar, ajuntar. É para construir um legado que vai alcançar pessoas depois de você, depois da sua morte. Legado é aquilo pelo qual você será lembrado.
Muitos de nós temos cinquenta anos pela frente, outros têm sessenta, alguns têm vinte, trinta. Estamos aqui para decidir como vamos viver os próximos anos da nossa vida. Qual será o nosso foco, o nosso objetivo? Queremos viver com propósito, viver no fluxo de Deus, no plano dele, e não apenas para a diversão, para o hobby, para o prazer. Isso é desperdício de existência. Queremos marcar essa vida, no tempo, com pessoas, e na eternidade queremos ser aclamados, como disse Paulo, que no dia do Senhor os discípulos seriam sua glória, sua coroa. O trabalho que ele fez por eles seria visto, seria público, seria conhecido, celebrado, na eternidade.
Estamos aqui para viver no tempo com os olhos na eternidade. Estamos aqui para viver no tempo com os olhos nas próximas gerações. Estamos aqui para viver no tempo com os olhos no Senhor. E a oração é a do próprio Salmo 127, a de que sejamos, como Salomão, filhos amados a quem Deus dá o pão enquanto dormimos, filhos amados a quem Deus dá o sono para descansar. Que a herança do Senhor, os filhos, o fruto do ventre, sejam recebidos como flechas na mão do guerreiro, e que ninguém seja envergonhado quando pleitear com os inimigos à porta.
Se você quiser ouvir essa mensagem completa, com todos os detalhes e a atmosfera do momento em que ela foi pregada, assista ao vídeo na íntegra ou acompanhe pelo podcast da Comunidade das Nações.
