A Minoria Criativa: o Remanescente Justo que Deus Sempre Levanta Antes do Juízo
Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens.
Mateus 5.13 (ACF)
Todo mundo quer ser maioria. Todo mundo quer estar do lado que ganha a votação, que enche o estádio, que domina o algoritmo. Mas a Bíblia nunca prometeu a igreja a maioria. A Bíblia prometeu à igreja o sal.
Sal é minoria em qualquer prato. Ninguém come uma colher de sal como refeição. Mas retire o sal e o prato inteiro perde o sentido. É essa a lógica que percorre toda a Escritura, dos patriarcas aos profetas, dos apóstolos aos pais da igreja: Deus não transforma o mundo pela multidão, Deus transforma o mundo por um remanescente. Um pequeno grupo de justos que funciona como freio à corrupção moral e como barreira contra o juízo. É esse remanescente que quero chamar, nesta reflexão, de minoria criativa.
O remanescente que ninguém vê e que sustenta tudo
Existe uma antiga crença judaica de que existem, em cada geração, pelo menos trinta e seis justos escondidos cuja presença preserva o mundo da destruição total. A tradição rabínica chama esses homens e mulheres de lamed vavnikim, os justos ocultos, aqueles que funcionam como escudo espiritual para o mundo sem que o mundo nunca saiba os seus nomes. Mesmo desconhecidos da sociedade, a fidelidade deles a Deus impede o julgamento divino de cair sobre todos.
Repare no mecanismo. Não são os aplaudidos que sustentam o mundo. Não são os influentes, os poderosos, os visíveis. São os fiéis escondidos. Essa é a primeira inversão que a Bíblia propõe ao nosso instinto: nós queremos ser vistos, Deus sustenta o mundo pelos que não precisam ser vistos.
Abraão negocia com Deus por dez justos
Esse princípio aparece com toda a força na intercessão de Abraão por Sodoma e Gomorra, em Gênesis dezoito. Deus já tinha proclamado juízo sobre a cidade, e Abraão se coloca diante dele com uma pergunta que ainda hoje sustenta toda a teologia da justiça divina.
“E chegou-se Abraão, e disse: Destruirás também o justo com o ímpio?”
Gênesis 18.23 (ACF)
Abraão começa perguntando por cinquenta justos. Deus aceita. Abraão negocia, reduz, insiste, até chegar a dez. E Deus promete poupar a cidade se houvesse dez justos em Sodoma. Mas nem dez foram encontrados. Deus tira Ló da cidade, sua mulher olha para trás e se torna estátua de sal, e as filhas de Ló vão para a caverna naquele episódio que gera as nações de Amom e Moabe. A cidade cai não porque Deus quisesse destruir, mas porque nem um pequeno remanescente justo foi encontrado ali dentro.
Esse é o princípio mais importante de toda essa reflexão: Deus está sempre disposto a estender misericórdia em favor de alguns fiéis. A pergunta não é se a maioria merece o juízo. A pergunta é se existe, dentro da maioria, um remanescente que sustente a cidade.
Noé, Elias e os sete mil que não dobraram o joelho
Deus encontrou um homem, Noé, que andou com ele, e essa caminhada atrasou a destruição do mundo até o dilúvio. Elias acreditava ser o único que ainda não tinha adorado Baal. Ele estava sozinho na sua percepção, isolado na sua fé, convencido de que era o último justo em pé. Mas Deus revela a ele que havia sete mil homens em Israel que não se curvaram a Baal.
Elias achava que estava sozinho. Elias estava errado. A existência daqueles sete mil fiéis demonstra que, mesmo nos tempos mais sombrios da história, Deus sempre preserva um remanescente para levar adiante os seus propósitos. No tempo mais sombrio da humanidade, Deus sempre tem um remanescente. No tempo mais sombrio da sua vida, Deus também tem um remanescente, e talvez esse remanescente seja você.
Daniel: reis morreram, Daniel permaneceu
Durante o exílio na Babilônia, Deus usou Daniel e seus três amigos, Sadraque, Mesaque e Abednego, como remanescente que preservou o povo judeu e estendeu o reino de Deus dentro dos próprios impérios babilônico e persa. Passou o rei, Daniel estava lá. Reis morreram, Daniel permaneceu.
Não é o império que garante permanência. É a fidelidade. Impérios nascem e morrem em algumas décadas. Um homem fiel atravessa dinastias inteiras porque a fonte da sua estabilidade não está no trono que muda de dono, está no Deus que não muda.
Agostinho, João Crisóstomo e o sal que atrasa o juízo
Os pais da igreja primitiva abraçaram esse mesmo conceito de remanescente justo. Em A Cidade de Deus, Agostinho de Hipona argumenta que a presença de cristãos dentro do império romano retardou o julgamento de Deus sobre o próprio império. A santidade dos santos, mesmo em meio a uma sociedade corrupta, agia como preservativo, retardando o pleno derramamento da ira de Deus contra a injustiça.
A ira de Deus se manifesta dos céus contra toda injustiça. Deus odeia a injustiça porque a injustiça machuca as pessoas. E quando não restam mais instâncias humanas capazes de julgar a injustiça, Deus tem que intervir. Ou nós chamamos o Batman. Como não existe o Batman, é você mesmo. Olha para o seu irmão. É você mesmo, mas não como um justiceiro, como alguém que vai ser o sal, a luz.
João Crisóstomo, outro pai da igreja, acreditava que assim como o sal impede que os alimentos estraguem, os justos preservam a sociedade da decadência moral completa por meio da piedade das suas orações. E é exatamente aí que a Bíblia nos leva agora.
A oração que vira chave nos céus
As Escrituras trazem exemplos concretos de justos que intercederam por um mundo pecador e, com isso, adiaram ou impediram o julgamento. Moisés intercedeu por Israel logo depois do episódio do bezerro de ouro. Deus chega a dizer que vai destruir todo o povo e levantar uma nova nação a partir de Moisés. E a intercessão de Moisés funciona de um jeito que o próprio texto descreve como Deus mudando de opinião. É incrível o texto. Deus cedeu às orações de Moisés. A oração de Moisés virou uma chave nos céus.
Daniel, sozinho na sua sala, no seu quarto, moveu os céus para cumprir a profecia de Jeremias sobre os setenta anos de cativeiro. Ele viu no livro qual era o tempo determinado, e decidiu jejuar e orar para que aquilo que já tinha sido dito se cumprisse.
Confessai as vossas culpas uns aos outros, e orai uns pelos outros, para que sareis. A oração do justo pode muito em seus efeitos.
Tiago 5.16 (ACF)
As orações do remanescente justo podem mudar o curso da história. Durante a Segunda Guerra Mundial havia grupos de intercessores que se moviam em oração e em jejum, mediando entre Deus e um mundo pecador, adiando o julgamento e promovendo o arrependimento e o reavivamento. Mas não adianta orar o Pai Nosso, cantar o hino nacional e ficar xingando o ministro. Quantos estão comigo aqui?
Sal da terra, luz do mundo
Jesus chama seus discípulos de sal da terra. No mundo antigo, o sal era usado para realçar o sabor dos alimentos e como conservante. Em climas quentes, os alimentos se deterioram rapidamente, mas o sal retira a umidade, impede o crescimento de bactérias e interrompe a decomposição. Chamar os seguidores de sal da terra indica que a presença dos discípulos de Jesus no mundo preserva o mundo da decadência moral e do julgamento.
Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens.
Mateus 5.13 (ACF)
Mas se os cristãos deixarem de ser justos, se os cristãos deixarem de ser santos, eles não poderão preservar o mundo. A influência deles é anulada. Se vocês falharem em temperar, vocês serão pisados. Se vocês forem mais do mesmo, vocês serão esmagados, porque não têm sabor. Vocês são igual a tudo o que está lá fora. Vocês não têm diferença.
Nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos que estão na casa.
Mateus 5.15 (ACF)
Você sabe por que essas luzes estão lá em cima? Porque elas iluminam o ambiente. Elas não ficam embaixo, porque embaixo elas perdem o seu poder de iluminar. Nós devemos ser o farol da cidade, a casa para onde todos olham e dizem que ali existe luz para resolver os seus problemas. E de fato existe. Se você pegar o que se prega aqui todo domingo e aplicar, sua vida será diferente. Isso não é mágica, é aplicação de princípios.
Paulo chama a igreja de filhos de Deus inculpáveis, irrepreensíveis, no meio de uma geração corrupta e perversa.
Para que vos torneis irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração pervertida e corrupta, na qual resplandeceis como luzeiros no mundo.
Filipenses 2.15 (ARA)
É isso que a igreja é. Levanta e resplandece, porque vem a tua luz.
Levanta-te, resplandece, porque vem a tua luz, e a glória do Senhor vai nascendo sobre ti.
Isaías 60.1 (ACF)
As trevas cobrem a terra, mas sobre ti está nascendo a glória do Senhor. O remanescente justo resplandece em um mundo escuro, refletindo a luz de Cristo. A santidade pessoal é a chave para preservar a sociedade do colapso moral. É por isso que a igreja tem que ser, de fato, diferente. Nós negociamos diferente, nós conversamos diferente, nós namoramos diferente, nós casamos diferente, nós usamos as palavras de maneira diferente. Nós não precisamos ser a maioria, só precisamos ser santos.
A santidade que começa dentro de casa
Paulo vai dizer que o marido incrédulo é santificado no convívio da esposa, e a esposa incrédula é santificada no convívio do marido crente.
Porque o marido descrente é santificado pela mulher; e a mulher descrente é santificada pelo marido; de outra sorte os vossos filhos seriam imundos; mas agora são santos.
1 Coríntios 7.14 (ACF)
O que a Bíblia diz é que maior é o que está em nós do que aquele que está no mundo.
Filhinhos, sois de Deus, e já os tendes vencido; porque maior é o que está em vós do que o que está no mundo.
1 João 4.4 (ACF)
Um cristão pode provocar uma mudança atmosférica onde chega. Ele começa fazendo isso dentro de casa. Deus não precisa de multidão dentro de casa. Deus precisa de um fiel. Um fiel. Então você pode dizer: meu marido não está fazendo a parte dele, eu faço a minha. Minha esposa não está fazendo a parte dela, eu faço a minha. É o bastante. Diga ao seu irmão: é o bastante.
Cidadania dupla: o mesmo relógio, outro tempo
Nós somos chamados a refletir uma imagem precisa de Cristo ao mundo. Jesus disse que somos a cidade iluminada sobre a colina, e que não se esconde o candeeiro debaixo do velador.
Paulo diz que não devemos nos conformar com este século.
E não vos conformeis a este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.
Romanos 12.2 (ACF)
A palavra usada ali não é cosmos, a ordem estética do universo que Deus amou e para a qual enviou o seu Filho. A palavra é aion, a era, a mentalidade, o sistema temporal. Não vos conformeis com esse século é o mesmo que dizer: não sejam moldados pelo espírito do tempo, pelo zeitgeist. Foi Hegel, o filósofo alemão, quem popularizou essa palavra para descrever a mentalidade dominante de uma época. Cada geração possui pressupostos, valores, sensibilidades e consensos que moldam a maneira como as pessoas pensam, e o cristianismo sempre viveu em conflito com esse espírito da era.
Jesus disse: eles não são do mundo, mas eu também não sou. Existe uma diferença entre o seu endereço e a sua cidadania.
Mas a nossa cidade está nos céus, de onde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo.
Filipenses 3.20 (ACF)
A palavra grega para cidadania ali é politeuma, que significa nossa comunidade política, nossa pátria, nossa constituição, nossa ordem civil. Filipos era uma colônia romana na Macedônia, cidade de soldados aposentados que reproduziam a cultura de Roma mesmo estando longe de Roma. Assim como o morador de Filipos era romano, o morador de Brasília que nasceu de novo é cidadão celestial. É cidadão de Brasília, cidadão do Brasil e cidadão dos céus. Nós vivemos no mesmo relógio, mas em outro tempo.
O mundo pergunta o que funciona. O reino de Deus pergunta o que é verdadeiro. O mundo pergunta o que dá prazer. O reino de Deus pergunta o que glorifica a Deus. O mundo pergunta o que está em alta, o hype do momento. O reino de Deus pergunta o que permanece para sempre. O hype passa, a moda passa, mas aqueles que confiam no Senhor são como o monte de Sião, que não se abala e permanece para sempre.
Em A Cidade de Deus, Agostinho explica que existem duas cidades, a cidade dos homens e a cidade de Deus. As duas coexistem na história, misturam-se geograficamente, mas têm amores completamente diferentes. Uma ama a si mesma acima de Deus, a outra ama Deus acima de si mesma.
Pedro escreve aos amados como peregrinos e forasteiros.
Amados, exorto-vos, como a peregrinos e forasteiros, que vos abstenhais das concupiscências da carne, as quais combatem contra a alma.
1 Pedro 2.11 (ARA)
A palavra grega ali é paroikos, aquele que mora perto mas não pertence, e parepidemos, o estrangeiro temporário, aquele que apenas está de passagem. Os heróis da fé confessaram que eram estrangeiros e peregrinos na terra, e não buscavam uma cidade construída pelos homens. Buscavam a mesma cidade que Abraão viu, quando saiu da sua terra e da sua parentela para persegui-la.
Porque esperava a cidade que tem fundamentos, da qual o artífice e construtor é Deus.
Hebreus 11.10 (ACF)
O apóstolo João vai ver essa mesma cidade descendo dos céus, em Apocalipse vinte e um. Nós vivemos na mesma rua, usamos a mesma moeda, falamos a mesma língua, mas seguimos outro rei. Nosso calendário aponta para a eternidade. Nós caminhamos em direção àquilo que permanece. Não estamos presos ao passado, nós pertencemos ao futuro.
O espírito da pós-modernidade e o homem sem profundidade
Nós não somos nem moderninhos, nem pós-modernos. O pós-moderninho é um tipo revolucionário, danoninho, floquinho de neve, que carrega consigo um adesivo bem à mostra dizendo: cuidado, é frágil. Na pós-modernidade a moda é se ofender, é ser vítima, é ter direitos por pertencer a uma minoria. Então a pessoa se junta a uma minoria só para ganhar privilégios. Todo mundo está tão sensibilizado que qualquer coisa que você diga vai gerar polêmica.
O homem pós-moderno é o homem massa. O que chamamos de pós-moderno é a produção de homens panqueca, amplos, finos, capazes de se conectar a uma vasta rede, mas sem nenhuma profundidade. Tem gente que é profundo. O espírito do tempo desvaloriza a fé, a verdade, a moral, os limites, desconstrói a linguagem, a estrutura e as categorias, e é isso que se vê no pós-estruturalismo de Foucault ou na desconstrução de Derrida. O resultado é um rastro de suicídio que não dá nem para medir, de depressão, de desesperança.
Se não há criador, não há distinção entre humano e animal, entre vivo e não vivo, entre masculino e feminino, entre bem e mal, entre luz e trevas. Essa desvalorização diminui a santidade da vida humana e leva as pessoas a julgar o ser humano com poucos direitos. Daí essa indústria de homicídios, de aborto, de maus tratos, de escravidão, de tráfico humano, de abuso, de violência.
O cristianismo criou uma civilização a partir de um grande mandamento, amar a Deus e amar o próximo como a si mesmo. Dignidade humana é uma invenção do cristianismo. Deus se fez um de nós e nos fez à sua imagem e semelhança. Direitos humanos não foram criados pelos comunistas nem pelos marxistas culturais, foram criados pela fé cristã. No cristianismo cada um de nós importa, porque somos a imagem de Deus, porque somos filhos de Deus. Mas se não há Deus transcendente, nem propósito transcendente, não há conceito de bem contra mal. Não há Nárnia, não há Tolkien, não há Senhor dos Anéis. Isso leva a um mundo de moralidade subjetiva, baseada nas opiniões e construções de quem está no poder.
O mundo não vai mudar enquanto o cristão médio for igual ao sujeito sem Jesus lá fora. Nós alimentamos a fragilidade ou desenvolvemos resiliência? Temos criado uma cultura de superação ou uma cultura de desculpas? Se você tem muitas desculpas, você não tem muitas vitórias.
Daniel sincronizado com o céu
Daniel vivia na Babilônia havia mais de setenta anos, mas, apesar de residir na Babilônia, estava sob o senhorio do Deus de Israel, não sob o poder do sistema caldeu. Ele se recusou a comer os manjares que lhe foram oferecidos. Recusou-se a se ajoelhar diante das imagens da Babilônia. Recusou-se a parar de orar mesmo sob um decreto do rei. Daniel estava na Babilônia, mas pertencia a outro reino. Vivia sob outro calendário, sob outro fuso horário.
Estando eu ainda falando e orando, e confessando o meu pecado, e o pecado do meu povo Israel, e lançando a minha súplica perante a face do Senhor, meu Deus, pelo monte santo do meu Deus, estando eu, digo, ainda falando na oração, o homem Gabriel, que eu tinha visto na minha visão ao princípio, veio, voando rapidamente, e tocou-me, à hora do sacrifício da tarde.
Daniel 9.20-21 (ACF)
Repare no detalhe. Ele estava virado para Jerusalém na hora marcada do sacrifício do templo, que nem existia mais, tinha sido queimado por Nabucodonosor. Daniel estava sincronizado com o céu, vivendo em outro referencial de tempo. Ele fazia parte de uma minoria criativa que não aceitava o ponto de vista predominante, e não usou o seu dom para se promover na corte de Belsazar.
A palavra influência vem da qualidade daquilo que flui por um propósito. Fluir não denota poder, coerção ou controle, mas sugere entregar-se, seguir no fluxo sem esforço. Você não consegue influência por esforço, mas por propósito. Cada um tem a sua porção, e a sua porção é muito linda. Se satisfaça com ela e viva a sua identidade, o seu chamado. Não crie uma caricatura, nem um personagem. Seja você, porque ser bonito é ser você mesmo.
Um reino que não veio para dominar
Jesus disse que o seu reino não é deste mundo.
Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui.
João 18.36 (ACF)
Isso não significa que o reino de Deus não seja da terra, não deva vir e chegar à terra. A própria oração do Pai Nosso pede: venha a nós o teu reino, faça-se aqui na terra como no céu. Meu reino não é deste mundo significa que os valores desse governo são diferentes dos valores de Roma, dos valores de Pilatos, dos valores de Herodes, dos valores de César ou de qualquer império, e diferentes também dos valores do espírito do tempo.
Se Jesus quisesse, ele teria conquistado o poder pela força, pela coerção.
Acaso, pensas que não posso rogar a meu Pai, e ele me mandaria neste momento mais de doze legiões de anjos?
Mateus 26.53 (ARA)
Se eu quisesse era fácil, mas eu não vim aqui para dominar. Eu vim aqui para morrer na cruz pela causa dos pecados dos homens. Eu vim aqui como cordeiro mudo levado ao matadouro. Eu vim aqui para substituir você que estava todo errado. Eu vim aqui para ser condenado por você, que era o réu. Eu vim aqui para justificar você. Eu vim aqui para defender você. Eu vim aqui para livrar você de você mesmo.
Jesus pegou uma bacia de água, colocou uma toalha na cintura e lavou os pés dos discípulos. Um rei lavando os pés dos seus súditos. Isso era impossível, impensável, ridículo, um absurdo. A Bíblia diz que, no dia seguinte, Pôncio Pilatos pegaria também uma bacia de água, mas para fugir da responsabilidade que era sua, e lavar as próprias mãos. Temos um rei que lidera pelo serviço, pelo exemplo. Ele não fez isso porque tinha algo a ganhar. Ele aprendeu que se perde primeiro para ganhar. Perder para ganhar. Tem gente que só quer ganhar. Ganhar sempre é para os fracos.
Os paradoxos do reino
Veja os paradoxos bíblicos, um atrás do outro, sem parar para respirar entre eles. Se eu quiser salvar minha vida, eu tenho que perder minha vida. Se eu quiser ser exaltado, eu tenho que me humilhar primeiro. Se eu quiser ser o maior, eu tenho que servir a todos. Se eu quiser ser o primeiro, eu tenho que ser o último. Se eu quiser mandar, eu tenho que servir. Se eu quiser viver no espírito, eu tenho que matar a carne. Se eu quiser ser forte, eu tenho que ser fraco, porque na fraqueza o poder de Deus se aperfeiçoa. Se eu quiser herdar o reino, eu tenho que ser pobre em espírito. Se eu quiser me reproduzir, eu tenho que morrer, porque o grão de trigo não pode produzir fruto se não morrer.
Se buscamos ascensão para preencher o nosso anseio de popularidade e importância pessoal, nós não diferimos do sistema que dizemos querer destruir. Se buscamos dinheiro para ostentação e para provocar inveja nos outros, nós somos idênticos ao sistema que propomos combater. Na verdade, fazemos parte dele. Se temos fome de poder, não estamos prontos para o poder. O desejo de adquirir poder para ganho pessoal não combina com um reino em que Deus deu a própria vida para servir a todos.
Quatro grupos e uma eclésia
Na época de Jesus existiam quatro grupos principais tentando responder à mesma pergunta: o que fazer com um mundo pagão dominando o povo de Deus. Os saduceus fizeram um pacto com os romanos, porque se preocupavam com poder, influência e controle. Eles se venderam ao império. Os fariseus eram separatistas, funcionavam como a polícia cultural, lamentavam o declínio da moralidade e queriam, pela santidade forçada e pelo arrependimento obrigatório, levar Israel de volta à antiga glória. Eram os talibãs daquele tempo. Os essênios se retiraram para o deserto a fim de escapar do mundo pagão, pregando o fim do mundo e o juízo final para os maus. E havia os zelotes, que queriam tomar o governo pela força das armas, com uma visão violenta e pragmática.
Na contramão de tudo isso, Jesus pregava uma visão diferente de transformação. Sua visão não era nem controlar o mundo, nem abandonar o mundo. Seu reino é feito de valores, justiça, alegria, paz e gozo no Espírito Santo, e sua estratégia recebe um nome específico: eclésia. Eu edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. A eclésia é uma minoria criativa unida numa teia de relacionamentos leais, articulada em uma rede de vida empenhada em transformar o mundo.
A palavra eclésia, na cultura romana e grega, era usada para a assembleia secular que se reunia para decidir questões sociais importantes. Qualquer situação que exigisse uma decisão relevante convocava a eclésia. Jesus toma essa palavra do vocabulário civil e a devolve com outro peso: o que vocês decidirem aqui, eu vou decidir nos céus. O que vocês ligarem na terra será ligado nos céus.
Os profetas já viam esse povo
A igreja ainda não tinha sido revelada, mas os profetas já apresentavam esse povo messiânico futuro por meio de imagens e figuras. Isaías fala de um povo iluminado em contraste com o mundo mergulhado em trevas, um povo que se torna referência e atrai reis e nações para a luz de Deus.
Mais adiante, a igreja é retratada como plantação sólida e frutífera, estabelecida pelo próprio Deus.
Eles serão chamados carvalhos de justiça, plantio do Senhor, para manifestação da sua glória.
Isaías 61.3 (NVI)
Ezequiel a chama de os mais terríveis estrangeiros das nações, e os intérpretes veem nisso uma igreja conquistadora, formada por estrangeiros de todas as nações, capazes de derrubar fortalezas espirituais.
Por isso eis que eu trarei sobre ti estrangeiros, os mais terríveis dentre as nações, os quais desembainharão as suas espadas contra a formosura da tua sabedoria, e mancharão o teu resplendor.
Ezequiel 28.7 (ACF)
Zacarias diz que esse povo será como pedras de uma coroa, resplandecendo sobre a sua terra, jóias preciosas na coroa de um rei. Oséias fala de um povo que não era povo.
E semeá-la-ei para mim na terra, e compadecer-me-ei dela que não obteve misericórdia; e eu direi àquele que não era meu povo: Tu és meu povo; e ele dirá: Tu és meu Deus!
Oséias 2.23 (ACF)
Tanto Paulo quanto Pedro vão aplicar essa profecia à formação da igreja, composta de judeus e de gentios. De todas essas descrições, poucas são tão poéticas quanto a pergunta de Salomão.
Quem é esta que aparece como a alva do dia, formosa como a lua, brilhante como o sol, terrível como um exército com bandeiras?
Cântico dos Cânticos 6.10 (ACF)
Um povo que avança trazendo luz, refletindo a glória de Deus, marchando com ordem, com a força de um exército vitorioso. Desde os primeiros séculos, os intérpretes enxergam nessa figura um retrato da igreja triunfante. Jesus disse que somos a cidade da colina.
Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus.
Mateus 5.16 (ACF)
E ainda descreveu o reino como algo que começa pequeno e termina enorme.
O reino dos céus é semelhante ao grão de mostarda que o homem, pegando nele, semeou no seu campo; o qual é, realmente, a menor de todas as sementes; mas, crescendo, é a maior das plantas, e faz-se uma árvore, de sorte que vêm as aves do céu, e se aninham nos seus ramos.
Mateus 13.31-32 (ACF)
O retrato mais profundo de uma minoria criativa é justamente esse: pequena em número, extraordinária em influência. O reino de Deus não começa com maioria. Tudo que começa grande é um monstro. Toda grande transformação cultural começa com um pequeno núcleo fiel, cuja influência cresce até transformar todo o ambiente.
A minoria que mudou o mundo
A expressão minorias criativas foi popularizada pelo historiador Arnold Toynbee, que defendia que as grandes civilizações não são transformadas pela maioria, porque muitas vezes a maioria é silenciosa, mas por pequenas comunidades capazes de oferecer respostas criativas às crises do seu tempo. Os primeiros cristãos começaram sem poder político, sem exército, sem riqueza, frequentemente perseguidos. Em trezentos anos, transformaram o império romano, e o imperador se inclinou diante do carpinteiro de Nazaré.
Porém, não os achando, arrastaram Jasom e alguns irmãos à presença dos magistrados da cidade, clamando: Estes que têm transtornado o mundo chegaram também aqui.
Atos 17.6 (ARA)
Eles começaram com cento e vinte reunidos no Cenáculo. Aos olhos do império romano era uma minoria insignificante. Aos olhos da história, se tornaram o embrião de um movimento que alcançaria o mundo inteiro. Um historiador proeminente argumenta que o cristianismo venceu Roma pela força da sua comunidade: eram fiéis no casamento, limitavam o poder do Estado, tinham o perdão como virtude pública, cuidavam dos pobres e dos doentes quando o resto da sociedade os deixava para morrer.
No final do século dezoito, o império britânico era a maior potência do mundo, e sua riqueza dependia, em grande medida, do comércio atlântico de escravos. O sistema era considerado normal, necessário, economicamente indispensável. Quase ninguém imaginava que aquilo pudesse acabar. Diziam: se acabar a escravidão, acaba o império.
Foi então que surgiu um pequeno grupo de cristãos comprometidos, conhecido como o clube de Clapham. Não era um partido político, era uma comunidade. Viviam próximos uns dos outros, frequentavam a mesma igreja, oravam juntos, compartilhavam refeições, discutiam ideias, educavam os filhos nos mesmos princípios e elaboravam estratégias para influenciar a sociedade. O parlamentar William Wilberforce se tornou o rosto público do movimento, mas estava longe de lutar sozinho. Ali estavam Henry Thornton, o financista, Hannah More, escritora e educadora, Zachary Macaulay, que havia testemunhado os horrores da escravidão, James Stephen, jurista brilhante, Charles Grant, ligado à Companhia das Índias Orientais, John Venn, pastor da comunidade, entre outros.
Eles compreenderam que leis não mudam a cultura. Elas consolidam uma mudança cultural que já havia começado. Antes de buscar votos no parlamento, buscaram transformar a consciência da sociedade. Escreveram livros, produziram panfletos, organizaram campanhas nacionais, mobilizaram igrejas, influenciaram empresários, promoveram boicotes ao açúcar produzido pelo trabalho escravo. Foram vinte anos de perseverança. Tem gente que quer mudar o Brasil em quatro. Nós precisamos de um pouco mais de tempo, acredite.
Wilberforce apresentou projetos de lei repetidas vezes e sofreu derrotas sucessivas. Ele viveu uma crise interna sobre ser pastor ou ser deputado, e Deus falou para ele: seja as duas coisas. Em 1807 o parlamento britânico aprovou a lei da abolição do comércio de escravos. Vinte e seis anos depois, em 1833, foi aprovada a lei de abolição da escravidão, libertando a imensa maioria dos escravizados nas colônias britânicas. Isso aconteceu quatro dias antes da morte de Wilberforce. Ele viveu para ver o que sonhou.
Um historiador resume o fenômeno de uma maneira brilhante: o etos de Clapham se tornou o espírito do tempo. A atmosfera daquele pequeno grupo ocupou a alma de uma nação. Uma comunidade mudou a consciência de Londres, da Inglaterra, do império britânico. Aquilo que parecia inevitável passou a ser moralmente inaceitável. O que era consenso se tornou vergonha pública. O que era impensável se tornou lei.
Culturas não mudam porque multidões acordam pensando diferente no mesmo dia. Elas mudam quando uma minoria comprometida vive uma visão alternativa de mundo de forma tão consciente que, aos poucos, essa visão se torna plausível para todos.
A Genebra do século dezesseis era um centro de prostituição, de miséria, de violência, de crime. Mas Calvino fez de uma única cidade um laboratório. Anos depois, Genebra teve um grande avivamento, de onde saíram professores, pastores, juristas e missionários que se espalharam pelo mundo com uma nova compreensão sobre vocação, educação, governo e responsabilidade social. Até hoje Genebra segue sendo uma das cidades mais influentes do planeta.
O que dizer dos peregrinos do Mayflower? Pouco mais de uma centena de pessoas atravessou o Atlântico e assinou o que ficou conhecido como o Mayflower Compact, comprometendo-se a viver sob uma aliança. Aquela pequena comunidade de pais peregrinos influenciou profundamente a tradição constitucional americana e ajudou a fundar universidades como Harvard, depois Princeton, depois Yale.
O que dizer de Oxford e do Holy Club? John Wesley, Charles Wesley e George Whitefield começaram apenas como estudantes que se reuniam para oração, estudo bíblico e disciplina espiritual. Foram chamados de metodistas como zombaria, do mesmo jeito que os quakers foram chamados assim porque tremiam, e os puritanos foram apelidados de puritanos de forma jocosa. Daquele pequeno grupo nasceu um movimento que transformou a Inglaterra e alcançou milhões de pessoas.
Nicolau Ludwig von Zinzendorf nasceu em 1700, em uma família da nobreza saxônica, com terras, riqueza e prestígio garantidos. Por volta de 1719, durante uma visita a uma galeria de arte, ele contemplou uma pintura de Cristo coroado de espinhos, com uma inscrição em latim abaixo: isto fiz por ti, que fazes tu por mim? Aquelas palavras o atravessaram. Em 1722 ele abriu suas propriedades para acolher refugiados perseguidos na Boêmia e na Morávia, e ali nasceu Herrnhut, a proteção do Senhor, um povoado que chegou a reunir apenas trezentas pessoas.
A princípio, tudo deu errado. Luteranos, reformados, moravos e outros grupos chegaram carregando tradições diferentes, e as divergências produziram conflitos terríveis. A comunidade que deveria ser refúgio se tornou lugar de briga. Zinzendorf percebeu que nenhum avivamento sobreviveria sem unidade, e propôs um pacto de vida comunitária, o acordo fraternal, não uma uniformidade doutrinária, mas um compromisso de amor, humildade e respeito mútuo.
Poucos meses depois, em 1727, durante uma reunião de Santa Ceia, a comunidade experimentou um poderoso derramar do Espírito Santo. Muitos descreveram aquele dia como um novo Pentecostes. Daquele pequeno vilarejo perdido no interior da Saxônia, nasceu um dos movimentos mais extraordinários da história da igreja. Os moradores iniciaram uma cadeia ininterrupta de oração que permaneceu ativa por cem anos, dia e noite, em sistema de revezamento, e enviaram missionários para o Caribe, a Groenlândia, a América do Norte, a África e a Ásia, lançando as bases do movimento missionário moderno.
A influência deles ultrapassou o tamanho daquele pequeno povoado. Inspiraram John Wesley, que numa viagem marítima em tempestade viu um grupo de moravianos cantando com semblante de paz enquanto todos os outros estavam apavorados, e perguntou o que havia sido colocado no alpiste daquela gente. Tudo começou com um pacto de unidade, uma comunidade de oração e um homem que decidiu responder à pergunta gravada sobre uma pintura: isto fiz por ti, que fazes tu por mim?
De que história você faz parte?
Alguém pode responder à pergunta o que devo fazer somente depois de responder a uma pergunta anterior, mais decisiva: de que história eu faço parte? Pergunte ao seu irmão de que história ele faz parte. Qual é o seu papel? Qual o seu enredo? Qual a sua contribuição? O que você foi chamado a fazer? Narrativa é a moeda da nossa cultura. Aquele que conta a melhor história é o que vence. Nós temos a melhor história de todas, mas nem sempre sabemos contá-la.
Deus perguntou a Isaías a quem enviaria.
Depois disto ouvi a voz do Senhor, que dizia: A quem enviarei, e quem há de ir por nós? Então disse eu: Eis-me aqui, envia-me a mim.
Isaías 6.8 (ACF)
O mundo não será convencido apenas por boa pregação. Será convertido quando enxergar uma comunidade onde as pessoas se amam, não falam mal umas das outras, se resolvem e se olham nos olhos quando têm problemas, onde o amor é mais forte do que o ego, a missão é maior do que as preferências pessoais e Cristo ocupa de fato o centro de todas as coisas.
Não precisamos ser multidão, precisamos ser comprometidos
Uma das maiores necessidades da igreja em qualquer geração não é apenas produzir grandes pregadores e líderes influentes, mas formar comunidades de pessoas que compartilham convicções profundas, caminham juntas, pensam estrategicamente, permanecem fiéis tempo suficiente para que o espírito da comunidade se torne, um dia, o espírito de uma nação. Nosso desafio é transformar o espírito do tempo no espírito do reino de Deus.
A igreja não é feita de gente perfeita, mas de pessoas em transformação, que estão melhorando a cada dia. E a pergunta crítica que fica é: você está melhorando a cada dia? Você está se formando ou se deformando? Você está crescendo ou está se atrofiando?
A grande chave da vida não é apenas ter uma relação vertical com Deus, é ter também uma relação horizontal de comunidade. Isso é a cruz. Não existe um cristianismo apenas verticalizado. Precisamos aprender a pertencer uns aos outros, a ter relacionamentos viscerais, de lealdade, de fidelidade, de proteção, sem julgamentos e sem acusações.
Se você faz parte de uma comunidade de fé, esta semana escolha uma pessoa dessa comunidade para orar junto, olho no olho, sem pressa, antes do próximo culto. Não precisa ser um grande gesto. Precisa ser um gesto real. É assim que um remanescente começa a existir: não em uma decisão de multidão, mas em um compromisso de um com o outro, repetido, sustentado, fiel.
Não precisamos ser multidão. Precisamos apenas ser comprometidos uns com os outros e, acima de tudo, comprometidos com o Senhor.
O reino de Deus nunca dependeu de quantos éramos. Sempre dependeu de quão fiéis fomos com o pouco que Deus colocou em nossas mãos.
Se você quiser aprofundar essa reflexão sobre a minoria criativa e o remanescente justo, assista ao vídeo completo da pregação do Bispo JB Carvalho e acompanhe também o podcast da Comunidade das Nações.
